Outras formas de visualizar o blog:

quarta-feira, 16 de julho de 2014

São João de Capistrano: pregador de Cruzada
János Hunyadi e o cerco de Belgrado - 2

São João de Capistrano na batalha de Belgrado. Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
São João de Capistrano na batalha de Belgrado.
Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.

Continuação do post anterior 



As notícias dos colossais preparativos logo chegaram ao sucessor de São Pedro. Calixto III enviou, então, um monge franciscano, São João de Capistrano,(4) a pregar uma nova cruzada contra os infiéis.

Septuagenário como o Papa, homem de baixa estatura, fraco, exausto, mas movido por um ardor juvenil, o santo contagiava com seu entusiasmo os corações de seus ouvintes, embora — coisa notável — falasse apenas latim e italiano.

Conseguiu reunir por volta de 40 mil camponeses húngaros e alguns voluntários de outras nações, partindo com Hunyadi, que conduzia sua tropa de 10 mil cavaleiros.

Com a guarnição de Belgrado e outros reforços, o exército cristão chegou a congregar 75 mil homens, a maioria fracamente armada, mas animados de santo zelo pela defesa da Cristandade.

Maomé II estabelece o cerco de Belgrado

Os turcos chegaram a Belgrado semanas antes do esperado. Eram entre 100 e 200 mil homens, trazendo consigo 300 canhões, 22 dos quais de grande envergadura. Uma frota de 200 embarcações balouçava nas águas do Danúbio.

Testemunhas da época narram seu espanto por toda a parafernália presente no acampamento turco, tanto de material bélico quanto para outros fins. Matilhas inteiras de cães foram trazidas para consumir os corpos dos cristãos, que se previam muito numerosos.

Os infiéis pareciam dispostos não apenas a ocupar Belgrado, mas toda a Hungria e outros reinos vizinhos.(5)

Quando o exército católico chegou à cidade, no início de julho de 1456, encontrou-a já sitiada pelos otomanos, e ameaçada pela frota estacionada no Danúbio.

A primeira tarefa de Hunyadi foi quebrar o bloqueio naval, o que ele conseguiu em 14 de julho, afundando três grandes galés otomanas e capturando duas dezenas de navios. Franqueou ele assim a entrada de tropas e de suprimentos na cidade.

São João de Capistrano na batalha de Belgrado (detalhe). Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
São João de Capistrano na batalha de Belgrado (detalhe).
Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
Enquanto isso se dava, a artilharia pesada dos turcos perfurava as muralhas de Belgrado em diversos pontos, enchendo os fossos de escombros.

No dia 21 de julho, Maomé II ordenou um assalto total, que começou no ocaso e continuou por toda a noite.

Os janízaros(6) lideraram o ataque, e a ferocidade de seu avanço conduziu-os para dentro das muralhas. Hunyadi, entretanto, dirigiu a defesa com grande habilidade.

Ordenou aos defensores que jogassem lenha, cobertores saturados de enxofre, pedaços de gordura animal e outros materiais inflamáveis dentro do fosso, e ateassem fogo.

Logo uma parede de chamas separou os janízaros que lutavam dentro das muralhas de seus companheiros que ainda estavam no exterior.

Os que ocupavam o fosso morreram queimados, ou ficaram seriamente feridos; e os janízaros foram massacrados pelas tropas de Hunyadi. Com a calmaria da manhã seguinte, mais reforços cristãos puderam chegar à cidade.

Fato inesperado provoca início da batalha

No dia seguinte, enquanto os turcos enterravam seus mortos, algo de inesperado aconteceu.

Contrariando as ordens de Hunyadi para não deixarem o interior da fortaleza, alguns grupos de cruzados escaparam pelos rombos das muralhas, tomaram posição diante da linha turca e começaram a provocar os soldados inimigos, gritando e atirando flechas sobre eles.

Cavaleiros turcos tentaram, sem sucesso, dispersar os cristãos. Então, mais cruzados se uniram aos que já estavam fora das muralhas.

São João de Capistrano na batalha de Belgrado (detalhe). Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
São João de Capistrano na batalha de Belgrado (detalhe).
Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
O que se iniciara como um incidente isolado tornou-se uma batalha em grande escala.

São João de Capistrano, que de início tentara trazer seus homens de volta ao interior das muralhas, logo se viu cercado por dois mil cruzados.

Então, começou a liderá-los em direção às linhas otomanas, gritando: “O Senhor que fez o início cuidará do desfecho!”.

Os turcos logo se viram diante de uma furiosa avalanche humana. Apanhados de surpresa nessa estranha mudança dos acontecimentos e paralisados por um medo inexplicável, fugiram.

A guarda pessoal do sultão, formada por cinco mil janízaros, tentou conter o pânico e recapturar o acampamento; mas o exército de Hunyadi já tinha se unido à inesperada batalha, e os esforços turcos tornaram-se vãos.

O próprio sultão foi gravemente ferido, ficando inconsciente. Protegidos pela escuridão, os turcos retiraram-se às pressas, carregando seus feridos.

As baixas turcas em Belgrado foram inéditas. Eles perderam 50 mil homens na batalha, e outros 25 mil abatidos pelos sérvios durante a fuga. As perdas entre os defensores de Belgrado totalizaram menos de 10 mil.

Vitória cristã comemorada em toda Cristandade

A derrota do sultão foi saudada como gloriosa vitória pela Cristandade. O Te Deum foi entoado nas igrejas, os sinos tocaram e grandes fogueiras foram acesas em comemoração.

O Papa Calixto III, quando soube do sucesso do comandante húngaro, descreveu Hunyadi como “o mais impressionante homem que o mundo tem visto em 300 anos”.

Depois de mais um triunfo, chegou o dia da partida para a eternidade daquele homem providencial. Contagiado pelo tifo que grassava no acampamento, János Hunyadi entregou sua alma a Deus em 4 de agosto de 1456.

O túmulo do heroico Janos Hunyadi continua rodeado pelo reconhecimento do povo húngaro
O túmulo do heroico Janos Hunyadi continua rodeado pelo reconhecimento do povo húngaro
No leito de morte, como São João de Capistrano lhe apresentasse a morte como recompensa desta vida, Hunyadi respondeu:

“Vivi e lutei para achar meu lugar de descanso, como campeão emérito na tenda de meu Senhor”. O sultão derrotado, sabendo da morte do herói católico, depois de alguns momentos de silêncio exclamou: “Éramos inimigos, mas sua morte é para mim dolorosa; pois nunca o mundo viu um homem como ele!”. Naqueles tempos o valor e a honra eram reconhecidos mesmos nos inimigos, quando neles existentes.

“Defendei, caros amigos, a Cristandade e a Hungria de todos os inimigos. Não vos deixeis levar por intrigas internas. Se gastardes vossas energias em altercações, selareis vosso próprio destino e cavareis a cova de nossa própria nação”.(7) Foi esse o último conselho de Hunyadi a seus compatriotas.

Notas:
1. Vide Catolicismo, abril/2004.
2. WEISS, Juan Bautista. Historia Universal – Vol. VIII. Barcelona: Tipografia La Educación, 1929, p. 31.
3. SETTON, Kenneth Meyer. The Papacy and the Levant, Vol. II. Philadelphia: The American Philosophical Society, 1978. p. 164.
4. Vide Catolicismo, outubro de 2007.
5. SETTON, Kenneth Meyer. The Papacy and the Levant, Vol. II. Philadelphia: The American Philosophical Society, 1978. p. 176.
6. Elite guerreira formada por cristãos pervertidos, muitas vezes raptados ainda jovens do seio de suas famílias.
7. KOVACH, Tom R. Ottoman-Hungarian Wars: Siege of Belgrade in 1456. Military History Magazine, 1996. Disponível em http://www.historynet.com/ottoman-hungarian-wars-siege-of-belgrade-in-1456.htm.



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 2 de julho de 2014

János Hunyadi e o cerco de Belgrado - 1

János Hunyadi, comandante dos cruzados libertou Belgrado do assédio turco
János Hunyadi, comandante dos cruzados
libertou Belgrado do assédio turco
Esse extraordinário herói húngaro e São João de Capistrano, derrotando o sultão Maomé II em Belgrado, sustaram avassaladora investida muçulmana na Europa


No ano de 1453, a cidade de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, caiu sob o domínio dos turcos otomanos. Os vencedores submeteram os sobreviventes muitos deles monges e religiosas — a um cruel e bárbaro tratamento.

 A famosa igreja de Santa Sofia tornou-se cenário de uma sangrenta orgia, depois da qual o local sagrado passou a servir de estábulo para os cavalos dos turcos. Ficava claro para a Cristandade que os seguidores de Maomé não descansariam enquanto não estendessem seu domínio sobre a Europa.

Mas a Divina Providência, que permitira tal derrota para castigo da Cristandade decadente, suscitaria, no momento e no lugar certos, os homens certos para obstar os planos dos infiéis.

Vitórias iniciais contra os turcos

János (João, em português) nasceu provavelmente no ano 1387. Seu pai, Serba Vojk, leal servidor do rei húngaro Sigismundo, recebera como prêmio o castelo de Hunyadvár, na Transilvânia, tendo desde então mudado seu nome, Serba Vojk, para Hunyadi.

Desde a infância, János Hunyadi, a quem trataremos apenas pelo sobrenome, mostrou-se sempre muito piedoso. Seus companheiros de Corte o viam frequentemente levantar-se durante a noite e passar horas de joelhos na capela real, em oração.

Ele cresceu como um soldado. Inicialmente lutando como mercenário na Itália, dedicou-se depois a enfrentar o Império Otomano, o maior inimigo de seu país e da Santa Igreja, na época.

Até 1441, suas campanhas militares foram apenas um prelúdio de sua longa guerra contra os otomanos, o que lhe valeu a fama de “Flagelo dos Turcos”. Em uma dessas campanhas, tentou unir forças com o grande herói albanês Skanderbeg,(1) só não o fazendo por intrigas de um príncipe sérvio.(2)

Em 1437, o rei Sigismundo nomeou-o defensor do sul da Hungria, desde a Transilvânia do Leste até o mar Adriático. O rei seguinte, Ladislau V, tornou-o capitão de Nandorfehervár (atual Belgrado, capital da Sérvia) e voivode (príncipe) da Transilvânia.

Avanço maometano nos Bálcãs

Batalla de Belgrado (Nandorfehervar)
Batalla de Belgrado (Nandorfehervar)
Nos anos que precederam essa nomeação de Hunyadi efetuou-se um gradual avanço turco sobre os Bálcãs, em direção à Hungria. Vilas inteiras eram destruídas, milhares de pessoas mortas, e muitas outras, incluindo mulheres e crianças, capturadas como escravas.

Nomeado comandante, Hunyadi decidiu que já era tempo de pôr um fim às invasões turcas.

Guerreiro incansável, aparecia de improviso nas regiões ocupadas, surpreendia o inimigo com táticas inusitadas, infundia temor mesmo nos grandes exércitos, acompanhado por tropas seletas mas reduzidas.

Vitoriosa tática dos “vagões blindados”

Certa feita, deparou-se com a quase totalidade dos contingentes turcos da Europa, sob o comando do terrível Sehabeddin, súdito do mesmo Maomé II que depois conquistaria Constantinopla. A ordem deste era conquistar a Moldávia, a Valáquia e a Transilvânia.

Hunyadi posicionou suas tropas em formação retangular, tendo os flancos e a retaguarda bem protegidos por vagõesblindados. Inovação utilizada por um líder da Boêmia anos antes, os vagões eram preenchidos por soldados, e ligados por correntes para evitar a penetração pelo inimigo.

No auge da refrega, os vagões foram subitamente empurrados sobre o adversário, causando, com seu movimento, grande pânico entre as tropas turcas. Os soldados desembarcaram e cumpriram sua missão. Mais uma grande vitória obtida pelo herói húngaro.

A notícia das conquistas de Hunyadi espalhou-se por toda a Europa, trazendo esperança para os reinos que ainda sofriam sob a dominação otomana. No ano seguinte, o general húngaro venceu mais seis batalhas, livrando a Sérvia da presença turca.

Janos Hunyadi, monumento em Pecs, Hungria
Janos Hunyadi, monumento em Pecs, Hungria
Apesar dos aplausos das outras potências europeias, nenhuma delas ofereceu ajuda significativa. Apenas a Santa Sé levou a sério essa tão importante causa. Calixto III, ancião espanhol recém-eleito para o sólio pontifício, soube perceber a gravidade do momento.

Considerou como obrigação enfrentar os turcos, fazendo o propósito de expulsá-los de Constantinopla, e até, se possível fosse, da própria Terra Santa.

“O mundo tinha mudado desde os velhos tempos de Urbano II, mas no peito do Papa ancião batia o coração de um verdadeiro cruzado. Em carta ao novo rei húngaro Ladislau, o Papa declarou sua resolução, mesmo ao preço de seu próprio sangue se necessário, de que ‘estes inimigos insidiosos do nome Cristão sejam inteiramente expulsos não só da cidade de Constantinopla, recentemente ocupada, mas também de todos os confins da Europa’”.(3)

Após tomar Constantinopla, o jovem Maomé II decidiu, em 1455, que era tempo de esmagar definitivamente a Hungria. E o ponto nevrálgico era a fortaleza de Nandorfehervár. “Em dois meses, estarei jantando tranquilamente na capital húngara”, teria dito o sultão.

continua no próximo post



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Novas lutas, novas vitórias – D. Afonso Henriques 4

Continuação do post anterior

Mas o mouro não descansa. Quer manter a todo custo seus domínios na Península Ibérica, e convoca para isso contínuos reforços do norte da África. D. Afonso responde à altura, como um gigante infatigável e onipresente.

A promessa de Nosso Senhor cumpre-se a cada novo empreendimento. Em março de 1147, o Rei ataca o castelo de Santarém em poder dos infiéis.

Mortas as sentinelas, vencidas as resistências, abre-se a maciça porta de ferro aos cavaleiros portugueses. E há um momento de profunda beleza: no meio da torrente que se precipita para o interior do castelo, aureolado pelo clarão puro do sol nascente, D. Afonso reza de joelhos, dando graças a Deus, que lhe protegeu a empresa.

Nesse mesmo ano de 1147, com a ajuda decisiva de uma grande frota de cruzados alemães, franceses, ingleses e flamengos de retorno da Terra Santa, efetua-se, de julho a outubro, a laboriosa conquista de Lisboa.

Assédio longo e sangrento, com alternativas inúmeras, terrenos disputados palmo a palmo, mortíferos engenhos bélicos. Sintra, Almada e Palmela, ante a queda de Lisboa, entregam-se.

Anos depois, em 1158, cai Alcácer do Sal, praça que defende uma importante zona entre os rios Sado e Tejo. Em 1159, Évora, logo perdida; Beja, perdida também e, em 1162, retomada.

“Portugal alarga-se, talhado à espada sobre a decomposição do velho império almorávida. O prestígio de D. Afonso cresce, impõe-se, quer na península, quer além dela”.(9)

O legado de D. Afonso

D. Afonso Henriques deixa um reino firmado e definido. A sua espada o traçou em riscos de sangue. Mas se o reino é um fato político, as intérminas guerras, saques e devastações miseravelmente o descarnaram.

O Fundador mal tem tempo ou sossego para outros empreendimentos que não sejam os das armas. Ainda tenta, com a doação de largos domínios ao sul do rio Douro à Ordem Cisterciense — instalada, desde 1153, no Mosteiro de Alcobaça — promover a sua colonização e valorização sob o incomparável influxo dos monges de São Bernardo.

Dom Afonso Henriques, túmulo na Igreja de Santa Cruz, Coimbra, Portugal
Dom Afonso Henriques, túmulo na Igreja de Santa Cruz, Coimbra, Portugal
“Talhado à espada”, pode-se dizer que Portugal está em carne viva, exaurido por mil feridas, enfraquecido nas suas energias vitais.

Assim o recebe Dom Sancho, filho e sucessor de D. Afonso, com a morte deste em 1185, após meio século de grandes esforços, de vitórias consecutivas, de atividade incrível.

E logo, cônscio do papel da realeza, se entrega à diligente enfermagem do corpo exangue que lhe é confiado. A sua atividade exerce-se na restauração de fortalezas em ruínas, no repovoamento de lugares devastados pela guerra, no estímulo a todos os aglomerados que mostrem tendências de estabilidade e desenvolvimento, nas numerosas doações feitas às Ordens Militares.

Os trabalhos agrícolas são igualmente auxiliados com medidas propícias, para que o solo português acuda às necessidades dos seus habitantes.

E então o solo, regado por anos pelo sangue dos primeiros heróis, vai começar a produzir as novas gerações de heróis e missionários que herdarão o dever de “publicar o nome do Salvador pelas terras mais estranhas”.

Notas:
1. AMEAL, João. História de Portugal. Porto: Tavares Martins, 1940, p.XIII.
2. WALSH, William Thomas. Nuestra Señora de Fátima. Madrid: Espasa-Calpe, 1960, p. 111
3. AMEAL, op. cit., p.66
5. BRANDÃO, Antônio [et al.]. Terceira Parte da Monarchia Lusitana. Lisboa, 1632. p. 120. Mantivemos a grafia original. Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=xDsUNklTpPoC&pg=RA1-PA258-IA4&dq=cronica+de+dom+afonso+henriques.
6. Idem, p. 127.
7. Os Lusíadas, canto III, estância 53. Disponível em http://www.historia.com.pt/lusiadas/ourique.htm.
8. Oito séculos mais tarde, esse ato de vassalagem será lembrado por Pio XII na Encíclica Sæculo Exeunte Octavo, de 13 de junho de 1940. “1. O VIII centenário da fundação de Portugal e o III de sua restauração, que a vossa gloriosa e nobre pátria celebra este ano com grande solenidade e unidade de intentos, não podiam deixar indiferentes o vigilante interesse desta Sé Apostólica, nem, muito menos, o nosso coração de pai comum dos fiéis. 2. Temos igualmente motivo especial para participar da comemoração de vossa primeira independência, sendo um fato que a Santa Sé, como é notório, colaborou para que lhe viesse dada uma constituição jurídica. 3. Os atos com os quais os nossos predecessores do século XII, Inocêncio II, Lúcio II e Alexandre III aceitaram a homenagem de obediência prestada por Afonso Henriques, conde e, em seguida, rei de Portugal, tendo-lhe prometido sua proteção, declararam independência de todo o território, que ao preço de duríssimas lutas tinha sido valorosamente recuperado do domínio sarraceno, foi o prêmio com o qual a Sé de Pedro compensou o generoso povo português por suas extraordinárias benemerências em favor da fé católica. 4. Tal fé católica, tendo sido, de certo modo, a linha vital, que alimentou a nação portuguesa desde seu nascimento, assim foi senão a única, certamente a principal fonte de energia, que elevou a vossa pátria ao apogeu da sua glória de nação civil e nação missionária, ‘expandindo a fé e o império’”.Disponível em http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_13061940_saeculo-exeunte-octavo_po.html
9. AMEAL, op. cit., p.70.

(Autor: Guilherme Félix de Sousa Martins, CATOLICISMO, fevereiro 2013.



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Um país “talhado à espada” – D. Afonso Henriques 3

Continuação do post anterior

A batalha de Ourique, cuja importância para o nascimento de Portugal é inegável, ainda hoje é alvo de disputas.

É verdade que os detalhes se perderam nas brumas do passado; mas os efeitos da batalha não fizeram senão confirmar o plano da Providência Divina: formou-se um povo soberano, marcado a fundo em sua personalidade pela fé verdadeira, povo que tomou a peito o ideal da propagação dessa mesma fé até os confins da Terra.

E Nossa Senhora, aparecendo em solo português nos albores do século XX, ao profetizar os castigos, afirmou, entretanto, que “em Portugal se conservaria sempre o dogma da Fé”.(2)


Batalha de Ourique

Comandando seus homens nos campos de Ourique — situados quer no Baixo Alentejo, quer no Cartaxo, cerca de Santarém, quer junto às nascentes do Liz, próximo a Leiria, a discussão é grande a tal respeito (3) — e certo da vitória, garantida por Nosso Senhor, D. Afonso Henriques dá batalha à multidão de mouros que cercavam seu exército.

Não fosse a promessa recebida, teria sido temerária a empresa: as narrativas falam na proporção de cem muçulmanos para cada cristão.

Tal era o desejo de vingança do rei Ismar, o maior entre os cinco reis mouros reunidos e o comandante supremo das tropas muçulmanas, que, para engrossá-las, chegara a incluir mulheres disfarçadas na cavalaria, fato que depois foi constatado.

Estimulados pela bravura demonstrada desde o início por D. Afonso, os portugueses avançam invocando São Tiago, e com o brado “Real, real! Por Afonso, Rei de Portugal!”, selam assim, como o próprio Cristo afirmara a D. Afonso, sua escolha como rei.

Os feitos de valentia multiplicam-se de ambos os lados e figuras de destaque dos dois exércitos tombam por terra. Estando já avançada a tarde, D. Afonso divisa o coração do inimigo:

“El Rei D. Afonso entendendo como a principal força dos contrários consistia em hum esquadrão muy forte, que servia de guarda a el Rey Ismário, em o qual vinha por Capitão hum seu sobrinho por nome Homar Atagor, homem de incredíveis forças, se resolveu em rematar contas, e juntos a si os mais fortes de seu campo o investiu com tanto valor, e bom sucesso, que mortos os principais delle com seu Capitão, se começou a desordenar o exército dos Árabes. Vendo el Rey Ismário o perigo que corria sua vida, sem poder remediar a ruína de seu Campo, se pôs em fugida”.(5)

Vencida a batalha, D. Afonso Henriques permanece ainda durante três dias com sua gente naquele campo, seguindo o costume da Cavalaria medieval, para certificar-se da desistência do inimigo. E a fim de cumprir a ordem de Cristo crucificado:

“Para que teus descendentes conheçam quem lhes dá o reino, comporás o escudo de tuas armas do preço com que eu remi o gênero humano, e daquele por que fui comprado dos judeus”(6), manda em seguida que se desenhe no seu brasão de armas cinco escudos — recordando as cinco chagas de Nosso Senhor — cada qual com cinco moedas, simbolizando os trinta dinheiros pelos quais fora vendido o Salvador aos seus algozes.

Camões assim imortaliza a vitória em Os Lusíadas:

Já fica vencedor o Lusitano,
Recolhendo os troféus e presa rica;
Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
Três dias o grão Rei no campo fica.
Aqui pinta no branco escudo ufano,
Que agora esta vitória certifica,
Cinco escudos azuis esclarecidos,
Em sinal destes cinco Reis vencidos.(7)

“El Rei” D. Afonso

D. Afonso sai vitorioso, e aclamado por seu povo como rei. Entretanto, muito tempo ainda transcorrerá até que os outros povos o reconheçam. Desde logo, D. Afonso dirige-se ao Papa para prestar-lhe vassalagem, com a carta Clavis regni coelestis(13-12-1143).(8)

Na carta Devotionem tuam, de 1º-5-1144, o Papa Lúcio II agradece efusivamente a D. Afonso, cujos propósitos louva, mas chama-lhe, em vez de rex, apenas dux (não rei, mas duque).

É só mais tarde, em 1179, que recebe a bula Manifestis probatum, do Papa Alexandre III, reconhecendo-lhe finalmente o título de Rei (AMEAL, pp. 69-71).

continua no post seguinte

(Autor: Guilherme Félix de Sousa Martins, CATOLICISMO, fevereiro 2013.



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O “Fundador dos Impérios” fala ao rei de Portugal – D. Afonso Henriques 2

Conde de Portugal D. Henrique de Borgonha
Conde de Portugal D. Henrique de Borgonha
Continuação do post anterior

D. Afonso, filho de D. Henrique foi se mostrando desde pequeno propenso a realizar as aspirações do pai em relação ao nascente Portugal. E os melhores vultos da nobreza — entre os quais o mítico Gonçalo Mendes, o Lidador — põem nele suas esperanças.

Ainda muito jovem, sai vencedor na Batalha de São Mamede, o que lhe assegura a soberania sobre seus territórios frente às pretensões dos reinos vizinhos e de facçõesinternas.

As relações com o governo leonês deixam de ser vassalo-senhor.

Mostrando seus propósitos de emancipação, D. Afonso vai ao mesmo tempo consolidando a estrutura de seus domínios. Favorece a estabilização do poder eclesiástico nas mãos do arcebispo de Braga e trabalha em prol de boas relações com a Santa Sé.

Os árabes agitam-se novamente, fazendo incursões e derrotando os portucalenses. D. Afonso assina um acordo de paz com o imperador de toda a Hispania (Afonso VII de Leão e Castela), assegurando a estabilidade em uma de suas frentes.

Para barrar o mouro invasor, intui que é preciso causar terror em seu meio. Aproveitando-se de uma crise dinástica entre Almorávidas e Almôhadas, penetra em território dominado por eles para dar batalha.

O número dos inimigos, entretanto, começa a esmorecer a coragem dos portucalenses. Assim narra o próprio D. Afonso:

“Eu estava com meu exército nas terras de Alentejo no Campo de Ourique para dar batalha a Ismael, e outros quatro reis mouros, que tinham consigo infinitos milhares de homens; e minha gente, temerosa de sua multidão, estava atribulada, e triste sobremaneira, em tanto que publicamente diziam alguns seria temeridade acometer tal jornada. E eu, enfadado do que ouvia, comecei a cuidar comigo o que faria”.(6)

Milagre de Ourique
Milagre de Ourique
No meio dessa preocupação, D. Afonso entra em sua tenda, toma a Sagrada Escritura, abre-a justamente na narrativa da vitória de Gedeão, e dirige em seguida uma prece a Deus:

“Mui bem sabeis Vós, Senhor Jesus Cristo, que por amor vosso tomei sobre mim esta guerra contra os blasfemadores de vosso nome”.

Cansado, adormece e, em sonho, vê um ancião que vem até ele, prometendo-lhe a vitória. Seu camareiro logo o desperta, apresentando o mesmo ancião que vira no sonho, o qual lhe dirige a mesma promessa de vitória, acrescentando que Nosso Senhor queria comunicar-lhe uma mensagem.

D. Afonso obedece às ordens daquele homem de Deus, dirigindo-se ao local determinado. “Vi de repente no próprio raio resplandecente o sinal da Cruz, mais resplandecente que o Sol, e

Jesus Cristo crucificado nela. Lancei-me por terra e, desfeito em lágrimas, comecei a rogar pela consolação de meus vassalos, e disse sem nenhum temor:

‘A que fim me apareceis, Senhor? Quereis por ventura acrescentar fé a quem tem tanta? Melhor é por certo que vos vejam os inimigos, e creiam em vós, que eu, que desde a fonte do Batismo vos conheci por Deus verdadeiro, Filho da Virgem, e do Padre Eterno, e assim vos conheço agora’.

O Senhor, com um tom de voz suave, que meus ouvidos indignos ouviram, me disse:

‘Não te apareci deste modo para acrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração neste conflito, e fundar os princípios de teu Reino sobre pedra firme. Confia, Affonso, porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras, em que pelejares contra os inimigos da minha Cruz. Acharás tua gente alegre, e esforçada para a peleja, e te pedirá que entres na batalha com o título de Rei. Não ponhas dúvida; mas tudo quanto te pedirem lhe concede facilmente. Eu sou o fundador, e destruidor dos Reinos, e Impérios; e quero em ti, e teus descendentes, fundar para mim um Império, por cujo meio seja meu nome publicado entre as nações mais estranhas’.

‘Por que méritos, Senhor, me mostrais tão grande misericórdia? Ponde vossos benignos olhos nos Sucessores, que me prometeis, e guardai salva a gente portuguesa’.

‘Não se apartará deles, nem de ti, nunca, minha misericórdia, porque por sua via tenho aparelhadas grandes searas, e a eles escolhidos por meus segadores em terras mui remotas’.

Dito isto, desapareceu”.

Confortado por essas palavras, D. Afonso volta para o acampamento. No brilho dos seus olhos, e no vigor de sua expressão, seus cavaleiros encontram ânimo para dar batalha aos infiéis.

Notas:
1. Cf. Catolicismo, novembro/2010.
2. AMEAL, João. História de Portugal. Porto: Tavares Martins, 1940, p.27.
3. Idem, p.30.
4. Cristãos que preferiam a convivência a uma vida de constante luta contra o invasor muçulmano.
5. AMEAL, João, op. cit. p. 52.
6. Monarchia Lusitana, Tomo III, p. 127, disponível em http://www.angelfire.com/pq/unica/monumenta_1152_juramento.htm

(Autor: Guilherme Félix de Sousa Martins, CATOLICISMO, fevereiro 2013.



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS