quarta-feira, 11 de novembro de 2009

São Remígio (II): batizou a França “filha primogênita da Igreja”


Mas chegara a hora da Providência para Clóvis como rei pagão. Corria o ano 496. Clóvis encontrava-se outra vez à frente de seu exército enfrentando outros bárbaros, os alamanos, nas proximidades de Tolbiac.

Os francos, tão acostumados à vitória, foram sendo acossados pelos alamanos com tal vigor, que começaram a recuar. A batalha parecia perdida.

Prevendo o desastre, um conselheiro do rei, que era cristão, sugeriu-lhe a que invocasse o verdadeiro Deus naquele transe. Clóvis prometeu então “ao Deus de Clotilde” que se converteria à Religião católica, caso obtivesse a vitória.

No mesmo momento os francos voltaram-se contra os alamanos com tal ímpeto, que romperam todas suas linhas e chegaram até seu rei, que mataram. A batalha estava ganha.

Clóvis, que era leal, não tardou em cumprir sua promessa. Logo que retornou, mandou chamar São Vedasto, bispo de Toul, para instruí-lo na fé. Santa Clotilde apressou-se também em chamar São Remígio para completar a obra e administrar-lhe o batismo.

“Ele acabou de abrir-lhe os olhos e de lhe descobrir a excelência e santidade de nossos mistérios. O ardor da fé e da religião iluminou-se tão fortemente nesse coração marcial, que ele se fez apóstolo de seus vassalos antes de ser cristão; reuniu os grandes de sua corte, mostrou-lhes a loucura e a extravagância do culto aos ídolos, e conclamou-os a não mais adorar senão um só Deus, criador do Céu e da Terra, na trindade de suas pessoas. Fez o mesmo com seu exército, e sua pregação foi tão poderosa que a maior parte dos francos quis imitar seu exemplo”.(4)


Segundo as crônicas, quando São Remígio narrava para aqueles bárbaros os sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo em sua Paixão, Clóvis batia com a lança no chão, exclamando cheio de indignação:

“Ah! Por que não estava eu lá com os meus francos!”.

“Pai, já é este o reino de Deus?”

São Remígio quis que a cerimônia do batismo real fosse cercada de toda pompa. Segundo a tradição, realizou-se na noite de Natal.

O caminho do palácio até a igreja de Nossa Senhora estava engalanado com tapeçarias e arcos de flores, e o pórtico da igreja iluminado por muitas velas.

Nuvens de incenso perfumavam o ar. Quando Clóvis, acompanhado dos seus, entrou no templo, perguntou emocionado ao santo: “Pai, já é este o reino de Deus, que vós me prometestes?”. Respondeu Remígio: “Não, mas é a entrada do caminho que a ele conduz”.

Na pia batismal, São Remígio disse aquelas palavras que se tornaram célebres: “Curva a cabeça, altivo sicambro; queima o que adoraste e adora o que queimaste”.

Relíquias de São Remígio na basílica em Reims

O Cardeal Barônio nota que, além do batismo, São Remígio conferiu também a Clóvis a unção real, o que depois se tornou uma tradição entre os reis da França.


A igreja estava tão repleta, que o clérigo que devia levar o óleo do crisma ficou retido pela multidão. São Remígio elevou então os olhos a Deus, e nesse momento viu-se uma alvíssima pomba trazendo no bico uma ampola com o óleo, que depositou nas mãos do prelado.

Essa é a origem da “Santa Ampola” que serviu, até a Revolução Francesa, para sagrar os bispos gauleses.

Duas irmãs de Clóvis foram também batizadas com ele, além de um número incalculável de senhores e uma infinidade de soldados, mulheres e crianças que quiseram seguir o exemplo de seu rei.

São Remígio sobreviveu a Clóvis, falecendo nonagenário. Deus o fez participar de sua Cruz, enviando-lhe muitas moléstias, e mesmo a cegueira.

Osculando a mão divina que assim o atingia, o santo arcebispo faleceu no dia 13 de janeiro de 533, aos 96 anos de idade.(5)
Notas:
1. Apud Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo IV, p. 8.
2. Id., ib. p. 9.
3. Sobre esta Santa, ver Catolicismo, junho de 1999.
4. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, p. 590.
5. Outras obras consultadas:
- Joseph Dedieu, St. Remigius, The Catholic Encyclopedia, online edition, www.newadvent.org.
- Pedro de Ribadeneira, Flos Sanctorum, in Eduardo Maria Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. Gonzalez & Cia, Editores, 1897, tomo IV, pp. 10 e ss.
- Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1955, tomo V, pp. 313 e ss.
(Fonte: Plinio Maria Solimeo , in “Catolicismo”, outubro de 2009)

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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

São Remígio (I): converteu os bárbaros francos


Durante as invasões dos bárbaros na Europa, no século V, a Gália romana apresentava todos os sintomas de decadência, próprios ao fim de uma era histórica.

Elmo de rei anglo-saxão

O Império Romano agonizava, e a Igreja, por meio de grandes santos, lutava para converter os bárbaros invasores, atraindo-os para seu seio. São Remígio foi um de seus principais apóstolos.

Nascido por volta do ano 436, filho de Santa Celina e de Emílio, conde de Laon, senhor de extraordinário mérito, era irmão de São Princípio, que foi bispo de Soissons.

Os primeiros biógrafos e contemporâneos de São Remígio afirmam que seu nascimento foi predito por São Montano, solitário de vida ascética entregue à contemplação.

Certa noite, pedindo com mais insistência a Deus Nosso Senhor que desse remédio à malícia e indiferença daqueles conturbados tempos, foi-lhe revelado que logo nasceria um varão, o qual, por sua santidade de vida, obteria a conversão dos gauleses e de seus invasores.

Arcebispo de Reims contra a vontade

Desde pequeno Remígio sobressaiu-se por uma extraordinária aptidão para a virtude e para a ciência. Fez tão rápidos progressos na perfeição e nos estudos que, falecendo o arcebispo de Reims, clero e povo o aclamaram como seu sucessor, apesar de ter somente 22 anos de idade.


De nenhum modo o jovem queria aceitar tamanha responsabilidade, alegando com razão que isso contrariava os cânones sagrados, que estipulavam a idade mínima de 30 anos para o episcopado.

A discussão foi longe. E ainda se discutia quando um raio de luz, vindo do céu, iluminou-lhe o rosto, o que confirmou clero e povo na sua determinação, agora com o beneplácito divino. Remígio deu-se por vencido.

Seus biógrafos ressaltam que era tanta sua virtude, maturidade de espírito e ciência, que ele principiou seu episcopado como o mais experimentado dos bispos.

Diz um deles, Venâncio Fortunato, que Remígio era “largo em suas esmolas, profundamente humano, assíduo em velar, constante e devoto em rezar, perfeito na caridade, insigne na doutrina, sempre preparado para falar das coisas mais altas e divinas”.(1) Atraía a todos pela bondade de seu coração, e mesmo as aves do céu vinham pousar em seus ombros e em suas mãos.

São Remígio e os bárbaros francos

O grande acontecimento do episcopado de São Remígio foi a conversão de Clóvis, quinto rei dos bárbaros francos. Este povo, saindo das planícies da Holanda, dirigiu-se para o sul, apoderando-se das melhores partes dos Países Baixos, da Picardia e da Ilha-de-França. Clóvis tornara-se rei ainda adolescente, entre os 14 e 15 anos, já como grande guerreiro, valoroso e audaz.

Tendo ele se estabelecido como rei na antiga Gália romana, que conquistara, São Remígio enviou-lhe uma carta na qual dizia:

“Um grande rumor nos chegou: diz-se que tu acabas de tomar as rédeas do governo de nossa nação. Não surpreende que sejas tu o que foram teus pais. Mas vela para que nunca te abandone o juízo de Deus, a fim de que, por teus méritos, logres conservar esse posto que conquistaste por tua indústria e nobreza, porque, como diz o vulgo, os atos do homem se provam por seu fim. Rodeia-te de conselheiros que saibam acrescentar tua honra. Sê casto e honesto; honra os sacerdotes e atende a seus conselhos, pois se vives em harmonia com eles, darás o bem-estar ao país. Consola os aflitos, protege as viúvas, alimenta os órfãos, faze com que todo mundo te ame e te tema. De teus lábios saia a voz da justiça, deixa aberta a todo mundo a porta de tua presença. Joga com os jovens, posto que és jovem, mas aconselha-te com os anciãos. E se queres reinar, mostra-te digno disso”.(2)


Embora sendo ainda pagão, Clóvis não perseguia os cristãos e tinha respeito pelos bispos e sacerdotes das cidades que submetia a seu domínio.

Cada santo é chamado a refletir de modo particular alguma das perfeições de Deus. Assim, uns se notabilizam pela fortaleza, outros pela lógica, outros pela extremada pureza.

São Remígio espelhou de modo admirável a bondade de Deus. Despido do menor vestígio de egoísmo, alegrava-se verdadeiramente com o bem do próximo.

Seu rosto espelhava a bondade do coração, e ele atraía a todos por sua afabilidade e bom trato. Isto foi uma das coisas que mais impressionaram o bárbaro Clóvis logo que o conheceu, fazendo-o admirar tanto São Remígio.

O conhecido episódio de Soissons mostra, embora com métodos bárbaros, o quanto Clóvis considerava o santo arcebispo.


Seus soldados pagãos haviam pilhado uma igreja dessa cidade, levando ornamentos e vasos sagrados. São Remígio lamentou sobretudo um cálice de prata, finamente cinzelado, e pediu a Clóvis que, se possível, o desse de volta.

Na hora da repartição dos despojos, o rei pediu como um favor que não se lançasse a sorte sobre esse cálice, mas que o dessem a ele. Todos concordaram, menos um soldado mais bárbaro, que com um golpe de acha o danificou, dizendo insolentemente ao rei que ele não o teria mais que os outros. Clóvis dissimulou seu desprazer como pôde.

Dias mais tarde, fazendo a revista de sua tropa, chegou-se diante do insolente e, sob pretexto de que suas armas não estavam em ordem, as lançou por terra. Deu-lhe então potente golpe de acha na cabeça, matando-o, ao mesmo tempo em que dizia: “Assim fizeste com o cálice de Soissons”.

Logo que esse grande conquistador subjugou a Turíngia, no décimo ano de seu reino, desposou Clotilde, filha de Chilperico, irmão do rei da Borgonha. Esta era católica exemplar, e foi posteriormente elevada à honra dos altares.(3) Instava muito para que seu marido se convertesse. Prometendo sempre que o faria, Clovis no entanto adiava sua conversão para um futuro incerto.

(Fonte: Plinio Maria Solimeo , in “Catolicismo”, outubro de 2009)

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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Carlos Martel: Herói da Cristandade e salvador da Europa


Em 732 a situação da Europa inspirava as piores apreensões. À anarquia feudal somavam-se as invasões. Pelo Norte, em geral por via marítima e fluvial, os vikings desciam saqueando, incendiando e massacrando cidades e campos.

Da Europa Oriental vinham os saxões e ainda outros povos bárbaros ávidos de sangue e destruição.

A estes temíveis perigos veio se somar um novo inimigo que entrava pelo sul.

Os muçulmanos tinham invadido a Espanha com velocidade fulgurante. Ébrios pelas vitórias atravessaram os Pirineus. Fazendo imenso botim e escravizando as populações chegaram até o coração da França.

A França, a “filha primogênita da Igreja”, por sua vez, era o coração da Cristandade em formação.

Os reis francos, da dinastia merovíngia, encontravam-se em grande decadência e não deram sinais de reação.

Foi então que se acendeu uma nova estrela no firmamento da Cristandade.

Seu nome foi Carlos Martel (688-741), filho do noble Pepino de Herstal, nascido na Valônia, hoje Bélgica.

Carlos Martel desempenhava a função de “prefeito de palácio” do reino franco do Oriente desde 717, e a partir de 731, da totalidade dos três reinos em que se dividiam os francos. De fato, desde essa posição governava o país.

Seu nome encheu-se de glória pela vitória na Batalha de Poitiers (por alguns chamada de Tours) a meio caminho das duas cidades.

Nela, o herói Carlos Martel quebrou o ímpeto muçulmano e por isso é justamente considerado o salvador da Europa face ao expansionismo islâmico.

Da decisiva batalha de Poitiers (732) resta uma crônica árabe, de autor anônimo. Por certo, para o autor tratou-se de um desastre irrecuperável, lembrado com pesar.

O cronista islâmico narra assim o entrechoque bélico:

“Os muçulmanos golpearam os seus inimigos e atravessaram o rio Garonne, assolando o país e levando inúmeros cativos. Aquele exército passou por todos os lugares como uma tempestade devastadora. A prosperidade tornou esses guerreiros insaciáveis.

“Ao cruzarem o rio, Abderrahman arruinou o condado. O conde refugiou-se em sua fortaleza, mas os muçulmanos avançaram contra ele e, entrando à força no castelo, mataram o conde. Para tudo cediam suas cimitarras, que eram ladrões de vidas.

“Todas as regiões do reino dos francos temiam aquele exército terrível, assim, os francos recorreram a seu rei Carlos Martel e lhes contaram sobre a destruição feita pelos cavaleiros muçulmanos, e como subjugaram, ao atravessarem, toda a terra de Narbonne, Toulouse e Bordeaux. Eles também relataram a morte do conde. Então o rei alegrou-os, declarando que iria ajudá-los...

“O rei montou em seu cavalo, e levou um exército que não pode ser contado, e dirigiu-se contra os muçulmanos. Ele os encontrou na grande cidade de Tours.

“Abderrahman e outros cavaleiros prudentes viram a desordem das tropas muçulmanas, que estavam pesadas devido aos espólios de guerra; mas eles não se aventuraram a desagradar os soldados ordenando que eles abandonassem tudo, com exceção de suas armas e cavalos de guerra. Abderrahman confiou no valor dos seus soldados e na boa sorte que estava lhe acompanhando. Mas a falta de disciplina é sempre fatal aos exércitos.

“Assim, Abderrahman e suas hostes atacaram Tours para ainda adquirir mais espólio. Eles lutaram contra esta cidade tão ferozmente que a fúria e a crueldade dos muçulmanos para com os seus habitantes da cidade eram como a fúria e crueldade de tigres raivosos. Eles assaltaram a cidade quase diante dos olhos do exército que veio salvá-la. Era manifesto que Deus iria castigar tais excessos; e a sorte logo virou-se contra os muçulmanos.

“Próximo ao rio Loire, os dois grandes exércitos, de duas línguas e de dois credos, estavam em ordem, um frente ao outro.

“Os corações de Abderrahman, de seus capitães e de seus homens estavam cheios de ira e orgulho, e eles foram os que primeiro começaram a lutar. Os cavaleiros muçulmanos dirigiram-se com ferocidade contra os batalhões dos francos, que resistiram virilmente. Muitos caíram mortos de ambos os lados, até o pôr do sol.

“A noite separou os dois exércitos: mas ao amanhecer os muçulmanos voltaram à batalha. Os cavaleiros logo chegaram, sem muito esforço, no centro do batalhão cristão. Mas muitos dos muçulmanos estavam temerosos pela segurança do espólio que tinham armazenado em suas barracas.

“Um falso grito surgiu nas suas fileiras, alertando que alguns dentre os inimigos estavam saqueando o acampamento; o que levou vários esquadrões da cavalaria muçulmana a voltarem atrás para proteger suas barracas.

“Porém, parecia que eles estavam fugindo dos cristãos e todo o exército muçulmano ficou preocupado.

“E enquanto Abderrahman se esforçava para controlar o tumulto e conduzir os seus homens novamente para a luta, guerreiros francos o cercaram e ele foi perfurado por muitas lanças, de forma que morreu. Então todo o exército muçulmano evadiu-se ante o inimigo e muitos morreram na fuga ...”

“A batalha de Tours, ou Poitiers, como deveria ser chamada, é considerada como uma das batalhas decisivas da história mundial. Ela decidiu que os cristãos, e não os muçulmanos, seriam o poder dominante na Europa. Carlos Martel é celebrado especialmente como o herói dessa batalha”, escreveu John H. Haaren, no livro “Famous Men of the Middle Ages”.

Ainda posteriormente seu neto, Carlos Magno faria uma incursão militar na Espanha e trucidaria as últimas posses islâmicas na França. O território francês foi fonte continuada de cruzados e monges que cooperaram com os reis da Espanha e Portugal para banir o Crescente da península ibérica.

Carlos Martel recebeu do Papa Gregório III o título de Herói da Cristandade. Ele foi sepultado na abadia de Saint Denis de Paris, necrópolis dos reis da França.

(Fonte: Edward Creasy, “Fifteen Decisive Battles of the World”, New York, E. P. Dutton & Co., s/d, p. 168-169; traduzido e adaptado por Profa. Dra. Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva (Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ), in História Medieval.

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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Enrique conde de Champagne, largo com Deus e com os homens


Enrique, conde de Champagne e Brie foi chamado o conde Enrique o Largo, e ele mereceu bem esse nome, pois ele foi largo com Deus e com os homens.

Que foi generoso em relação a Deus atestam-no a igreja de Santo Estevão de Troyes e as outras igrejas que ele fez construir na Champagne.

E generoso em relação aos homens como ficou manifesto no caso de Artaud de Nogent e em muitas outras ocasiões.

Artaud de Nogent era o burguês em quem o conde mais confiança tinha no mundo. Ele era tão rico que pagou de seu próprio bolso o castelo de Nogent l’Artaud.

Aconteceu que o conde Enrique descia de seu palácio em Troyes para ouvir a Missa em Santo Estevão num dia de Pentecostes.

Embaixo da escadaria um nobre cavaleiro pobre se pôs de joelhos e lhe disse estas palavras:

‒ “Meu senhor, eu vos rogo em nome de Deus que me deis do vosso para que eu possa casar minhas filhas que vós vedes aqui”.

Artaud, que vinha atrás do conde, disse ao cavaleiro pobre:

‒ “Senhor cavaleiro, não é cortês pedir a meu senhor, pois ele deu tanto que não tem mais nada para dar.”

O generoso conde voltou-se para Artaud e lhe disse:

‒ “Senhor vilão, vos não dizeis verdade dizendo que eu não tenho mais nada para dar: eu vos tenho a vós mesmo!”

E se dirigindo ao cavaleiro, disse:

‒ “Tende, pois, senhor cavaleiro, eu vos dou ele, e eu fico garante da doação”.

O cavaleiro não perdeu o sangue frio, e pegou Artaud pelo manto dizendo que não largaria enquanto ele não pagar.

E antes do conde se afastar, Arnaut já tinha entregue quinhentas livras.

(Fonte: Joinville, “Vie de Saint Louis”, Livre de Poche, Garnier, Paris, nº91)

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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A poesia épica medieval captou o maravilhoso que latejava na realidade

Aquele que pretendeu que os franceses não tinham «a cabeça épica» ignorava a Idade Média. Nenhuma literatura é mais épica do que a nossa. Não só se inicia com a Chanson de Roland [Canção de Rolando], mas compreende mais de cem outras obras que são tão boas como ela e que continuam um tesouro a explorar.

Todas, ou quase todas, testemunham essa simplicidade na grandeza, esse sentido das imagens, que fazem do autor da Chanson um dos maiores poetas de todos os tempos.



O caráter da epopéia francesa é precisamente este tom simples e despojado que é o de toda a nossa Idade Média: os heróis não são nela semideuses, são homens, cujo valor guerreiro não exclui as fraquezas humanas.

Rolando ou Guilherme de Orange são seres todos cheios de contrastes, cuja valentia arrasta alternadamente desmesura e humildade, excesso e desalento.

Nossas epopéias não são um monótono desfile de indivíduos heróicos e de façanhas prodigiosas.

A valentia é nela estimada acima de tudo, mesmo a dos inimigos e dos traidores, e com ela o sentimento da honra, a fidelidade ao vínculo feudal.

Por isso os heróis da Chanson de Roland [Canção de Roldão] permanecem tão ricos em cores na nossa imaginação: Rolando, bravo mas temerário, Turpin, o arcebispo piedoso e guerreiro, Olivier, o sábio, e Carlos, alto e poderoso imperador, mas cheio de piedade pelos seus barões massacrados e abatido por vezes pelo peso de sua existência «penosa».

O autor soube evocar esses personagens por imagens e gestos, não por descrições.

Todos os pormenores que ele dá são «vistos» e fazem ver; esse estandarte completamente branco, cujas franjas de ouro lhe descem até aos joelhos, coloca melhor Rolando na beleza resplandecente do seu trajo do que o faria uma descrição minuciosa à maneira moderna.

Os feitos e os gestos dos heróis, seus pensamentos e preocupações são tratados em pinceladas claras e rápidas, com uma arte infinita nos pormenores como tal silhueta, cor, reflexo de um cobre ou o som de um tambor.

São as cintilações que jorram dos «elmos claros» durante a confusão de um combate, os rubis que luzem nas «maças dos mastros» da armada sarracena, ou ainda essa luva que Rolando estende a Deus no seu arrependimento e que o Arcanjo Gabriel agarra.


(Fonte: Régine Pernoud, “Luz sobre a Idade Média”, excertos).

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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Gerard d’Avesnes: herói até o holocausto curva muçulmanos


Após a conquista de Jerusalém, na primeira Cruzada, os principais chefes cristãos escolheram rei o Duque de Lorena, Godofredo de Bouillon.

Ruínas da fortaleza de Arsur

Era um cavaleiro intrépido, famoso pela sua coragem, e a quem mais se devia a vitória.


Quando lhe perguntavam de onde vinha a força para cortar um homem ao meio só com um golpe, ele dizia que suas mãos nunca se tinham manchado com pecados de impureza.

Ao ser eleito rei de Jerusalém, recusou dizendo que “não queria ser coroado com ouro onde Jesus o fora com espinhos”. Aceitou somente o título de Barão e Defensor do Santo Sepulcro.

A cidade muçulmana de Arsur se rebelou. O exército cristão veio então cercá-la com torres rolantes e aríetes.

Os muçulmanos, percebendo que teriam de capitular, tomaram um refém, Gerard d’Avesnes, e o amarraram a um mastro no alto das muralhas. Assim o cavaleiro seria morto pelas armas cristãs, ou, se o cerco continuasse, pelo sofrimento.

O Duque de Lorena aproximou-se então do lugar do suplício, e disse ao cavaleiro: “Eu não vos posso salvar. Morrei, pois, ilustre e bravo cavaleiro, com a resignação de um herói cristão. Morrei para a salvação dos vossos irmãos e para a glória de Jesus Cristo”.

As palavras de Godofredo deram ânimo a Gerard d’Avesnes, não só para morrer, mas para mais ainda: quis, mesmo depois de morto, continuar de algum modo a luta pela causa da Igreja. Para isto recomendou que suas armas e seu cavalo fossem entregues ao Santo Sepulcro.

A batalha continuou, mas Godofredo de Bouillon não conseguiu tomar a cidade.

Pareceu então que Deus não recompensara a generosidade tão grande de seus filhos, e que o sacrifício de Gerard d’Avesnes fora infrutífero.

Um dia, porém, Gerard d’Avesnes entrou em Jerusalém montado num belíssimo cavalo branco.

Impressionados pelo heroísmo de Godofredo de Bouillon e do supliciado, os muçulmanos haviam-no retirado do madeiro, e mais tarde o libertaram.

Deus, que nunca abandona seus filhos e não se deixa vencer em generosidade, tinha conseguido mover o coração dos infiéis, fazendo-os reconhecer com admiração a grandeza dos cristãos.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

São Casimiro: príncipe real virgem, cerimonioso, guerreiro e sagaz


São Casimiro, príncipe polonês nascido em 1458, foi o terceiro filho de Casimiro III, rei da Polônia, e Isabel da Áustria, filha do imperador Alberto III.

O jovem príncipe, criança ainda, dedicou-se a prática de mortificação e piedade, usava um cilício sobre seus trajes, o corpo e seu espírito era tão muito unido a Deus que sua paz interior se manifestava numa grande serenidade do rosto, amava profundamente a Igreja e uma coisa lhe tornava cara a partir do momento em que a glória de Deus fosse dela objeto. Devoto da Paixão de Jesus Cristo e da Santíssima Virgem, compôs em honra da Mãe de Deus um hino que recitava e cantava freqüentemente, pedindo que ao morrer colocassem uma copia dele junto ao seu túmulo.

Ao completar Casimiro 13 anos, os húngaros descontentes com seu rei Matias, quiserem levar o santo ao trono de seu país. Seguiu o jovem à frente de um exercito para a Hungria para sustentar os direitos dessa eleição. Mas na fronteira deste país soube que o rei húngaro reconquistara a estima de seus filhos, e que além disso o papa Sixto IV se declarava pelo rei destronado e reprovava a expedição.

São Casimiro voltou atrás e para não aumentar o desgostoso de seu pai que planejara aquele empreendimento, retirou-se para o castelo de Dobsq, onde se entregou a austeras penitências durante três meses. Ao fim desse tempo voltou ao palácio real onde já encontrou tudo em paz.

São Casimiro faleceu ao 24 anos de idade em 1483, tendo até o fim de sua vi¬da se recusado a casar. Predisse a sua morte e para ele preparou-se particularmente. Cento e vinte anos após a sua morte, seu corpo e as ricas vestes com que fora enterrado foram encontrados intactos, construindo-se riquíssima capela de mármore para conservação dessa relíquia. É padroeiro da Polônia e modelo de pureza para a juventude.


Há uma categoria de santos que nascem e se tornam exímios na prática de uma virtude para dar exemplo a toda a Igreja.

Mas, para que a atenção dos fiéis não se desvie deste ponto central, estes santos morrem relativamente cedo, e a sua vida fica circunscrita à prática daquela virtude.

Estes santos nos mostram uma ação de presença na Igreja difundindo o aroma dessa santidade não só enquanto estão vivos, mas depois de mortos. A vida deles tão precocemente imolada e, em geral, oferecida em benefício da Igreja Católica é um elemento preciosíssimo para a salvação das almas.

A ação, agir, é precioso, mas não é o mais precioso de tudo.

O valor de uma realização interior que justifica inteiramente a existência, embora externamente não se tenha feito nada, isto é o ensinamento que santos como São Domingos Sávio, São Casimiro, São Luís Gonzaga, e tantos outros nos trazem à mente. É um aspecto desse sol de santidade que é a Igreja Católica Apostólica Romana.

Há outro aspecto: a atitude de São Casimiro vestindo roupas régias, e levando cilício por baixo.

Há ai o equilíbrio do verdadeiro santo. Ele quer fazer penitência, mas sua condição lhe impõe que se vista com pompa principesca.

Como ele não é um progressista, como ele não é um filho das trevas, ele usa tudo quanto é necessário para seu estado. A penitência ele faz também, mas como coisa oculta.

Este santo teve dificuldades com o pai. O pai dele queria que ele conquistasse a Hungria. São Casimiro, porém, compreendeu por uma razão que para o pai dele parecia frívola, que o Papa dava razão a um outro.

Então, invadindo a Hungria, ele seria um usurpador, e não queria conquistá-la. Havia uma oposição entre a atitude do pai e o desejo do Papa. Como resolvê-la?

Ele foi muito jeitoso. Ele ficou rezando três meses fora até que as coisas acalmassem e depois voltou.

Houve aqui um santo apuro e depois um santo ardil, que devem servir para nós de inspiração.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 04/03/1964)

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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Antes de ir para o Céu, a Primeira Comunhão do cruzado Vivien

No campo de Aliscans, o exército cristão, comandado por Guilherme d’Orange – Guilherme do Nariz Curvo – tinha sido derrotado pelos sarracenos. Podiam-se contar apenas quatorze sobreviventes.


Próximo a uma fonte, em um prado, jazia um jovem, quase menino. Apesar disto era um guerreiro que nunca havia recuado.

Tratava-se de Vivien, sobrinho de Guilherme, a quem ele amava como a um filho.

Percorrendo o campo de batalha ele reconhece Vivien e o crê morto, mas este faz um leve movimento. Docemente o nobre duque se inclina e lhe murmura ao ouvido:

“Tu não gostarias de comungar Nosso Senhor Eucarístico?”, e Guilherme lhe mostrou uma Hóstia consagrada. “Porém – continuou – é preciso que faças tua confissão”.

– “Eu quero muito, responde uma voz fraca, mas apressai-vos; eu vou morrer. Tenho fome deste pão, eis minha confissão. Não me recordo de uma só falta a não ser esta: eu tinha feito o voto de jamais recuar um passo diante dos pagãos, e tenho muito medo de haver hoje faltado com a promessa feita ao bom Deus”.

Guilherme do Nariz Curvo tira a Hóstia de uma teca que trazia ao peito e a aproxima dos lábios entre-abertos de Vivien, cujos olhos se iluminam. A morte lhe desceu ao coração, quando acabou de fazer sua primeira comunhão.

(Fonte: Funck Brentano, "Féodalité et Chevalerie")

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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Godofredo de Bouillon (II), “Duque e Defensor do Santo Sepulcro”


O encontro da lança de Longinus

Durante o cerco de Antioquia, com o inverno vieram as chuvas e as enfermidades, atingindo homens e animais. O exército cruzado ficou reduzido à metade.

A primavera trouxe uma melhora. Sobretudo devido a reforços vindos por mar, os cruzados conquistaram afinal a cidade. Por pouco tempo, pois três dias depois os turcos voltaram com mais de 200 mil homens e cercaram Antioquia.

A fome e a doença abateram-se novamente sobre os cristãos agora sitiados. Foi quando um sacerdote da Provença, Pedro Bartolomeu, anunciou que Nosso Senhor lhe havia aparecido em sonhos e revelado onde estava enterrada a lança que atravessara seu peito adorável. Com efeito, junto ao altar da igreja de São Pedro encontraram uma lança.(9)

Esse fato sobrenatural deu novo ânimo aos cristãos que, tomados de entusiasmo, caíram sobre os muçulmanos, apesar da desproporção numérica.

Alguns afirmaram ter visto São Jorge conduzindo a batalha. Com a vitória, Boemundo estabeleceu-se como senhor de Antioquia.

O mesmo impulso poderia ter levado imediatamente à conquista da Cidade Santa. Mas o cansaço, a falta de cavalos, e sobretudo a contenda entre os príncipes cristãos, além de outra peste devastadora que ceifou a vida de 50 mil soldados, diminuíram em muito o número de cruzados que se dirigiram a Jerusalém.

A cidade de Jerusalém estava fortificada e bem defendida por mais de 40 mil homens. No dia 7 de junho de 1099 os cruzados a cercaram. Novamente todos os sofrimentos de um sítio prolongado, como a sede sob um sol abrasador de verão, castigaram os cavaleiros da Cruz.

Visão de São Jorge e tomada de Jerusalém

Finalmente, “Godofredo viu no Monte das Oliveiras um homem com brilhante escudo: ‘São Jorge vem em nosso auxílio!’” — exclamou.(10)

Entusiasmados, os guerreiros cristãos empurraram as torres de combate para junto das muralhas da cidade. Estenderam pontes, e Godofredo foi um dos primeiros a saltar, correndo para abrir as portas.

O exército, como a enchente de um rio, penetrou na cidade.

“O sangue corria pelas escadas e chegava até as patas dos cavalos”. “Foi um juízo de Deus”, afirma o cronista Guilherme de Tyro, “que os que haviam profanado o Santuário do Senhor com ritos supersticiosos, e o haviam tirado do povo fiel, expiassem o crime com seu próprio sangue e extermínio”.(11)

Depois os cruzados se lavaram, e com sentimentos de piedade foram andando pelos lugares santos, osculando-os “com grande devoção, humildade e coração contrito, entre soluços e lágrimas”.(12)

Passados os primeiros dias em devoções e em limpar a cidade dos cadáveres, pensaram logo em fixar a vitória, elevando Jerusalém a Reino Latino.

O escolhido para reinar em Jerusalém

“Quando se tratou de eleger um rei, interrogou-se, sob juramento, aos servidores dos Príncipes com mais condições para isso, sobre a vida de seus senhores. Os de alguns deles declararam coisas que os prejudicavam, de medo de terem que ficar em Jerusalém e não voltar para suas terras.

“Alguns outros príncipes declararam que não desejavam ser eleitos para o cargo, tão oneroso. Assim, chegando a vez de Godofredo de Bouillon, seus servidores só tiveram a dizer contra ele que sempre ficava demasiado tempo na igreja, mesmo depois de terminada a missa, e perguntava sobre cada quadro e sua história; e que, enquanto isso, em casa se esfriava a comida”,(13) o que serviu para que os eleitores o escolhessem por unanimidade como a pessoa mais digna para o cargo.

Não rei, mas Defensor do Santo Sepulcro

De acordo com as crônicas do tempo, Godofredo recusou-se a usar a coroa “por respeito Àquele que tinha sido coroado com uma Coroa de Espinhos naquele lugar”.(14)

“Ele nunca usou o título de rei (que somente aparece sob seu sucessor), e contentou-se com o de Duque e Defensor do Santo Sepulcro”.(15)

Pouco tempo depois, Godofredo consolidou a vitória na batalha de Ascalon, derrotando, com apenas 5 mil cavaleiros e 15 mil infantes, o exército de Al-Afdhal, Vizir muçulmano do Egito, que contava com 200 mil etíopes, beduínos e árabes.

Com muita valentia e uma direção prudente, logo no primeiro ímpeto os cristãos dispersaram os mouros. Com essa brilhante vitória, a fama de Godofredo espalhou-se por todo o Oriente.

“Um emir pediu a Godofredo que, com sua espada, cortasse o pescoço de um grande camelo com um só golpe, o que o Duque fez sorrindo. Em seguida, com uma simples lâmina sarracena, degolou o segundo camelo com a mesma facilidade, enchendo de admiração os árabes, que constataram que a fama de sua prodigiosa força era verdadeira”.(16)

Quando Godofredo foi interpelado a respeito da força dos seus braços, respondeu que isso se devia ao fato de que jamais tinha utilizado seus membros para cometer qualquer pecado contra a santa pureza.

Godofredo era sabidamente tão justo, que até os caudilhos árabes submetiam a ele seus litígios. Ele protegeu as fronteiras, favoreceu o comércio e governou com religiosa prudência e gravidade.

Com a ajuda dos cruzados de Pisa, reconstruiu a cidade de Jaffa para tornar-se um porto para a chegada dos cavaleiros cristãos.

Ele intentava assediar Acre, mas era desígnio de Deus que, aquele que passara por tantos perigos nos combates, morreria simplesmente num leito de hospital.

Godofredo foi atacado pela peste em Cesaréia. Retornou a Jerusalém onde, após nomear o irmão Balduíno como seu sucessor, faleceu no dia 18 de julho de 1100, aos 39 anos de idade, sendo enterrado na igreja do Santo Sepulcro.


(Fonte: José Maria dos Santos, “Catolicismo”, setembro de 2003, )

Notas:
1. Hachette Multimedia / Hachette Livre, online edition, Copyright © 2001 Yahoo! France.
2. Juan Batista Weiss, Historia Universal, Tipografia La Educación, Barcelona, 1928, vol. V, p. 467.
3. Robert the Monk, Hist. Occid. Crois., III, 731, apud Louis Bréhier, The Catholic Encyclopedia, 1906, vol. VI, online edition, Robert Appleton & Cia., 1999.
4. La Grande Encyclopédie, Paris, Société Anonyme de la Grande Encyclopédie, tomo 18, p. 1145.
5. Cfr. Guibert de Nogent, Gesta, vol. VII, 11, apud Louis Bréhier,The Catholic Encyclopedia, Online Edition.
6. Weiss, op.cit., p. 470.
7. Cfr. The Catholic Encyclopedia, e Hachette Multimedia.
8. Weiss, op. cit., p. 474.
9. Cfr. Weiss, op. cit., p. 477; La Grande Encyclopédie, tomo XIII, verbete “Croisade”, p. 441.
10. Weiss, op. cit., p. 479.
11. Guilelmus Tyrius, VIII, cap. 20, in Weiss, op. cit., p. 479.
12. Weiss, op. cit., p. 479.
13. Id., p. 480.
14. The Catholic Encyclopedia, online edition.
15. Id, ib.
16. Weiss, op. cit., p. 482.


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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Godofredo de Bouillon (I), “Duque e Defensor do Santo Sepulcro”


Alguns grandes homens deixam após si uma legenda que os rodeia com uma luz especial, arquetipizando seus feitos e suas glórias. Um desses foi Godofredo de Bouillon, o conquistador e fundador do Reino Latino de Jerusalém.

“A legenda logo se apoderou deste possante e terno senhor do país valão para torná-lo o arquétipo do cruzado”.(1) Após sua morte, tornou-se herói de canções de gesta, como o tinham sido antes dele o famoso Carlos Magno e Roland.

Filho de Eustáquio, conde de Boulogne, e de Ida, filha de Godofredo o Barbudo, duque da Baixa Lorena e de Bouillon, Godofredo pertencia a uma antiga família que alegava ter Carlos Magno entre seus ancestrais.

Ele era “geralmente estimado, reto, valoroso, manso, casto, devoto, humano, de formoso aspecto e elevada estatura, cabelos ruivos”,(2) e “é retratado como o perfeito tipo do cavaleiro cristão. Alto de estatura, com um porte agradável e com uma maneira tão cortês, ‘que parecia mais um monge do que um guerreiro’”.(3)

Era “tido por tão bom guerreiro quanto fervoroso cristão”. (4) Sua força era proverbial. Narram as crônicas que, com um só golpe de espada, ele partiu um guerreiro árabe de alto abaixo, em duas partes iguais.(5)

Godofredo, o Cruzado: início da epopéia

À morte do tio Godofredo III, o Corcunda, em 1076, dele herdou o condado de Verdun e a Marca de Anvers. Mais tarde, em 1089, o Imperador Henrique IV cedeu-lhe em vassalagem o Ducado da Baixa Lorena. Godofredo seguiu o Imperador, tornado seu suserano, na Guerra das Investiduras e em sua iníqua expedição contra o Papa São Gregório VII, entrando em Roma em 1084.

Segundo alguns, para expiar esse pecado, Godofredo foi dos primeiros a tomar a cruz por ocasião do apelo do papa Urbano II, em 1096, juntamente com seus dois irmãos, Balduíno e Eustáquio.

Para financiar sua campanha, ele vendeu ou empenhou vários de seus estados, reunindo, com seus irmãos, 80 mil guerreiros. Seu exército era composto em sua maioria de valões e flamengos. Como ele falava correntemente ambas as línguas, por ter nascido na fronteira dessas duas nações, servia de árbitro entre as querelas nacionalistas desses povos.

Os vários príncipes cruzados seguiram, com seus respectivos exércitos, diferentes percursos para a Terra Santa, combinando reunir-se em Constantinopla. Godofredo e os franceses do norte seguiram seu caminho com severa disciplina, pela Alemanha, Hungria e Bulgária, chegando às portas da capital do Império do Oriente.

Brado “Deus o quer”– vitória de Godofredo

Foi então que Boemundo, príncipe de Tarento, convidou Godofredo a unirem seus exércitos para atacar o Imperador bizantino Aleixo, “Godofredo, que era demasiado honrado, não quis lutar contra cristãos, e temeu esgotar as forças de seu exército antes de enfrentar os infiéis”.(6)

Depois de muitas negociações, Godofredo prestou juramento de fidelidade a Aleixo, embora com restrições, e levou outros a fazê-lo. Mas alguns príncipes recusaram-se a prestar o juramento, pois os francos menosprezavam os gregos.

Em 1097 deu-se o cerco de Nicéia, afirmando alguns que nele Godofredo não teve qualquer destaque especial;(7) e outros, que foi “só quando a divisão comandada por Godofredo se acercou, com o clamor do trovão ‘Deus o quer!’, que se decidiu a renhida batalha em favor dos cristãos”.(8)

Os cruzados tomaram depois Edessa, formando um principado do qual Balduíno, irmão de Godofredo, se tornou o senhor, derrotando os turcos de várias fortalezas.

(Fonte: José Maria dos Santos, “Catolicismo”, setembro de 2003)

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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Santo Anselmo de Cantuária: herói na defesa da ortodoxia católica e da legitimidade face aos reis

Santo Anselmo de Cantuaria, CambridgeAnselmo nasceu em Aosta, Itália, filho do nobre Gondulfo e da piedosa Ermenberga. Entregou-se cedo à virtude, tendo muito sucesso nos estudos. Aos 15 anos já se preocupava com altas questões metafísicas e teológicas, e quis entrar num mosteiro. Mas os monges negaram-lhe a entrada, por medo de desagradar seu pai.

Não podendo ingressar na vida religiosa, Anselmo entregou-se gradualmente aos prazeres mundanos. Com o falecimento de sua genitora seu pai tornou-se mal-humorado e violento. Anselmo fugiu de casa. Vagou pela Itália e pela França, conheceu a fome e a fadiga, e chegou ao mosteiro de Bec, na França, onde havia a escola mais afamada do século XI, dirigida por seu famoso conterrâneo, Lanfranco.

Discípulo suplanta o mestre

Anselmo entregou-se então vorazmente ao estudo, esquecendo-se às vezes até das refeições e recreação. “Seus progressos eram tão admiráveis quanto sua amabilidade, e logo foi tido como um prodígio de saber e seus condiscípulos creram que fazia milagres, por sua piedade e virtude”.1

Apesar de todos seus sucessos, Anselmo tinha uma grande perplexidade: “Estou resolvido a fazer-me monge; mas, onde? Pois bem, far-me-ei monge onde possa pisotear minhas ambições, onde seja estimado menos que os demais, onde seja pisoteado por todos”.2

Em Bec foi ordenado sacerdote em 1060. Em 1066 foi eleito Abade. Seu primeiro biógrafo, Eadmer, conta comovente cena ocorrida nessa ocasião, típica da Idade Média: o eleito abade prosterna-se diante de seus irmãos, pedindo-lhes com lágrimas que não o onerassem com aquele fardo, enquanto os irmãos, também prosternados, insistem com ele para que aceite o ofício.3

Sob sua direção, Bec alcançou sua maior celebridade, sendo para a Normandia e Inglaterra o que Cluny era para a Borgonha, França e Itália.4

Santo Anselmo de Cantuaria, OxfordEm Bec, “escreveu vários de seus livros, que abrem um novo caminho para o estudo da Teologia e se distinguem pela profundidade de pensamento, delicadeza de investigação, ousado vôo metafísico que, não obstante, nunca se separa do terreno da fé tradicional”.5

Combates em defesa da Fé

Anselmo teve que viajar várias vezes para a Inglaterra, por interesses de seu convento. Lá encontrou novamente Lanfranco, então Arcebispo de Cantuária. O rei “Guilherme, o Conquistador, ele próprio tão temível e inacessível aos ingleses, se humanizava com o Abade de Bec e parecia tornar-se todo outro em sua presença”.6

O abade era uma figura imponente, majestosa, sempre serena. Era também um grande lutador: “Enquanto luta com os senhores da região em defesa de seu mosteiro, defende a pureza da fé contra Berengário, discute com os hereges e confunde o racionalista Roscelino”.7

Em 1087, Guilherme II, o Ruivo, sucedeu seu pai no trono da Inglaterra. Príncipe “que temia a Deus muito pouco, e nada aos homens”, ele se apoderava das rendas das sés vacantes e não queria nomear novos bispos para as preencherem.

Ora, Anselmo foi escolhido pelo povo para suceder Lanfranco na sé de Cantuária. Porém o rei, por prepotência não permitia que ocupasse a sé dizeendo: “o Arcebispo de Cantuária sou eu!”.

Arcebispo de Cantuária contra a vontade

A Providência resolveu o caso. Atacado por estranha doença, o rei temeu por sua alma. Os prelados e barões então pressionaram-no para que não deixasse mais vacante a Sé de Cantuária; e ele nomeou Anselmo.

Sucedeu então outra cena que só acontecia nos tempos medievais: “Ele [Anselmo] foi arrastado à força até o lado do leito do Rei, um báculo foi enfiado em sua mão fechada, e o Te Deum foi cantado”.8

Santo Anselmo de Cantuária, detalhe de vitral de CambridgeEntretanto, o arrependimento do rei foi-se com a doença. Apenas restabelecido, tentou dobrar o Arcebispo. Começou uma verdadeira batalha entre altar e trono, e Anselmo preferiu exilar-se no continente a ceder nos princípios. Essa tendência absolutista dos soberanos ingleses manifestar-se-á no século seguinte com o martírio de São Tomás Becket, e, no século XVI com o cisma de Henrique VIII.

Luminar do Concílio de Bari

Em Roma, Anselmo foi recebido por Urbano II, que o convenceu a voltar para sua diocese. Mas antes participou ele do Concílio de Bari, em 1098, do qual foi um dos luminares, desfazendo o sofisma dos gregos, que negavam que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

Regressou à Inglaterra em 1100, a pedido de Henrique, que sucedera no trono a seu pai, Guilherme, morto impenitente durante uma caçada.

Anselmo havia pedido ao Papa que lhe desse alguém a quem ele pudesse se submeter em todas as ações, como um monge ao seu superior. O Papa designou o monge Eadmer, que se tornou amigo íntimo, discípulo e biógrafo do Santo.

Desterro do Santo Arcebispo

Henrique II, querendo assegurar para si o trono em detrimento de seu irmão mais velho, Roberto, que voltava da Cruzada na Terra Santa, restituiu à Igreja todos seus antigos direitos. Por uma série de medidas assim também no campo civil, obteve a simpatia do clero e povo em seu favor.

Quando Roberto chegou à frente de um exército, para reivindicar seus direitos, o Arcebispo Anselmo obteve que os ingleses permanecessem na fidelidade a Henrique II. Porém, para mostrar não era melhor que seu pai, na primeira oportunidade Henrique atacou Roberto de surpresa, derrotou-o, e fez prisioneiro até o fim da vida.

A aliança entre Henrique II e Anselmo se rompeu devido à contínua questão das investiduras.

Para resolver a questão, Santo Anselmo foi mais uma vez a Roma. Mas ao voltar foi impedido de entrar no país. Permaneceu três anos no desterro. Sob pena de excomunhão lançada pelo Papa, Henrique II chegou a um acordo com o Arcebispo, que pôde voltar assim à sua Sé.

Homem de governo, de letras, santo

Os últimos anos da vida de Anselmo transcorreram em atividades para a reforma de sua diocese e em trabalhos literários.

Santo Anselmo de Cantuária, túmuloNa véspera de sua morte, lamentava que não tivesse tido tempo para escrever um tratado sobre a origem da alma, tema sobre o qual meditava constantemente.

Faleceu no dia 21 de abril de 1109, sendo canonizado pelo Papa Alexandre III.

(Fonte: Plinio Maria Solimeo, “Catolicismo”, abril de 2003).

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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Santa Adelaide imperatriz: heroína modelo de autêntica santidade


Sobre Santa Adelaide (931-999), rainha, a respeito da qual Omer Englebert, na “Vida dos Santos”, diz o seguinte:

“Santa Adelaide, foi uma maravilha de graça e de beleza, segundo escreveu Santo Odilon de Cluny que foi seu diretor espiritual e seu biógrafo.

“Filha de Rodolfo II, rei da Borgonha, nasceu em 931, casando-se aos 15 anos com Lotário II, rei da Itália. A filha desse casamento foi, mais tarde, rainha da França.

“Adelaide tinha 18 anos quando seu marido morreu, segundo se crê, envenenado por seu rival Berengário II. Este, em breve, proclamou-se rei da Itália e ofereceu a mão de seu filho à viúva de sua vítima.

“Recusando-se Adelaide a fazer-lhe a vontade, Berengário apoderou-se de seus estados e conservou-a presa no castelo de Garda. Aí sofreu os maiores ultrajes, mas ninguém conseguiu demovê-la.

“Conseguindo fugir, dirigiu-se ao castelo de Canossa, propriedade da Igreja. Dessa fortaleza inexpugnável dirigiu um apelo a Oto I, rei da Germânia, que correu em seu auxílio com um poderoso exército. Cingiu ele a coroa de Itália em Pavia e foi, mais tarde, sagrado imperador em Roma. Entretanto, casava-se com Adelaide.

“O filho desse segundo casamento, Oto II, sucedeu seu pai e a princípio revoltou-se contra sua mãe. Temendo pela vida, ela refugiou-se na Borgonha. Foi então que conheceu Santo Odilon e espalhou benefícios pelos mosteiros franceses.

“Mais tarde, voltando à Alemanha, mandou ao túmulo de São Martinho o mais rico dos mantos usado por seu filho, já então arrependido. “Quando chegardes ao túmulo do glorioso São Martinho”, escreveu ela aquele a quem encarregara dessa missão, “dizei: Bispo de Deus, recebei estes humildes presentes de Adelaide, serva dos servos de Deus, pecadora por natureza e imperatriz pela graça de Deus. Recebei também este manto de Oto, seu filho único. E vós, que tivestes a glória de cobrir com vosso próprio manto Nosso Senhor, na pessoa de um pobre, orai por ele”.

“Logo que pressentiu chegado o seu fim, Adelaide se fez transportar para o mosteiro de Sehl sobre o Reno para morrer e repousar junto ao túmulo de Oto I, o Grande, seu segundo marido”.
Santa Batilde, igreja de Saint Germain l'Auxerrois, ParisO tipo humano de Santa Adelaide é de iluminura medieval. Não é o da santa que vive no convento, no recolhimento e na paz do claustro, mas é da heroína.

A Idade Média é fecunda em heróis e heroínas que passam pelas maiores aventuras e riscos.

Não têm nenhum ideal de Previdência Social, nem de aposentadoria. Eles querem e vivem, no risco, na luta, na incerteza a serviço de uma causa alta e em defesa de direitos efetivos e legítimos. Isso dá à vida o seu sal e o seu sentido.

A sua existência foi uma sucessão de altos e baixos. Ela foi princesa e casou-se com Lotário II, rei da Itália. Aelaide tinha 18 anos quando seu marido morreu e Berengário II tinha mandado, ao que parece, envenenar o seu marido. Ele se proclamou rei da Itália e quis que ela se casasse com um filho dele. Ela deveria, portanto, casar-se com o filho do assassino do seu próprio esposo. Seria uma vida fácil, seria uma vida agradável; ela, certamente, não sofreria o que sofreu.

Ela foi encarcerada e ficou exposta aos piores ultrajes. Mas, de repente, fugiu.

Como isso é diferente da falsa idéia que habitualmente se faz de uma santa!

Segundo essa falsa idéia, a santa presa ficaria sentada de lado, chorando, pensando em tudo menos em fugir. Incapaz de fugir, gordona, com dificuldade em se mover, sem esperteza nenhuma, não sabe iludir os carcereiros, não sabe ter um gesto hábil para pular um obstáculo qualquer e sair correndo.

Mas, essa é uma santa diferente. Ela corresponde à imagem verdadeira dos santos e não à caricatura.

O santo tem as virtudes da fortaleza e da prudência. E com fortaleza e prudência a gente foge de todos os lugares de onde se possa fugir.

Ela foge e liberta-se do tremendo jugo em que estava. E ela soube para onde fugir, porque, em vez de fugir para um lugar qualquer, ela foi para Canossa.

Canossa é a terrível fortaleza da Idade Média. São Gregório VII ali recebeu Henrique IV, que lhe foi beijar os pés pedindo-lhe perdão.

Santa Margarida da Escócia, igreja dos jesuítas, Farm street, LondresCanossa era um feudo da Igreja que não podia ser invadido por um soberano temporal. Ela ali estava, portanto, inteiramente tranqüila. Ela era boa política. Tinha a inocência da pomba, mas tinha também a astúcia da serpente.

Nesse lugar ela fez uma coisa que também não se esperava numa santa: arranjou um marido e bem escolhido. Ela escreveu para o rei da Germânia, herdeiro presuntivo do imperador do Sacro Império Romano Alemão, pedindo para ele ir defendê-la. Ele foi defendê-la, pediu-a em casamento, se casaram e então começa para ela uma nova vida.

Quantas mudanças nessa vida! Quanta força de alma, denodo, intrepidez! Esas mudanças supunham verdadeira virtude nessa magnífica santidade.

Ele foi sagrado imperador e casaram-se. O filho desse casamento, entretanto, foi mau e começa aí mais outra tragédia. Ele revoltou-se contra sua própria mãe e, por isso, ela teve novamente que fugir. E foi para a Borgonha.

Em Borgonha, ela conheceu Santo Odilon, abade de Cluny. Ela se tornou célebre pelas liberalidades que fez aos conventos de Borgonha.

Mas o seu filho se arrependeu. Deve ter se arrependido pelas prezes dela, porque esse manto do filho que ela mandou para São Martinho tem todo o aspecto de um pagamento de uma promessa. Como quem dissesse a São Martinho: “Se vós me converterdes o filho, eu vos enviarei o manto dele”.

Ela mandou com uma magnífica mensagem. Dessa mensagem, o mais bonito é o título que ela arranjou para si: “Fulana, pecadora por natureza, imperatriz pela graça”.

Santa Gudula, padroeira de BruxelasÉ um tal contraste de títulos, há uma tal grandeza na simplicidade desse contraste, que mereceria ser o epitáfio dela.

Pecadora por natureza, porque todos os homens, por natureza, são pecadores. Ainda quando são santos e não pecam, na sua natureza são pecadores.

Imperatriz pela graça: ficaria bem num vitral, debaixo da figura nobre, serena, forte dela: “Santa Adelaide, Imperatriz: pecadora por natureza, imperatriz pela graça”.

Que Santa Adelaide nos dê a graça do espírito de luta, de intrepidez e de aventura.

São Tomás de Aquino diz que o supra-sumo da virtude da fortaleza é a agressividade, e que o homem forte é aquele que toma a iniciativa da luta. Quando é necessário, oportuno, criterioso, ele não espera o inimigo vir, mas ele toma a iniciativa, cria a situação e investe contra o inimigo.

Nós devemos pedir ao mesmo tempo esse espírito de prudência, essa sagacidade, essa capacidade de discernir, de perceber, de escolher as situações, de dispor dos meios adequados para chegar aos fins que nós temos em vista.

E, então, nós poderemos, no nosso epitáfio, também ter isso: “Nós fomos lutadores e amamos inclusive o risco, levados não até a temeridade, mas a um extremo que os tontos diriam que é temeridade. Nós teremos sido pecadores por natureza, mas teremos sido, pela graça, soldados intrépidos de Nossa Senhora”.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 16/12/1968. Sem revisão do autor.)

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quarta-feira, 27 de maio de 2009

São Gregório Magno, baluarte da Idade Média nascente

São Gregório Magno

“Gregório é certamente uma das mais notáveis figuras da história eclesiástica. Exerceu em vários aspectos uma significativa influência na doutrina, organização e disciplina da Igreja Católica.

“A ele devemos olhar, para a explicação da situação religiosa da Idade Média; com efeito, não se levando em conta seu trabalho, a evolução da forma da Cristandade medieval seria quase inexplicável.

“Tanto quanto o moderno sistema católico é um legítimo desenvolvimento do catolicismo medieval, não sem razão Gregório deve também ser chamado seu pai. Quase todos os princípios diretivos do subseqüente Catolicismo são encontrados, pelo menos em gérmen, em Gregório Magno”.(1)
Ele “merece o glorioso título de Magno por todas as razões que podem elevar um homem acima de seus semelhantes: porque foi magno em nobreza e por todas as qualidades que vêm do nascimento e dos ancestrais; magno nos privilégios da graça com que o Céu o cumulou; magno nas maravilhas que Deus operou por seu intermédio; e magno pelas dignidades de Cardeal, de Legado, de Papa, para as quais a divina Providência e seus méritos o elevaram”.(2)
Esmerada e virtuosa educação

Gregório nasceu em Roma no ano 540. Seu pai, Gordiano, era senador. Muito rico, após o nascimento do filho consagrou-se inteiramente a Deus no serviço dos pobres. Sua mãe, Sílvia, não era menos ilustre nem menos virtuosa, e passou os últimos anos de sua vida em contemplação num pequeno oratório para onde se retirou.

Além de sua mãe, duas de suas tias, Tarsila e Emília, foram também elevadas à honra dos altares. Assim, seu primeiro biógrafo, João, o Diácono, fala de sua educação como sendo a de um santo entre santas.(3)

Dotado de excepcional inteligência e brilhante memória, Gregório aprendeu com facilidade as letras divinas e humanas. É bem provável que tenha também estudado Direito. São Gregório de Tours, que nos deixou algumas impressões sobre ele, diz que em gramática, retórica e dialética ele era tão hábil que, segundo voz corrente, não tinha igual em toda Roma. Diz também que ele se entregou a Deus desde sua juventude.

São Gregório Magno, PapaEnquanto seu pai foi vivo, Gregório tomou parte na vida do Estado e chegou a ser prefeito de Roma. Com a morte daquele, resolveu retirar-se do mundo e consagrar-se a Deus. Isso deu-se provavelmente em 574.

Com sua grande fortuna, fundou seis mosteiros na Sicília, além de um em Roma, em seu palácio, com o nome de Santo André. Nele tomou o hábito religioso. Sua caridade para com os pobres era tão grande, que foi premiada com vários milagres.

Em 577 o papa Bento I o nomeou cardeal-diácono ou regional. Os que estavam revestidos dessa dignidade, sete ao todo, presidiam às sete regiões principais de Roma para atender às suas necessidades.

Mais tarde o Papa Pelágio II enviou-o a Constantinopla, como legado e embaixador junto ao imperador Tibério. Sua missão principal consistia em mover o imperador a pôr ordem na Itália.

Depois de seis anos de vida diplomática nessa cidade, Gregório foi chamado a Roma, provavelmente em 585, sendo então eleito abade de Santo André. O mosteiro ficou famoso com seu enérgico abade, podendo-se ler muita coisa edificante dele em seus Diálogos. Dedicava-se muito à formação de seus monges, e explicou-lhes vários livros das Sagradas Escrituras, como o Pentateuco, o Livro dos Reis, os Profetas, o Livro dos Provérbios e o Cântico dos Cânticos.

Intervenção divina elimina a peste

No ano de 590, terríveis inundações seguidas de peste assolaram a Cidade Eterna, privando a Igreja de seu chefe, o Papa Pelágio. O clero, o povo e o Senado de Roma escolheram unanimemente para o Pontificado o diácono Gregório. Ele não queria aceitar, mas por fim acedeu, desde que a indicação fosse ratificada pelo imperador.

Ao mesmo tempo escreveu a este, que era muito amigo seu, implorando que não ratificasse a escolha. Mas seu irmão, então prefeito de Roma, interceptou a carta e enviou ao imperador outra, enaltecendo as qualidades de Gregório e pedindo a confirmação no cargo.

Enquanto não vinha a resposta, Gregório assumiu interinamente o posto, devido ao estado de calamidade em que Roma se encontrava. Para fazer cessar o flagelo da peste, convocou procissões rogatórias gerais, durante três dias, com a presença de todos, inclusive a dos abades dos mosteiros da Cidade Eterna com seus religiosos, e das abadessas com suas religiosas.

Gregório portou nessa procissão um antigo quadro da Virgem, cuja autoria é atribuída a São Lucas. Segundo a tradição, por onde passava o quadro, o ar corrompido cedia lugar ao são.

Quando ele chegou nas proximidades do mausoléu de Adriano, de acordo com a mesma tradição, ouviram-se coros angélicos que cantavam: “Rainha dos Céus, alegrai-vos, aleluia; porque Aquele que merecestes portar, aleluia; ressuscitou como disse, aleluia”.

O povo ajoelhou-se, cheio de devoção e alegria, e Gregório cantou: “Rogai por nós a Deus, aleluia”. No mesmo instante ele viu um anjo que embainhava a espada, para significar que o flagelo cessara. A partir de então o mausoléu de Adriano passou a ser conhecido como Santo Ângelo.

Quando chegou a resposta do imperador confirmando Gregório no cargo, este quis fugir, mas à força foi ordenado sacerdote e coroado Sumo Pontífice.

Sao Gregório Magno, Petites Heures de Jean de BerryCapitão, rei, pontífice, pai do povo

Triste situação se apresentava ao novo Papa. A Igreja estava em deplorável estado, necessitando de mão firme que a reformasse. Na África, imperava a heresia donatista; na Espanha, a ariana; na Inglaterra, a idolatria; e na Gália, a simonia, os crimes de Fredegunda e os erros de Brunilda, rainha da Austrásia, na Gália.

Na Itália, os lombardos, que eram arianos e rivais do poder imperial, faziam devastações. No Oriente, havia a arrogância dos patriarcas de Constantinopla e a má vontade dos imperadores bizantinos que, não podendo defender nem governar a Itália, ficavam enciumados por ver que os Papas cumpriam esse papel. Enfim, em todas as fronteiras do Império Romano, ondas de bárbaros ameaçavam acabar com o que restava de pé nesse mundo em transição.

O novo Papa “lutava contra a peste, contra os tremores de terra, contra os bárbaros heréticos e contra os bárbaros idólatras, contra o paganismo morto e infecto mas insepulto, contra seu próprio corpo, consumido pelas enfermidades; e se pôde dizer que a alma de Gregório era a única inteiramente sã que existia em toda a humanidade”.(4)

Assim, com uma habilidade e energia raras ele se multiplicava, tornando-se capitão, rei, pontífice, pai dos romanos. Arregimentou tropas e pagou seu soldo, forneceu aos bárbaros as contribuições que exigiam para não invadir Roma; alimentou e consolou o povo. Obteve do rei dos lombardos uma trégua para Roma e seu território.

Com a ajuda de Teodolinda, rainha dos lombardos, que era cristã e amiga fiel do Papa, conseguiu a conversão de toda a nação lombarda do arianismo para a fé católica. Livrou depois o território pontifício de todos os tiranetes que tinham surgido em meio à anarquia, dando início ao poder temporal dos Papas.

Em 592 o imperador bizantino, por um edito, proibiu seus soldados de abraçar a vida monástica. Imediatamente São Gregório escreveu-lhe mostrando que, com isso, ele feria as leis de Deus e o direito de consciência dos soldados. E lembrou ao imperador Maurício as contas terríveis que ele teria que prestar a Deus por essa decisão, no dia de seu juízo particular.

O grande Papa comunicou a seu embaixador em Constantinopla: “Sei tolerar por muito tempo, mas, uma vez que resolva resistir, lanço-me com alegria em todos os perigos. Antes morrer que ver a Igreja do Apóstolo São Pedro degenerar em minhas mãos”.

Por sua humildade, Gregório foi o primeiro Papa que se chamou “servo dos servos de Deus”. Em sua boca, essa declaração não era mera figura de retórica.

Consolida a liturgia, codifica o canto sagrado

Gregório foi profícuo em seus escritos, tendo todos eles alcançado grande repercussão. Daí o título que merecidamente recebeu de Doutor da Igreja. Em seu Livro da Regra Pastoral, por exemplo, uma de suas obras que mais influíram na Idade Média, fornece ao clero uma norma de vida.

Já em suas Homilias, dirige-se ao povo com uma simplicidade comovedora. Sua palavra é tão eminentemente comunicativa, tão viva, tão apropriada, que a multidão a escuta religiosamente, às vezes com lágrimas, outras com aplausos.

São Gregório Magno, túmulo em São Pedro, VaticanoDe valor mais transcendental foram sua consolidação litúrgica e a codificação do canto eclesiástico (até hoje o canto-chão leva o seu nome, gregoriano). A ele se deve, por exemplo, o costume de cantar o Kyrie eleison na Missa, a introdução do Pai Nosso antes da fração da hóstia, e dos aleluias nos ofícios divinos, mesmo fora do tempo pascal. Teve muito empenho em realizar as cerimônias de culto com muita pompa exterior, para instrução e edificação do povo.(5) Do ponto de vista da liturgia, foi um digno predecessor do Papa São Pio V.

São Gregório Magno teve grande empenho na conversão dos ingleses, de modo a merecer o título de Apóstolo da Inglaterra.

O Pontífice, mesmo antes de ser eleito Papa, havia passado por diversas crises de saúde – gota e intestinos – que duraram meses inteiros.

Já no fim de sua vida, escreveu: “Há quase dois anos estou na cama, com grandes dores de gota, de modo que apenas nos dias de festa posso me levantar para celebrar. E logo, com a força da dor, me volto a deitar. [...] Assim, morrendo cada dia, nunca acabo de morrer, e não é maravilha que eu, sendo tão grande pecador, Deus me mantenha tanto tempo neste cárcere”. O grande Papa faleceu no dia 12 de março de 604, aos 60 anos de idade.

(Fonte: Plinio Maria Solimeo, CATOLICISMO)
________________

Notas:
1. F.H. Dudden, Gregory the Great, 1, p. v, in The Catholic Encyclopedia, Volume VI, Copyright © 1909 by Robert Appleton Company, Online Edition Copyright © 2003 by Kevin Knight.
2. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo III, p. 360.
3. G. ROGER HUDLESTON, Saint Gregory the Great, The Catholic Encyclopedia.
4. Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo I, p. 488.
5. Cfr. Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luís Vives, S.A., Saragoça, 1947, tomo II, p. 126.


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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Clóvis, Rei dos francos, instrumento da Providência Divina


Dentre as hordas de bárbaros que investiram contra as possessões romanas do Ocidente na Europa central, destacaram-se os francos, povo guerreiro e valente.

Ora unindo-se às tropas imperiais, ora combatendo-as, tornaram-se tão poderosos, que a filha de um de seus reis, Eudóxia, veio a casar-se com o Imperador Arcádio.

Com a queda do Império Romano em 476, os francos dominaram o norte da Gália; os godos, o sul; os borguinhões, as duas margens do Ródano, restando ainda, entre os rios Sena e Loire, remanescentes do Império sob o governo de Siágrio.

Um dos grandes chefes francos foi Childerico I (458-481), que se casou com Basina da Turíngia.

Tiveram um filho são e robusto a quem deram o nome de Clóvis. Estava ele destinado a mudar o curso da história da Gália (França) e, por conseguinte, da Europa.

Clóvis subiu ao trono franco ainda adolescente, e com uma maturidade precoce fez suas primeiras conquistas. "Sagacidade na deliberação e ousadia na execução distinguiram sobretudo este soberano"1.

Conforme já tinha feito seu pai, Clóvis, apesar de pagão, manteve cordiais relações com os bispos da Gália. Quando subiu ao trono, recebeu amistosa carta de São Remígio, arcebispo de Reims.

Clovis I recebe as flores de lis, Bedford Book of HoursCheio de vitalidade no ardor de sua juventude, para satisfazer o ânimo belicoso de seus súditos Clóvis partiu para a conquista de novas terras, começando por derrotar Siágrio. Este se refugiou junto a Alarico, rei dos visigodos. Clóvis intimou Alarico a entregar o fugitivo e o executou, apoderando-se de seu reino. Estabeleceu então Soissons como sua capital.

É dessa época o fato legendário que aparece em todas as biografias do grande guerreiro. Após a batalha, os francos haviam tomado como despojo de guerra, entre outras preciosidades da igreja de São Remígio, um belíssimo vaso.

O arcebispo pediu a Clóvis, que muito o respeitava, que o devolvesse. O rei prometeu fazê-lo. E foi a Soissons, onde seriam divididos os despojos.

Pediu a seus guerreiros que, além da parte que lhe cabia como rei, lhe dessem também o vaso, para devolvê-lo a São Remígio. Todos concordaram, menos um que, de mau humor, disse ao rei: "Tu não terás senão o que te couber por direito". E, como bárbaro que era, atingiu o vaso com sua acha.

O rei, embora indignado, não disse nada. Um ano depois, seus soldados apresentaram-se armados diante dele; quando chegou em frente do soldado insolente, Clóvis derrubou-lhe a acha das mãos e desferiu-lhe tremendo golpe na cabeça, dizendo: "Foi assim que trataste o vaso de Soissons"

Como bom estadista, o rei franco usou de muita compreensão para com os povos conquistados, tratando do mesmo modo os galo-romanos e os francos, escolhendo entre ambos seus conselheiros, respeitando as leis locais, não tomando suas propriedades. Tomou para si e seus guerreiros somente as que pertenciam ao Imperador ou ao Estado. Com isso, foi bem recebido por essas populações e firmou seu poderio sobre suas conquistas.

Clóvis recebeu do Imperador de Constantinopla o título de patrício, de cônsul e de ilustris, o que mais confirmou sua autoridade aos olhos dos povos conquistados.

O conhecido historiador belga Godofredo Kurth sintetizou de modo feliz a missão providencial e histórica do rei franco: "Como estadista, conseguiu o que não alcançou nem o gênio de Teodorico, o Grande, nem o de nenhum dos reis bárbaros seus contemporâneos: sobre as ruínas do Império Romano, construiu um poderoso sistema, cuja influência dominou a civilização européia durante muitos séculos"2.

Clovis, Batismo, Mestre de Saint GillesBatismo de Clóvis: conseqüências transcendentais

"O batismo de Clóvis teve conseqüências incalculáveis para os destino da Igreja e da França. Clóvis, católico, foi considerado desde então como o chefe do catolicismo. Santo Avito, bispo de Vienne e primaz das igrejas da Borgonha, apressou-se em felicitá-lo: `Vossa adesão à fé é nossa vitória; todas as vezes que vós combaterdes, seremos nós que triunfaremos'"3.

O reino de Clóvis tornou-se, na época, o primeiro Estado católico em meio a reinos pagãos ou arianos do Ocidente, e ocupava o território que correspondia aproximadamente ao da França de hoje. Em vista disso, essa nação recebeu o glorioso título de Filha Primogênita da Igreja4.

Clóvis prestou grande serviço à Igreja Católica, combatendo o arianismo. Assim, no ano 500, numa guerra fratricida no reino da Borgonha, aliou-se a um dos irmãos arianos e, unidos, venceram as tropas do outro que, para salvar-se, prometeu pagar um tributo anual ao rei franco. Assim os dois reis borguinhões tornaram-se tributários do monarca franco. Com isso cessaram as pressões sobre os católicos daquele reino.

Clovis I, batalha contra visigodos, Biblioteca Nacional da HolandaMais tarde Clóvis venceu os visigodos da Aquitânia, também arianos, onde era ansiosamente esperado pelos católicos locais, duramente perseguidos.

Ele foi encorajado nessa empresa pelo Imperador bizantino Anastácio. Os francos tomaram posse do reino visigótico até os Pireneus e o rio Rhone.

Ao norte da Gália, o rei dos francos foi se assenhorando, nem sempre por métodos lícitos, dos outros reinos francos que existiam ao lado do seu. Como Clóvis era aparentado a esses reis, foi em parte por direito de sucessão, em parte por aclamação popular, que ele se tornou soberano único de quase toda a Gália.

Clovis I, gissant em Saint Denis, ParisO papel da Igreja na formação do reino franco

Tornando-se senhor de um grande reino, Clóvis mudou sua capital para Paris. Administrava suas várias províncias através de condes, seus representantes, e formou uma aristocracia composta de francos e galo-romanos. Ordenou que fosse posta por escrito a Lei Sálica.

"Foi sobretudo graças à sua conduta em relação à Igreja que Clóvis pôde estender tão facilmente seu poder sobre a Gália. Mesmo antes de sua conversão, ele mantinha relações com São Remígio e Santa Genoveva; e em seguida encontra-se perto dele São Avito, enquanto mantém relações com os bispos católicos dos reinos arianos"5.

Clóvis faleceu repentinamente com 45 anos de idade, tendo sido sepultado na cripta da igreja de Santa Genoveva, que ele havia construído. Lá permaneceu seu sarcófago até que os revolucionários, durante a Revolução Francesa, o quebraram e espalharam suas cinzas, destruindo também o belo santuário.

O rei franco deixou a seus quatro filhos um reino que antes não fora senão retalhos esparsos. Estava assentada a base da futura França, onde se reunira "a cultura romana e seu dom de organização, o ardor e a mobilidade dos célticos, a força e profundidade germânicas"6 .

Notas:
1.Juan Bautista Weiss, Historia Universal, Tipografia La Educación, Barcelona, 1927, tomo IV, p. 378.
2.Godefroid Kurth, in The Catholic Encyclopedia, Robert Appleton Company, 1908, Online Edition by Kevin Knight, verbete Clovis.
3.Pe. A. Boulenger, Histoire de l'Église, Librairie Catholique Emmanuel Vitte, Paris, 1925, p. 157.
4."A nobilíssima nação francesa [...] tendo abraçado o Cristianismo pela iniciativa de seu Rei, Clóvis, foi galardoada com o mais honrável testemunho de sua fé e piedade com o título de `filha primogênita da Igreja". (Papa Leão XIII, Carta Encíclica "Nobilissima Gallorum Gens", sobre as questões religiosas na França, promulgada a 8 de fevereiro de 1884).
5.C. Bayet, La Grande Encyclopédie, Société Anonyme de la Grande Encyclopédie, Paris, tomo XI, verbete Clovis, p. 720.
6.Juan Bautista Weiss, op. cit., p. 392.


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sábado, 25 de abril de 2009

São Nuno Álvares Pereira: canonizado herói de Portugal

Dom Nuno Álvares Pereira reuniu em si o conjunto de virtudes e predicados que fazem dele o arquétipo de qualquer cristão.

Frei Nuno de Santa Maria — seu nome religioso — é um personagem indivisível, e como tal deve ser visto.

Sobre este homem pousou, desde cedo, a mão da Providência. A sua vida foi uma sucessão contínua de prodígios e de lutas; e as suas ações, quer como condestável dos exércitos, quer como grande esmoler, foram aureoladas pela glória e humildade.

Corria o ano de 1360. Na festa de São João Batista, a 24 de junho, nasceu ele em Cernache do Bonjardim (140 quilômetros a norte de Lisboa), recebendo no Batismo o nome de Nuno. Descendia por ambos os lados da mais alta nobreza de Portugal.

Com tenra idade, como era hábito naquele tempo, foi viver entre cavaleiros e escudeiros. Os grandes feitos da cavalaria medieval povoavam os horizontes dos jovens da época. A Crônica do Condestável está repleta desses relatos.

Recebera em casa uma esmerada educação e sólida formação cristã. Ambas, aliadas à retidão de alma de Nuno, produziram efeitos duradouros que hoje nimbam a imagem do Condestável, cujo culto universal a Igreja Católica legitimará com a sua canonização.

Aos 13 anos acompanha o pai à Corte, que se achava em Santarém, uma vez que Henrique II de Castela invadira Portugal e marchava sobre Lisboa. Ele e o irmão Diogo recebem do Rei Dom Fernando de Portugal a ordem de colher informações sobre os invasores.

Desincumbem-se da tarefa com brilho. Dom Fernando toma Diogo para seu serviço, e Nuno, a quem foram dispensadas as cerimônias de praxe, é logo ali armado cavaleiro. Começa então a sua carreira de armas, e talvez seja esta a faceta mais incompreendida do Condestável para o homem contemporâneo, intoxicado que está pelos miasmas do pacifismo.

Nuno Álvares seguiu estritamente os princípios da cavalaria medieval — defender a fé, servir o rei e a honra das mulheres, estender a mão aos oprimidos. Fez sempre uso ponderado das armas, e nisso residia a razão da sua força. A procura da justiça era, para o santo Condestável, o fim último.

A crise que desembocará na batalha de Aljubarrota, na qual o gênio militar de Nuno Álvares resplandece, começa a emergir.

Entram em foco questões dinásticas delicadas, para além do fato de que, embora o Rei Dom Fernando tivesse obtido uma reconciliação de circunstância com o rei de Castela, contra quem guerreara, as desconfianças mútuas não se tinham dissipado e a situação ficara mal resolvida. Uma forte noção de identidade ia tomando conta de Portugal perante a ameaça castelhana, como se pode depreender dos escritos do cronista Fernão Lopes.

Paralelamente a esses acontecimentos emergira, em 1378, o tristemente célebre cisma do Ocidente. Em Portugal, o povo e o clero mantiveram-se fiéis ao Pontífice Romano, representante da legítima sucessão apostólica. Os castelhanos, no entanto, apoiaram o Papa de Avinhão, denominado “anti-papa”. Uma nova vertente, a religiosa, soma-se assim à crise. Na época, lutar contra os castelhanos torna-se a defesa do verdadeiro Papa contra os cismáticos.

Dom Nuno Álvares, pressentindo a ocupação próxima do trono de Portugal pelo rei de Castela, pôs-se a caminho de Lisboa acompanhado dos seus escudeiros. A morte em fins de 1383 do Conde Andeiro, amante de Dona Leonor Teles, precipita os acontecimentos.

Assume então o Mestre de Aviz, Dom João, Regedor e Defensor do Reino. Ao formar o seu Conselho de Governo, chama Nuno Álvares a tomar parte. Nas províncias, a insurreição vai ganhando terreno. Lisboa é cercada pelo rei de Castela. A sublevação estende-se a todo o Reino.

Dom João, Mestre de Aviz, envia o Condestável para defender as fronteiras no Alentejo. Com apenas 24 anos, derrota os invasores na batalha de Atoleiros, a 6 de abril de 1384. Ali agradece a Deus e à Santíssima Virgem por ajudarem no estabelecimento da justiça, “porque todo o vencimento é em Deus, e não nos homens”.

Em setembro de 1384 é levantado o cerco de Lisboa. Em Coimbra, as Cortes reúnem-se em abril-maio de 1385 para pôr cobro à questão dinástica. Dom João I é aclamado rei por unanimidade. Nuno Álvares é nomeado Condestável, chefe supremo do exército português. Contudo, o mais difícil ainda não chegara. O exército castelhano, agora bem apetrechado de homens e armas, vem tomar desforra.

Era domingo, 13 de agosto de 1385. O Condestável faz o reconhecimento do terreno, perto de Aljubarrota (20 quilômetros a sul da cidade de Leiria), ouve missa e comunga, depois retira-se em oração.

A batalha dá-se na véspera da festa da Assunção de Nossa Senhora, dia 14. Segundo os cronistas, do lado português estão, juntamente com os arqueiros ingleses, 7.700 homens; do lado castelhano são mais de 30.000. Ainda de acordo com os cronistas, mal despontara a aurora, iniciam-se os combates da batalha de Aljubarrota, que foi fulminante, tendo o exército castelhano deixado o solo juncado de mortos e feridos.


O Condestável respeitou as regras da cavalaria e permaneceu três dias à espera do exército invasor. Decorreram 26 anos até a assinatura do tratado de paz, em 1411. Ainda no rescaldo de Aljubarrota, travou-se a batalha de Valverde, nas proximidades de Mérida, em outubro de 1385, onde os castelhanos sofreram nova derrota.

Como penhor de gratidão pela vitória em Aljubarrota, Dom João I e o Condestável mandam construir um mosteiro em honra de Santa Maria da Vitória, mais conhecido como Mosteiro da Batalha, preciosa jóia da arquitetura gótica flamejante e um dos mais belos complexos monacais da Europa. .

Tendo entrado cedo na carreira das armas, logo após, aos 16 anos, Nuno Álvares contrai núpcias com Dona Leonor Alvim. Desse casamento, interrompido prematuramente pela morte da mulher, nasceu Dona Beatriz, que se casou com o 1º Duque de Bragança, filho bastardo de Dom João I. Pelo grande dote que deu à filha para o enlace matrimonial, é considerado o fundador da Sereníssima Casa de Bragança, cujos reis reinaram em Portugal de 1640 a 1910; e no Brasil independente, de 1822 a 1889.

A faceta de chefe militar do Condestável vai chegar até África, onde desembarca com os exércitos do rei na decisiva tomada de Ceuta, em 1415.

Entre os períodos de paz que se seguiram, Nuno Álvares dedica-se à edificação e restauro de igrejas e capelas por todo o Reino. Fidalgo de muitos haveres, vai distribuindo pelos seus próximos e pelos pobres os bens que acumulara nesta Terra.

Na sua longa vida de soldado, jamais permitiu que os seus comandados ofendessem ou profanassem templos cristãos, ultrajassem os sacramentos ou pilhassem os bens da Igreja. A sua retidão, em matéria muito sensível, era tão direita quanto o fio duma espada.

No entanto, sobre esta alma de eleição parecia ecoar a voz do Salmista (60, 2-3): “Escutai, ó Deus, o meu clamor, atendei a minha oração. […] Dos confins da Terra grito por Vós, com o meu coração desfalecido”. Consciente de que esta vida não é senão uma preparação para a outra, que é a das bem-aventuranças eternas, Nuno Álvares vai recolher-se no convento do Carmo, em 1423.

A procura da transcendência e do Absoluto, que é o nosso Deus Uno e Trino, encherá a sua alma sedenta até o último suspiro. Professará como irmão carmelita e se tornará o paladino da autêntica caridade cristã, distribuindo esmolas e ajudando os mais necessitados.

Em 1431, com 71 anos incompletos, entrega a sua alma ao Redentor. Na igreja do Carmo, sobre a campa rasa, lia-se em latim: “Aqui repousa aquele Nuno, Condestável, fundador da Casa de Bragança, chefe militar exímio, depois monge bem-aventurado, o qual, sendo vivo, desejou tanto o Reino do Céu que mereceu, depois da morte, viver eternamente na companhia dos santos; pois, de seguida a numerosas recompensas, desprezou as pompas e, fazendo-se humilde, de príncipe que era, fundou, ornou e dotou este templo”.

Depois de muitos percalços históricos, sobretudo devido ao terremoto de 1755, que devastou Lisboa e a igreja do Carmo, os seus restos mortais repousam, desde 1951, na igreja do Santo Condestável na capital portuguesa.

Nuno Álvares Pereira, santo Condestável, Frei Nuno de Santa Maria –– três nomes, três facetas de um só homem.

Beatificado por Bento XV em janeiro de 1918, será canonizado por Bento XVI em 26 de abril de 2009. Para a Ordem Carmelita, é mais uma estrela que brilhará na constelação dos santos que honram os seus altares.

(Fonte: José Narciso Barbosa Soares; "Catolicismo", abril de 2009)

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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Santa Clotilde obteve a conversão da França

Santa Clotilde, jardim do Luxembourg, Paris
Santa Clotilde: esposa apostólica

Aconselhado pelos bispos católicos, Clóvis, rei dos Francos, pediu a mão da princesa Clotilde, sobrinha do rei Borguinhão, o qual havia assassinado os próprios pais para apoderar-se do trono.

Segundo uma tradição, o rei havia dado seu consentimento, mas depois arrependeu-se e mandou uma escolta atrás de Clotilde. Esta, entretanto, conseguiu chegar ilesa até a fronteira franca, onde Clóvis a aguardava.

Esse casamento foi providencial, pois tanto o rei borguinhão quanto o dos visigodos eram arianos e oprimiam seus súditos, que eram na maioria católicos. Ora, Clotilde mantivera-se fiel filha da Igreja, e começou a trabalhar junto a seu marido para convertê-lo à verdadeira fé.

Santa Clotilde, igreja de Saint Germain l'Auxerrois, ParisA conversão de Clóvis

Entretanto a graça ia trabalhando a alma de Clóvis. Em 496, durante a batalha de Tolbiac contra os alamanes, o rei franco viu que seu exército estava a ponto de ser aniquilado. Lembrou-se então do "Deus de Clotilde".

Ajoelhou-se e, com os braços para o céu, prometeu a Jesus Cristo que, se Este lhe concedesse a vitória, nEle creria. Imediatamente a batalha tomou outro rumo, e os alamanes foram derrotados.

A rogos de Santa Clotilde, São Remígio encarregou-se de instruir Clóvis e seus francos na fé católica.

Contam as crônicas que, quando o santo Arcebispo narrava a Paixão de Cristo àqueles bárbaros, Clóvis ficava indignado com as sevícias que infligiram ao Salvador e, batendo com sua lança no solo, exclamava: "Ah! Por que não estava eu lá com os meus francos!".

No dia de Natal de 496 foi celebrado solenemente o batismo do rei franco, de sua irmã, e de três mil de seus guerreiros.

Todo o caminho até a catedral de Reims estava engalanado com flores e florões. O templo sagrado, ricamente adornado, brilhava à luz de uma infinidade de velas em meio a nuvens de incenso.

O rei bárbaro, emocionado, perguntou a São Remígio: "Santo Padre, é este o Céu?"

Batismo de Clovis, ReimsNo momento em que o batizava, disse São Remígio as célebres palavras: "Curva a cabeça, sicambro [um dos nomes dados aos francos]; ama o que queimaste, e queima o que adoraste".

Em seguida dar-se-ia a sagração do rei. Em meio à multidão que lotava a igreja, não era possível ir buscar o óleo na sacristia. Então surgiu no ar uma bela pomba branca, trazendo no bico uma ampola de óleo. Essa ampola serviu depois para a sagração de todos os reis franceses até Luís XVI, e só foi quebrada pelo deputado Rommé durante a malfadada Revolução Francesa.

Uma alma piedosa extraiu óleo da ampola antes desse crime sacrílego. Com esse óleo foi reconstituído o bálsamo sagrado e utilizado na sagração do último rei legítimo Luis XVIII.


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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Don Pelayo e a confiança nas vitórias inverossímeis

Don Pelayo em Covadonga, gravura do século XIX
Em 711 os árabes muçulmanos invadem a Península Ibérica. Enfrentando-os perde a vida o rei visigodo Dom Rodrigo no campo de Guadalete. Reagirá contra o domínio infiel o nobre Dom Pelayo, colocando-se à frente de um grupo de valorosos asturianos.

Preparando-se os árabes, já em Espanha, para invadir a Gália gótica, tiveram notícia da revolta das Astúrias e enviaram contra esses revoltosos um exército bem preparado sob o comando do general Alcamar.

Don Pelayo preparou a resistência no monte Alzeba, onde os desfiladeiros tornavam possível uma reação por parte dos cristãos, em número realmente inferior aos atacantes. Organiza seus homens e enquanto esperava dirigiu-se à Gruta de Covadonga para onde levara uma imagem da Santíssima Virgem, colocando-se sob a Sua proteção especial.


Gruta de CovadongaAproximam-se os Mouros e atacam. Já num primeiro momento algo de extraordinário acontece. As flechas enviadas contra os cristãos voltaram-se contra os próprios arqueiros infiéis.

Avançaram os cristãos para lutar enquanto outros atiram do alto da montanha Alzeba sobre as tropas inimigas, encurraladas no desfiladeiro, pedras e pedaços de madeiras.

A desordem inicia-se nas tropas de Alcamar, que ao ver cair morto seu lugar tenente Suleiman, deu ordem de retirada.
Neste momento desaba tremenda tempestade; o estampido dos trovões, a chuva que cai em catadupas, as pedras e as árvores que de todos os lados caíam sobre os árabes, o solo, que com a chuva se tornava escorregadio e movediço fazendo resvalarem e caírem por aqueles declives, precipitando-os em montão nas águas do rio Deba, onde morriam afogados.

Tudo contribuía para crer que a Santíssima Virgem fazia com se desmoronassem até os montes sobre os soldados de Mafoma.

A batalha foi ganha e Pelayo proclamado rei das Astúrias.
Em agradecimento à intercessão milagrosa de Nossa Senhora, o Rei Afonso católico mandou erigir um Mosteiro e uma capela a Nossa Senhora de Covadonga, hoje substituídos por grande Basílica.

Os historiadores árabes também se referem à batalha com um verdadeiro assombro contra a vitória cristã, escondendo inclusive haver sido horrível a mortandade do lado muçulmano".


Os espanhóis estavam quase completamente perdidos. Eles não desanimaram. Eles fizeram o possível para ganhar, embora a vitória fosse impossível. Eu insisto: "fazer o possível para ganhar uma vitória impossível".

Nossa Senhora de Covadonga, grutaEles foram num lugar onde os desfiladeiros propiciavam uma reação. Nesse lugar, colocaram sua base de operações numa gruta que era boa. Eles lutaram com verdadeira ferocidade contra o agressor, foram heróis para conseguir algo impossível.

Como essa finalidade era humanamente inatingível, eles fizeram o principal: levaram uma imagem de Nossa Senhora para a gruta e pediram a Ela que os protegesse e ganhasse a vitória para eles.

Então houve milagres que se multiplicaram: as pedras que caiam e que rolavam sobre os mouros, as flechas jogadas sobre eles voltavam-se sobre os; uma tempestade tremenda aterrorizou os maometanos pelos trovões, movimento das terras e das águas ...

Nossa Senhora venceu de um modo admirável em Covadonga. Ela exigiu tudo de seus soldados para uma batalha impossível, e Ela ganhou para eles a batalha.

Qual é o ensinamento para nós?

Há um modo desanimado e infrutuoso de fazer apostolado que se disfarça de “apostolado sensato”.

“Ser idealista... bom... Sabe de uma coisa? Eu às vezes até admiro a virtude desses católicos autênticos, intransigentes. Mas... assim não se consegue nada. A vida é assim... É tão difícil conseguir um bom resultado... Bem, eu não digo isso... Se eu dizer, não fica bem... Então eu não brigo, mas fico achando que o apostolado não dá certo, é meio irreal”...

Se aqueles espanhóis tivessem pensado assim, hoje não haveria Espanha.

Quer dizer, Nossa Senhora quer que seu devoto empreenda os inverossímeis, que ele deseje coisas que o bom senso que dá Providência indica que Ela quer. Então, confiando no que Ela quer, ele se atira no inverossímil, sabendo sobretudo que para Nossa Senhora nada é inverossímil.

Nossa Senhora é por excelência a Mãe dos inverossímeis, Ela consegue as graças que pareciam impossíveis conseguir.

Don Pelayo, estatua em GijonHavia uma diferença entre os espanhóis de Don Pelayo e os espanhóis que perderam a Espanha. Os mouros tomaram conta da Espanha rapidamente porque enfrentaram espanhóis desanimados e com pouca fé. Eram espanhóis que não valia a pena resistir. Estes perderam tudo.

Quais foram os espanhóis que ganharam tudo? Exatamente aqueles que tinham o senso sobrenatural, a confiança na Providência.

Se um Dom Pelayo tivesse que ler um livro que o incitasse a lutar até o fim e esperar contra toda a esperança, ele leria o Livro da Confiança, do Pe Saint-Laurent.

Então, conseqüência? Pedir a Nossa Senhora a graça de nunca duvidar de que alcançaremos o que Ela quer. Nossa Senhora nos dará a vitória!

Que Nossa Senhora faça com os restos de bons católicos uma espécie de Covadonga para a vitória da Santa Igreja.


Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, dezembro de 1965, sem revisão do autor.

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quarta-feira, 18 de março de 2009

Santo Estevão, a monarquia apostólica da Hungria e o Reinado de Nossa Senhora


Santo Estevão Confessor (967-1038), rei e apóstolo da Hungria, (inglês, Enciclopedia Católica, espanhol).

A oração da post-comunio na missa diz que o zelo do rei em “propagar e fortalecer a fé do país lhe valeu a realeza celeste”.

Ele instituiu Nossa Senhora como padroeira da Hungria.

Faleceu em 1038, no dia da Grande Senhora, denominação, em virtude de um edito do santo rei, que os Húngaros dão a Nossa Senhora.

Foi pai de Santo Américo (1007-1031), príncipe modelo de pureza habitualmente representado portando couraça e um lírio na mão. Os dois santos ‒ pai e filho ‒ foram canonizados pelo Papa São Gregório VII em 1083.

Santo Estevão foi o fundador da civilização cristã na Hungria e apóstolo do seu povo. Como guerreiro enfrentou os adversários da fé de espada na mão.

Como instituidor da monarquia apostólica da Hungria é aludido na oração: “Seu zelo em propagar e fortalecer a fé do país lhe valeu a realeza celeste”.

Inúmeros santos tiveram zelo, uns como oradores, outros como missionários, apóstolos da caridade, etc.

Santo Estevão teve zelo de um modo especial também. Qual?

Ele foi um rei e senhor natural do povo. Foi escolhido por Deus para levar esse povo para Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa é uma obra própria da autoridade temporal, que deve apoiar o esforço da Igreja para levar as almas para Deus.

Ele realizou essa tarefa própria do governo temporal de um modo exímio, porque para Deus ele levou a sua nação inteira.

Ele pertence à classe de reis que convertem e fundam civilizações e que representam um capítulo especial nas vidas dos santos.

Pelo fato de ter usado a realeza para converter seu povo, ele recebeu do Papa Silvestre II o título de Rei Apostólico, que depois todos os reis da Hungria usaram, até o último.

O título da realeza apostólica importa acentuar. A monarquia húngara já preexistia à sua conversão. Mas, ele operando a conversão do povo húngaro, por assim dizer, fundou de novo o povo magiar.

Pode-se dizer também, que ele refundou a própria monarquia porque ela nasceu para uma nova vida no próprio ato de conversão.

O rei foi constituído em rei apostólico, por causa desse ato de apostolado. E enquanto rei apostólico ganhou a missão de continuar naquelas paragens a obra da expansão da Igreja, da defesa contra os turcos, em todas as circunstâncias e todas as necessidades que a Igreja naquela parte central da Europa.

O caráter de rei apostólico conferiu à dinastia uma vocação especial. E com esta vocação especial uma graça especial. E com esta graça especial uma aliança de Deus com a família real.

Essa aliança sustentou a missão da família enquanto as infidelidades não fossem tais que Deus fizesse com esta família o que fez com Saul. Quer dizer, toca para fora, e pega um outro.

Ficou então na monarquia húngara algo de sagrado, como que um carisma, como que uma graça sobrenatural que a cerca, e que enche de respeito os povos.

A força desse carisma se nota muito na fidelidade dos húngaros à realeza e no prestígio da coroa usada por Santo Estevão.

Os húngaros cultuam essa coroa como uma verdadeira relíquia. Quando vieram os comunistas, essa coroa ficou escondida. Os comunistas queriam ter a coroa, porque para os húngaros a detenção da coroa equivale, até certo ponto, à própria detenção do poder.

Por que esse prestígio e esse respeito a essa coroa? É algo de carismático que cerca a coroa e que cerca a dinastia, que se continua e que é exatamente o fruto dessa aliança.

É uma infusão de graças na instituição ligada à infusão de graças na família. E que determina então a respeitabilidade sagrada de uma determinada ordem de coisas.

O que pedir a santo Estevão? Pedir-lhe, em última análise, o Reino de Maria. Porque o que ele fez foi um Reino de Maria na Hungria. Ele consagrou a Hungria à Grande Senhora.

É a restauração do Reino de Maria por toda parte que nós devemos querer. O Reino de Maria na ordem espiritual, e o Reino de Maria na ordem temporal.

Pedir mais do que isto: que a Providência nos dê uma multidão de Estevãos que, de fato, promovam o Reino de Maria.

Plinio Corrêa de Oliveira, palestra em 2.9.1964, sem revisão do autor.

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quarta-feira, 4 de março de 2009

Balduino, conde de Flandes: força contagiante para a boa mudança de costumes


Uma manifestação da força contagiante do exemplo para mudar os costumes e a vida é o caso de um certo Balduino, conde de Flandres, por volta do ano de 1200.

Esse Balduíno tinha sido muito religioso desde menino. Mas quando chegou a época da mocidade, teve extravios.

E, além do mais, entrou em luta contra a Igreja e parece que se apoderou de alguma coisa que era da Igreja.

Mas apesar disso, ele remediou os desvios de sua vida.

Com a reflexão, ele caiu em si a respeito da gravidade de seus pecados. Tornou-se, então, universalmente estimado em todos os seus feudos e era verdadeiramente a glória da Flandres.

Caindo em si, entendeu que devia fazer uma grande mortificação. E essa mortificação consistiria em ele se fazer cruzado, declarando que a razão era a expiação de seus pecados de juventude. Que ele iria tomar a cruz.

O que não era nada agradável. Era ir montado a cavalo, ou por vias marítimas bastante inseguras, para combater e, muitas vezes, morrer na Terra Santa.

Então, a condessa de Flandres se empolgou e declarou que iria acompanhar seu marido e ir também à Terra. Dois irmãos de Balduino se impressionaram e resolveram acompanhá-los. Um primo resolveu também.

Um conhecido deles, fidalgo de uma grande família francesa, famosa por sua eloqüência, resolveu acompanhá-lo também; um filho deste fidalgo, que era Jacques d'Ouverne, célebre por seu heroísmo numa Cruzada anterior, resolveu tomar a cruz também.

Então, a população toda também se levantou.

O bonito ato de penitência de um homem arrebatou e determinou a modificação da conduta de uma porção de pessoas. E uma avalanche de gente foi para tomar a cruz.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Dom Sebastião, um rei virgem capaz de ressuscitar a Idade Média agonizante


Dom Sebastião (1554-1578), rei de Portugal, foi com certeza uma figura da trans-esfera. Desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, no norte da África, e julgou-se que haveria de voltar a qualquer momento, para continuar sua missão histórica.

“Para mim, o homem símbolo de Portugal é um nome que nunca pronuncio sem emoção, porque tenho a impressão de que sobre ele pousaram todas as graças para as quais Portugal era chamado: Dom Sebastião.

“Dom Sebastião tem aspectos por onde ele parece mais um anjo do que um homem.

“Qual é a figura que se encontra na História que, morta, deixa atrás de si uma lenda como a sebastianista?

“Os portugueses entenderam, nebulosamente, que aquilo não podia terminar assim, e ficou uma esperança de pé, de algo que viria, e que — por falta de expressão talvez — eles cometeram o erro de dizer que era Dom Sebastião que voltaria.

Mas era a confiança de que a obra começada com Dom Sebastião não terminaria e um dia recomeçaria.

“Portugal teve a nobreza de reconhecer em Dom Sebastião, o rei de seus sonhos.

“Como todas as outras nações da Europa, Portugal já começava a ser carunchado pelo Renascimento.

“Mas algo de fundamentalmente anti-renascentista florescia lá. E quando esse rei voltasse da África, com sua fronte aureolada pela glória de não sei quantas vitórias, depois de ter estendido o poder de Portugal pelo norte da África, no zênite da Europa brilharia um príncipe medieval.

“A honra da Cavalaria agonizante refulgiria de novo; a tese de que o poder temporal existe para o serviço do poder espiritual, resplandeceria de novo, e diante de um tipo humano magnífico empalideceriam os tipos humanos conspurcados que a Renascença aplaudia.

“Em Alcácer-Quibir havia um rei virgem, um modelo do varão católico, um modelo capaz de ressuscitar a Idade Média agonizante. Esse homem morre no desconhecido.

“Os portugueses sonharam com Dom Sebastião, mas para Portugal veio algo de incomparabilíssimamente mais alto: veio Nossa Senhora. Não veio o rei virgem, mas veio a Virgem das virgens.

“E assim como Portugal deveria ter dado, no tempo da Renascença, na pessoa de Dom Sebastião, uma mensagem ao mundo, Nossa Senhora, tomando o território português como trono, deu ao mundo aquela mensagem [aos pastorinhos de Fátima], que não era de saudades, mas uma mensagem de advertência, uma mensagem de increpação, uma mensagem de esperança.

“Uma mensagem seguida de mistério, como está acompanhado de mistério aquilo que poderíamos chamar o mito de Dom Sebastião.

“Mistério: uma Rainha que desce dos céus, uma esperança que é excedida além do limite de toda esperança, isso tudo constituiu o pontilhado que vai entre a morte de Dom Sebastião e o aparecimento de Nossa Senhora em Fátima”.

Fonte: “A inocência primeva e a contemplação sacral do universo no pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira”, Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, São Paulo, 2008.


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