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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ricardo III: o último rei medieval inglês
despertou saudades até no III milênio

Ricardo III, da dinastia Plantageneta, último rei medieval inglês



Há 530 anos morria em combate Ricardo III (1452-1485), o último rei da dinastia Plantageneta, da Inglaterra.

Ele foi vencido na batalha de Bosworth Field por Henrique Tudor, invasor e candidato à coroa.

Henrique Tudor se tornou o rei Henrique VII e foi o primeiro da dinastia que precipitou o país no protestantismo.

Ricardo III foi o último rei medieval inglês.

Reinou de 1483 a 1485 e sua morte marcou o fim das Guerras das Rosas, entre a Casa de Lancaster (representada por uma rosa vermelha) e a Casa de York (representada por uma rosa branca).

O túmulo de Ricardo III estava desaparecido, provavelmente pelo receio de seus seguidores de que pudesse ser profanado pelos Tudor.

Cortejo liderado por cavaleiros conduz o caixão de Ricardo III pela cidade de Leicester rumo à catedral.

Até que em setembro de 2012 sua ossada foi encontrada por arqueólogos sob um estacionamento municipal, causando comoção no país.

Seus restos foram enterrados no dia 22 de março de 2015 na catedral de Leicester.

Entre os presentes para render as últimas honras, entre outros, estava o príncipe Richard, duque de Gloucester e primo da rainha Elizabeth II.

Até a rainha Elizabeth escreveu um tributo a Ricardo III, segundo a Folha de S. Paulo (26.03.2015).

Mais de 35 mil pessoas acompanharam em Leicester o cortejo fúnebre do rei.

O carro funerário deixou a universidade local e dirigiu-se à Fenn Lane Farm, na aldeia de Dadlington, o local mais próximo de onde ele morreu (Campo de Bosworth).

Após uma série de homenagens em sua memória, ele foi para seu repouso definitivo na catedral.

O passado medieval católico desperta saudades até num país esmagadoramente protestante.




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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Os antepassados de Carlos Magno

Carlos Martel na batalha de Poitiers contra os invasores islâmicos
Carlos Martel na batalha de Poitiers contra os invasores islâmicos



continuação do post anterior: Carlos Magno e o ideal de Cristandade

“Nemo summum fit repente” (nada de importante ocorre de repente), diz o adágio latino, que bem pode ser aplicado ao surgimento de grandes personalidades. Estas são como picos do Himalaia, tendo em sua base e a seu lado outros tantos cimos fabulosos. Assim também com Carlos Magno e sua família.

A família de Carlos era desde os fins do século VI rica e influente, fornecendo sucessivos Prefeitos do Paço aos reis da dinastia merovíngia — uma espécie de ministros plenipotenciários, enquanto o monarca ocupava uma função meramente protocolar.

Santo Arnolfo, tataravô de Carlos Magno

Dentre os Prefeitos do Paço sobressai a grande figura de Santo Arnolfo, que exerceu este alto cargo no reinado de Teudeberto II (595-612), distinguindo-se por seus dotes de comandante militar e de administrador civil.

Justo, digno e equitativo, aliava aos gostos de um nobre as qualidades de um homem de Estado. Preceptor do futuro rei Dagoberto, fez deste um rei justo, “le bon Roi Dagobert”, como evoca ainda hoje uma graciosa canção infantil francesa.

Casado, aspirava entretanto a uma vida de recolhimento e oração; de Ansegisel, seu filho primogênito, descende Carlos Magno em linha direta.

Depois de 12 anos servindo na Corte, Arnolfo foi nomeado — para sua grande consternação — para a Sé episcopal de Metz, cujo bispo acabara de morrer.

Embora leigo, não teve como recusar. Ordenado e sagrado Bispo de Metz, governou a diocese durante mais de uma década, retirando-se afinal para levar a vida de recolhimento a que sempre aspirou. Faleceu no dia 18 de julho de 641; seus restos mortais repousam na catedral de Metz.

Carlos Martel

Na linhagem direta de Santo Arnolfo figuram Santo Hugo, arcebispo de Rouen, e seu irmão Carlos Martel, o martelo vencedor dos muçulmanos na batalha de Poitiers, em outubro de 73.

Essa vitória que, pondo freio ao avanço muçulmano na Europa Ocidental, representou um contributo importante para a obra de seu neto, Carlos Magno, rumo à formação de uma Europa cristã na alta Idade Média.

Neste sentido escrevia em 1788 o historiador britânico Edward Gibbon que, sem o Martelo Franco, muito provavelmente os sarracenos teriam chegado “às fronteiras da Polônia e às terras altas da Escócia; a frota árabe teria subido sem lutas o Tâmisa e em Oxford se ensinaria a interpretação do Corão”.

Jacob Burckhardt, historiador alemão, referia-se em 1880 a Carlos Martel como “o grande fundador de uma Cristandade ocidental que impediu que a bandeira do profeta (Maomé) balançasse durante séculos nas torres da França”. (Cfr. Helene Zuber, Razzia in Gallien, Spiegel Geschichte 6, 2012).

Carlos Martel em Poitiers. Charles de Steuben (1788-1856). Museu de Versailles
Carlos Martel em Poitiers. Charles de Steuben (1788-1856). Museu de Versailles
Carlos Martel teve três filhos: Carlomano, Pepino e Grifo, este último oriundo de seu segundo casamento. No ano de 737, quando seu primogênito tinha cerca de 20 anos, toma uma decisão que teria no futuro um resultado importante: deixa vacante o trono dos francos quando da morte do rei Teodorico IV.

Após a morte de Carlos Martel, no outono de 741, Carlomano e Pepino tomam o poder como Prefeitos do Paço e alijam dele seu irmão mais novo, mandando-o para um mosteiro.

Carlomano fica com a Austrásia, a Alamânia e a Turíngia, enquanto Pepino passa a governar a Neustrásia, a Borgonha e a Provença.

Em 743 ambos os irmãos resolvem instalar novamente um rei da dinastia merovíngia, Childerico III, que lhes legitimasse o governo.

Nos anos seguintes empreendem campanhas militares na Aquitânia, Alamânia e Baviera, consolidando sua posição nas partes extremas do reino. Ao mesmo tempo desejam reformar lamentáveis relaxamentos existentes no povo e no clero.

Assim, em 743 Carlomano convoca, com a participação de São Bonifácio, o Concilio Germânico, ocasião em que este santo, escrevendo ao Papa, traça um quadro dramático da situação moral da época:

“No momento as sedes das cidades episcopais encontram-se em grande parte entregues a leigos gananciosos e intrusos, a clérigos que se estadeiam na luxúria e se dedicam a ganhar dinheiro para o gozo mundano”.

E mais adiante fala dos padres “que têm quatro, cinco ou mais concubinas na cama, mas que não se coram nem se pejam de ler o Evangelho”. 

Pepino, por sua vez, convoca um sínodo de bispos na velha cidade real de Soissons, com a recomendação aos sacerdotes de seu reino de não hospedarem mulheres em suas casas, com exceção de suas mães, irmãs e sobrinhas.

Pepino, o Breve, rei dos Francos

No ano de 747, depois de seis anos de governo conjunto, Carlomano surpreende os francos com uma notícia sensacional: resolvera deixar o cargo de Prefeito do Paço para se retirar a um convento, o de Montecassino, na Itália.

Não se sabe ao certo se essa foi uma decisão forçada por seu irmão Pepino ou se resultou de a um movimento da graça divina. Fato é que Pepino tornou-se o único Prefeito do Paço no reino dos francos sob Childerico III.

Ao contrário de Carlomano, que tinha filhos, o casamento de Pepino com a rica condessa Bertrada ainda não frutificara. Depois de muitas orações, no dia 2 de abril de 748 Bertrada dá à luz a um menino, batizando-o com o nome de Carlos. Estava garantida a sucessão.

Três anos mais tarde, Pepino toma uma atitude mais ousada. Em novembro de 751, com o apoio do Papa São Zacarias, reúne os grandes do Reino em Soissons, onde se faz aclamar Rex Francorum separadamente pelos nobres e pelo povo.

Pepino, exercendo seu cargo de Prefeito do Paço, almejava o título de Rei. O poder de fato estava desde há mais de um século nas mãos dos Prefeitos carolíngios do Palácio.

A legitimação para a tomada do título de Rei foi dada a Pepino pelo Papa Zacarias, a quem Pepino enviou seus mais importantes conselheiros, Fulrado de Saint Denis, e o bispo Burkhard, de Würzburg, com a pergunta se era bom que entre os francos houvesse reis “que não tinham poder enquanto reis”.

A resposta do Papa foi: “É melhor designar como Rei aquele que tem o poder”.

São Zacarias foi o último Papa de origem grega. Além de dar grande apoio ao apostolado de São Bonifácio — o Apostolus germanorum —, estabeleceu e fortaleceu as relações da dinastia carolíngia com o Papado.

Em seguida, no ponto alto de uma cerimônia religiosa, ungem-no os bispos com os santos óleos. Quanto a Childerico, o último rei da dinastia de Clóvis, é enviado com o cabelo cortado curto — sinal da perda de sua dignidade real, segundo os costumes merovíngios — juntamente com seu filho Teodorico, para o mosteiro de Prüm.

Pepino o Breve, pai de Carlos Magno. Louis Félix Amiel, Musée historique de Versailles
Pepino o Breve, pai de Carlos Magno. Louis Félix Amiel,
Musée historique de Versailles
Neste mesmo ano de 751, Aistolfo, rei dos lombardos, conquista Ravena, a antiga capital do Império Romano, das mãos dos bizantinos, e no ano seguinte passa a acossar o Papa — então Estêvão II — e a exigir dele o reconhecimento de sua soberania sobre os territórios conquistados.

Abandonado pelo Imperador Romano de Constantinopla, Estevão II solicita ajuda contra os lombardos a Pepino, com quem se encontra na cidade de Ponthion, no reino Franco.

Em consequência das conversações, entre os dois surge uma aliança transalpina que marcará o horizonte político de toda a Idade Média.

No dia 28 de julho do mesmo ano, na Basílica de Saint-Denis, o Papa unge de novo Pepino, juntamente com seus filhos Carlos (747-814) e Carlomano (751-771).

Estabelecido o acordo com o Papa Estêvão II, Pepino rompe a aliança com os lombardos e se dirige militarmente contra eles. Cercado em sua capital Pavia, Aistolfo mostra-se inicialmente conciliatório, mas tão logo Pepino se retira, ataca novamente o Papa em Roma.

O rei dos Francos retorna em 756, derrota os lombardos e obriga Aistolfo a reconhecer o domínio franco, bem como a ceder ao Papa o Exarcado de Ravena, composto pelas cidades de Istria, Veneza, Ferrara, Ravena, Pentápolis e Perugia.

Essa famosa “doação de Pepino”, confirmada e aumentada por seu filho Carlos Magno em 774, constituiu os Estados Pontifícios ou Patrimônio de São Pedro.

Pepino, o Breve, empreendeu ainda guerras bem-sucedidas contra os saxões e os sarracenos, arrebatando a estes a cidade de Narbonne e expulsando-os para além dos Pirineus.

Em 757, o duque Tassilo II da Baviera prestou-lhe juramento de vassalagem. Nos anos seguintes Pepino vai se dedicar à conquista da Aquitânia, o que terá grande importância na futura formação da França.

Carlos e Carlomano

Antes de sua morte no ano de 768, Pepino dividiu o reino entre seus filhos Carlos e Carlomano. Seus restos mortais foram sepultados na Catedral de Saint-Denis, nos arredores de Paris.

Em agosto de 1793, no auge das insânias da Revolução Francesa, um bando de sans-culottes profanou seu túmulo e jogou seus restos mortais numa vala comum.

Ao primogênito Carlos, já experiente nos assuntos do governo apesar de ter apenas 20 anos, coube reinar na Turíngia, na Frísia, na Gasconha, na Nêustria e nas regiões francas entre os rios Loire e Schelde.

Carlomano tinha apenas 17 anos quando começou a governar a parte central do reino: a Provença, o Languedoc, o maciço central, a Alsácia, a Alamânia e a região ao sul de Paris.

Quanto à parte norte da Austrásia, bem como à região dos rios Maas, Mosela e Reno, berço dos carolíngios, e a Aquitânia, foram elas divididas entre os dois irmãos.

As capitais de ambos os territórios eram Noyon e Soissons, distantes uma da outra cerca de 30 km, onde os dois irmãos se fizeram aclamar em 9 de outubro de 768.

Carlomano reinava sobre um bloco mais compacto; por sua vez, as regiões que estavam sob o governo de Carlos eram mais ricas.

Embora Eginhardo assevere que as relações entre os dois irmãos tenham sido inicialmente harmônicas, é inegável que elas se esfriaram pouco depois, quando o duque Hunald se sublevou na Aquitânia, ao saber da morte de Pepino, o Breve.

Carlos solicitou o apoio do irmão para dominar a sublevação e encontrou uma firme recusa de Carlomano em lhe apoiar a expedição militar, aliás vitoriosa.

Tal recusa enfureceu Carlos, pois a seus olhos mais se parecia a uma fuga diante do adversário. Era previsível um entrechoque entre os irmãos, com graves consequências para o reino franco.

Esse perigo se afastou com a morte inesperada de Carlomano, após curto período de doença, no dia 4 de dezembro de 771. Com ela se esfumaçou o pesadelo de uma guerra fratricida.

continua no próximo post: Grandes guerras de Carlos Magno

(Fonte: Renato Murta de Vasconcelos. CATOLICISMO, fevereiro de 2015



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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Carlos Magno e o ideal de Cristandade




“A Carlos se chama com razão de Magno: merece este nome enquanto general e conquistador, ordenador e legislador do imenso reino, enquanto inspirador da vida intelectual no Ocidente. Sua vida é uma luta contínua contra a brutalidade e a barbárie”

No dia 28 de janeiro de 2014 completaram-se 1.200 anos da morte de Carlos Magno. Em diversas cidades pertencentes outrora ao seu império, como Aquisgrão (Aachen em alemão; Aix-la-Chapelle em francês), Zurique, Frankfurt-am-Main, houve exposições sobre ele, visitadas por imenso público.

A importância dada ao jubileu carolíngio é mais do que explicável: poucas personalidades na história da Cristandade tiveram uma influência tão duradoura, irradiaram um prestígio tão grande e deixaram uma recordação tão arrebatadora quanto este monarca franco, elevado pelo Papa São Leão III na noite de Natal do ano de 800 à dignidade de Imperador Romano do Ocidente.

Os ideais de Carlos Magno

“Com ajuda de Deus, nossa missão é externamente defender a Santa Igreja de Cristo pelas armas e por todas as partes das incursões dos pagãos e das devastações dos infiéis, e internamente, fortalecê-la pelo reconhecimento da verdadeira Fé.

“A vossa missão, Santo Padre, consiste, à maneira de Moisés, em erguer os braços em oração a Deus, e destarte ajudar nossos exércitos, de modo que por vossa intercessão e sob a guia e proteção de Deus, o povo cristão alcance sempre a vitória sobre os inimigos de seu santo nome e que o nome de Jesus Cristo seja glorificado no mundo inteiro.”

Carlos Magno coroado imperador pelo Papa
Carlos Magno coroado imperador pelo Papa
Nessas palavras de Carlos Magno, dirigidas em carta a São Leão III, estão expressos seus ideais e boa parte da dupla obra que empreendeu: de um lado, defender a Igreja de seus inimigos externos; de outro, fortalecer a Fé.

Para cumprir a primeira parte desse programa, dedicou ele os 42 anos de seu reinado, tanto combatendo no Leste o paganismo de saxões e ávaros, quanto refreando no Oeste o avanço muçulmano.

É essa sua face heroica e guerreira que inspirará nos séculos futuros as canções de gesta, como a famosa Chanson de Roland.

Na segunda parte, que poderia ser qualificada de positiva, revela-se seu gênio de estadista e de incansável administrador e restaurador, empenhado na tríplice reforma religiosa, moral e cultural de seus súditos, visando à formação de uma civilização cristã segundo a concepção de Santo Agostinho em uma de suas obras mais famosas, a De civitate Dei:

“A gloriosíssima Cidade de Deus, seja aqui nesta Terra na sucessão dos tempos, onde ‘vivendo da Fé’ ela peregrina entre os ímpios, seja na estabilidade da eterna morada que presentemente espera com paciência ‘até que a justiça se transforme em julgamento’ e que obterá um dia o esplendor de uma vitória suprema por uma paz perfeita, defendê-la contra os que preferem seus deuses Àquele que a criou, eis o objetivo da obra que começo e com a qual cumpro a promessa que te fiz, meu caro discípulo Marcelino. Tarefa imensa e árdua, mas Deus é nossa ajuda”. (De Civitate Dei contra paganos, Liber I).

Eginhardo, formado na corte carolíngia e autor da Vita Caroli Magni, única biografia escrita por quem conheceu a fundo e na intimidade o Imperador, conta que este fazia ler com frequência trechos dessa obra do grande Padre da Igreja durante suas refeições, realizadas geralmente na companhia de seus familiares mais próximos.

A Cidade de Deus — uma reflexão teológico-histórica sobre o mundo pagão em ruínas após a tomada de Roma por Alarico em 410 e as vicissitudes do cristianismo nascente — delineia os contornos de uma sociedade perfeita que só pode surgir no seio do cristianismo.

Conhecedor profundo dessa inspirada obra, Carlos Magno não desejou senão realizar o ideal do príncipe cristão — tal como Santo Agostinho o imaginava — que emprega todo o seu poder “ad Dei cultum maxime dilatandum”.


O biógrafo de Carlos Magno

Eginhard escrevendo a vida de Carlos Magno, Grandes Chroniques de France
Eginhard escrevendo a vida de Carlos Magno.
Grandes Chroniques de France
Eginhardo— em alemão Einhard — (770-840), o biógrafo de Carlos Magno, nasceu na região do vale do rio Meno.

Pertencia a uma família da aristocracia franca e recebeu sua primeira formação no convento fundado por São Bonifácio em Fulda.

Por seus dotes intelectuais foi enviado em 792 à corte, a fim de terminar seus estudos na Escola do Palácio e integrar o grupo de jovens que seria a futura elite do reino de Carlos.

Teve por mestre Alcuíno, o maior sábio da época. De baixa estatura, apaixonado pela literatura greco-latina, mas também pela matemática e arquitetura, Eginhardo ganhou a confiança de seu soberano, que o enviou a Roma em 806 para receber a aprovação do Papa São Leão III da “divisio regnorum” — documento que regulamentava a sucessão no Império.

Sinal da estima geral de que desfrutava, foi ele que, no ano de 813, pediu a Carlos Magno em nome dos Grandes, que associasse seu filho Luís (o Piedoso) ao poder.

Em 829 ele se retira da corte e se estabelece em Mühlheim, propriedade que lhe concedeu o Imperador, denominada mais tarde Seligenstadt.

Lá ele começa a redigir, segundo o modelo de Suetônio na Vida dos doze Césares, a Vita Carolis Magni, na qual se encontra o testemunho vivo de tudo quanto ele viu e admirou em Carlos.

Uma preciosa biografia — mesmo porque única — para um conhecimento autêntico do Imperador.

No fim da vida, Eginhardo levou a vida de um monge. Em Steinbach, na proximidade de Michelstadt, pode-se visitar a basílica que ele construiu. Um belo testemunho da arquitetura carolíngia.

(Fonte: Renato Murta de Vasconcelos. CATOLICISMO, fevereiro de 2015

continua no próximo post: Os antepassados de Carlos Magno



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quarta-feira, 25 de março de 2015

A Batalha Total – o grande cerco de Malta (4)

Grande Cerco de Malta: assalto turco às posições castelhanas.
Grande Cerco de Malta: assalto turco às posições castelhanas.

continuação do post anterior: o acordo impossível (3)



A partir de 15 de julho, a Baía Grande de Malta transformou-se num incrível cenário de confrontos. A guerra foi travada literalmente de todos os modos.

Canhões lançavam projéteis mortais pelos ares. Arcabuzeiros, lanceiros e espadeiros se digladiavam em terra. Túneis subterrâneos eram escavados incessantemente por mineiros para implodir as muralhas pela base.

Isso forçava os cristãos a fazer seus próprios túneis para destruir os do inimigo. Houve terríveis batalhas até sob a terra.

Numa ação surpreendente, os turcos transportaram navios até o sudoeste da baía, arrastando-os por terra sobre toras de madeira. Os cristãos não esperavam ter de enfrentar também a frota no mar.

Em princípio, os canhões de Santo Ângelo manteriam os navios turcos longe, mas agora as águas próximas às defesas estavam juncadas com mais de 80 embarcações.

Sob a água, mergulhadores turcos tentaram destruir as grandes barreiras de correntes que impediam a aproximação dos navios junto às defesas.

Os nadadores malteses tiveram muito trabalho neste inusitado cenário de batalha. Mas, como conheciam bem aquelas águas, armados com punhais entre os dentes, repeliram com êxito os turcos em sangrentas lutas corpo a corpo.

No primeiro ataque geral, os turcos se concentraram na base da península de Senglea. Depois que os canhões silenciaram, os guerreiros turcos se atiraram sobre as paredes do Forte São Miguel.

Ao mesmo tempo, a frota turca avançou a toda velocidade, mas teve de deter-se ao encontrar as barreiras submarinas ainda intactas.

Grande Cerco de Malta, avanços muçulmanos.
Grande Cerco de Malta, avanços muçulmanos.
Os soldados turcos saltaram então no mar, e avançaram para dentro da fortaleza através de uma brecha aberta por uma explosão.

A situação era desesperadora, mas La Valette já a havia previsto. Ele sabia que as defesas de Senglea eram mais débeis e por isso havia mandado alinhar barcos formando uma ponte com a outra península.

Os soldados cristãos de Birgu vieram rapidamente para o resgate. Os turcos foram repelidos no último momento.

Enquanto isso, Mustafá, vendo as atenções voltadas para o sul de Senglea, ordenou que 10 navios com mil janízaros(2) atacassem o norte da península. O lance teria sido devastador. Mas La Valette, de novo, não foi surpreendido.

Um grupo de cavaleiros armados com peças de artilharia estava escondido em uma brecha da península. À passagem dos navios, eles abriram fogo, causando a morte de 800 janízaros.(3)

As investidas turcas foram se sucedendo dia após dia durante todo mês de agosto. Num dos ataques à cidadela de Birgu, os turcos atravessaram as primeiras muralhas, mas foram surpreendidos por uma segunda linha de defesa.

Sem poder avançar nem recuar, centenas deles foram eliminados pelo fogo certeiro dos cavaleiros.

Numa nova investida a Birgu, os turcos, aproveitando-se do colapso de uma parte das muralhas, conseguiram chegar quase ao centro da cidadela.

La Valette, percebendo a situação crítica, foi pessoalmente de espada em punho tomar a frente do contra-ataque. Motivados pelo corajoso exemplo do Grão-mestre, os cavaleiros se tomaram de tal ardor que logo fizeram retroceder os turcos com formidáveis golpes de lança e espada.

Mustafá tentou uma nova tática contra a até então invencível resistência dos cavaleiros: uma enorme torre rolante. Sua intenção era aproximar a máquina até as muralhas e lançar rapidamente os atacantes dentro da fortaleza.

Isso deu ocasião para o gênio de La Valette brilhar mais uma vez. De longe ele observou a construção e o transporte da torre.

Quando esta foi encostada nas muralhas, o Grão-mestre já sabia o que fazer. Paradoxalmente, ele havia pensado o “impensável”: colocar abaixo as próprias defesas!

Uma mina foi detonada pelos cavaleiros na base da muralha. O buraco aberto deixou exposto o pé da torre. Um canhão previamente posicionado abriu fogo através da brecha e, em questão de segundos, o terrível engenho de guerra foi ao chão. Foi um duro golpe para os infiéis e um dos derradeiros.

Chega o resgate

No início de setembro, o poderoso exército turco estava ficando sem munição e víveres. Muitos homens estavam doentes ou desmotivados. Seu último sucesso fora a conquista do Forte Santo Elmo, havia quase três meses.

Apesar de todos os bombardeios e dos esforços de dezenas de milhares de soldados turcos — a maioria dos quais jazia morta nos fossos — a guarnição cristã permanecia resolutamente erguida.

“Trabalhando noite e dia, os defensores reparavam as brechas e a captura de Malta parecia mais e mais impossível.”(4)

La Valette, por seu turno, já não confiava mais na força de resgate de D. Garcia, vinda da Sicília, que deveria ter chegado até o fim de agosto. “O único auxílio que podemos esperar é o de Deus onipotente”, (5) disse ele ao seu secretário.

Mas o Grão-mestre ainda não sabia que uma sentinela já trouxera a notícia a Mustafá: a frota da Sicília havia chegado, fora avistada do outro lado da ilha. O chefe turco ordenou o abandono de Malta o quanto antes. Era o dia 4 de setembro de 1565.

A frota turca já tinha levantado âncora quando Mustafá foi informado que o exército de D. Garcia era composto de apenas 10 mil homens.

Querendo evitar a vergonha completa, o comandante ordenou que todos voltassem para a ilha num último lance desesperado.

Mas as novas tropas cristãs, ávidas para combater, desbarataram os turcos num violento choque de cavalaria.

Palácio atual do Grão Mestre de Malta, em Valette
Palácio atual do Grão Mestre de Malta, em Valette
As fileiras dos infiéis entraram em confusão e se dispersaram. Incontáveis turcos pereceram na tentativa desesperada de voltar às embarcações. As águas do mar ficaram tingidas de vermelho. Foi o último erro de Mustafá.

A frota turca se distanciou, levando agora o que restou daquele formidável exército otomano. Apenas 15 mil dos 40 mil homens voltaram a Constantinopla. Mustafá, envergonhado, teve de atracar os navios no porto da cidade durante a noite.

Em Malta, a vitória foi comemorada com o Te Deum. Em toda a Europa se exaltava a façanha dos cavaleiros.

O Santo Padre enviou cartas de louvor aos heróis da resistência. A Ordem de Malta atingia o auge de sua glória.

Uma nova cidade foi erguida junto ao glorioso Forte Santo Elmo. Ainda hoje podemos vislumbrar a figura do grande general cristão no nome da capital de Malta: Valette.

FIM

(Autor: Paulo Henrique Américo de Araújo, in CATOLICISMO, agosto e outubro 2014)
  • Notas e referências:
  • 1. WEISS, Juan Baptista. Historia Universal, Editora Tipografia La Educación. Tradução da 5ª edição alemã, Barcelona, 1927, Volume IX, p. 493-5.
  • 2. Janízaros: corpo de elite do exército turco. Eram recrutados entre os jovens cristãos do império. Sequestrados, escravizados e forçados a renegar a fé, recebiam um treinamento especial longe das volúpias e corrupções turcas.
  • 3. BALBI, Francisco. The Siege of Malta-1565, The Boydell Press, Woodbridge, 2005. p. 115.
  • 4.COHEN, R. Knights of Malta, 1523-1798, E-Book, 2004. p. 12.
  • 5. WEISS, op. cit. p. 496.
  • Outras obras consultadas:
  • - COHEN, R. Knights of Malta, 1523-1798, E-Book, 2004.
  • - BALBI, Francisco. The Siege of Malta-1565, The Boydell Press, Woodbridge (EUA), 2005. 


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