terça-feira, 18 de abril de 2023

O leão que afastou o “flagelo de Deus” das portas de Roma

São Leão Magno dissuade Átila, Rafael
São Leão Magno dissuade Átila, Rafael.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior: Um Papa leão contra as heresias

Um perigo de outra ordem surgiu no horizonte. Átila, rei dos hunos, que a si mesmo chamava de “Flagelo de Deus”, tudo destruía nas Gálias.

Tongres, Treves e Metz foram pilhadas; Troyes foi salva por São Lupo, e Orleans por Santo Aniano. Batido nas planícies de Chalons pelos esforços conjuntos de Aécio, Meroveu, rei dos francos, e Teodorico, rei dos visigodos, Átila voltou-se para o norte da Itália, destruindo tudo a ferro e fogo.

Muitos se refugiaram nas pequenas ilhas existentes nas lagunas do Mar Adriático, dando origem a Veneza. Átila saqueou Milão; e o imperador Valentiniano III, não se julgando a salvo em Ravena, fugiu para Roma. O imperador, o senado e povo só viram uma saída para conjurar a situação: que São Leão fosse parlamentar com o invasor.

Para São Leão, sua missão era clara: salvar o mundo cristão, e também sua pátria e seu povo. Mas a tarefa não era nada fácil, e o sucesso imprevisível.

São Leão foi encontrar-se com o temível bárbaro nas proximidades de Mântua, revestido de todos os paramentos pontificais e acompanhado por sacerdotes e diáconos em trajes sacerdotais.

“Como um leão que não conhece medo nem tardança, este varão se apresentou para falar ao rei dos hunos em Peschiera, pequena cidade próxima de Mântua, e moveu o vencedor a voltar”, diz um cronista da época.

Átila intimidado pelo milagre de São Leão Magno se afasta de Roma
Átila intimidado pelo milagre de São Leão Magno se afasta de Roma
Outro contemporâneo, São Próspero da Aquitânia, afirma que São Leão “abandonou-se ao auxílio divino, que nunca falta ao esforço dos justos, e o êxito coroou sua fé”.(6)

Átila prometeu viver em paz com o império mediante um tributo anual. Fez cessar imediatamente as hostilidades, e pouco depois, fiel à sua palavra, retornou aos Alpes.

Os bárbaros perguntaram então a seu chefe por que, contra seu costume, havia mostrado tanto respeito para com o Papa, a ponto de obedecer tudo quanto ele havia proposto.

Átila respondeu que “não foi a palavra daquele que veio me encontrar que me inspirou um medo tão respeitoso; mas eu vi junto a esse Pontífice um outro personagem, de um aspecto muito mais augusto, venerável por seus cabelos brancos, que se mantinha em pé, em hábito sacerdotal, com uma espada nua na mão, ameaçando-me com um ar e um gesto terríveis, se eu não executasse fielmente tudo o que me era pedido pelo enviado”.

Esse personagem era o Apóstolo São Pedro. Segundo outra tradição, o Apóstolo São Paulo estava também presente.

Não nos resta nenhum relato contemporâneo dessa intervenção dos Apóstolos. Mas a tradição que no-lo narra está consagrada pela autoridade do Breviário Romano.(7)

Outra invasão de Roma, outras circunstâncias

O Sumo Pontífice ordenou preces públicas para agradecer a Deus tamanho benefício. Mas o povo volúvel logo se esqueceu do magnífico favor, e se entregou às diversões como jogos no circo, teatros e deboches.

O imperador não foi o último a dar o mau exemplo da imoralidade mais revoltante. Num sermão, São Leão aplicou ao povo as palavras de Jeremias (5, 2):

“Vós os atingistes, e eles não sentiram; vós os quebrastes de golpes, e eles não quiseram submeter-se ao castigo”. Emocionado, acrescentou: “Queira Deus que estes males sirvam para a emenda dos que sobrevivem, e que, cessando as desgraças, cessem também as ofensas”.(8)

São Leão Magno, bronze na Schatzkammer, Viena
São Leão Magno, bronze na Schatzkammer, Viena
Mas sua advertência não foi atendida. Por isso, três anos depois, São Leão já não foi tão bem sucedido com o vândalo Genserico.

O que o Pontífice pôde obter dele foi que não queimasse a cidade e respeitasse a vida de seus cidadãos.

E que estaria a salvo tudo o que se pudesse recolher nas três grandes basílicas de Roma. Mas Roma foi saqueada durante 15 dias. Ninguém morreu, mas muitos ficaram na miséria.

O Pontífice procurou socorrer os necessitados e reconstruir a cidade, declarando outra vez que esses males se deviam à impiedade do povo. E exclamou:

“Meu coração está cheio de tristeza e invadido por um grande temor. Porque estão em grande perigo os homens quando são ingratos a Deus, quando se olvidam de suas mercês e não se arrependem depois do castigo, nem se alegram com o perdão”.(9)

São Leão enviou missionários à África para atender os cristãos cativos que Genserico levou consigo.

A rica coleção de cartas e sermões admiráveis que nos legou São Leão Magno — e que lhe mereceram o título de Doutor da Igreja — são um claro espelho da história de seu tempo.
“Com ele vemos pela primeira vez o Papado medieval em toda sua concepção grandiosa e sua intransigência necessária, e nele resplandece o duplo elemento que garante a vida divina da Igreja: autoridade e unidade”.(10)

O grande Papa e santo faleceu em Roma no dia 10 de novembro de 461, e foi declarado Doutor da Igreja em 1754.

(Autor: Plinio Maria Solimeo, apud CATOLICISMO)

Notas:
1. J.P. Kirsch, Pope Saint Leo, The Catholic Encyclopedia, online edition, www.newadvent.com.
2. Les Petits Bollandistes, Vies de Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo IV, p. 328.
3. Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo II, p. 101.
4. J.P. Kirsch, id., ib.
5. Ver nosso artigo sobre Santa Pulquéria em Catolicismo, edição de setembro de 2008.
6. J.B. Weiss, História Universal, Tipografia La Educación, Barcelona, 1927, tomo IV, p. 328.
7. Les Petits Bollandistes, op. cit. p. 333.
8. Fr. Justo Perez de Urbel, op. cit., p. 103.
9. Id., ib., p. 105.
10. Id., Ib., p. 108.



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terça-feira, 4 de abril de 2023

Um Papa leão contra as heresias

São Leão Magno, vitral da Universidade Católica de America, Washington DC
São Leão Magno, vitral da Universidade
Católica de America, Washington DC
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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São Leão nasceu em Roma, de pais toscanos, no final do século IV ou começo do V. Já na juventude distinguiu-se nas letras profanas e na ciência sagrada.

Um antigo concílio geral diz dele:

“Deus, que o havia destinado a obter brilhantes vitórias contra o erro e a submeter a sabedoria do século à verdadeira fé, tinha posto em suas mãos as armas da ciência e da verdade”.(2)

Tornando-se arcediago da Igreja romana, serviu sob os Papas São Celestino I e Sixto III.

Hábil diplomata, era ele bem conhecido, pois foi por sua sugestão que Cassiano escreveu em 430 ou 431 sua obra De Incarnatione Domini contra Nestorium (“Sobre a Encarnação do Senhor, contra Nestório”).

E também nesse mesmo ano São Cirilo de Alexandria a ele se dirigiu para interessá-lo em seu favor contra o mesmo herege Nestório.

São Leão foi designado para várias missões delicadas na época.

Em uma delas, em 440, foi enviado pelo Imperador Valentiniano III à Gália, para tentar reconciliar dois dos mais famosos personagens do Império: o comandante militar da Província, Aécio, e o principal magistrado, Albino.

Os dois chefes militares não pensavam senão em suas desavenças em vez de voltar-se contra os bárbaros que estavam às portas do vasto Império.

São Leão encontrava-se nessa missão quando, falecendo o Papa Sixto, foi eleito para sucedê-lo.

Leão foi sagrado no dia 29 de setembro de 440. Um mês depois, pedia ao povo romano, reunido na basílica de São João de Latrão:

“Eu vos conjuro, pelas misericórdias do Senhor, que ajudeis com vossas orações àquele que haveis chamado com vossos desejos, a fim de que o espírito da graça permaneça sobre mim e não tenhais que arrepender-vos de vossa eleição”.(3)

Incansável defensor da ortodoxia
São Leão Magno. Afresco em Subiaco, Itália
São Leão Magno. Afresco em Subiaco, Itália
São Leão considerou como um de seus principais deveres, na qualidade de supremo Pastor, manter a disciplina eclesiástica, nesse tempo em que a contínua invasão de hordas bárbaras provocava desordens em todas as condições da vida; inclusive nas regras de moralidade, que estavam sendo seriamente violadas.

Foi ele extremamente enérgico para a manutenção da disciplina, e muitos de seus sermões e decretos vão nesse sentido.

Esforçava-se principalmente em sustentar a ortodoxia naqueles tempos difíceis para a Igreja e de decadência geral.

“De sua primeira carta, escrita a Eutiques em 1º de junho de 448, à sua última carta ao novo Patriarca de Alexandria, Timóteo Salophaciolus, em 18 de agosto de 460, não podemos senão admirar a clara, positiva e sistemática maneira pela qual Leão, fortificado pela primazia da Santa Sé, teve parte nessa difícil confusão”.(4)

Pouco depois de sua elevação ao sólio pontifício, começou a combater energicamente as heresias que surgiam no Oriente.

Assim, por exemplo, soube que em Aquiléia sacerdotes, diáconos e clérigos, que tinham sido aderentes da heresia de Pelágio, haviam sido readmitidos à comunhão da Igreja sem ter feito abjuração explícita de sua heresia.

O Papa, além de condenar severamente o fato, ordenou que um sínodo provincial se reunisse naquela cidade, no qual tais pessoas fossem intimadas a abjurar publicamente a heresia e a subscrever uma confissão de fé inequívoca.

Outro grave problema que teve de enfrentar foi contra nova onda da heresia maniquéia.

Hordas e hordas de maniqueus, que fugiram da África por causa da invasão dos vândalos, haviam se estabelecido em Roma, onde fundaram uma comunidade maniquéia secreta.

O Papa ordenou aos fiéis que denunciassem esses hereges aos sacerdotes. Em 443, junto aos senadores e presbíteros, conduziu uma investigação pessoal contra a seita, sendo então seus líderes julgados e condenados.

Por influência do Papa, o Imperador Valentiniano III promulgou um edito pelo qual estabeleceu punições contra os maniqueus.

São Leão Magno. Basílica de Santa Ana, Altötting, Alemanha.
São Leão Magno. Basílica de Santa Ana, Altötting, Alemanha.
São Próspero de Aquitânia afirma em suas Crônicas que, em conseqüência das enérgicas medidas do pontífice contra a heresia, os maniqueus foram também expulsos das províncias; e que mesmo os bispos orientais emulavam com Leão I na perseguição a essa seita herética.

São Leão defrontou-se também com a questão da heresia monofisista no Oriente, defendida por Eutiques, monge de Constantinopla.

Ensinava o monge que em Jesus Cristo havia somente uma natureza; e não duas –– a humana e a divina –– como é o ensinamento correto.

Eutiques já havia sido excomungado por São Flaviano,(5) Patriarca de Constantinopla, e apelou ao Papa. Leão I, depois de investigar a questão, escreveu uma carta dogmática a São Flaviano, com uma exposição serena e profunda da cristologia católica.

No caos das discussões, este foi o guia seguro para os espíritos sinceros, estabelecendo e confirmando a doutrina da Encarnação e da união das naturezas divina e humana de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele urgiu que um concílio se reunisse para julgar o concílio ilegalmente realizado em Éfeso –– que condenara e depusera São Flaviano, inocentando Eutiques – e ao qual denominou de “Concílio de Ladrões”.

Foi assim reunido o Concílio de Calcedônia, sob os auspícios dos imperadores Marciano e Santa Pulquéria, que condenou Eutiques e Dióscoro, patriarca de Alexandria.

continua no próximo post: O leão que afastou o “flagelo de Deus” das portas de Roma


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terça-feira, 21 de março de 2023

O conde Fernán Gonzales, o califa e o ermitão

Conde Fernán Gonzales
Conde Fernán Gonzales
Luis Dufaur
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Estava o conde Fernán Gonzales caçando com os seus cavaleiros na vila de Lara. De repente, um feroz javali saiu disparado de um matagal. O conde, desejoso de caçar tão boa presa, sem esperar por seus companheiros, saiu a cavalo em perseguição ao animal, que corria velozmente.

Por fim chegou a uma ermida desconhecida, onde o javali se meteu pela porta. Então o conde, pegando a espada, se dirigiu à ermida, onde a fera tinha entrado.

O javali havia se refugiado atrás do altar. O conde se ajoelhou diante do altar e começou a rezar. Neste momento saiu da sacristia um monge de venerável aspecto e avançada idade, apoiado num rude e retorcido cajado. Aproximou-se do conde e saudou-o, dizendo:

— Vinde em paz, conde! A caçada te trouxe até aqui, mas prepara já as montarias, pois te aguarda o Rei Almanzor, o terrível inimigo dos cristãos.

"Dura batalha te aguarda, pois o mouro traz muitos guerreiros. Mas alcançarás grande vitória. E ainda te digo que antes de começar a batalha terás um sinal, que te fará arrepiar a barba e aterrorizará a todos os teus cavaleiros. Agora vai, vai lutar, que hás de alcançar a vitória.

O conde agradeceu ao monge por suas palavras e saiu da ermida. Montou a cavalo e galopou através da mata, até encontrar seus cavaleiros, já impacientes pela tardança de seu senhor.

O conde ordenou seu batalhão e se dirigiu ao encontro de Almanzor, que vinha correndo para o ataque.

Quando viram o exército mouro, prepararam-se para o combate. O conde viu, entretanto, que tinha poucos soldados. Nisto um cavaleiro cristão se adiantou, passando velozmente diante do exército dos infiéis.

Apenas galopou um pouco, e a terra se abriu, tragando o cavaleiro. Depois se fechou, e tudo ficou como antes. Grande terror se difundiu pelo exército cristão, mas Fernán Gonzales, que sabia que esse era o temeroso sinal anunciado pelo monge da ermida, disse em alta voz a seus cavaleiros:

— Não temais! Se a terra não é capaz de suportar-nos, quem poderá conosco? Vamos para o ataque!

Túmulo de Don Fernán Gonzalez, Covarrubias, cruzadas, 1º conde de CastelaE se lançaram contra os mouros, que já galopavam também, prontos para o encontro. O choque dos exércitos foi terrível. Os cristãos, apesar de serem poucos, conseguiram resistir ao primeiro ataque dos mouros, e logo estes começaram a retroceder.

O conde, que havia sido quem dera as primeiras baixas no adversário, animava seus guerreiros, e era o mais valente de todos.

Ao cabo de algumas horas os mouros fugiram, deixando todos os despojos em poder das hostes do conde. Grande vitória para os cristãos, que retornaram cheios de alegria.

O conde separou uma parte dos despojos e foi à ermida, para entregá-la ao monge que lhe profetizara a vitória. E o encarregou de erguer uma igreja, que foi logo o famoso Mosteiro de São Pedro de Arlanza.

O califa Abderramán recebia dos cristãos um tributo a cada ano. Mas em determinada ocasião os reis D. Ramiro de Castela e D. Garcia de Navarra, e Fernán Gonzales, que era o conde tributário de Castela, se negaram a pagar o vergonhoso tributo.
E não só se negaram a pagar, mas mataram os insolentes mensageiros que o califa mouro enviara para reclamar o tributo.

Quando isto chegou aos ouvidos de Abderramán, este se enfureceu, e com seu exército entrou no território dos castelhanos, destruindo os campos e fazendo cruel vingança contra os habitantes daquelas terras.

O Rei D. Ramiro, recebendo o aviso da proximidade do exército mouro, preparou seus guerreiros, que esforçadamente saíram ao encontro do inimigo.

Disseram-lhe que os muçulmanos vinham em grande número, mas ele não deu muito crédito. Mas quando viu chegar a enorme hoste sarracena, voltou até Simancas, e dali enviou cartas a Fernán Gonzales e ao Rei Garcia.

Túmulo de Don Fernán Gonzalez, Covarrubias, cruzadas, 1º conde de Castela
Túmulo do conde Fernán Gonzales
Acudiram os dois ao mesmo tempo. Mas todo o exército cristão não chegava a alcançar nem a metade dos muçulmanos. Então o Rei Ramiro disse:

— Não tenho nenhum conselho que possa servir-nos. Grande é a hoste dos infiéis mouros e minguada a nossa. Mas temos a proteção de São Tiago, que está enterrado em terras galegas. Por ele obra Nosso Senhor grandes milagres, e a ele quero me encomendar, e prometo dar-lhe meu reino se nos ajudar nesse apuro.

Fernán Gonzales e D. Garcia responderam:
— Em nossa terra há o corpo de Sto. Millán, que também opera grandes milagres. A ele nos entregamos, e juramos dar-lhe tributo.

No outro dia de manhã saíram da fortaleza e se dispuseram para o combate. Antes de começar, todos os cristãos se ajoelharam para rezar.

Os mouros, vendo seus inimigos nesta posição, pensaram que estes, aterrorizados, queriam se entregar. Lançaram-se contra eles, mas os fiéis de Cristo montaram em seus corcéis rapidamente e detiveram o ímpeto de seus inimigos. Grande fúria foi a dos castelhanos, leoneses e navarros.

E ainda aumentaram seu valor quando, em meio ao combate, viram aparecer dois desconhecidos cavaleiros que, montados em formosos corcéis brancos, se puseram à frente dos exércitos cristãos.

E destroçaram os mouros de tal modo, que eles acreditavam que, em vez de dois, havia dois mil cavaleiros sobre os corcéis. Atrás dos dois avançavam os cristãos, e desde Simancas até Aza perseguiram os mouros, que fugiram vencidos.

Grande foi a alegria dos católicos. Quando procuraram os dois cavaleiros, que tanto contribuíram para a vitória, não puderam encontrá-los, e compreenderam que eram os dois santos a quem haviam prometido pagar tributo, se os ajudassem.

E desde então esse tributo foi pago.


(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 27)



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terça-feira, 7 de março de 2023

São Bento de Núrsia, Patriarca dos Monges do Ocidente – 2

Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: São Bento de Núrsia, Patriarca dos Monges do Ocidente – 1



Superior de doze mosteiros

Entretanto, os discípulos continuaram a afluir, mas desta vez em tão grande número, que foi preciso dividi-los em grupos de doze monges, em doze mosteiros diferentes, cada um deles regido por um abade sob a supervisão de Bento.

Sob a direção do grande abade, a existência dos primeiros monges beneditinos transcorria pacífica e prosperamente, dedicada por inteiro à oração e ao trabalho.

Os milagres, a doutrina, a santidade de Bento lhe atraíam numerosas vocações.

Mesmo de Roma afluíam nobres varões, desejosos de se tornarem seus discípulos, enquanto patrícios lhe entregavam seus filhos para que os educasse.

Foi o caso dos meninos Mauro e Plácido, posteriormente também elevados à honra dos altares, que ficaram famosos na história de São Bento.

O Mosteiro de Monte Cassino

Novos dissabores fizeram com que Bento resolvesse partir, desta feita para um local entre Roma e Nápoles denominado Cassinum, antiga vila fortificada dos romanos.

Ali se instalou com os que o seguiram na fortaleza abandonada, que ele reformou, dando origem à célebre Abadia de Monte Cassino.

Sob a direção do santo, o novo mosteiro floresceu.

“Pai bondoso e ao mesmo tempo mestre rigoroso, o homem de Deus os corrige [os monges] e repreende sempre que necessário; nem uma só falta de seus discípulos, seja coletiva, seja pessoal, lhe passa inadvertida.

“Todos no mosteiro sabem por experiência que têm um abade extraordinário, a quem nada se pode ocultar de quanto pensam no mais recôndito da alma (Diálogos), de quanto fazem fora de casa. [...]

“Já em Subíaco, vários de seus milagres ressaltaram com força o valor da oração, da confiança na Providência, do trabalho, da obediência” (Dom Colombas, op.cit., p. 62.).

Os últimos anos de São Bento transcorreram no Monte Cassino.

“A morte, ou melhor, o trânsito de São Bento – como é descrito por São Gregório Magno – tem a majestade, a elegância e a placidez de uma cerimônia litúrgica” (Dom Colombas, op.cit., p. 65.).

Ela ocorreu provavelmente no dia 21 de março de 547.

A Regra de São Bento

Para Bossuet, o erudito bispo e teólogo do século XVII, a Regra de São Bento é “uma suma de cristianismo, um douto compêndio de toda a doutrina do Evangelho, de todas as instituições dos Santos Padres, de todos os conselhos de perfeição.

“Nela sobressaem eminentemente a prudência e a simplicidade, a humildade e o valor, a severidade e a mansidão, a liberdade e a dependência; nela a correção desdobra todo o seu vigor, a condescendência todo o seu atrativo, a autoridade a sua robustez, a sujeição a sua tranquilidade, o silêncio a sua gravidade, a palavra as sua graça, a força o seu exercício, e a debilidade o seu sustentáculo” (In Dom Colombas, Introducción General, op.cit., p.143.).

Figura moral de São Bento

Com o subtítulo “A figura Moral”, Dom Garcia M. Colombas, monge de Montserrat, na sua Introdução à Vida e Regra de São Bento, que estamos seguindo, nos oferece em rápidas pinceladas alguns traços da personalidade do Santo, baseado no que este diz em sua Regra. Citaremos alguns deles.

Gravidade

“Uma das características que chama a atenção ao contemplar a figura moral do Santo é a austeridade, a dureza, a virilidade de seu caráter, marcado pelo selo de seu país de origem. [...]

“O patriarca não é amigo de muito falar, detesta o riso imoderado, proíbe com singular energia as piadas (Regra, 6,8); a cada momento nos descobre seu desgosto diante do olvido da própria responsabilidade, pelas decisões prematuras, ligeireza de espírito.

“E essa gravidade que exige dos outros, brilha em cada uma de suas frases; ao dispor qualquer detalhe da observância monástica, desde o mais trivial ao mais importante, suas palavras são sempre circunspectas” (Op.cit., pp. 67-68.).

Objetividade

“Toda a Regra leva a marca de um espírito que não constrói a priori, segundo um ideal abstrato e um plano rígido, mas que vê a realidade tal qual é, e tenta adaptar-se a ela” (Id.ib., p. 69).

“Temperamento de chefe, e de chefe romano, quer que no mosteiro tudo esteja em ordem, que tudo se cumpra nele com perfeição”.

“Outro aspecto da personalidade moral de São Bento, que começa por ser um dos predicados mais importantes de seu temperamento romano e acaba com um marcado caráter de virtude sobrenatural, é a sua discrição.

Morte de São Bento, Lorenzo di Niccolò di Martino (1373 – 1412).
Morte de São Bento, Lorenzo di Niccolò di Martino (1373 – 1412).
“Misericórdia e justiça, força e doçura, natureza e graça, lei e privilégio, caridade e disciplina, tudo na Regra se acha em perfeito equilíbrio (Id. ib., pp. 70-71).”

Em nada vulgar

“Rebento de uma família rica e distinta, São Bento se mostra em todo momento cheio de nobreza, de finura, de urbanidade. Tanto em seu porte quanto em suas relações sociais, em seu pensamento como na forma de expressá-lo, nada achamos nele que seja vulgar” (Id.ib., p.73.).

São Bento “possuiu do pensador a amplitude e a profundidade do olhar que compreende os problemas da vida e, em seus próprios limites, procura resolvê-los.

“A Regra nos revela esta inteligência poderosa, muito mais prática que especulativa, cujos dotes essenciais são a clareza e a lógica. [...] Outra característica notável da inteligência de São Bento é sua penetração psicológica.

“O patriarca conhece o homem, suas possibilidades, suas fraquezas, suas reações” (Id. ib., p. 75).

“Pius pater”

“Graças a essas qualidades de coração, São Bento pôde encarnar plenamente o pius pater que deve ser todo abade beneditino. A Regra inteira está impregnada do espírito de paternidade afetuosa e terna, que sabe compreender e adaptar-se, dissimular e alentar” (Id.ib., p. 79).

“A virtude da religião nele é algo mais que uma característica: é o sentimento dominante que informa toda sua maneira de julgar e de agir, que unge inteiramente a figura, a vida e a Regra do patriarca, constituindo sem dúvida o verdadeiro fundo de sua personalidade” (Id. ib., p. 81).

Enfim, São Gregório Magno declara em seus Diálogos: “Se alguém quer conhecer mais profundamente sua vida e seus costumes [de São Bento], poderá encontrar no mesmo ensinamento da Regra todas as ações de seu magistério, porque o santo varão de modo algum pôde ensinar outra coisa senão o que ele mesmo viveu” (Diálogos, II, 36, in op. cit. p. 255.).


(Autor: Plinio Maria Solimeo, in CATOLICISMO, julho 2016).



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