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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

São Bonifácio, Apóstolo da Alemanha

São Bonifácio, estátua em Mainz, Alemanha

Plinio Maria Solimeo
 
“Passara-se apenas um século desde que os discípulos de São Gregório Magno haviam desembarcado na Inglaterra, e já a ilha dos piratas convertera-se em ‘ilha dos santos’. Havia santos reis, virgens inflamadas no amor de Cristo, ascetas que deixavam atrás os solitários da Tebaida, sábios monges e figuras magníficas de bispos. Havia, sobretudo, apóstolos. O fogo do apostolado consumia os novos convertidos, e os empurrava longe de sua terra”.(1) 
São Bonifácio foi uma dessas almas de fogo cujo espírito apostólico o levou a deixar a Inglaterra para tornar-se o Apóstolo da Alemanha.

Winfrido, nome que recebeu no batismo, nasceu por volta do ano de 680 em Kirton, no Devonshire (Inglaterra). Seus pais eram de origem saxônica e desfrutavam de boa posição social. Não sabemos se tiveram outros filhos.

Quando Winfrido contava apenas cinco anos de idade, viu na casa paterna alguns religiosos que pregavam na região. Pediu então ao pai licença para segui-los ao seu mosteiro.

Tomando o pedido como fantasia de criança, o pai não deu ouvidos. Acontece que Winfrido levava a coisa a sério e continuava a insistir com o pai. Este, atacado por repentina doença que o pôs às portas da morte, viu finalmente nisso a mão de Deus, que o castigava por sua negativa ao filho.

Mandou então o menino aos sete anos de idade – o que não era raro na época – como interno para o mosteiro beneditino de Adescancastre, hoje Exeter. Lá ele passou 13 anos, após os quais foi transferido para o mosteiro de Nursling, na diocese de Winchester.
“Aí, levando uma vida austera e estudiosa sob a direção do abade Winbert, ele fez rapidamente progressos na santidade e no saber, sobressaindo-se especialmente num profundo conhecimento das Escrituras, o qual ele evidencia em suas cartas. Era também bem versado em história, gramática, retórica e poesia”.(2)

Aos 30 anos foi ordenado sacerdote.

Winfrido tornou-se professor famoso, sendo também ótimo monge. Por isso seus irmãos de hábito o escolheram para seu abade.

Entretanto, apesar da possibilidade de fazer uma grande carreira, angariando as mais altas dignidades em seu próprio país, ele não visava as glórias humanas; queria levar a luz da fé aos seus antepassados saxões da Alemanha.

Depois de vários pedidos ao seu superior, obteve finalmente a permissão de seguir seu chamado.

Homem estuante de piedoso zelo
“Piedosos desejos de teu zelo inflamado em Cristo”
“Havia então duas Alemanhas: a Germânia ‘bárbara’, formada pela Frísia e pela Saxônia; e a Germânia ‘romana’, englobando a Renânia, a Turíngia, a Baviera, a Vestefália, o Vurtemberg e o Hesse. A primeira tinha ficado pagã; a segunda, exceto em alguns locais, tinha também voltado a ser” (3) por falta de missionários que mantivessem acesa a luz da fé.

Foi em 716 que Winfrido chegou a Utrech, na Frísia (agora província de Friesland, na Holanda). Essa região já havia sido evangelizada pelos santos ingleses Wigbert, Willibrord, e outros.

Mas o duque Radbod, pagão convicto, perseguia os cristãos, o que tornavam inúteis os trabalhos de Winfrido, que voltou então para a Inglaterra.

Três anos depois, munido de cartas de recomendação do bispo de Winchester, o missionário partiu para Roma, onde foi benevolamente recebido pelo papa Gregório II.

No dia 15 de maio de 719, após haver testado sua fé, sua virtude e sua pureza de intenção, o Papa nomeou-o missionário apostólico, e deu-lhe uma carta na qual dizia:
“Os piedosos desejos de teu zelo inflamado em Cristo, e as provas que me deste de tua fé, exigem que te chamemos a participar de nosso ministério para a dispensação da palavra divina. Sabendo que, desde a infância, estudaste as Sagradas Letras, te ordenamos que leves o reino de Deus a todas as nações infiéis que encontres em teu caminho, e que, no espírito de virtude, de amor e de sobriedade, derrames nas almas incultas a pregação dos dois Testamentos”.(4)

O Pontífice deu-lhe também cartas de recomendação para os príncipes cristãos que encontrasse no caminho.

Gregório II denominou-o Bonifácio

De volta à Alemanha, passando pela Baviera, Winfrido chegou até a Turíngia, onde reformou alguns membros do clero que tinham caído em sérios desregramentos de costumes. Sabendo então da morte do duque Radbod, resolveu voltar à Frigia, pondo-se às ordens de São Willibrord.

Este, sentindo-se já muito idoso, quis torná-lo seu coadjutor. Mas ele se opôs, alegando que tinha ido para trabalhar como missionário.

Três anos depois, Winfrido percorreu de novo a Turíngia e o Hesse, que as armas de Carlos Martel lhe haviam aberto.

Em 723 foi novamente a Roma, a fim de apresentar ao Papa o fruto de seus labores e consultá-lo sobre as dificuldades que haviam surgido em sua missão. Gregório II consagrou-o então bispo de todas as terras setentrionais.

Foi nessa ocasião que, segundo a maioria dos historiadores, o Sumo Pontífice mudou seu nome para Bonifácio.(5)

Abate-se um falso deus, o carvalho de Tor

São Bonifácio derruba a árvore estultamente cultuada pelos pagãos
Voltando para seu campo de batalha, São Bonifácio resolveu dar um golpe de morte no paganismo derrubando o “carvalho de Tor”, um enorme carvalho que se alçava no meio do campo de Geismar e que era venerado como deus pelos pagãos da região.

Os idólatras ameaçavam massacrar o missionário, mas este não se atemorizou: aos primeiros golpes de machado, um violento vendaval arrancou a árvore até às raízes. Muitos dos que presenciaram o fato se converteram.

São Bonifácio fez construir no local uma capela com a madeira do ídolo abatido, que foi a primeira igreja na região.

O número dos fiéis aumentava, novas igrejas surgiam, acudiam catecúmenos e o missionário começou a sentir necessidade de outros colaboradores.

Dirigindo seu olhar para a Inglaterra, escreveu a bispos, abades e abadessas, comunicando sua penúria e a insuficiência de sacerdotes para atender a todo seu apostolado.

Pediu também ornamentos sacerdotais, sinos e livros. Os mosteiros anglo-saxões responderam com grande generosidade, e aos poucos chegaram muitos discípulos entusiasmados com o trabalho apostólico.

Vieram também algumas mulheres, virgens e viúvas, para tomar parte no labor. São Bonifácio colocou-as à frente dos novos mosteiros femininos que havia fundado.

Entretanto, não bastava converter aquele povo, sempre disposto a voltar para seus falsos deuses; era preciso arrancar de seu coração as raízes do paganismo.

Para isto São Bonifácio organizou uma hierarquia episcopal, enviou seus discípulos a várias regiões e fundou os grandes mosteiros, que deveriam ser
“núcleos de vida estável e civilizada, refúgio dos operários evangélicos, focos de cultura, granjas agrícolas, pontos estratégicos daquela conquista espiritual, sementeiras, escolas e organismos industriais”.(6)

Simplicidade e muita eloquência

São Bonifácio era sumamente eloquente em sua simplicidade. Com poucas palavras, resumia com clareza os mistérios cristãos. Pelo que dizia aos recém-batizados, percebemos quais eram os problemas que enfrentava:
“Escutai, meus irmãos, e meditai atentamente no que acabais de abjurar no batismo. Haveis renunciado ao demônio, às suas obras e às suas pompas. Quais são as obras do demônio?

“São o orgulho, a idolatria, o homicídio, a calúnia, o ódio, o perjúrio, a fornicação, o adultério e tudo o que mancha o homem. São o roubo, a embriaguez, o falso testemunho, as palavras vergonhosas, as querelas; são os sortilégios, as feitiçarias, a crença nos magos, nos homens lobos e no poder dos amuletos”.(7)

No ano de 738 São Bonifácio fez sua terceira viagem a Roma, a fim de conferir seu trabalho com o Papa. Desta vez foi acompanhado por uma multidão de francos, bávaros e anglo-saxões, que não quiseram separar-se dele.

Gregório II havia falecido e subira ao trono pontifício Gregório III, que o acolheu com bondade dando-lhe amplos poderes e cartas para os príncipes e bispos em seu campo de apostolado. Deu-lhe também faculdade para reformar, organizar e reconstituir a hierarquia nas terras sujeitas aos francos.
São Bonifácio “começa sua obra com a mesma atividade que exerceu quando tinha 30 anos. Passa da Franconia à Baviera, da Austrásia à Neustria: reúne concílios em Septines, em Soissons, em Salzburgo. Cria novas províncias eclesiásticas; depõe bispos em concubinato, degrada sacerdotes intrusos, proíbe aos clérigos o traje laico, a companhia de mulheres, o uso de armas, das matilhas e dos falcões.”(8)

Em 747 o Papa Zacarias – que havia sucedido a Gregório III – nomeia-o arcebispo de Mainz, Primaz de toda a Alemanha e legado pontifício na Germânia e nas Gálias.

Martírio de São Bonifácio
Nessa qualidade, em 752, ele sagra Pepino, o Breve como rei dos Francos, dando assim origem à dinastia dos Carolíngios, denominação esta que provém do filho desse rei, o grande Carlos Magno.

Evangelizador e apóstolo completo

Finalmente, no ano de 754, São Bonifácio deveria promover o crisma de grande número de conversos perto da cidade de Dockum, nas margens do rio Burda. Haviam construído um pavilhão na campina, onde estava o altar com todo o necessário para o crisma e a celebração do Santo Sacrifício.

Entretanto, além dos catecúmenos, começaram a aparecer guerreiros pagãos armados de lanças e escudos. Em determinado momento estes se precipitaram sobre os cristãos, que estavam desarmados, matando muitos deles sem piedade.

São Bonifácio estava com um livro dos Evangelhos nas mãos quando foi martirizado. Embora os infiéis tenham perfurado o livro com uma lança, não danificaram uma só letra, o que foi considerado milagroso.

Os bárbaros se precipitaram depois nas tendas, mas em vez de ouro ou prata, encontraram apenas relíquias, livros e o vinho reservado para a Missa.

Irritados com a esterilidade de sua pilhagem, embebedaram-se e começaram a lutar entre si. Então os cristãos que restaram se armaram e exterminaram esses pagãos homicidas.
“São Bonifácio é apóstolo completo: não lhe faltou nem o heroísmo do mártir, nem a intrepidez do missionário, nem a grandeza do bispo, nem a força dos milagres e da palavra, nem a bela auréola da graça e da bondade, que soube adaptar-se à sua época para dominá-la e torná-la cristã”.(9)
Notas:
1. Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B.,Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo II, p. 539.
2. Francis Mershman, St. Boniface, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition.
3. Pe. José Leite, S.J., São Bonifácio, Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, tomo II, p. 184.
4. Urbel, op. cit. P. 540.
5. Cfr. Compton’s Encyclopedia 2000, CD Rom edition.
6. Urbel, op. cit. p. 544.
7. Id., p. 545.
8. Id., p. 546.
9. Pe. José Leite, op. cit. pp. 185-186.


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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Santa Joana D’Arc: intimação não atendida, ameaça cumprida


No dia da Ascensão de Nosso Senhor do ano de 1429, os ingleses defensores de Orleans receberam de Santa Joana D’Arc a seguinte intimação:

“A Vós, ingleses, que não tendes nenhum direito sobre este Reino da França, o Rei dos Céus vos ordena e intima por mim, Jeanne la Pucelle: retirai-vos de vossas fortalezas e retornai a vosso país, pois senão vos farei tal mortandade que dela se guardará perpétua memória. Eis o que vos escrevo pela terceira e última vez, e não mais escreverei”.

Assinado: Jesus, Maria e Jeanne la Pucelle”.
Os ingleses se dispensaram de responder à intimação. No dia seguinte, 8 de maio, após violento assalto, Santa Joana D’Arc entrava vitoriosa em Orleans.

O cerco da praça forte durara apenas 8 dias.

(Fonte: Régine Pernoud, “Vie et Mort de Jeanne D’Arc”)


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quarta-feira, 16 de julho de 2014

São João de Capistrano: pregador de Cruzada
János Hunyadi e o cerco de Belgrado - 2

São João de Capistrano na batalha de Belgrado. Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
São João de Capistrano na batalha de Belgrado.
Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.

Continuação do post anterior 



As notícias dos colossais preparativos logo chegaram ao sucessor de São Pedro. Calixto III enviou, então, um monge franciscano, São João de Capistrano,(4) a pregar uma nova cruzada contra os infiéis.

Septuagenário como o Papa, homem de baixa estatura, fraco, exausto, mas movido por um ardor juvenil, o santo contagiava com seu entusiasmo os corações de seus ouvintes, embora — coisa notável — falasse apenas latim e italiano.

Conseguiu reunir por volta de 40 mil camponeses húngaros e alguns voluntários de outras nações, partindo com Hunyadi, que conduzia sua tropa de 10 mil cavaleiros.

Com a guarnição de Belgrado e outros reforços, o exército cristão chegou a congregar 75 mil homens, a maioria fracamente armada, mas animados de santo zelo pela defesa da Cristandade.

Maomé II estabelece o cerco de Belgrado

Os turcos chegaram a Belgrado semanas antes do esperado. Eram entre 100 e 200 mil homens, trazendo consigo 300 canhões, 22 dos quais de grande envergadura. Uma frota de 200 embarcações balouçava nas águas do Danúbio.

Testemunhas da época narram seu espanto por toda a parafernália presente no acampamento turco, tanto de material bélico quanto para outros fins. Matilhas inteiras de cães foram trazidas para consumir os corpos dos cristãos, que se previam muito numerosos.

Os infiéis pareciam dispostos não apenas a ocupar Belgrado, mas toda a Hungria e outros reinos vizinhos.(5)

Quando o exército católico chegou à cidade, no início de julho de 1456, encontrou-a já sitiada pelos otomanos, e ameaçada pela frota estacionada no Danúbio.

A primeira tarefa de Hunyadi foi quebrar o bloqueio naval, o que ele conseguiu em 14 de julho, afundando três grandes galés otomanas e capturando duas dezenas de navios. Franqueou ele assim a entrada de tropas e de suprimentos na cidade.

São João de Capistrano na batalha de Belgrado (detalhe). Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
São João de Capistrano na batalha de Belgrado (detalhe).
Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
Enquanto isso se dava, a artilharia pesada dos turcos perfurava as muralhas de Belgrado em diversos pontos, enchendo os fossos de escombros.

No dia 21 de julho, Maomé II ordenou um assalto total, que começou no ocaso e continuou por toda a noite.

Os janízaros(6) lideraram o ataque, e a ferocidade de seu avanço conduziu-os para dentro das muralhas. Hunyadi, entretanto, dirigiu a defesa com grande habilidade.

Ordenou aos defensores que jogassem lenha, cobertores saturados de enxofre, pedaços de gordura animal e outros materiais inflamáveis dentro do fosso, e ateassem fogo.

Logo uma parede de chamas separou os janízaros que lutavam dentro das muralhas de seus companheiros que ainda estavam no exterior.

Os que ocupavam o fosso morreram queimados, ou ficaram seriamente feridos; e os janízaros foram massacrados pelas tropas de Hunyadi. Com a calmaria da manhã seguinte, mais reforços cristãos puderam chegar à cidade.

Fato inesperado provoca início da batalha

No dia seguinte, enquanto os turcos enterravam seus mortos, algo de inesperado aconteceu.

Contrariando as ordens de Hunyadi para não deixarem o interior da fortaleza, alguns grupos de cruzados escaparam pelos rombos das muralhas, tomaram posição diante da linha turca e começaram a provocar os soldados inimigos, gritando e atirando flechas sobre eles.

Cavaleiros turcos tentaram, sem sucesso, dispersar os cristãos. Então, mais cruzados se uniram aos que já estavam fora das muralhas.

São João de Capistrano na batalha de Belgrado (detalhe). Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
São João de Capistrano na batalha de Belgrado (detalhe).
Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
O que se iniciara como um incidente isolado tornou-se uma batalha em grande escala.

São João de Capistrano, que de início tentara trazer seus homens de volta ao interior das muralhas, logo se viu cercado por dois mil cruzados.

Então, começou a liderá-los em direção às linhas otomanas, gritando: “O Senhor que fez o início cuidará do desfecho!”.

Os turcos logo se viram diante de uma furiosa avalanche humana. Apanhados de surpresa nessa estranha mudança dos acontecimentos e paralisados por um medo inexplicável, fugiram.

A guarda pessoal do sultão, formada por cinco mil janízaros, tentou conter o pânico e recapturar o acampamento; mas o exército de Hunyadi já tinha se unido à inesperada batalha, e os esforços turcos tornaram-se vãos.

O próprio sultão foi gravemente ferido, ficando inconsciente. Protegidos pela escuridão, os turcos retiraram-se às pressas, carregando seus feridos.

As baixas turcas em Belgrado foram inéditas. Eles perderam 50 mil homens na batalha, e outros 25 mil abatidos pelos sérvios durante a fuga. As perdas entre os defensores de Belgrado totalizaram menos de 10 mil.

Vitória cristã comemorada em toda Cristandade

A derrota do sultão foi saudada como gloriosa vitória pela Cristandade. O Te Deum foi entoado nas igrejas, os sinos tocaram e grandes fogueiras foram acesas em comemoração.

O Papa Calixto III, quando soube do sucesso do comandante húngaro, descreveu Hunyadi como “o mais impressionante homem que o mundo tem visto em 300 anos”.

Depois de mais um triunfo, chegou o dia da partida para a eternidade daquele homem providencial. Contagiado pelo tifo que grassava no acampamento, János Hunyadi entregou sua alma a Deus em 4 de agosto de 1456.

O túmulo do heroico Janos Hunyadi continua rodeado pelo reconhecimento do povo húngaro
O túmulo do heroico Janos Hunyadi continua rodeado pelo reconhecimento do povo húngaro
No leito de morte, como São João de Capistrano lhe apresentasse a morte como recompensa desta vida, Hunyadi respondeu:

“Vivi e lutei para achar meu lugar de descanso, como campeão emérito na tenda de meu Senhor”. O sultão derrotado, sabendo da morte do herói católico, depois de alguns momentos de silêncio exclamou: “Éramos inimigos, mas sua morte é para mim dolorosa; pois nunca o mundo viu um homem como ele!”. Naqueles tempos o valor e a honra eram reconhecidos mesmos nos inimigos, quando neles existentes.

“Defendei, caros amigos, a Cristandade e a Hungria de todos os inimigos. Não vos deixeis levar por intrigas internas. Se gastardes vossas energias em altercações, selareis vosso próprio destino e cavareis a cova de nossa própria nação”.(7) Foi esse o último conselho de Hunyadi a seus compatriotas.

Notas:
1. Vide Catolicismo, abril/2004.
2. WEISS, Juan Bautista. Historia Universal – Vol. VIII. Barcelona: Tipografia La Educación, 1929, p. 31.
3. SETTON, Kenneth Meyer. The Papacy and the Levant, Vol. II. Philadelphia: The American Philosophical Society, 1978. p. 164.
4. Vide Catolicismo, outubro de 2007.
5. SETTON, Kenneth Meyer. The Papacy and the Levant, Vol. II. Philadelphia: The American Philosophical Society, 1978. p. 176.
6. Elite guerreira formada por cristãos pervertidos, muitas vezes raptados ainda jovens do seio de suas famílias.
7. KOVACH, Tom R. Ottoman-Hungarian Wars: Siege of Belgrade in 1456. Military History Magazine, 1996. Disponível em http://www.historynet.com/ottoman-hungarian-wars-siege-of-belgrade-in-1456.htm.



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quarta-feira, 2 de julho de 2014

János Hunyadi e o cerco de Belgrado - 1

János Hunyadi, comandante dos cruzados libertou Belgrado do assédio turco
János Hunyadi, comandante dos cruzados
libertou Belgrado do assédio turco
Esse extraordinário herói húngaro e São João de Capistrano, derrotando o sultão Maomé II em Belgrado, sustaram avassaladora investida muçulmana na Europa


No ano de 1453, a cidade de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, caiu sob o domínio dos turcos otomanos. Os vencedores submeteram os sobreviventes muitos deles monges e religiosas — a um cruel e bárbaro tratamento.

 A famosa igreja de Santa Sofia tornou-se cenário de uma sangrenta orgia, depois da qual o local sagrado passou a servir de estábulo para os cavalos dos turcos. Ficava claro para a Cristandade que os seguidores de Maomé não descansariam enquanto não estendessem seu domínio sobre a Europa.

Mas a Divina Providência, que permitira tal derrota para castigo da Cristandade decadente, suscitaria, no momento e no lugar certos, os homens certos para obstar os planos dos infiéis.

Vitórias iniciais contra os turcos

János (João, em português) nasceu provavelmente no ano 1387. Seu pai, Serba Vojk, leal servidor do rei húngaro Sigismundo, recebera como prêmio o castelo de Hunyadvár, na Transilvânia, tendo desde então mudado seu nome, Serba Vojk, para Hunyadi.

Desde a infância, János Hunyadi, a quem trataremos apenas pelo sobrenome, mostrou-se sempre muito piedoso. Seus companheiros de Corte o viam frequentemente levantar-se durante a noite e passar horas de joelhos na capela real, em oração.

Ele cresceu como um soldado. Inicialmente lutando como mercenário na Itália, dedicou-se depois a enfrentar o Império Otomano, o maior inimigo de seu país e da Santa Igreja, na época.

Até 1441, suas campanhas militares foram apenas um prelúdio de sua longa guerra contra os otomanos, o que lhe valeu a fama de “Flagelo dos Turcos”. Em uma dessas campanhas, tentou unir forças com o grande herói albanês Skanderbeg,(1) só não o fazendo por intrigas de um príncipe sérvio.(2)

Em 1437, o rei Sigismundo nomeou-o defensor do sul da Hungria, desde a Transilvânia do Leste até o mar Adriático. O rei seguinte, Ladislau V, tornou-o capitão de Nandorfehervár (atual Belgrado, capital da Sérvia) e voivode (príncipe) da Transilvânia.

Avanço maometano nos Bálcãs

Batalla de Belgrado (Nandorfehervar)
Batalla de Belgrado (Nandorfehervar)
Nos anos que precederam essa nomeação de Hunyadi efetuou-se um gradual avanço turco sobre os Bálcãs, em direção à Hungria. Vilas inteiras eram destruídas, milhares de pessoas mortas, e muitas outras, incluindo mulheres e crianças, capturadas como escravas.

Nomeado comandante, Hunyadi decidiu que já era tempo de pôr um fim às invasões turcas.

Guerreiro incansável, aparecia de improviso nas regiões ocupadas, surpreendia o inimigo com táticas inusitadas, infundia temor mesmo nos grandes exércitos, acompanhado por tropas seletas mas reduzidas.

Vitoriosa tática dos “vagões blindados”

Certa feita, deparou-se com a quase totalidade dos contingentes turcos da Europa, sob o comando do terrível Sehabeddin, súdito do mesmo Maomé II que depois conquistaria Constantinopla. A ordem deste era conquistar a Moldávia, a Valáquia e a Transilvânia.

Hunyadi posicionou suas tropas em formação retangular, tendo os flancos e a retaguarda bem protegidos por vagõesblindados. Inovação utilizada por um líder da Boêmia anos antes, os vagões eram preenchidos por soldados, e ligados por correntes para evitar a penetração pelo inimigo.

No auge da refrega, os vagões foram subitamente empurrados sobre o adversário, causando, com seu movimento, grande pânico entre as tropas turcas. Os soldados desembarcaram e cumpriram sua missão. Mais uma grande vitória obtida pelo herói húngaro.

A notícia das conquistas de Hunyadi espalhou-se por toda a Europa, trazendo esperança para os reinos que ainda sofriam sob a dominação otomana. No ano seguinte, o general húngaro venceu mais seis batalhas, livrando a Sérvia da presença turca.

Janos Hunyadi, monumento em Pecs, Hungria
Janos Hunyadi, monumento em Pecs, Hungria
Apesar dos aplausos das outras potências europeias, nenhuma delas ofereceu ajuda significativa. Apenas a Santa Sé levou a sério essa tão importante causa. Calixto III, ancião espanhol recém-eleito para o sólio pontifício, soube perceber a gravidade do momento.

Considerou como obrigação enfrentar os turcos, fazendo o propósito de expulsá-los de Constantinopla, e até, se possível fosse, da própria Terra Santa.

“O mundo tinha mudado desde os velhos tempos de Urbano II, mas no peito do Papa ancião batia o coração de um verdadeiro cruzado. Em carta ao novo rei húngaro Ladislau, o Papa declarou sua resolução, mesmo ao preço de seu próprio sangue se necessário, de que ‘estes inimigos insidiosos do nome Cristão sejam inteiramente expulsos não só da cidade de Constantinopla, recentemente ocupada, mas também de todos os confins da Europa’”.(3)

Após tomar Constantinopla, o jovem Maomé II decidiu, em 1455, que era tempo de esmagar definitivamente a Hungria. E o ponto nevrálgico era a fortaleza de Nandorfehervár. “Em dois meses, estarei jantando tranquilamente na capital húngara”, teria dito o sultão.

continua no próximo post



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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Novas lutas, novas vitórias – D. Afonso Henriques 4

Continuação do post anterior

Mas o mouro não descansa. Quer manter a todo custo seus domínios na Península Ibérica, e convoca para isso contínuos reforços do norte da África. D. Afonso responde à altura, como um gigante infatigável e onipresente.

A promessa de Nosso Senhor cumpre-se a cada novo empreendimento. Em março de 1147, o Rei ataca o castelo de Santarém em poder dos infiéis.

Mortas as sentinelas, vencidas as resistências, abre-se a maciça porta de ferro aos cavaleiros portugueses. E há um momento de profunda beleza: no meio da torrente que se precipita para o interior do castelo, aureolado pelo clarão puro do sol nascente, D. Afonso reza de joelhos, dando graças a Deus, que lhe protegeu a empresa.

Nesse mesmo ano de 1147, com a ajuda decisiva de uma grande frota de cruzados alemães, franceses, ingleses e flamengos de retorno da Terra Santa, efetua-se, de julho a outubro, a laboriosa conquista de Lisboa.

Assédio longo e sangrento, com alternativas inúmeras, terrenos disputados palmo a palmo, mortíferos engenhos bélicos. Sintra, Almada e Palmela, ante a queda de Lisboa, entregam-se.

Anos depois, em 1158, cai Alcácer do Sal, praça que defende uma importante zona entre os rios Sado e Tejo. Em 1159, Évora, logo perdida; Beja, perdida também e, em 1162, retomada.

“Portugal alarga-se, talhado à espada sobre a decomposição do velho império almorávida. O prestígio de D. Afonso cresce, impõe-se, quer na península, quer além dela”.(9)

O legado de D. Afonso

D. Afonso Henriques deixa um reino firmado e definido. A sua espada o traçou em riscos de sangue. Mas se o reino é um fato político, as intérminas guerras, saques e devastações miseravelmente o descarnaram.

O Fundador mal tem tempo ou sossego para outros empreendimentos que não sejam os das armas. Ainda tenta, com a doação de largos domínios ao sul do rio Douro à Ordem Cisterciense — instalada, desde 1153, no Mosteiro de Alcobaça — promover a sua colonização e valorização sob o incomparável influxo dos monges de São Bernardo.

Dom Afonso Henriques, túmulo na Igreja de Santa Cruz, Coimbra, Portugal
Dom Afonso Henriques, túmulo na Igreja de Santa Cruz, Coimbra, Portugal
“Talhado à espada”, pode-se dizer que Portugal está em carne viva, exaurido por mil feridas, enfraquecido nas suas energias vitais.

Assim o recebe Dom Sancho, filho e sucessor de D. Afonso, com a morte deste em 1185, após meio século de grandes esforços, de vitórias consecutivas, de atividade incrível.

E logo, cônscio do papel da realeza, se entrega à diligente enfermagem do corpo exangue que lhe é confiado. A sua atividade exerce-se na restauração de fortalezas em ruínas, no repovoamento de lugares devastados pela guerra, no estímulo a todos os aglomerados que mostrem tendências de estabilidade e desenvolvimento, nas numerosas doações feitas às Ordens Militares.

Os trabalhos agrícolas são igualmente auxiliados com medidas propícias, para que o solo português acuda às necessidades dos seus habitantes.

E então o solo, regado por anos pelo sangue dos primeiros heróis, vai começar a produzir as novas gerações de heróis e missionários que herdarão o dever de “publicar o nome do Salvador pelas terras mais estranhas”.

Notas:
1. AMEAL, João. História de Portugal. Porto: Tavares Martins, 1940, p.XIII.
2. WALSH, William Thomas. Nuestra Señora de Fátima. Madrid: Espasa-Calpe, 1960, p. 111
3. AMEAL, op. cit., p.66
5. BRANDÃO, Antônio [et al.]. Terceira Parte da Monarchia Lusitana. Lisboa, 1632. p. 120. Mantivemos a grafia original. Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=xDsUNklTpPoC&pg=RA1-PA258-IA4&dq=cronica+de+dom+afonso+henriques.
6. Idem, p. 127.
7. Os Lusíadas, canto III, estância 53. Disponível em http://www.historia.com.pt/lusiadas/ourique.htm.
8. Oito séculos mais tarde, esse ato de vassalagem será lembrado por Pio XII na Encíclica Sæculo Exeunte Octavo, de 13 de junho de 1940. “1. O VIII centenário da fundação de Portugal e o III de sua restauração, que a vossa gloriosa e nobre pátria celebra este ano com grande solenidade e unidade de intentos, não podiam deixar indiferentes o vigilante interesse desta Sé Apostólica, nem, muito menos, o nosso coração de pai comum dos fiéis. 2. Temos igualmente motivo especial para participar da comemoração de vossa primeira independência, sendo um fato que a Santa Sé, como é notório, colaborou para que lhe viesse dada uma constituição jurídica. 3. Os atos com os quais os nossos predecessores do século XII, Inocêncio II, Lúcio II e Alexandre III aceitaram a homenagem de obediência prestada por Afonso Henriques, conde e, em seguida, rei de Portugal, tendo-lhe prometido sua proteção, declararam independência de todo o território, que ao preço de duríssimas lutas tinha sido valorosamente recuperado do domínio sarraceno, foi o prêmio com o qual a Sé de Pedro compensou o generoso povo português por suas extraordinárias benemerências em favor da fé católica. 4. Tal fé católica, tendo sido, de certo modo, a linha vital, que alimentou a nação portuguesa desde seu nascimento, assim foi senão a única, certamente a principal fonte de energia, que elevou a vossa pátria ao apogeu da sua glória de nação civil e nação missionária, ‘expandindo a fé e o império’”.Disponível em http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_13061940_saeculo-exeunte-octavo_po.html
9. AMEAL, op. cit., p.70.

(Autor: Guilherme Félix de Sousa Martins, CATOLICISMO, fevereiro 2013.



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