Outras formas de visualizar o blog:

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Lepanto: a maior batalha naval da História

Réplica da nau capitã de Don Juan d'Áustria em Lepanto
Réplica da nau capitânia de Don Juan d'Áustria em Lepanto



continuação do post anterior: A batalha de Lepanto: um Harmagedon naval entre a Cruz e o Crescente



“Toma, ditoso príncipe, a insígnia do verdadeiro Deus humanado”

As tratativas para a Santa Liga foram concluídas em 7 de março de 1571, festa de São Domingos. O Papa, exultante de alegria, entregou o empreendimento nas mãos de Nossa Senhora — as mesmas mãos que séculos atrás haviam dado o Rosário ao santo fundador da Ordem dos Pregadores.

O Santo Padre delegou o comando da pequena, mas prestigiosa frota dos Estados Pontifícios, composta de 12 naus de guerra, ao nobre Marco Antonio Colonna.

O príncipe ajoelhou-se para receber pessoalmente das mãos de São Pio V o estandarte da Liga, no qual estavam estampadas as imagens de Jesus Crucificado, São Pedro, o brasão do Papa e a inscrição “In hoc signo vinces” (“Com este sinal vencerás”).

Foi o lema visto acima de uma Cruz luminosa, no céu, pelo Imperador Constantino, no ano 312, e que o levou à vitória na famosa batalha de Ponte Mílvia, contra o usurpador Maxêncio.

O ponto de encontro de toda frota era a cidade de Messina, na Sicília. Primeiro, chegaram os venezianos com suas 66 naus, comandados pelo veterano Sebastião Veniero, que mantinha o fulgor de soldado, mesmo aos 70 anos. Logo depois, vieram as 60 naus espanholas comandadas por Andrea Doria, experiente navegador do Mediterrâneo.

A cidade de Messina fervia de entusiasmo pela vinda desses novos cruzados. Mas a verdadeira comemoração se deu quando D. João d’Áustria aportou com seus 45 navios.

Ele parecia uma figura angélica: vestido com sua armadura brilhante, cabelos loiros, de porte aristocrático, alto e esguio. O príncipe havia recebido do delegado pontifício, o Cardeal Granvela, o estandarte da Liga. O prelado lhe dissera:

“Toma, ditoso príncipe, a insígnia do verdadeiro Deus humanado. O sinal vivo da santa Fé, da qual tu és defensor nesta jornada. Ele te dará uma vitória gloriosa sobre o ímpio inimigo, e por tua mão será abatido seu orgulho. Amém!”.

Por sugestão do Papa, D. João d’Áustria tomou providências para garantir o sucesso da guerra, atraindo as graças de Deus, o Senhor dos Exércitos.

Todos os combatentes, marinheiros, soldados e nobres, jejuaram durante três dias, além de se confessarem e receberem a Sagrada Comunhão. Mulheres foram proibidas a bordo dos navios para evitar qualquer desregramento. A blasfêmia passou a ser punida com pena de morte.

Em 15 de setembro, a esquadra soltava as velas. O espetáculo da partida é digno de reverência. Centenas de naus se perfilavam com suas bandeiras multicolores.

Na ponta do cais, o Núncio papal, vestido com seus melhores paramentos, abençoava, uma a uma, as embarcações à medida que iam passando.

Nossa Senhora de Lepanto, Espanha
Nossa Senhora de Lepanto, Espanha
Os tripulantes ajoelhavam-se piedosamente no convés das naus, fazendo o sinal da cruz. O povo, em meio a ovações e aplausos, acompanhava tudo enlevado, seguindo os gestos dos guerreiros.

A insigne esquadra desses verdadeiros cruzados era composta de 208 galés e outra centena de pequenos barcos de transporte e apoio. Mais de 80 mil soldados, nobres e plebeus, era o total dos homens a bordo.

As notícias diziam que a frota turca se encontrava na região da Grécia. D. João d’Áustria decidiu ignorar os conselhos de alguns comandantes de tomar uma posição apenas defensiva. Ele optou por seguir a diretriz dada pelo Santo Padre: perseguir os turcos, atacá-los e aniquilá-los.

Já no litoral grego, os católicos ficaram horrorizados ao verem a destruição promovida pelos infiéis. Cidades destroçadas e incontáveis corpos de mártires espalhados pela região.

O horror produzido nos cruzados se transformava em indignação e maior vontade de acabar de vez com tal insolência dos muçulmanos.

Em 6 de outubro de 1571, a esquadra se aproximou da embocadura do estreito de Lepanto. O inimigo não estava distante. Era uma questão de horas até que ele aparecesse. A noite transcorreu tranquila, o mar calmo e o céu límpido ornado com luz do luar.

No raiar da manhã daquele memorável dia 7 de outubro, a esquadra turca surgiu no horizonte, ainda muito afastada para qualquer embate. Saindo do golfo, com vento favorável vindo do leste, enfunavam-se as velas de mais de 280 galés de combate, levando 100 mil turcos!

Os chefes cristãos vieram conferenciar com D. João d’Áustria em sua nau capitânia, La Real. “Não é prudente dar batalha a um inimigo numericamente superior”, disseram eles ao generalíssimo.

Mas o jovem príncipe retrucou com firmeza: “Não é hora de conversar, mas de lutar”.

Todos sentiram tal confiança estampada em seu rosto e em suas palavras, que não hesitaram mais. D. João d’Áustria concluiu: “Aqui venceremos ou morreremos”.

No início da tarde, um vento favorável soprou do oeste, lançando os cristãos em direção do inimigo. Era como se Deus estivesse “ansioso” para vê-los em ação.

À distância, os turcos dispararam um canhão em sinal de ameaça. De sua nau capitânia — onde tremulava uma bandeira com a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, vinda das possessões espanholas na América — D. João d’Áustria aceitou o desafio e ordenou um disparo de revide que afundou um dos barcos turcos.

O cenário estava montado para a maior batalha naval da História. É o que veremos no próximo post.

Fontes bibliográficas:

WEISS, Juan Bautista. Historia Universal, Barcelona: Tipografia La Educación, 1929, vol. IX, pp. 535 a 540.

Walsh, William Thomas. Felipe II, 7ª edição, Madri, Espasa-Calpe, 1976, pp. 565 a 579.

Lataste, J. (1911). Pope St. Pius V. In The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company. http://www.newadvent.org/cathen/12130a.htm

Continua no próximo post : Lepanto: se engaja a batalha do tudo ou nada

(Autor: Paulo Henrique Américo de Araújo, CATOLICISMO, janeiro 2015)







GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A batalha de Lepanto: um Harmagedon naval
entre a Cruz e o Crescente

São Pio V vê miraculosamente a vitória de Nossa Senhora em Lepanto



No ano de 1566 subia ao trono pontifício o Cardeal Antonio Ghislieri.

O novo Papa, de família nobre, entrara ainda jovem na Ordem dominicana, onde aprendeu a prática da virtude e da austeridade que deveria transmitir no governo da Igreja.

Ele assumia aos 62 anos o nome que passaria a ser conhecido como um dos maiores Papas de todos os tempos: São Pio V.

São Pio V — grande comandante das forças católicas

Mas o revide de Deus já estava pronto para entrar em cena. São Pio V assumiu com galhardia o supremo comando da Igreja e, à maneira de um bom general, trouxe a vitória da Cruz sobre todos seus inimigos.

Ele auxiliou os católicos perseguidos pelos príncipes alemães protestantes. Incentivou a Liga Católica contra os huguenotes na França. Apoiou a Espanha contra as revoltas protestantes nos Países Baixos. Excomungou a herética rainha Elizabete I da Inglaterra.

Internamente na Igreja, combateu com vigor o relaxamento moral do clero e incrementou a observância da disciplina eclesiástica do Concílio de Trento. Seu próprio exemplo pessoal foi poderoso antídoto contra os escândalos de certos clérigos.

Mas o foco deste artigo é a enérgica atitude de São Pio V diante do perigo muçulmano.

Desde o tempo das Cruzadas, os Romanos Pontífices recorriam à legítima força das armas quando os outros meios haviam se mostrado ineficazes.

A legitimidade da guerra, em certas circunstâncias, é ponto pacífico na doutrina católica. Em face do inimigo muçulmano não havia possibilidade de diálogo, diplomacia, nem concessões.

A única solução possível mostrou ser a força. E esse foi o recurso utilizado por São Pio V, com a autoridade conferida aos Papas pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo.

O oponente que o santo Pontífice tinha diante de si era terrível: a frota turca, equipada com centenas de navios de guerra e milhares de guerreiros bem treinados, uma força inconteste nas águas do Mediterrâneo.

Dom João d'Áustria, Pantoja de la Cruz (1553 – 1608), Museo del Prado, Madri.
Dom João d'Áustria, Pantoja de la Cruz (1553 – 1608),
Museo del Prado, Madri.
Para enfrentá-los, só uma força à altura. Todavia, isoladamente nenhuma nação católica possuía tal poder. Era preciso estabelecer um acordo entre príncipes cristãos. Surgia na mente do Papa a ideia da Santa Liga.

As negociações entre Espanha, Veneza e outras cidades italianas se iniciaram, tendo como árbitro o Romano Pontífice. Muitos interesses estavam em jogo, o que retardava a concórdia, fazendo sofrer imensamente o Papa.

D. João d’Áustria — guerreiro enviado pela Providência

Em 1570, os turcos atacaram Chipre. A partir de então, o Pontífice não descansou até resolver todos os meandros diplomáticos para concluir o pacto das forças católicas. Os Estados Pontifícios se somariam a essas forças com seus próprios navios e soldados.

O comando geral da Santa Liga foi dado a D. João d’Áustria, filho do Imperador alemão Carlos V e meio-irmão de Felipe II, rei da Espanha. A escolha era ideal.

O jovem príncipe, de apenas 24 anos, fogoso e ávido de combates pela boa causa, deveria catalisar todos os esforços para o objetivo central: a destruição da armada turca.

A respeito desse eleito comandante da esquadra católica, São Pio V citou a Escritura: “Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João” (Jo 1,6). Assim, o Papa dava sua chancela de que a escolha de D. João d’Áustria vinha do Céu.

Durante os vaivéns diplomáticos, Chipre sofria com a invasão turca. Nicósia, importante cidade de Chipre, caiu depois de 48 dias de cerco.

Famagusta, capital da ilha, resistiu durante meses, mas afinal, vendo que não havia possibilidade de vitória, e diante das notícias do atraso na formação da Santa Liga, o prefeito, Antonio Bragadino, combinou a rendição da praça com os turcos.

Estes concordaram em deixar os cristãos partirem em liberdade. Mas, diante das portas abertas da cidade, os muçulmanos traíram a palavra dada, atacaram e prenderam Bragadino.

Este foi esfolado vivo, enquanto toda a população era assassinada, inclusive mulheres e crianças. As atrocidades cometidas contra os católicos foram horríveis e indescritíveis.

(Autor: Paulo Henrique Américo de Araújo, CATOLICISMO, janeiro 2015)

continua no próximo post: Lepanto: a maior batalha naval da História




GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Carlos Magno Imperador do Sacro Império

São Leão III coroa Carlos Magno e restaura nele o Sacro Império Romano Alemão
São Leão III coroa Carlos Magno e restaura nele o Sacro Império Romano Alemão



continuação do post anterior: O fomento da cultura, a renascença carolíngia



De 775 a 800 transcorreu um quarto de século. Durante esse período, praticamente não houve ano em que Carlos Magno não empreendesse uma campanha militar, seja nas marcas (territórios de divisa) espanholas, no sul da Gália ou em outras fronteiras do reino franco.

Relatá-las, ou mesmo referi-las, extravasa os limites deste artigo. Embora já em 799 as marcas espanholas estivessem asseguradas e, no Mediterrâneo, as Ilhas Baleares, Córsega e Sardenha fossem protegidas por tropas carolíngias contra os ataques mouriscos, os saxões continuavam em ebulição.

No início de 800, Carlos encontrava-se em campanha, esperando ajuda de seu filho Luís, o Piedoso, para lhes infligir uma derrota definitiva, quando recebeu notícias de Roma.

O Papa Leão III, que em 795 sucedera a Adriano I, tinha sido gravemente agredido em Roma durante uma procissão no dia 25 de abril de 799, escapando por pouco de ser assassinado.

Preso por sediciosos, o Pontífice conseguiu escapar e procurou socorro junto a Carlos, com quem se encontrou em Paderborn, em agosto do mesmo ano. Leão III permaneceu até o início do outono na corte de Carlos, retornando a Roma com um grande séquito de bispos e soldados.

Dominada a sedição na Cidade Eterna, os chefes do atentado foram presos e condenados à morte. A execução da pena foi adiada até a chegada do rei dos Francos.

Carlos chegou em fins de dezembro do ano seguinte. No dia 1o de dezembro de 800 julgou na Basílica de São Pedro os culpados do atentado contra o Papa, cuja condenação à morte foi confirmada.

Estatueta equestre de Carlos Magno no Museu do Louvre. Fundo: catedral de Metz.
Estatueta equestre de Carlos Magno no Museu do Louvre.
Fundo: catedral de Metz.
Leão III, de própria iniciativa, prestou um juramento de que eram falsas as acusações de que era objeto e pediu que lhes fosse comutada a pena de morte em exílio.

No dia 25 de dezembro, na Basílica de São Pedro, estando Carlos rezando junto ao altar após a Missa solene, Leão III lhe coloca sobre a cabeça a coroa imperial, sob a aclamação dos romanos presentes: “Vida e vitória a Carlos, piedosíssimo Augusto, grande e pacífico monarca coroado por Deus!”.

Eginhardo assevera que Carlos não desejava essa honra e que teria deixado de ir à Basílica de São Pedro, caso soubesse o que iria acontecer.

J. B. Weiss, contudo, é da opinião de que a manifestação de desagrado do Imperador foi mais bem um ato político, uma vez que a dignidade imperial desagradava a muitos de seus súditos, receosos de mais guerras e eventuais problemas diplomáticos com a Corte de Constantinopla.

Seja como for, o gesto de São Leão III coroando Carlos Magno Imperador na noite de Natal de 800, instaurando assim um império de 1000 anos — o Sacro Império só foi abolido por Napoleão Bonaparte em 1804 — teve uma importância incomensurável para a Cristandade.

O peso, a influência, o prestígio do Império deslocavam-se do Oriente, de Constantinopla, para o Ocidente.

É a Cristandade ocidental que vai empreender a epopeia da cristianização dos povos bárbaros, das cruzadas contra os infiéis, do descobrimento do Novo Mundo, das missões na África e na Ásia — tudo isso a partir do impulso que a restauração do Império Romano proporcionará à civilização cristã ocidental.

* * *

Carlos Magno faleceu no dia 28 de janeiro de 814, tendo recebido o Viático no dia anterior. Ele foi o homem certo no lugar certo, no momento propício. E houve um Papa, São Leão III, que profeticamente soube discernir as vias da Providência.


(Fonte: Renato Murta de Vasconcelos. CATOLICISMO, fevereiro de 2015



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O fomento da cultura, a renascença carolíngia

Carlos Magno: busto relicário. Fundo: cúpula da catedral de Aachen
Carlos Magno: busto relicário. Fundo: cúpula da catedral de Aachen


continuação do post anterior: Grandes guerras de Carlos Magno

As guerras não impediram Carlos de fomentar a reforma moral no Reino, tanto no âmbito temporal quanto eclesiástico, de impulsionar a cultura e as artes, bem como de estabelecer na estrutura de governo um eficiente sistema de administração e controle.

Para levar a cabo as reformas que desejava implantar, cercou-se em Aix-la-Chapelle (Aachen) — onde praticamente estabeleceu sua capital, vivendo alí a maior parte dos últimos 20 anos de sua vida — dos mais eminentes sábios da época.

Eles provinham de toda a Europa, tais como Alcuíno (inglês), Paulo Diácono (lombardo) e São Rabano Mauro, nascido em Mainz e futuro abade de Fulda, cognominado posteriormente de “Praeceptor Germaniae”.

Alcuíno, que Carlos conheceu em Parma, foi talvez um dos mais importantes “scholars” da corte carolíngia. Nascido por volta de 730, formara-se na escola diocesana de York, da qual se tornou um dos mestres. Uma de suas obras mais notáveis foi a correção da Vulgata de São Jerônimo, adotada pelo Concilio de Trento.

Seu papel enquanto conselheiro pode ser bem notado no texto emblemático da renascença carolíngia, a Capitular intitulada “Admonitio generalis”, de 789.

Nela se encontra o famoso artigo ordenando o estabelecimento de escolas em todas as dioceses e em todos os mosteiros para formar jovens com vocação clerical, que fossem suficientemente instruídos para bem rezar, ensinar e dirigir o povo cristão rumo à salvação.

Nessa linha se insere o empenho de Carlos na correção dos livros litúrgicos e na uniformização da liturgia.

No incremento da cultura, o Imperador incentivou a cópia e difusão das principais obras da Antiguidade. Batalhões de copistas trabalhavam sem cessar em sua corte.

Reforma caligráfica carolíngia: alternando maiúsculas, minúsculas e espaços a leitura ficava facilitada enormemente
Reforma caligráfica carolíngia: alternando maiúsculas,
minúsculas e espaços a leitura ficava facilitada enormemente
Não se deve esquecer que uma folha dupla de pergaminho exigia a pele de uma ovelha. As cópias produzidas nos ateliês de copistas impulsionados por Carlos representaram um investimento de capital imenso, pois custaram rebanhos de milhares de ovelhas.

Uma inovação de grande importância nas cópias de obras clássicas foi a introdução das letras minúsculas, que facilitaram enormemente a leitura, bem como a invenção do sinal de interrogação.

A reforma eclesiástica e administração do Império

Numa época em que se verificava um tremendo relaxamento da disciplina eclesiástica e se multiplicavam os escândalos ocasionados por padres e monges, Carlos Magno deitou especial atenção na reforma dos costumes, porque concebia como parte essencial de seu múnus real a salvação eterna de seus súditos.

Considerada a imensidão de seu Reino, árdua era a tarefa de bem administrá-lo. Era preciso transmitir ordens, verificar o seu cumprimento, retificar o que não estivesse correto, receber informações, mandar instruções, controlar o exercício da justiça e tomar um sem-número de outras providencias.

Para tal, Carlos instituiu os famosos “missi dominici”, que eram constituídos por dois enviados, um clérigo e um leigo, a todas as partes do Império em que era necessário estabelecer um controle, tomar medidas, desenvolver um plano, em suma verificar se as decisões reais, codificadas nas famosas Capitulares, estavam sendo bem aplicadas.

Essa instituição dos “missi dominici” — de tendência nitidamente centralista, cumpre reconhecê-lo — demonstra o desejo de Carlos de, controlando o poder de seus condes, assegurar a unidade e a justiça na administração do Estado, numa época atribulada por restos de barbárie e de tendência para o caos.

continua no próximo post: Carlos Magno Imperador do Sacro Império


(Fonte: Renato Murta de Vasconcelos. CATOLICISMO, fevereiro de 2015

GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Grandes guerras de Carlos Magno

Carlos Magno no cetro de CarlosV
Carlos Magno no cetro de CarlosV


continuação do post anterior: Os antepassados de Carlos Magno




Carlos Magno e a união do Reino Franco

Carlos não perdeu tempo e as duas partes do reino foram reunidas, sem que houvesse oposição dos súditos de Carlomano. Sua viúva, Gerberga, retornou com seu filho à Itália e se refugiou na corte de seu pai, o rei normando Desidério.

“Deus — alegra-se um monge — elevou Carlos como rei de todo o reino sem que fosse derramada sequer uma gota de sangue”.

É o fim de um longo processo de revigoramento e florescimento de um novo reino, que abarcou várias gerações de homens ínclitos, a começar por Santo Arnolfo.

É também o início de uma grande saga, a de Carlos Magno: no fim de seu reinado, ele tornar-se-á o soberano de um imenso território de mais de um milhão de quilômetros quadrados, comportando as atuais França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça, parte da Itália e da Áustria.

Surgia uma formidável nação, conduzida por um homem grande em todos os sentidos.

A personalidade de Carlos

Assim o descreve Eginhardo, no início da biografia do Imperador:

“Carlos era robusto e forte, de alta estatura, a qual entretanto não passava da justa medida. É geralmente conhecido que ele tinha sete pés de altura.(4) Sua cabeça era redonda, seus olhos muito grandes e vivazes, o nariz um tanto longo.

“Tinha belos cabelos grisalhos e uma fisionomia serena e alegre. A aparência era sempre imponente e digna, pouco importava se ele estava sentado ou de pé.

“O pescoço era de fato um tanto grosso e curto e o abdômen sobressaía um pouco, porém esses defeitos não chamavam a atenção por causa da bela proporção de seus membros.

“O passo era decidido, toda a postura de seu corpo, varonil, sua voz era clara, embora não fosse tão forte quanto seria de esperar dada a sua altura. A sua saúde sempre foi excelente, apenas nos últimos quatro anos de sua vida sofreu ataques de febre e no final coxeava de um dos pés...”

Não há documentos que atestem com certeza o lugar de nascimento de Carlos Magno. Talvez tenha sido em Düren, a meio caminho entre Colônia e Aix-la-Chapelle, onde Pepino presidiu em 748 uma sessão judicial; talvez tenha sido nas proximidades de Paris, como supõem alguns historiadores.

É uma pena que Eginhardo, cuja Vita Caroli Magni lança luz sobre todos os aspectos da personalidade do Imperador — enquanto militar, governante, diplomata, reformador da cultura, pai de família, homem de Fé — não nos forneça qualquer indício a respeito do nascimento de Carlos.

Ele afirma que os fatos relativos à sua infância eram por demais conhecidos para que fosse necessário mencioná-los. Talvez Eginhardo tenha omitido propositadamente os fatos ocorridos entre 748 e 754, e que passadas três gerações, “não eram agradáveis de serem mencionados na Corte”.

Carlos começou a exercer um papel na Corte desde pequeno ao lado de seu pai e de sua mãe, segundo narram as Annales regni Francorum e o Liber Pontificales.

Com seis anos de idade, em 754, foi ao encontro do Papa Estêvão II e o conduziu até seu pai. No ano seguinte, “puer septennis”, participou do traslado das relíquias de São Germano para a igreja de Saint-Germain-des-Prés em Paris.

Em 759 assistiu à tomada de Narbonne, cidade que havia estado durante longo tempo em mãos muçulmanas.

Assim, desde cedo, Carlos foi se preparando para o exercício do poder supremo. Duas qualidades lhe foram de grande valia: sabia como ninguém impor a sua vontade (não arbitrária!) e tinha o discernimento de congregar em torno de si homens de valor em todos os campos: ministros de Deus de comprovada piedade e ortodoxia, sábios dos mais eminentes e eruditos da época, administradores, chefes militares e juízes.

O direito e a justiça lhe eram sagrados. No campo desempenhavam o papel de juízes os simples condes (Grafen); na Corte, os condes do paço (Pfalzgrafen). Contudo, muitas vezes Carlos intervinha pessoalmente.

Conta Eginhardo:“Quando um conde do paço lhe informava de uma disputa judicial que exigia sua decisão, ele mandava entrar imediatamente as partes contraentes, ouvia a explanação do caso e dava sua sentença, exatamente como se estivesse sentado na cátedra do juiz”.

“Imediatamente” — isso podia dar-se até mesmo no meio da noite.

Um juiz precisa ser bom orador. Como juiz supremo, Carlos tinha o dom da palavra, embora sua voz fosse fraca e não proporcional ao seu corpo.

Essa particularidade, indicada por Eginhardo, deixa ver como o biógrafo de Carlos era um observador perspicaz. Segundo ele, Carlos dos olhos grandes e vivos, “exercitava-se continuamente na equitação e na caça, como era o costume de seu povo; pois não se encontrará facilmente sobre a terra povo que nessa arte se possa medir com os Francos”.

Carlos nunca quis distanciar-se do povo, trajando roupas caras e extravagantes. Por isso ele se vestia “segundo os moldes dos francos”.

As camisas eram de linho e também as roupas interiores, sobre as quais trazia um gibão; quando fazia frio, protegia os ombros e o peito “com um casaco feito de pele de foca ou de zibelina”.

À mesa era comedido, embora tivesse grande apetite. Quatro pratos eram suficientes, “fora o assado que os caçadores lhe traziam num espeto e que lhe era muito mais preferível a qualquer outra iguaria”.

Bebia pouco à mesa. Abominava “em extremo” pessoas bêbadas, e jamais quis ver alguém de sua família em estado de embriaguez. Um traço admirável de seu caráter, levando em conta que a bebedeira era mais regra do que exceção nas ceias oficiais da época.

Carlos apreciava a vida de família e foi um bom pai. Todos os seus filhos tiveram sólida educação, independente de seu sexo, nas ciências, “pelas quais ele próprio se interessava”, na literatura, na astronomia.

Não conseguia estar longe dos filhos e dos netos. Conta Eginhardo: “Quando estava em casa, ele jamais comia sem a presença deles”. Nenhuma de suas filhas, que eram muito belas, quis ele dar em casamento, porque não conseguia prescindir de sua presença.

As guerras saxônicas

Carlos foi antes de tudo um grande guerreiro. A esse respeito escreve o historiador alemão Johann Baptist Weiss:

Vitral de Carlos Magno, na catedral de Chartres
Vitral de Carlos Magno, na catedral de Chartres
“A Carlos se chama com razão de Magno: merece este nome enquanto general e conquistador, ordenador e legislador do imenso reino, enquanto inspirador da vida intelectual no Ocidente.

“Sua vida é uma luta contínua contra a brutalidade e a barbárie, contra inimigos do Norte e do Sul, que ameaçam a nova cultura, a nova Religião, a nova cosmovisão da raça germânica.

“O número de suas campanhas militares ascende a 53, isto é, 18 contra os saxões, uma contra os aquitanos, cinco contra os lombardos, sete contra os muçulmanos na Espanha, uma contra os turíngios, quatro contra os ávaros, duas contra os bretões, uma contra os bávaros, quatro contra os eslavos do norte do Elba, cinco contra os sarracenos na Itália, três contra os dinamarqueses e duas contra os gregos.

“A prudência e a valentia de Carlos são únicas, assim como a rapidez com que fulmina seus inimigos, bem como sua sorte, que deixa entrever nele um predileto da Providência, um poderoso do Senhor”.

As guerras contra os saxões foram as que por sua longa duração — 33 anos! — mais puseram à prova a paciência e a perseverança de Carlos. Os saxões eram pagãos entregues a fazer devastações e pilhagens no reino franco.

Tremendos guerreiros, eles viviam em regime de castas, jamais foram vencidos definitivamente pelos grandes generais romanos como Júlio César, Drusus ou Tibério. Derrotados, concluíam pactos de paz, sempre prontos a rompê-los na primeira oportunidade.

Já no ano seguinte à unificação do Reino, na primavera de 772, Carlos reuniu seu exército em Worms, atravessou o Reno e atacou os saxões em Eresburg, citadela e santuário da Westfália, onde se encontrava o famoso ídolo Irminsul.

Uma luta encarniçada se travou, os francos levaram a melhor, destruíram o templo, queimaram o bosque sagrado e derrubaram o ídolo. Os westfálios se submeteram, aceitaram sacerdotes para serem evangelizados e entregaram 12 reféns.

Grande passo rumo à integração dos saxões ao império franco representou a conversão de Widukind, um dos mais notáveis chefes saxões, ocorrida em 785. De Widukind descende Santa Matilde, mãe do Imperador Oto I, o Grande.

Apoio ao Papa contra os lombardos

Carlos Magno, iluminura de um manuscrito do século XV.
British Library.
Da Westfália Carlos correu em socorro do Papa Adriano I, atacado pelos lombardos. Desidério, rei lombardo, desejava que o Papa ungisse como reis seus netos, os dois filhos de Carlomano, que haviam se refugiado com sua mãe Gerberga em sua corte.

Pretendia assim vingar-se de Carlos Magno pelo repúdio de sua filha, instigando com essa unção uma revolta no Reino Franco. Adriano I se recusou a ungir os netos de Desidério que, em represália, atacou diversas cidades dos Estados Pontifícios e jurou dirigir-se com todo o seu exército contra Roma.

O Papa não cedeu e mandou murar algumas portas da Cidade Eterna. Em seu socorro acorreu Carlos. Em setembro de 773 reuniu ele um exército em Genebra, atravessou os Alpes e estabeleceu o cerco de Pavia, capital dos lombardos.

O sítio, do qual saiu vitorioso, durou até meados de 774. Gerberga foi enviada para um convento. E seus dois filhos para um mosteiro.

Enquanto durou o cerco de Pavia, Carlos dirigiu-se a Roma, tendo lá chegado no Sábado Santo, 2 de abril de 774, sendo recebido com grandes manifestações de júbilo e honrarias.

Os romanos vieram ao seu encontro com ramos de oliveira, e os estudantes o aclamaram: “Salve o Rei dos Francos, o defensor da Igreja”!

Carlos dirigiu-se a pé até a Basílica de São Pedro, onde o Papa o esperava nos degraus do pórtico. No dia 6 de abril, Adriano I recordou a doação de Pepino.

Carlos não apenas a confirmou, mas ainda acrescentou aos territórios doados por seu pai a Córsega, o Exarcado de Ravena, as províncias de Veneza e Ístria, bem como os ducados de Benevento e Spoleto.

Ficou estabelecido que Carlos assumiria a proteção dessas províncias e exerceria, sob o título de “Patrício Romano”, a jurisdição suprema em Roma, no Ducado e no Exarcado.

De Roma, Carlos retornou ao cerco de Pavia. Os lombardos não tiveram mais condição de resistir; seus chefes abriram as portas para o exército de Carlos e lhe entregaram Desidério, o qual foi enviado — segundo os costumes da época — a passar o resto de sua vida num mosteiro.

Com a submissão dos lombardos, aos quais Carlos deixara intactos seus direitos, dá-se apenas uma mudança dinástica. Carlos assume o título de “Rei dos Lombardos”.

Enquanto os francos lutavam na Lombardia, os saxões insurgiram-se e devastaram a Frísia e o Hessen. Com a velocidade de uma águia, Carlos retorna e em 775 atravessa o Reno em Colônia, submete novamente os saxões da Ostfália e da Westfália.

Entrementes, explodiu uma conspiração para repor Desidério no trono da Lombardia, com apoio de altos nobres lombardos e da corte de Bizâncio, invejosa com os sucessos dos francos. O plano fracassou graças à vigilância do Papa Adriano I e à rapidez da reação de Carlos.

continua no próximo post: O fomento da cultura, a renascença carolíngia 


(Fonte: Renato Murta de Vasconcelos. CATOLICISMO, fevereiro de 2015



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS