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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

La Valette: heroico líder da resistência – O Grande Cerco de Malta (2)

Jean Parisot de La Valette, Grão Mestre da Ordem de Malta durante o Grande Cerco turco. Antoine de Favray (1706 – 1798).
Jean Parisot de La Valette, Grão Mestre da Ordem de Malta
durante o Grande Cerco turco. Antoine de Favray (1706 – 1798).

continuação do post anterior: O Grande Cerco de Malta (1)

A incrível resistência dos cavaleiros em Malta não pode ser compreendida sem focalizarmos aquele que foi seu próprio artífice: Jean Parisot de La Valette.

Com seus 70 anos, La Valette ainda mantinha a força e a determinação da juventude. Sob o manto da Ordem de São João, considerava como ideal de vida a defesa da civilização cristã e a luta contra o Império Turco.

Já havia experimentado os horrores da escravidão aos turcos, mas fora libertado em uma troca de prisioneiros.

Havia também participado ativamente do cerco de Rodes. Era mestre em todas as táticas de guerra, nas lides do mar e nos armamentos da época.

La Valette, eleito Grão-mestre da ordem em 1557, organizou em Malta a construção de novos bastiões com poderosas muralhas e canhões.

A defesa da ilha foi dividida em três fortes dispostos nas encostas da chamada Baía Grande.

O forte Santo Ângelo dominava a ponta da península de Birgu, através da qual se estendia a cidadela. Na base da outra península, Senglea, erguia-se o Forte São Miguel.

Do outro lado da Baía Grande, voltado para o mar aberto, o solitário Forte Santo Elmo, possuindo forma semelhante a uma estrela, era o primeiro oponente a qualquer invasor.

Os cavaleiros de Cristo eram também excelentes atiradores, numa época em que as armas de fogo, os arcabuzes, já começavam a dominar os campos de batalha.

Estima-se o número de defensores entre 600 a 700 cavaleiros da Ordem, três a quatro mil soldados de infantaria espanhóis, além de civis malteses, voluntários dedicados, mas mal treinados. Com esse contingente, La Valette iria enfrentar o poderio turco, dez vezes maior.

O Grão-mestre comunicou aos seus homens que haveriam de suportar a investida principal do Império Otomano e de empreender o combate da Cruz contra o Crescente, para alcançar uma glória imortal e o Céu. Todos receberam a santa comunhão e juraram consagrar suas vidas à nobre causa.

Epopeia do forte de Santo Elmo

Piali decidiu ancorar a frota turca ao norte das defesas cristãs. Isso significava que os otomanos teriam primeiro de conquistar o pequeno baluarte de Santo Elmo.

Aparentemente, o solitário forte era de menor importância estratégica. Mas La Valette não ignorava seu papel. A fortaleza deveria resistir até o último homem.

Quanto mais ela detivesse os invasores, mais tempo haveria para o incremento das defesas das outras fortalezas. Além disso, uma força de resgate já havia sido prometida pelo vice-rei da Sicília. Santo Elmo tinha a missão de retardar ao máximo o cerco para manter acesa a esperança da vitória.

Os canhões turcos foram postos em terra e apontados para Santo Elmo. A 25 de maio, iniciou-se o bombardeio.

À medida que os enormes projéteis atingiam as muralhas, elas iam se esboroando e levantando nuvens de poeira. Um cronista contemporâneo descreveu Santo Elmo como “um vulcão em erupção, cuspindo fogo e fumaça”.

Os canhões só silenciaram após alguns dias. Então, os turcos se atiraram impetuosamente contra Santo Elmo. A pequena guarnição de uma centena de cavaleiros e outros 400 soldados não parecia em condições de resistir à avalanche de guerreiros do Islã que saltavam sobre as brechas e muralhas.

A batalha durou da madrugada até o meio-dia. Mustafá enviava ondas de atacantes, uma após outra, contra as muralhas incendiadas de Santo Elmo.

Os infiéis eram alvejados em grande quantidade pelos tiros certeiros dos cristãos e pela chuva de fogo-grego, pedras e artefatos. No fim do dia, 2.500 soldados turcos jaziam mortos e o forte ainda resistia, em meio a um mar de chamas e fumaça.

Os ataques continuaram ainda por semanas. O que parecia impossível acontecia: o minúsculo Santo Elmo suportava o peso de todo o poder turco. Exemplo admirável do heroísmo católico, poucas vezes igualado na História.

Nos fins de junho, Santo Elmo estava em frangalhos e os defensores, no limite da resistência. La Valette continuamente mandava reforços a partir de Santo Ângelo, do outro lado da baía.

Uma carta foi enviada de Santo Elmo a La Valette implorando que os últimos defensores pudessem recuar para Santo Ângelo: seria inútil permanecer lá, esperando a morte certa!

La Valette respondeu que se não havia mais cavaleiros valentes para defender o forte, eles poderiam se retirar.

O grão-mestre enviaria homens a quem pudesse confiar Santo Elmo. Os defensores, envergonhados com a proposta, decidiram permanecer e morrer em defesa do forte.

Os turcos montaram baterias para impedir os socorros vindos de Santo Ângelo. Ninguém mais podia atravessar a baía e ajudar Santo Elmo. O pequeno forte estava só, mas o moral dos defensores era alto.

A 23 de junho, os turcos atacaram mais uma vez. Os poucos cavaleiros moribundos ainda resistiram por quatro horas. Mas o fim havia chegado para o heroico Santo Elmo. A bandeira do Crescente turco foi erguida nos restos das muralhas.

Santo Elmo caiu. Contudo, o preço foi muito alto para os invasores. O cerco, que deveria ter durado apenas uma semana, se estendeu por um mês. Oito mil soldados turcos pereceram. E mais do que tudo, as tropas e os próprios chefes muçulmanos estavam desanimados.

Mustafá, olhando para figura imponente e ameaçadora do forte Santo Ângelo, situado no outro lado da baía, não pode conter essa exclamação: “Quanto nos custará o pai, sendo que pagamos tão caro pelo filho?”.

(Autor: Paulo Henrique Américo de Araújo, in CATOLICISMO, agosto e outubro 2014)

continua no próximo post: O acordo impossível – o grande cerco de Malta (3)


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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O Grande Cerco de Malta (1)


Uma pequena ilha no Mediterrâneo foi o cenário de mais um embate entre a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e o Crescente islâmico.

O destino da Europa cristã ficou reservado à bravura de poucos cavaleiros que se mantiveram firmes para defender um único bastião contra uma quase incalculável horda de inimigos.

E pior, esses cavaleiros cristãos sabiam que para eles mesmos não havia esperança.

Veremos como se deu a brilhante defesa da ilha de Malta pelos valorosos cavaleiros da Ordem de São João de Jerusalém.

Histórico da Ordem até Malta

O cerco de Malta em 1565 foi o auge da longa história da Ordem de Cavalaria de São João. Ela havia surgido logo após a primeira Cruzada (1099) com o objetivo de dar abrigo aos peregrinos que chegavam a Jerusalém.

O “hospital” fundado na cidade não era destinado somente à cura de enfermidades, mas também ao refúgio dos peregrinos.

Os “hospitalários”, como passaram a ser chamados, constataram depois a necessidade de defender com armas os peregrinos nas perigosas estradas da Terra Santa. Nascia assim uma ordem militar religiosa, seguindo o exemplo dos Templários.

Essas duas ordens militares passaram a ser o corpo de elite dos exércitos cristãos do Reino de Jerusalém. Sua fama era grande.

Seus componentes sempre eram destacados para ocupar as posições mais perigosas nas batalhas e afirmava-se que lutavam como se fossem um só homem, tal era sua disciplina.

Restos do antigo Hospital recuperados em Jerusalém.
Restos do antigo Hospital recuperados em Jerusalém.
Com a dramática destruição do Reino de Jerusalém no final do século XIII, os Cavaleiros do Hospital viram-se forçados a migrar para a ilha de Chipre e depois para a ilha de Rodes (sécs. XIV e XV).

Neste período, adaptaram de maneira formidável seu modo de combate para as lides marítimas.

Passaram a ser chamados de “escorpiões do mar”, pois estavam em constante luta contra a poderosa frota turco-otomana no Mediterrâneo. Os muçulmanos infiéis viam na Ordem do Hospital seu maior inimigo.

O sultão turco não podia suportar a presença dos cavaleiros em Rodes, ilha situada ao sul da atual Turquia.

Em 1522, os hospitalários tiveram que se retirar da ilha, depois de seis meses de cerco — em que todo Império Turco se engajou — e diante dos apelos da população cristã que preferiu a trégua.

Em 1530, o imperador Carlos V cedeu aos cavaleiros a pequena ilha de Malta, localizada ao sul da península itálica e Sicília. Malta passou a ser a sede da ordem, bem como o posto avançado da Cristandade contra o poderio turco-otomano.

O Império Otomano e a Europa em crise

No século XVI, os turcos continuavam sua expansão por todas as encostas do Mediterrâneo. Com uma formidável frota marítima, ameaçavam a Europa cristã. O objetivo final do sultão era levar a religião de Maomé até Roma.

Acrescenta-se a isso a confusão interna nos países cristãos, sobretudo por causa da revolução protestante, iniciada pelo monge apóstata Martinho Lutero em 1517.

O Grão-mestre Philippe Villiers de L'Isle-Adam toma pose de Malta
O Grão-mestre Philippe Villiers de L'Isle-Adam toma pose de Malta
O momento era propício para os inimigos da Cruz. O sultão Solimão II desejava para logo a conquista de mais territórios europeus, contando com a superioridade naval turca e as divisões existentes entre os príncipes cristãos.

Mas, antes de tudo, impunha-se conquistar a pequena ilha-rocha de Malta, ponte que levaria os turcos à Itália.

Malta era então sede dos poucos, mas impertérritos cavaleiros de São João, sempre devotados na luta contra os turcos.

Em 1565, o sultão reuniu um exército de 40 mil homens e 180 navios de guerra. Sua missão: eliminar de uma vez por todas os cavaleiros de Malta.

Dois comandantes turcos foram designados para a empresa: Piali Paschá e Mustafá Paschá, famosos por suas façanhas.

Em maio daquele ano, as avassaladoras forças turcas chegaram a Malta e lançaram toda sua potência contra a pequena ilha. Mas os cavaleiros da Cruz estavam preparados para detê-las.

(Autor: Paulo Henrique Américo de Araújo, in CATOLICISMO, agosto e outubro 2014)

continua no próximo post: La Valette: heroico líder da resistência – o grande cerco de Malta (2)


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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Godofredo de Bouillon: “Defensor do Santo Sepulcro” (2)


continuação do post anterior: Godofredo de Bouillon: “não posso ser coroado de ouro, onde Nosso Senhor foi coroado de espinhos”



Jerusalém estava fortificada e bem defendida por mais de 40 mil homens. No dia 7 de junho de 1099 os cruzados a cercaram.

Novamente todos os sofrimentos de um sítio prolongado, como a sede sob um sol abrasador de verão, castigaram os cavaleiros da Cruz.

Visão de São Jorge e tomada de Jerusalém

Finalmente, “Godofredo viu no Monte das Oliveiras um homem com brilhante escudo: ‘São Jorge vem em nosso auxílio!’” — exclamou.(10).

Entusiasmados, os guerreiros cristãos empurraram as torres de combate para junto das muralhas da cidade. Estenderam pontes, e Godofredo foi um dos primeiros a saltar, correndo para abrir as portas.

O exército, como a enchente de um rio, penetrou na cidade. “O sangue corria pelas escadas e chegava até as patas dos cavalos”.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Godofredo de Bouillon: “não posso ser coroado de ouro, onde Nosso Senhor foi coroado de espinhos” (1)

Estátua de Godofredo de Bouillon em Insbruck. Fundo: Porta de Damasco em Jerusalém
Estátua de Godofredo de Bouillon em Insbruck. Fundo: Porta de Damasco em Jerusalém

Alguns grandes homens deixam após si uma legenda que os rodeia com uma luz especial, arquetipizando seus feitos e suas glórias.

Um desses foi Godofredo de Bouillon, o conquistador e fundador do Reino Latino de Jerusalém.

“A legenda logo se apoderou deste possante e terno senhor do país valão para torná-lo o arquétipo do cruzado”.(1)

Após sua morte, tornou-se herói de canções de gesta, como o tinham sido antes dele o famoso Carlos Magno e Roland.

Filho de Eustáquio, conde de Boulogne, e de Ida, filha de Godofredo o Barbudo, duque da Baixa Lorena e de Bouillon, Godofredo pertencia a uma antiga família que alegava ter Carlos Magno entre seus ancestrais.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O leão que afastou o “flagelo de Deus” das portas de Roma

São Leão Magno dissuade Átila, Rafael
São Leão Magno dissuade Átila, Rafael.


Continuação do post anterior: Um Papa leão contra as heresias

Um perigo de outra ordem surgiu no horizonte. Átila, rei dos hunos, que a si mesmo chamava de “Flagelo de Deus”, tudo destruía nas Gálias.

Tongres, Treves e Metz foram pilhadas; Troyes foi salva por São Lupo, e Orleans por Santo Aniano. Batido nas planícies de Chalons pelos esforços conjuntos de Aécio, Meroveu, rei dos francos, e Teodorico, rei dos visigodos, Átila voltou-se para o norte da Itália, destruindo tudo a ferro e fogo.

Muitos se refugiaram nas pequenas ilhas existentes nas lagunas do Mar Adriático, dando origem a Veneza. Átila saqueou Milão; e o imperador Valentiniano III, não se julgando a salvo em Ravena, fugiu para Roma. O imperador, o senado e povo só viram uma saída para conjurar a situação: que São Leão fosse parlamentar com o invasor.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Um Papa leão contra as heresias

São Leão Magno, vitral da Universidade Católica de America, Washington DC
São Leão Magno, vitral da Universidade
Católica de America, Washington DC

São Leão nasceu em Roma, de pais toscanos, no final do século IV ou começo do V. Já na juventude distinguiu-se nas letras profanas e na ciência sagrada.

Um antigo concílio geral diz dele:

“Deus, que o havia destinado a obter brilhantes vitórias contra o erro e a submeter a sabedoria do século à verdadeira fé, tinha posto em suas mãos as armas da ciência e da verdade”.(2)

Tornando-se arcediago da Igreja romana, serviu sob os Papas São Celestino I e Sixto III.

Hábil diplomata, era ele bem conhecido, pois foi por sua sugestão que Cassiano escreveu em 430 ou 431 sua obra De Incarnatione Domini contra Nestorium (“Sobre a Encarnação do Senhor, contra Nestório”).

E também nesse mesmo ano São Cirilo de Alexandria a ele se dirigiu para interessá-lo em seu favor contra o mesmo herege Nestório.

São Leão foi designado para várias missões delicadas na época.

Em uma delas, em 440, foi enviado pelo Imperador Valentiniano III à Gália, para tentar reconciliar dois dos mais famosos personagens do Império: o comandante militar da Província, Aécio, e o principal magistrado, Albino.

Os dois chefes militares não pensavam senão em suas desavenças em vez de voltar-se contra os bárbaros que estavam às portas do vasto Império.

São Leão encontrava-se nessa missão quando, falecendo o Papa Sixto, foi eleito para sucedê-lo.

Leão foi sagrado no dia 29 de setembro de 440. Um mês depois, pedia ao povo romano, reunido na basílica de São João de Latrão:

“Eu vos conjuro, pelas misericórdias do Senhor, que ajudeis com vossas orações àquele que haveis chamado com vossos desejos, a fim de que o espírito da graça permaneça sobre mim e não tenhais que arrepender-vos de vossa eleição”.(3)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Beatificando a Carlos de Blois,
a Igreja glorificou o senhor feudal perfeito

Imagem do Beato Charles de Blois, duque da Bretanha,  na igreja de Notre-Dame de Bulat-Pestivien, Bretanha, França
Imagem do Beato Charles de Blois, duque da Bretanha,
na igreja de Notre-Dame de Bulat-Pestivien, Bretanha, França
Luis Dufaur


Do Beato Carlos de Blois, do qual o General Silveira de Melo, no livro “Santos Militares” diz o seguinte: (1ª Edição, 1953. Brochura ainda íntegra, marcas do tempo. 456pp. Dep. Imp. Nacional.)

“Carlos de Blois era filho do Conde de Blois, Louis de Fitillon e da Princesa Margarida, irmã de Felipe de Valois. Recebeu educação esmerada e foi muito adestrado militarmente. Casando-se com Joana, filha de Guy e neta de João III, Duque da Bretanha, por morte deste último recebeu o ducado como herança de sua esposa, no ano de 1341.

“Assumiu o governo desta província com grande entusiasmo dos nobres e dos seus vassalos mais humildes. Entretanto, o Conde de Montfort, irmão do duque falecido, reclamou o direito à sucessão e pegou em armas para reivindicá-lo, no que foi apoiado pelos ingleses, enquanto a França tomava o partido de Carlos.

“O jovem Conde de Blois fez frente ao seu contendor. Vinte e três anos durou essa luta que os ingleses suscitavam de fora. Em 1346, no combate de Roche Darrien, Carlos sofreu revés e caiu prisioneiro.

“Encerraram-no na Torre de Londres, onde permaneceu encarcerado durante nove anos. As orações que rezou neste cativeiro foram de molde a assegurar a continuidade do governo da Bretanha “.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

São Luís IX: o rei cruzado retratado por seu companheiro de armas – 2

São Luís administrando justiça. Fundo: interior da catedral Notre Dame, Paris.
São Luís administrando justiça.
Fundo: interior da catedral Notre Dame, Paris.
Luis Dufaur

continuação do post anterior: São Luís IX: o rei cruzado retratado por seu companheiro de armas – 1

O rei amou tanto toda espécie de pessoas que crêem em Deus e O amam, que deu dignidade de condestável de França ao Sr. Gilles Lebrun, que não era do reino da França, porque ele tinha grande reputação de crer em Deus e de amá-lo. E eu creio verdadeiramente que assim foi.

Muitas vezes acontecia que no verão ele ia sentar-se no bosque de Vincennes, depois da Missa, apoiava-se contra um carvalho e fazia-nos sentar em torno dele.

Todos aqueles que tinham assunto iam falar com ele, sem empecilho de ajudas de câmara nem de outros. Então ele mesmo perguntava:

“Há alguém aqui que tenha pendência?”

Aqueles que tinham pendência levantavam-se, e então ele dizia:

“Calai-vos todos, e sereis atendidos um depois do outro”. Então chamava o Sr. Pierre de Fontaines e o Sr. Geoffroy de Vilette, e dizia a um deles:

“Atendei-me esta pendência”. Quando via alguma coisa a corrigir, no arrazoado dos que falavam por outro, ele mesmo a corrigia.

Eu o vi alguma vez, no verão, ir ao jardim de Paris para atender suas gentes, vestido de uma cota de camelo, de um casaco de lã sem mangas, de um manto de tafetá preto em torno do pescoço, muito bem penteado e sem touca, e um chapéu de penas de pavão branco na cabeça.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

São Luís IX: o rei cruzado retratado por seu companheiro de armas – 1

São Luis rei, estátua equestre de St Louis, Missouri, EUA. Fundo: castelo de Pierrefonds, França.
São Luis rei, estátua equestre de St Louis, Missouri, EUA.
Fundo: castelo de Pierrefonds, França.
Luis Dufaur

Em nome de Deus Todo-Poderoso, eu, João, senhor de Joinville, Senescal de Champagne, faço escrever a vida de nosso São Luís, e aquilo que eu vi e ouvi pelo espaço de seis anos que estive em sua companhia, na viagem de ultramar e depois que voltamos.

E antes de vos contar seus grandes feitos e sua cavalaria, contar-vos-ei o que vi e ouvi de suas santas palavras e bons ensinamentos, para que se achem aqui numa ordem conveniente, a fim de edificar os que ouvirem.

Esse santo homem amou Deus de todo o coração e agiu em conformidade com esse amor. Pareceu-lhe bem que, assim como Deus morreu pelo amor que tinha por seu povo, assim o rei colocasse seu corpo em aventura de morte, o que bem poderia ter evitado se tivesse querido, como se verá a seguir.

O amor que tinha a seu povo transpareceu no que ele disse a seu filho primogênito, durante uma grande doença que teve em Fontainebleau:

“Bom filho — disse-lhe — peço-te que te faças amar pelo povo de teu reino, pois verdadeiramente eu preferiria que um escocês viesse da Escócia e governasse o povo do reino bem lealmente, a que tu o governasses mal”.