quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Balduíno IV: o santo rei leproso que espantou a Saladino

Balduíno IV na batalha de Montgisard, detalhe.
Charles Philippe Larivière (1798-1876)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






continuação do post anterior: Balduíno IV: o rei cruzado que atingido pela lepra venceu Saladino e o Islã




Um novo cruzado — Filipe de Alsácia, conde de Flandres e parente próximo de Balduíno IV — acabava de desembarcar. O pequeno rei Balduíno esperava muito desse apoio.

Estava claro que era necessário ferir Saladino no coração de seu poderio — isto é, no Egito — se se quisesse abalar a unidade muçulmana. Era isso, precisamente, o que propunha o basileus, imperador de Bizâncio.

O Egito, uma vez conquistado em parte, Damasco não poderia deixar de subtrair-se ao poder cambaleante de Saladino.

Mas Filipe de Alsácia opinava de outra forma. Ninguém poderia impedi-lo de ir guerrear na Síria do Norte, e, o que era mais grave, de levar consigo parte do exército franco.

Saladino respondeu invadindo a Síria do Sul. Balduíno reuniu o que lhe restava da tropa, desguarneceu audaciosamente Jerusalém e partiu para Ascalon, onde Saladino investia. Este, logo que foi informado, subestimou seu adversário. Ele acreditava que a queda de Ascalon era uma questão de dias, e marchou sobre Jerusalém com o grosso de seu exército.

Balduíno compreendeu suas intenções. Saiu de Ascalon, fez um longo périplo e caiu repentinamente sobre as colunas de Saladino, em Montgisard.

Vale de Montgisard
O efeito da surpresa não compensava a desproporção dos efetivos em luta, e Balduíno sentiu a hesitação dos seus. Desceu do cavalo, prosternou-se com o rosto na areia, diante do madeiro da verdadeira Cruz, que era levada pelo Bispo de Belém, e orou com a voz banhada de lágrimas.

Com o coração convertido, seus soldados juraram não recuar, e considerariam traidor quem voltasse atrás. Rodeando o Santo Lenho, o esquadrão de trezentos cavaleiros se lançou impetuosamente.

“O vale entulhava-se com a bagagem do exército de Saladino — diz Le Livre des Deux Jardins — os cavaleiros francos surgiam ágeis como lobos, latindo como cães. Atacavam em massa, ardentes como uma chama”. 

E puseram em fuga o invencível Saladino.

Se este salvou a pele, foi graças à rapidez de seu cavalo e ao devotamento de sua guarda. Retornou ao Egito, abandonando milhares de prisioneiros. Balduíno logrou, enfim, uma vitória sem precedentes.

No ano seguinte Balduíno edificou o Gué-de-Jacob, fortaleza destinada a defender a Galiléia dos ataques de Damasco. Guilherme de Tiro pretende que isso tenha sido feito pelas prementes solicitações de Odon de Saint-Amand, grão-mestre do Templo.

Em todo caso, qualquer que tenha sido o inspirador da ideia, não há dúvida quanto à importância estratégica de Gué-de-Jacob.

Em 1179 Saladino invadiu a Galiléia. Balduíno foi ao seu encontro, tentando surpreendê-lo como tinha feito em Montgisard. Mas como os muçulmanos se contivessem, ele foi cercado e caiu prisioneiro.

Balduíno IV em Montgisard, Charles Philippe Larivière (1798-1876)
Muitos foram mortos e presos nesse dia. Pouco depois Saladino tomou Gué-de-Jacob e fez executar todos os templários que a defendiam.

Sybila, irmã do rei, acabava de casar — contrariamente aos interesses de Estado — com Guy de Lusignan, homem de beleza discutível, sem fortuna e sem talento.

Balduíno, pressionado pelos seus, minado pela doença, tinha consentido nessa união e dado a Lusignan os condados de Jaffa e Ascalon.

Tão logo a insignificância do marido de Sybila se manifestou, atiçaram-se as esperanças dos senhores feudais. Contava-se que o irmão de Lusignan, comentando o casamento, disse: “Se Guy for Rei, eu deveria ser Deus!” Tal a mediocridade que lhe era atribuída.

Nessa mesma ocasião, Isabel de Jerusalém desposava Anfroi de Toron, filho indigno de seu pai, o falecido condestável de Jerusalém, morto em defesa do rei.

O estado de Balduíno IV piorava dia a dia. Foi uma provação para sua mãe — que não tinha boa fama — e para a roda de seus cortesãos ambiciosos e amorais, ver a aproximação de Balduíno com Raimundo de Trípoli, único homem capaz de o aconselhar sabiamente.



(Autor: Georges Bordonove, “Les Templiers”, in “Catolicismo” nº 303)

continua no próximo post: Balduíno IV: o rei-herói entre os decadentes




GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Balduíno IV: o rei leproso de Jerusalém que venceu o Islã

Vitral do rei Balduino na Basílica de Saint-Denis, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Balduíno IV (1161 – 1185) foi o último rei de Jerusalém com espírito de Cruzada. Guy de Lusignan, seu sucessor, foi um interesseiro, sob cujo reinado a Civilização Cristã perdeu a posse da Cidade Santa.

Na história das Cruzadas, nada é mais emocionante que o reinado doloroso de Balduíno IV.

Nada, entre os vários exemplos famosos, pode atestar melhor o império de um espírito de ferro sobre uma carne débil.

Foi um rei sublime, que os historiadores tratam só de passagem, o que faz perguntar por que até aqui nenhum escritor se inspirou nele, exceto talvez o velho poeta alemão Wolfram von Eschenbach.

Nem o romance nem o teatro o evocam, entretanto sua breve existência cheia de acontecimentos coloridos forma uma apaixonante e dilacerante tragédia.

O destino sorria à sua infância. Robusto e belo, ele era dotado da inteligência aguçada de sua raça angevina (de Anjou).

Tinha sido dado a ele por preceptor Guilherme de Tiro, que se tomou de “uma grande preocupação e dedicação, como é conveniente a um filho de rei”. O pequeno Balduíno tinha muito boa memória, conhecia suficientemente as letras, retinha muitas histórias e as contava com prazer.

Um dia em que brincava de batalha com os filhos dos barões de Jerusalém, descobriu-se que tinha os membros insensíveis:

“Os outros meninos gritavam quando eram feridos, porém Balduíno não se queixava. Este fato se repetiu em muitas ocasiões, a tal ponto que o arquidiácono Guilherme alarmou-se.

Guilherrme de Tiro descobre lepra no futuro rei Balduino IV
“Primeiro pensou que o menino fazia uma proeza para não se queixar.

“Então perguntou-lhe por que sofria aquelas machucaduras sem queixar-se.

“O pequeno respondeu que as crianças não o feriam, e ele não sentia em nada os arranhões.

“ Então o mestre examinou seu braço e sua mão, e certificou-se de que estavam adormecidos” (L’Eraclès). 

Era o sinal evidente da lepra, doença terrível e incurável naquele tempo.

Os médicos aos quais foi confiado não podiam sustar a infecção, nem mesmo retardar a lenta decomposição que afetaria suas carnes.

Toda sua vida não foi senão uma luta contra o mal irremissível.

Mais ainda, muito mais: foi testemunho dos poderes de um homem sobre si mesmo e da encarnação assombrosa dos mais altos deveres.

Balduíno IV foi um rei digno de São Luís, um santo, um homem enfim — e é isso, sobretudo, que importa à nossa admiração sem reticências — a quem nenhuma desgraça chegou a destruir o vigor de alma, as convicções, a altivez, as qualidades de coração, o senso das responsabilidades, dos quais ele hauria o revigoramento da coragem.

No fim de 1174, Saladino, senhor do Egito e de Damasco, veio sitiar Alepo. Os descendentes de Noradin pediram socorro aos francos.

Raimundo de Trípoli atacou a praça forte de Homs e Balduíno IV empreendeu uma avançada vitoriosa sobre Damasco. Estas iniciativas fizeram com que Saladino abandonasse seu desejo inicial.

Saladino incendeia cidade, Chroniques de Guilhaum de Tyr, BNF, Mss fr 68
Em 1176 o sultão voltou à carga, e a mesma manobra frustrou seus planos. Balduíno venceu seu exército de Damasco, em Andjar, e trouxe um belo lucro da expedição. Nesta ocasião ele tinha quinze anos.

Apesar de sua doença, cavalgava como um homem de armas, empunhando eximiamente a lança.

Nenhum de seus predecessores teve tão cedo semelhante noção da dignidade real de que estava investido, e de sua própria utilidade.

Percebendo as rivalidades existentes entre os que o cercavam, compreendeu quão necessária era sua presença à cabeça dos exércitos católicos.

Mas que calvário deveria ser o seu!

Aos sofrimentos físicos juntava-se a angústia moral: seu estado impedia-o de se casar, de ter um descendente.

Ele não era senão um morto-vivo, um morto coroado, cujas pústulas e purulências se disfarçavam sob o ferro e a seda, mas que se mantinha de pé e se lançava à ação, movido não se sabe por que sopro milagroso, por que alta e devoradora chama de sacrifício.


(Autor: Georges Bordonove, “Les Templiers”, in “Catolicismo” nº 303)



continua no próximo post: Balduíno IV: o santo rei leproso que espantou a Saladino



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Alfredo o Grande, o admirável Carlos Magno inglês

Alfredo o Grande, estátua de bronze em Winchester
Alfredo o Grande, estátua de bronze em Winchester
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





“Henrique com seis mulheres se casou. Uma morreu, uma viveu, de duas se divorciou e de duas a cabeça cortou”, cantava-se na Inglaterra.

Na história da Inglaterra há uma involuntária simetria entre dois polos.

De um lado, Henrique VIII (1491-1547), o sinistro fundador do anglicanismo.

Do outro, do lado bom, um cruzado, um santo: Alfredo, o Grande (849-899).

Em 2015, uma pesquisa da Associação dos Escritores Históricos daquele país considerou Henrique VIII o pior monarca de sua história.

Isto não passou despercebido das esquerdas, que lhe prestaram eloquente “homenagem” póstuma em desagravo pelo ato de vandalismo perpetrado contra uma estátua dele na noite de Ano Novo de 2007, quando perdeu o braço direito e seu machado.

Após ambos serem substituídos, a estátua voltou a ser vandalizada, perdendo novamente seu machado.

No outro polo está alguém muito diverso: Alfred, o fundador da Inglaterra e seu protótipo, muito menos conhecido do que merece.

Culto e piedoso, incentivou — certamente inspirado em Carlos Magno — a educação, melhorou o sistema legal e a estrutura militar de seu reino.

Esteve em guerra com os vikings durante toda a sua vida e obteve uma vitória decisiva sobre eles na batalha de Edington, quando os perseguiu até seu reduto em Chippenham e os venceu.

Um dos termos da rendição estipulava a conversão do chefe viking Guthrum ao Cristianismo.

Três semanas depois, o rei dinamarquês e 29 de seus principais chefes recebiam o batismo em Aller, onde estava a corte de Alfredo, que recebeu Guthrum como seu filho espiritual com o nome de Christian Æthelstan.

Com a vitória, Alfred mereceu o título de “o Grande”, sendo o único monarca inglês a receber essa honraria e se tornar análogo a Carlos Magno inglês.

No ano de 883 — embora haja algum debate sobre a data —, o rei Alfred, devido ao seu apoio e doação de esmolas a Roma, recebeu uma série de presentes do Papa Marino, entre os quais se encontrava um fragmento da verdadeira Cruz — verdadeiro tesouro para o rei saxão.

Alfred foi também grande guerreiro do ponto de vista naval. Em 896, ordenou a construção de uma pequena frota — talvez uma dúzia de navios longos com 60 remos — que era duas vezes maior que os navios de guerra vikings.

Alfredo o Grande, vitral da catedral de Winchester.
Alfredo o Grande, vitral da catedral de Winchester.
O autor da Crônica anglo-saxã, e provavelmente o próprio Alfredo, consideravam-na marcante no importante desenvolvimento do poder naval de Wessex.

O cronista lisonjeia seu patrono real, referindo que os navios de Alfredo eram não apenas maiores, mas também mais rápidos e mais estáveis, conservando-se melhor à superfície da água do que qualquer navio viking ou frísio.

Após obrigar os dinamarqueses a se retirarem, Alfred voltou sua atenção para a Marinha Real, cujos navios haviam sido construídos de acordo com seus projetos.

Segundo alguns historiadores, esse foi o nascimento da marinha inglesa.

* * *

Em 1994, o bispo anglicano de Worcester fez uma declaração que, segundo Plinio Corrêa de Oliveira, parecia provir de uma autêntica conversão. Ei-la:

“O nosso futuro está em Roma. Há anos esperei e rezei em silêncio.

“Sofri muito, mas continuei acreditando firmemente que um dia a Igreja anglicana tornaria a ser católica, reconhecendo de novo a autoridade do Papa e voltando a crer que o centro da Cristandade está em Roma.

“A Igreja de Roma é a única que se pronuncia de maneira clara sobre as principais questões morais e doutrinárias, e é isto que atrai, é disto que sentimos necessidade.”

Há ainda outras profecias sobre a conversão da Inglaterra.

O bispo de Birmingham visitou São João Maria Vianney e pediu orações pelo Reino Unido. Com um olhar luminoso, o santo respondeu:

““Estou certo de que a Igreja de Inglaterra recuperará seu antigo esplendor.”

Santo Eduardo, rei inglês que viveu na Idade Média, previu em seu leito de morte a apostasia da Inglaterra, mas disse que depois essa “árvore”, “pela misericórdia do Deus compassivo, deverá retornar à sua raiz original, reflorescer e dar abundantes frutos”.

O Beato Pio IX leva a tocha da fé à Inglaterra numa visão de São Domingos Sávio. Maria Ausiliatrice, Turim.
O Beato Pio IX leva a tocha da fé à Inglaterra
numa visão de São Domingos Sávio. Maria Ausiliatrice, Turim.
Um último fato. São João Bosco teve um diálogo muito interessante com São Domingos Sávio, já gravemente doente:

“Se eu pudesse falar ao Papa — disse o jovem santo —, quereria lhe dizer que em meio às tribulações que o aguardam não deixe de trabalhar com especial solicitude pela Inglaterra; Deus prepara um grande triunfo do catolicismo naquele reino.

“Vou contar-lhe, mas não mencione isso aos outros, pois podem achar ridículo. Mas se o senhor for a Roma, diga-o a Pio IX por mim.

“Certa manhã, durante minha ação de graças após a comunhão, voltei a ter uma distração, que me pareceu estranha; eu julguei ver uma grande parte de um país envolvida em grossas brumas, e estava cheia com uma multidão de pessoas.

“Estavam se movendo, mas como homens que tendo perdido o caminho, não estavam certos onde pisavam. Alguém próximo disse: “Esta é a Inglaterra”.

* * *

Enquanto Alfred estava escondido nos pântanos de Athelney — conta uma lenda —, recebeu abrigo de uma camponesa idosa que não tinha reconhecido o rei. Ela pediu-lhe que tomasse conta dos bolos que tinha deixado para assar no forno.

Preocupado com os problemas do reino e a guerra contra os Vikings, Alfred se distraiu e deixou os bolos queimarem. Quando a camponesa voltou, reclamou demais e até ousou bater nele.

Pouco depois chegaram alguns cavaleiros e o chamaram de Sua Majestade. Ela então percebeu que se tratava do rei e pediu perdão.

Mas Alfredo se declarou culpado e disse que era ele quem devia pedir perdão. Essa narrativa mostra como Alfred não era apenas herói, mas também paternal.

Tal como Carlos Magno!


(Autor Leo Daniele, IPCO)




GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Clóvis, Rei dos francos, instrumento da Providência Divina

Clovis I, representado no "Reccueil des rois de France". Du Tillet,1550
Clóvis I, representado no "Recueil des rois de France". Du Tillet,1550
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Dentre as hordas de bárbaros que investiram contra as possessões romanas do Ocidente na Europa central, destacaram-se os francos, povo guerreiro e valente.

Ora unindo-se às tropas imperiais, ora combatendo-as, tornaram-se tão poderosos, que a filha de um de seus reis, Eudóxia, veio a casar-se com o Imperador Arcádio.

Com a queda do Império Romano em 476, os francos dominaram o norte da Gália; os godos, o sul; os borguinhões, as duas margens do Ródano, restando ainda, entre os rios Sena e Loire, remanescentes do Império sob o governo de Siágrio.

Um dos grandes chefes francos foi Childerico I (458-481), que se casou com Basina da Turíngia.

Tiveram um filho são e robusto a quem deram o nome de Clóvis. Estava ele destinado a mudar o curso da história da Gália (França) e, por conseguinte, da Europa.

Clóvis subiu ao trono franco ainda adolescente, e com uma maturidade precoce fez suas primeiras conquistas. "Sagacidade na deliberação e ousadia na execução distinguiram sobretudo este soberano"1.

Conforme já tinha feito seu pai, Clóvis, apesar de pagão, manteve cordiais relações com os bispos da Gália. Quando subiu ao trono, recebeu amistosa carta de São Remígio, arcebispo de Reims.

Cheio de vitalidade no ardor de sua juventude, para satisfazer o ânimo belicoso de seus súditos Clóvis partiu para a conquista de novas terras, começando por derrotar Siágrio.

Este se refugiou junto a Alarico, rei dos visigodos. Clóvis intimou Alarico a entregar o fugitivo e o executou, apoderando-se de seu reino. Estabeleceu então Soissons como sua capital.

É dessa época o fato legendário que aparece em todas as biografias do grande guerreiro. Após a batalha, os francos haviam tomado como despojo de guerra, entre outras preciosidades da igreja de São Remígio, um belíssimo vaso.

Batismo de Clovis por São Remígio, Reims
Batismo de Clóvis por São Remígio. Estátuas em Reims, junto da igreja de São Remígio
O arcebispo pediu a Clóvis, que muito o respeitava, que o devolvesse. O rei prometeu fazê-lo. E foi a Soissons, onde seriam divididos os despojos.

Pediu a seus guerreiros que, além da parte que lhe cabia como rei, lhe dessem também o vaso, para devolvê-lo a São Remígio.

Todos concordaram, menos um que, de mau humor, disse ao rei: "Tu não terás senão o que te couber por direito". E, como bárbaro que era, atingiu o vaso com sua acha.

O rei, embora indignado, não disse nada. Um ano depois, seus soldados apresentaram-se armados diante dele; quando chegou em frente do soldado insolente, Clóvis derrubou-lhe a acha das mãos e desferiu-lhe tremendo golpe na cabeça, dizendo: "Foi assim que trataste o vaso de Soissons"

Como bom estadista, o rei franco usou de muita compreensão para com os povos conquistados, tratando do mesmo modo os galo-romanos e os francos, escolhendo entre ambos seus conselheiros, respeitando as leis locais, não tomando suas propriedades.

Tomou para si e seus guerreiros somente as que pertenciam ao Imperador ou ao Estado. Com isso, foi bem recebido por essas populações e firmou seu poderio sobre suas conquistas.

Clóvis recebeu do Imperador de Constantinopla o título de patrício, de cônsul e de ilustris, o que mais confirmou sua autoridade aos olhos dos povos conquistados.

O conhecido historiador belga Godofredo Kurth sintetizou de modo feliz a missão providencial e histórica do rei franco:

O batismo de Clóvis. Maestro de Saint Gilles
O batismo de Clóvis. Maestro de Saint Gilles
"Como estadista, conseguiu o que não alcançou nem o gênio de Teodorico, o Grande, nem o de nenhum dos reis bárbaros seus contemporâneos: sobre as ruínas do Império Romano, construiu um poderoso sistema, cuja influência dominou a civilização europeia durante muitos séculos"2.

Batismo de Clóvis: consequências transcendentais

"O batismo de Clóvis teve consequências incalculáveis para os destino da Igreja e da França. Clóvis, católico, foi considerado desde então como o chefe do catolicismo. Santo Avito, bispo de Vienne e primaz das igrejas da Borgonha, apressou-se em felicitá-lo: `Vossa adesão à fé é nossa vitória; todas as vezes que vós combaterdes, seremos nós que triunfaremos'"3.

O reino de Clóvis tornou-se, na época, o primeiro Estado católico em meio a reinos pagãos ou arianos do Ocidente, e ocupava o território que correspondia aproximadamente ao da França de hoje. Em vista disso, essa nação recebeu o glorioso título de Filha Primogênita da Igreja4.

Clóvis prestou grande serviço à Igreja Católica, combatendo o arianismo. Assim, no ano 500, numa guerra fratricida no reino da Borgonha, aliou-se a um dos irmãos arianos e, unidos, venceram as tropas do outro que, para salvar-se, prometeu pagar um tributo anual ao rei franco.

Assim os dois reis borguinhões tornaram-se tributários do monarca franco. Com isso cessaram as pressões sobre os católicos daquele reino.

Clóvis I em batalha contra os visigodos. Iluminura de manuscrito na Biblioteca Nacional da Holanda
Clóvis I em batalha contra os visigodos.
Iluminura de manuscrito na Biblioteca Nacional da Holanda
Mais tarde Clóvis venceu os visigodos da Aquitânia, também arianos, onde era ansiosamente esperado pelos católicos locais, duramente perseguidos.

Ele foi encorajado nessa empresa pelo Imperador bizantino Anastácio. Os francos tomaram posse do reino visigótico até os Pireneus e o rio Rhone.

Ao norte da Gália, o rei dos francos foi se assenhorando, nem sempre por métodos lícitos, dos outros reinos francos que existiam ao lado do seu. Como Clóvis era aparentado a esses reis, foi em parte por direito de sucessão, em parte por aclamação popular, que ele se tornou soberano único de quase toda a Gália.

O papel da Igreja na formação do reino franco

Tornando-se senhor de um grande reino, Clóvis mudou sua capital para Paris. Administrava suas várias províncias através de condes, seus representantes, e formou uma aristocracia composta de francos e galo-romanos. Ordenou que fosse posta por escrito a Lei Sálica.

"Foi sobretudo graças à sua conduta em relação à Igreja que Clóvis pôde estender tão facilmente seu poder sobre a Gália. Mesmo antes de sua conversão, ele mantinha relações com São Remígio e Santa Genoveva; e em seguida encontra-se perto dele São Avito, enquanto mantém relações com os bispos católicos dos reinos arianos"5.

Clovis I, gissant em Saint Denis, Paris Túmulo de Clóvis, Saint-Denis
Túmulo de Clóvis, na abadia de Saint-Denis, Paris
Clóvis faleceu repentinamente com 45 anos de idade, tendo sido sepultado na cripta da igreja de Santa Genoveva, que ele havia construído.

Lá permaneceu seu sarcófago até que os revolucionários, durante a Revolução Francesa, o quebraram e espalharam suas cinzas, destruindo também o belo santuário.

O rei franco deixou a seus quatro filhos um reino que antes não fora senão retalhos esparsos.

Estava assentada a base da futura França, onde se reunira "a cultura romana e seu dom de organização, o ardor e a mobilidade dos célticos, a força e profundidade germânicas"6 .

Notas:
1.Juan Bautista Weiss, Historia Universal, Tipografia La Educación, Barcelona, 1927, tomo IV, p. 378.
2.Godefroid Kurth, in The Catholic Encyclopedia, Robert Appleton Company, 1908, Online Edition by Kevin Knight, verbete Clovis.
3.Pe. A. Boulenger, Histoire de l'Église, Librairie Catholique Emmanuel Vitte, Paris, 1925, p. 157.
4."A nobilíssima nação francesa [...] tendo abraçado o Cristianismo pela iniciativa de seu Rei, Clóvis, foi galardoada com o mais honrável testemunho de sua fé e piedade com o título de `filha primogênita da Igreja". (Papa Leão XIII, Carta Encíclica "Nobilissima Gallorum Gens", sobre as questões religiosas na França, promulgada a 8 de fevereiro de 1884).
5.C. Bayet, La Grande Encyclopédie, Société Anonyme de la Grande Encyclopédie, Paris, tomo XI, verbete Clovis, p. 720.
6.Juan Bautista Weiss, op. cit., p. 392.



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS