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quarta-feira, 22 de maio de 2013

São Silvestre I: tirou a Igreja da miséria das catacumbas e a fez merecidamente pomposa e soberana

São Silvestre I, (280-335 d.C.)
São Silvestre I, (280-335 d.C.)

continuação do post anterior

O princípio da constantinização é duplo:

Primeiro, de ordem política. Esse princípio parte do reconhecimento de que a Igreja Católica é a única verdadeira. E é fácil de perceber que Ela é a única Igreja verdadeira; todo homem que pode conhecer a Igreja e não adere, é culpado.

E a Igreja deve do Estado, a proteção e o apoio, o respeito e as honras que se tributam ao que é divino.

A Igreja é uma entidade mais nobre e poderosa do que o Estado na ordem profunda das coisas, porque Ela é divina.

Daí então a famosa comparação de São Gregório VII: a Igreja é como o sol, e o Estado é como a lua.

A lua recebe a sua luz do sol e o Estado recebia todo o seu lume da Igreja.

Segundo, as coisas esplêndidas e magníficas da terra foram feitas sobretudo para o culto de Deus, e não sobretudo para o uso do homem.

De maneira que os incensos mais magníficos, os tecidos mais estupendos, o ouro mais puro, a prata mais refinada, os materiais mais luxuosos devem ser extraídos da terra pelo homem.

Mas, antes de se destinarem ao adorno da vida humana, destinam-se ao serviço de Deus.

São Silvestre I mostra a Constantino as cabeças de São Pedro e São Paulo,  hoje veneradas em São João de Latrão
São Silvestre I mostra a Constantino as cabeças de São Pedro e São Paulo,
hoje veneradas em São João de Latrão
Isso está de acordo com o gesto de Santa Maria Madalena, que quebrou o vaso com ungüento sobre os pés de Nosso Senhor e enxugou os pés divinos d’Ele com seu próprio cabelo, em sinal de veneração.

Judas não gostou, porque achou que o dinheiro devia ser dado aos pobres.

Mas todos os espíritos bons, em todos os séculos, gostaram.

E Nosso Senhor justificou, dizendo: “Pobres, vós sempre os tereis convosco”. E depois profetizou que sua morte viria em breve.

Aí temos, por contraste, aquilo que os progressistas extremistas chamam de miserabilismo.

Eles dizem: A Igreja de Cristo é a igreja dos pobres. Ela foi feita para os pobres, e não pode se apresentar no luxo porque afronta os pobres.

Ela deve se apresentar na miséria, mas na miséria miserável.

Os templos devem ser como as casas dos pobres mais pobres, para que esses pobres não se sintam mal lá dentro.

O pretexto seria que Cristo odeia os objetos de luxo. O fausto que os ricos puseram na igreja não deve existir nem na casa deles, nem casa de Deus. Não vamos mais usá-lo porque não vale nada.

Imperador Constantino conduz São Silvestre I a Roma,  símbolo do triunfo da Igreja que passava a ser oficial e esplendorosa
Imperador Constantino conduz São Silvestre I a Roma,
símbolo do triunfo da Igreja que passava a ser oficial e esplendorosa
A Igreja – eles acrescentam – não deve ser oficial. Ela deve ser humilde e não deve gozar de honras nem de proteção.

E o católico deve se apresentar ‘humilde’ e miserável.

É, ao pé da letra, o pensamento de Judas Iscariotes.

É o igualitarismo mais monstruoso, porque quer estabelecer a igualdade entre os pobres e Deus, quando Deus é infinitamente superior aos próprios ricos.

Esta atitude priva a Igreja de todo o prestígio merecido e representa, no fundo, um aniquilamento.

Ela arranca do povo a fé que leva a tributar à Igreja todas essas honras. E elimina toda espécie de arte e de beleza, não só da Igreja, mas do convívio social.

Desse modo se reduzem o culto e a sociedade temporal a um estado semelhante ao do selvagem.

Porque quem habita em tocas e em antros é selvagem. E se o selvagem procura a toca, a toca produz o selvagem.

Sob São Silvestre I (na imagem com São Jerônimo e São Martinho de Tours)  a Igreja pôde organizar devidamente o clero e a hierarquia eclesiástica
Sob São Silvestre I (na imagem com São Jerônimo e São Martinho de Tours)
a Igreja pôde organizar devidamente o clero e a hierarquia eclesiástica
Quem age assim desarticula a civilização, renuncia à civilização. E prepara uma forma nova e extrema de decadência.

O verdadeiro católico afina com o espírito constantiniano. Ele deseja e ama o que os progressistas e os teólogos da libertação chamam com menosprezo de Igreja constantiniana, porque esta é deveras a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo.

Os bons católicos têm como lembrança que o Papa que constantinizou a Igreja é um santo canonizado e que está nos altares: São Silvestre; ao passo que se algum Papa haja que desconstantinize a Igreja, eu nem juro que ele seja santo e juro que ele jamais poderá ocupar os altares.

Aí está a grande lição que um Papa santo como São Silvestre dá aos católicos de nossos dias.

Se São Silvestre ressuscitasse e visse essa desconstantinização, o que é que ele faria?

Que maldição, que praga, que furor, que indignação, que terror, não é verdade?

Pois bem, é deste sentimento que devem arder hoje as almas sinceramente católicas face aos atrevidos despojadores da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.

(Comentários de Plinio Corrêa de Oliveira feitos em 30-12-1966, sem revisão do autor).




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quarta-feira, 8 de maio de 2013

São Silvestre I, o primeiro Papa-rei de Roma

Sob São Silvestre I a Igreja saiu do opróbio persecutório  do tempo das catacumbas. Catedral Notre Dame de Paris
Sob São Silvestre I a Igreja saiu do opróbio persecutório
do tempo das catacumbas. Catedral Notre Dame de Paris

Dom Prosper Guéranger OSB (1805-1875), refundador da Abadia de Solesmes, escreveu em sua célebre obra L’Année Liturgique um grande elogio de São Silvestre I Papa (280-335), na qual, entre outras coisas, ele diz:

“Era justo, então, que a Santa Igreja, para reunir nessa oitava triunfante todas as glórias do céu e da terra, inscrevesse nesses dias, o nome de um santo confessor que representasse todos os confessores.

“Este é São Silvestre, esposo da Santa Igreja Romana e, por ela, da Igreja Universal.

“Um pontífice de reinado longo e pacífico, um servidor de Cristo ornado de todas as virtudes, e dado ao mundo após esses combates furiosos que tinham durado três séculos, nos quais triunfaram pelo martírio milhares de cristãos sob a direção de numerosos papas, mártires predecessores de Silvestre.

“Silvestre anuncia também a paz que Cristo veio trazer ao mundo e que os anjos cantaram em Belém.

“Amigo de Constantino, confirma o Concílio de Nicéia que condenou a heresia ariana e organiza a disciplina eclesiástica para uma era de paz. Seus predecessores representaram Cristo padecente; ele figura Cristo triunfante.

O Papado passou a ser respeitado como Jesus Cristo desejava  no pontificado de São Silvestre I
O Papado passou a ser respeitado como Jesus Cristo desejava
no pontificado de São Silvestre I
“Ele completa, nessa oitava, o caráter do Divino Menino e chega na humildade de Suas faixas, exposto à perseguição de Herodes e, entretanto, é o Príncipe da Paz e o Pai do século futuro.

“De acordo com os ensinamentos de Silvestre, o piedoso imperador confirmou com seu exemplo o direito concedido aos cristãos de construir seus templos de modo ostensivo; pois ele elevou grande número de Basílicas.

“A saber, a de Laterão dedicada a Cristo Salvador, a do Vaticano a São Pedro, a da via de Óstia a São Paulo, as de São Lourenço no Agro Verano, da Santa-Cruz no palácio de Sessorius, dos santos Pedro e Marcellino e de Santa Inês nas vias Lavicana e Nomentana, e outras ainda; que ele ornou esplendidamente com imagens santas e dotou magnificamente com propriedades e privilégios.

“Foi sob seu pontificado que se reuniu o primeiro Concílio de Niceia, no qual, sob a presidência de seus legados, na presença de Constantino e de trezentos dezoito bispos, a santa Fé católica foi explicada e Ario e seus sectários foram condenados. (...)

“São Silvestre também ditou vários decretos vantajosos para a Igreja de Deus que levam seu nome; a saber: (...) que os diáconos usariam a dalmática na Igreja e levariam no braço esquerdo um ornamento de linho; que o Sacrifício do altar se celebraria sobre uma toalha de linho”. Dom Prosper Guéranger, OSB, “L’Année Liturgique”, “Temps de Noel, Propre des Saints, XXXI Décembre. Saint Silvestre, Pape et Confesseur”.

O lindo comentário D. Guéranger nos chama a atenção para a vida desse santo, lembrado no último dia do ano, e para o exemplo que ele dá aos dias tristes em que nós vivemos.

Ele foi Papa no tempo do Imperador Constantino e presidiu à transformação da Igreja, que deixou de ser perseguida para ser rainha, deixou as catacumbas e começou a ocupar palácios.

São Silvestre I batiza o imperador Constantino
São Silvestre I batiza o imperador Constantino
São Silvestre presidiu ao desabrochar da Igreja fora das catacumbas como um sol que nasce. Foi sob suas diretrizes e inspiração que começou a obra de “constantinização” da Igreja.

O que é essa constantinização?

A obra consistiu no seguinte. Houve um primeiro edito de Constantino que concedeu liberdade à Igreja Católica.

Houve depois um outro edito, que fechou todos os templos não católicos.

Depois a Igreja começou a se instalar sobre o solo romano.

São João de Latrão é um dos troféus mais preciosos  da igreja constantiniana
São João de Latrão é um dos troféus mais preciosos
da igreja constantiniana
O imperador Constantino quis cercá-la de um luxo que reparasse os anos de imerecida miséria que Ela tinha passado nas catacumbas.

Assim, mandou construir a primeira Basílica cristã católica sobre o palácio da sogra dele, a casa dos Laterani.

Ela passou a ser a igreja de São João de Latrão, a Catedral do Papa.

Depois disso, o imperador começou a cercar os bispos de honras especiais, torná-los personagens oficiais, e cercar de todo esplendor os atos do culto católico, prestigiado pelo comparecimento pessoal do Imperador.

A Igreja passou a ser unida ao Estado e ficou uma entidade de tal maneira reverenciada que um dos motivos que levaram Constantino a deixar Roma e fundar a cidade de Bizâncio – também chamada Constantinopla – estava em deixar a cidade mais ilustre da terra, que era Roma, para que o Papa nela residisse sozinho e fosse virtualmente o soberano de Roma.

Constantino ainda não lhe deu o poder temporal, mas criou uma situação em que praticamente o Papa era o senhor temporal de Roma.

(Comentários de Plinio Corrêa de Oliveira feitos em 30-12-1966, sem revisão do autor).

Continua no próximo post





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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Assim morreu Bayard, "o cavaleiro sem medo e sem mancha"

Bayard, estátua em St. Anne d'Auray, Bretanha, FrançaPierre Terrail, senhor de Bayard (1476 – 30 de Abril 1524) foi um cavaleiro francês que nacido no fim da Idade Média levou o espírito medieval até a era seguinte, i. é, a decadente Renascença. Ele ficou geralmente conhecido como o Cavaleiro de Bayard. Desde sua morte é lembrado como "o cavaleiro sem medo e sem mancha", (le chevalier sans peur et sans reproche). Ele porém, preferia ser tratado apenas como "le bon chevalier", i. é, "o bom cavaleiro".
Faleceu na passagem alpina de Sesia protegendo a retaguarda do exército real francês, acossada por tropas espanholas comandadas pelo marqués de Pescara.


Os atiradores eram excelentes. Dois tiros simultâneos: um prostrou por terra mortalmente Jean de Chabannes, senhor de Valdenesse; o outro atingiu Bayard e lhe quebrou a espinha dorsal.

“Senhor Jesus!” — bradou, agarrando-se no arção de sua cela para não cair. Aqueles que o rodeavam ouviram-no ainda exclamar: “Senhor Deus, vou morrer!”

Correram para auxiliá-lo, mas todo socorro humano era impotente. Sentindo que suas forças o abandonavam, Bayard tirou sua espada, que havia tanto tempo o acompanhava em todas as pelejas, e que tão bem lutara pela França. Ergueu-a, contemplou-a, depois osculou a cruz que havia no punho, como se quisesse associar, neste gesto, a devoção pelo Redentor e o amor pela arma do cavaleiro.

“Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam” — escapa de seus lábios contritos. Repentinamente calou-se. Estava mortalmente pálido e oscilava na sela. Jean Joffrey, seu escudeiro, que havia muito tempo o servia fielmente e o escoltava em todas as suas proezas, ajudou seu senhor a descer do cavalo.

À sombra do carvalho

Bayard reabriu os olhos. Com um gesto mostrou um carvalho que havia por perto, e fez sinal de que queria repousar à sombra da árvore venerável. “Desejo esperar a morte vendo de frente meus inimigos — murmurou —. Eu nunca lhes voltei as costas. Pela honra de cavaleiro católico, não é agora que o farei”. Um nobre aliado seu aproximou-se, suplicando a Bayard que se deitasse na maca que os soldados haviam feito com suas lanças; mas ele recusou.

Bayard se aproximava de sua última proeza: o encontro face a face com Deus. Por entre seus últimos esforços, ouviram-se dele estes gemidos: “Em cada movimento sinto as dores da morte que me vem buscar”.

Seu escudeiro chorava, ajoelhado junto a seu senhor. Bayard, apesar de seu estado, demonstrando um afeto especial, afagou-lhe a cabeça: “Jacques, amigo, enxuga essas lágrimas. É vontade de Deus que eu deixe este mundo. Por Sua graça eu nele fiquei muito tempo, e recebi bens e honras imerecidos. A única coisa que lamento é não ter cumprido meu dever tão bem quanto deveria. Se tivesse mais tempo, corrigiria as faltas passadas; mas se Ele me quer chamar agora, suplico que Ele tenha piedade de mim, pela sua imensa misericórdia. Confio que, pela intercessão de sua Mãe Santíssima, ele olhará para sua misericórdia, e não para meus pecados, que pediriam Sua Justiça punitiva”.

Os inimigos assomam ao longe, dirigindo-se em carga de cavalaria a Bayard e seus companheiros. Querendo poupar sacrifícios a seus pares e súditos, Bayard logo pediu que o deixassem, mas eles com galhardia não acederam.

Então o nobre cavaleiro pediu a seu escudeiro que o ouvisse em confissão, pois ali não havia sacerdote que pudesse escutar suas faltas e lhe dar a absolvição. Ao preboste de Paris, Sr. d’Alègre, ele confiou seus últimos desejos.

Despedida dos seus


Bayard, estátua em Grenoble, detalheDepois disso ele suavemente afastou de si os que o rodeavam:

“Senhores, eu vos suplico, ide-vos. Do contrário, caireis nas mãos dos inimigos, e isto não me será de nenhum proveito, porque me sentirei culpado. Adeus, meus bons senhores e amigos. Recomendo às vossas orações minha alma pecadora. Eu vos suplico, senhor d’Alègre, que saudeis por mim o rei, nosso senhor. Dizei-lhe quanto lamento não ter podido servi-lo por mais tempo e como eu muito gostaria. Saudai também os senhores príncipes, todos os meus companheiros e todos os gentis-homens da doce França, quando os virdes”.

Eles insistiram em ficar, segurando mesmo suas vestes, mas ele os repeliu com uma afetuosa insistência; e como quisessem resistir, fez um gesto: “Eu ordeno!” Docilmente eles se despediram. Entre lágrimas, beijaram-lhes as mãos, enquanto crescia o grupo de cavaleiros inimigos. Via-se o brilho dos capacetes e o movimento dos estandartes.

Joffrey era o único junto dele. Bayard, exausto, fechara os olhos. O vento agitava os ramos do carvalho.

O inimigo espanhol


Quando Bayard, com dificuldade, reabriu os olhos, um cavaleiro coberto de esplêndida armadura, refulgente de sedas e penachos, estava diante dele. Bayard sorriu. Era um adversário digno dele, um bravo guerreiro: o marquês de Pescara. O general espanhol estava admirado de ver um homem reclinado num tronco, junto ao qual chorava o escudeiro. Quando reconheceu o “cavaleiro sem medo e sem mácula”, o marquês desmontou rapidamente e se aproximou, cheio de respeito e compaixão.

“Prouvesse a Deus, senhor de Bayard, que eu vos fizesse prisioneiro, mesmo que para isso derramasse a quarta parte do meu sangue. Nesse embate que teríamos, conheceríeis o grande apreço que tenho por vossas qualidades. Desde que empunhei armas, não ouvi falar de cavaleiro que, em virtudes, se aproximasse de vós!” Assim falava ele por causa da grande fama que Bayard tinha adquirido, pela sua vida de valor e devotamento, o que obrigava seus próprios inimigos a admirá-lo, respeitá-lo e temê-lo.

Bayard assiste o rei Francisco I na vitória de Marignano“Eu deveria estar bem aliviado de vos ver assim — disse ainda o marquês — sabendo bem que nas guerras o Imperador, meu senhor, não tem maior nem mais feroz inimigo. Entretanto, quando considero a enorme perda que hoje sofre a Cavalaria, Deus é testemunha de que eu preferiria dar a metade do que possuo, para que tal não acontecesse. Mas como para a morte não há remédio, peço Àquele que nos criou à Sua Imagem que se digne levar vossa alma para junto d’Ele”.

Em seguida insistiu para que o deixasse levá-lo a seu castelo, assegurando-lhe que seus cirurgiões o curariam. Jamais um cavalheiro usou convites tão amáveis e insistentes para atrair a seu castelo um nobre hóspede.

Bayard sabia que Pescara era sincero, e que seria tratado como cavaleiro por esse inimigo honrado. Pressentindo que a morte lhe era certa, Bayard, apesar de seus ferimentos, declinou honrosamente o convite: “Prefiro a simplicidade do campo de batalha, pois desejo morrer como o guerreiro que sempre fui”.

Pescara acedeu. Para atender aos desejos do Cavaleiro, ele fez armar sua própria tenda ao redor da árvore, arrumou um leito e nele colocou, com suas próprias mãos, o inimigo ferido. Então, ali já não estavam dois guerreiros inimigos servindo causas opostas, mas dois cavaleiros, fraternalmente unidos pelo espírito da Cavalaria, animados do mesmo ideal, que as circunstâncias tinham colocado em campos opostos, embora nutrissem mutuamente uma admiração varonil.
Bayard não quis receber os médicos que se apresentaram para tratá-lo. Acolheu devotamente o capelão do marquês, ao qual renovou sua confissão feita minutos antes a Joffrey, seu escudeiro. Depois pediu que o deixassem sozinho.

Bayard, vitral na capela da Universidade de PrincetonEnquanto ele se recolhia, Pescara organizou seu exército em ordem de desfile. As ordens de comando ressoavam de uma extremidade a outra do esquadrão; ouvia-se o galope dos cavalos, o rufar dos tambores, o soar das trombetas. Todos esses sons familiares flutuavam ao redor do agonizante.

Irrompeu o som marcial de uma grande fanfarra, acompanhando o passo cadenciado dos cavalos e a marcha pesada dos inimigos de Bayard.

O exército espanhol desfilava ante o Cavaleiro moribundo, inclinando seus estandartes no momento em que passavam pelo carvalho. Assim era o último adeus de Pescara, a última homenagem de um bravo prestada a outro bravo.

“A França tem uma perda irreparável neste nobre Cavaleiro, dizia François d’Avalos, antes de se despedir dele”.

A noite caía. O rumor do exército em marcha se extinguia ao longe. Novamente a calma do crepúsculo e o silêncio rodeavam o carvalho. Bayard rezava.

Último encontro


Uma voz familiar o arrancou de sua meditação: “Ah! Senhor de Bayard, que sempre estimei por vossa bravura e lealdade, muito lamento ver-vos neste estado!”

O rosto de Bayard tornou-se grave e hostil. Por que ser perturbado por tal homem, em tal momento? O condestável de Bourbon estava à sua frente, e em seu olhar havia uma sincera compaixão e também uma admiração sincera; talvez remorso.

O momento não era para explicações. Bayard não queria saber as razões que haviam levado esse homem a combater num exército estrangeiro e contra seu rei. Sem dúvida, Bourbon viera para se justificar, para explicar, mas Bayard não queria ouvi-lo, não queria conhecer as explicações de um homem que havia cometido uma felonia em relação ao seu rei.

Bourbon esperava uma palavra: um julgamento ou um perdão. Queria partir absolvido por este homem de honra, mas Bayard desdenhou discutir.

“Senhor, eu vos agradeço. Não tenhais piedade de mim, que morro como homem de bem, servindo meu rei. Mas ai de vós, que empunhais armas contra vosso príncipe, vossa pátria e vossa Fé”.

Dito isto, calou-se. Já estava acima de vãs querelas humanas, de ambição e de interesse; de guerras absurdas, de intrigas mesquinhas, de matanças inúteis. Bayard pertencia agora a Deus, e para Ele dirigia seus últimos pensamentos. À medida que se afastava da terra, ele se aproximava da pura luz da suprema Verdade, das certezas definitivas. Rezava.

“Meu Deus, Vós que dissestes, eu o sei, que aquele que se voltasse para Vós, embora pecador, estaríeis sempre pronto a recebê-lo e perdoá-lo. Ah!, meu Deus, Criador e Redentor, eu vos ofendi gravemente durante minha vida. Peço-vos perdão, com o coração contrito. Reconheço que, se me retirasse por mil anos no deserto, vivendo a pão e água, isso ainda não seria bastante para entrar em vosso reino, se, por vossa grande e infinita bondade não vos dignásseis ali me receber, porque ninguém pode merecer neste mundo tão alta recompensa. Meu Pai e Salvador, eu vos suplico que não considereis as faltas que cometi. Julgai-me segundo vossa grande misericórdia, e não segundo os rigores de vossa justiça”.
O sol desaparecera. A noite caíra. A oração de Bayard interrompeu-se. O Cavaleiro estava na presença de Deus...

(Fonte: Marcel Brion, "Historia", nº 329, abril de 1974)



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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Os 800 heróicos Mártires de Otranto

Nossa Senhora na capela dos mártires, igreja de Santa Caterina a Formiello, Otranto
Nossa Senhora na capela dos mártires,
igreja de Santa Caterina a Formiello, Otranto

Em 1480, a Itália celebrava a festa da Assunção com liturgias espetaculares, procissões e, claro, banquetes.

Com a exceção de Otranto, uma pequena cidade da Puglia, na costa do Adriático, onde 800 homens ofereceram suas vidas a Cristo.

Eles foram os Mártires de Otranto.

Poucas semanas antes, a frota turca atracara em Otranto. Sua chegada era temida há muitos anos.

Desde a queda de Constantinopla, em 1454, era apenas uma questão de tempo até que os turcos otomanos invadissem a Europa.

Otranto está mais próxima do lado leste do Adriático controlado pelos otomanos.

São Francisco de Paula reconheceu o perigo iminente para a cidade e seus cidadãos cristãos e pediu reforços para proteger Otranto.

Ele predisse: “Ó, cidadãos infelizes, quantos cadáveres vejo cobrindo as ruas? Quanto sangue cristão vejo entre vocês?”

A 28 de julho de 1480, 18.000 soldados turcos invadiram o porto de Otranto. Eles ofereceram condições de rendição aos cidadãos, na esperança de ganhar sem resistência este primeiro ponto de apoio na Itália e completar a conquista da costa adriática.

Monumento aos heróis e muralhas de Otranto
Monumento aos heróis e muralhas de Otranto
O sultão Mehmed II havia dito ao Papa Sisto IV que levaria seu cavalo para comer sobre o túmulo de São Pedro.

O Papa Sisto, reconhecendo a gravidade da ameaça, exclamou: “pessoas da Itália, se quiserem continuar se chamando de cristãos, defendam-se!”

Apesar de suas advertências terem-se esquecido nos ouvidos da maioria das cabeças coroadas da península –estavam muito ocupadas brigando entre si– o povo de Otranto escutou.

Pescadores, não soldados; eles não tinham artilharia. Eram menos de 15 mil, incluindo mulheres, crianças e idosos. Mas, por comum acordo, eles decidiram guardar a cidade, lançando-se ao combate das forças turcas.

A sofisticada artilharia turca danificava as muralhas de defesa, mas os cidadãos consertavam rapidamente os estragos.

Detrás dos muros, os turcos encontraram cidadãos impávidos, determinados a defender as muralhas com óleo fervendo, sem armas, e às vezes usando as próprias mãos.

Os cidadãos de Otranto frustraram o plano do Sultão de um ataque surpresa e deram à Itália duas semanas de tempo precioso para organizar e preparar suas defesas para repelir os invasores. Mas a 11 de agosto os turcos venceram os muros e açoitaram a cidade.

O exército turco foi de casa em casa, promovendo saques, pilhagens e, em seguida, ateando fogo. Os poucos sobreviventes refugiaram-se na catedral.

O arcebispo Stefano, heroicamente calmo, distribuiu a Eucaristia e sentou-se entre as mulheres e crianças de Otranto, enquanto um frade dominicano conduzia os fiéis em oração.

Capela com as relíquias dos 813 mártires na igreja de Santa Caterina a Formiello, Otranto
Capela com as relíquias dos 813 mártires na igreja de Santa Caterina a Formiello, Otranto
O exército de invasores arrombou a porta da catedral e a posterior violência contra mulheres, crianças e o arcebispo –que foi decapitado no altar– chocou a península italiana.

Os turcos tinham tomado a cidade, destruído casas, escravizado o povo e transformado a catedral em mesquita.

Cerca de 14.000 pessoas morreram na tomada de Otranto, na maior parte seus próprios cidadãos, mas um pequeno grupo de 800 sobrevivera, então os turcos tentaram o domínio completo, forçando a conversão.

A opção era o Islã ou a morte. Oito centenas de homens, acorrentados, sem casa e família, pareciam totalmente subjugados aos turcos vitoriosos.

Um dos 800, um trabalhador têxtil chamado Antonio Primaldo Pezzula, passou de artesão humilde a líder heróico nesse dia.

Antonio voltou-se para seus companheiros de Otranto e declarou: “Vocês ouviram o que vai custar salvar o que resta de nossas vidas! Meus irmãos, lutamos para salvar nossa cidade, agora é tempo de lutar por nossas almas!”

Os 800 homens com idades acima dos 15, de forma unânime, decidiram seguir o exemplo de Antonio e ofereceram suas vidas a Cristo.

Os turcos, que esperavam por um momento de propaganda triunfante, tentaram evitar o massacre. Eles ofereceram o retorno das mulheres e crianças que estavam prestes a ser vendidas como escravos, em troca da conversão dos homens, e eles ameaçaram com a decapitação em massa se isso não fosse aceito. Antonio recusou, seguido pelo resto dos homens.

Altar representando o martírio e o milagre, Santa Caterina a Formiello
Altar representando o martírio e o milagre, Santa Caterina a Formiello
Na vigília da Assunção, os 800 foram levados para fora da cidade e decapitados. A tradição conta que Antonio Pezzula foi decapitado em primeiro lugar, mas seu corpo sem cabeça permaneceu de pé até que o último otrantino estivesse morto.

Um dos carrascos, um turco chamado Barlabei, ficou tão impressionado com esse prodígio que se converteu ao cristianismo, e também foi martirizado.

Os restos foram cuidadosamente recolhidos, e são mantidos até hoje na Catedral de Otranto. No aniversário de 500 anos de sacrifício dos otrantinos, o Papa João Paulo II visitou a cidade e prestou homenagem aos mártires.

Bento XVI reconheceu oficialmente o martírio em 2007, trazendo Antonio Pezzula e seus companheiros um passo mais perto da canonização.

Esta “hora dos leigos” em Otranto, separados de nós por meio milênio, ainda ressoa como exemplo de testemunho do amor a Cristo.

Poucos de nós serão chamados ao mesmo sacrifício de Antonio Pezzuli e seus companheiros, mas como poderíamos responder a sua exortação: “Permanecei fortes e constantes na fé: com esta morte temporal nós ganharemos a vida eterna”.
Professora Elizabeth Lev
Professora Elizabeth Lev



(Autor: Dra. Elizabeth Lev, professora de Arte e Arquitetura Cristã no campus italiano da Universidade de Duquesne, de Pittsburgh, EUA e da Universidade São Tomás, de Saint Paul, Minnesota, EUA. Apud ZENIT






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