terça-feira, 9 de julho de 2024

Cerimônia de partida de Vasco da Gama – 2

Vasco da Gama (Sines, c. 1460 ou 1468 ou 1469 — Cochim, Índia, 24 de Dezembro de 1524)
Vasco da Gama
(Sines, 1460 ou 1468 ou 1469 — Cochim, Índia, 24.12.1524)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs









Foi escolhido para a partida o sábado, 8 de julho de 1497. Em 7 de julho, O Rei D. Manuel recebeu Vasco da Gama, capitão-mor da frota de quatro navios, e seus capitães em cerimônia solene.

Reunidos em torno do soberano estavam os mais importantes nobres e outros personagens da corte, incluindo os mais elevados membros do clero, todos adornados com os melhores trajes e atavios cerimoniais.

A multidão, dentro e do lado de fora, também estava engalanada, formando uma exuberante colcha de retalhos de vestuário.

Vasco da Gama e seu irmão mais velho, Paulo, o dedicado amigo deles, Nicolau Coelho, e outros altos oficiais da expedição, todos envergavam sua mais vistosa armadura.

Capacetes, peitorais e os punhos elaborados de suas espadas foram polidos até ganhar um lustro muito brilhante. Um por um foram levados à frente, apresentados ao Rei e à Corte, e ficaram em posição de sentido.

Em seu discurso, D. Manuel ressaltou que o propósito dessa busca [das Índias] era difundir a palavra de Jesus Cristo e com isso obter sua recompensa no Céu, e em acréscimo adquirir reinos e novos estados com muitas riquezas.

Com isso, Vasco da Gama ajoelhou-se e, no silêncio solene que se seguiu, beijou a mão do Soberano em agradecimento pela grande honra que lhe fora concedida.

Vasco da Gama, partida para a India, 1497
Partida de Vasco da Gama para a India, 1497
O estandarte de seda da Ordem de Cristo foi apresentado por um oficial. Vasco da Gama pôs as mãos sobre ele e fez seu juramento de lealdade, em voz alta e clara, para que todos ouvissem.

“Juro pelo símbolo desta Cruz, sobre o qual pouso minhas mãos, que no serviço de Deus e por Vós a defenderei e não capitularei à visão do mouro, pagão ou qualquer raça de gente que possa encontrar e, diante de qualquer perigo de água, fogo, ou espada, juro sempre defendê-la e protegê-la, até a própria morte”.

* * *

Em procissão, acompanhados pelo próprio Rei, Vasco da Gama a cavalo e seus homens seguiram solenes para o porto, que ficava próximo. A grande multidão recebeu os homens com vivas e lágrimas.

Os homens subiram a bordo dos navios ao rufar contínuo dos tambores e ao toque festivo de trompetes. Cada nave estava adornada com flâmulas coloridas e penachos esvoaçantes.

Ao longo da margem do Tejo estava reunida uma multidão acenando alegre para os navios que dispararam os canhões em resposta e tocaram as trombetas em fanfarra.

As naves passaram em fila diante da multidão empolgada, para a curta viagem até Belém, onde lançaram âncora. Lá, há uma longa geração, o príncipe Henrique, o Navegador, construíra uma capela nacionalmente venerada, dedicada a todos os que seguiam para o mar.

Uma ordem de freiras mantinha um hospital próximo, onde cuidavam de marinheiros trazidos doentes ou agonizantes de navios que acabavam de chegar de viagens longínquas.

Vasco da Gama, seu irmão, Paulo, e Coelho, ainda ataviados em suas armaduras, foram para a praia e passaram pelo meio da multidão que os esperava, engrossada pelas inúmeras pessoas que haviam seguido os navios, a cavalo e em carruagem. Outros, viajando a pé, continuaram chegando durante o decorrer da noite.

Era costume dos marinheiros portugueses que partiam rezar para Santa Maria de Belém. Dentro da pequena capela, os três capitães principais assumiram seus lugares, acompanhados de outros, e passaram a longa noite ajoelhados, junto a sacerdotes do mosteiro vizinho. Os homens se confessaram e cumpriram suas devoções.

* * *

Ao nascer do sol no sábado, 8 de julho, D. Manuel chegou à capela, e os três capitães foram encontrar seu Soberano do lado de fora. Ali Vasco da Gama se comoveu até as lágrimas, que prontamente enxugou.

Ele então voltou para acompanhar o Rei até a capela para a Missa final. Dobraram os sinos da capela e do mosteiro próximo, anunciando à multidão que chegara o momento havia tanto esperado.

Do lado de fora, os oficiais e dignitários reuniram-se para a curta procissão até a margem. O reitor da capela ia à frente, seguido pelos padres e monges, as cabeças baixas e as mãos cruzadas à frente do corpo, caminhando a passos medidos, entoando um cântico em uníssono.

Chegada de Vasco da Gama na Índia
Chegada de Vasco da Gama na Índia
Em seguida iam os acólitos, sacudindo incensórios ornamentados, soltando uma pungente fumaça azul que rodopiava por suas batinas e seguia flutuando para a multidão. Depois os portadores de cruzes e outros sacerdotes.

Vasco da Gama, segurando um círio aceso, o capacete e o peitoral reluzindo ao brilhante sol de verão, seguia devagar, não olhando nem para a esquerda, nem para a direita, a cabeça erguida.

Atrás dele estavam os oficiais e os homens de sua frota em fileiras de dois, cada qual portando uma vela acesa.

Na praia o reitor fez uma pausa e ajoelhou-se, e todos se ajoelharam onde estavam. A multidão ficou em silêncio. O padre, de acordo com a bula papal obtida muito tempo antes pelo príncipe Henrique, e aplicável a todos que morressem na conquista ou descobrimento de terras distantes, concedeu a absolvição plenária aos homens da expedição que viessem a perder a vida.

Todos se ergueram e, com deliberação, Vasco da Gama deu ordem para que as tripulações subissem a bordo dos navios à espera. Houve um momento final para um abraço, um aperto de mão, uma troca de olhares.

Vasco da Gama apresenta a Dom Manuel as primícias da Índia
Vasco da Gama apresenta a Dom Manuel as primícias da Índia
Perto da praia, o jovem Rei dirigiu-se à tripulação, em conjunto e individualmente, dando-lhes sua bênção e seus bons votos e então despediu-se quando eles tomaram os botes que os esperavam.

Ao ritmo de um antiquíssimo cântico marítimo, os marinheiros ergueram âncora do fundo lamacento do rio. As novas velas brancas, imensas, adornadas com a enorme Cruz escarlate da Ordem de Cristo, foram estendidas e enfunaram-se com a brisa.

Os navios partiram, lentos a princípio e depois mais velozes em direção ao mar aberto.

O próprio Rei tomou um pequeno barco, para acompanhar os navios até onde fosse possível, gritando-lhes repetidas vezes suas bênçãos e votos de felicidades.

No convés, os marinheiros se amontoavam contra as muradas ou se penduravam no cordame, cada homem tentando uma última visão dos entes queridos, que acenavam com mantilhas de cores vivas ou com as mãos nuas e lançavam um último adeus.

O estandarte real foi novamente erguido no navio, ao clamor de uma fanfarra de trompetes. Os tambores rufavam em um rufo marcial constante, acompanhados por flautas, flautins e tamborins.

Numerosas pequenas embarcações seguiam o rastro dos navios, indo até onde fosse possível. Todos os olhos estavam fixos nos navios, até que eles sumiram de vista, mas nenhum mais firme que os de D. Manuel que de seu barco observava a frota que partia, como que hipnotizado, sem se mover, até nada mais restar para ver além do vasto oceano azul diante dele, estendendo-se através do mundo, até a Índia.

* * *

Túmulo de Vasco da Gama no Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa.
Entre 1501 e 1505, D. Manuel mandou para a Índia quase todo navio que sua pequena nação pôde adquirir. 81 navios em 6 comboios anuais zarparam levando cerca de 7 mil marinheiros e soldados, dos quais entre um terço e metade morreram somente na passagem para o Índico.

Dentro de muito pouco tempo, Portugal tinha uma série de fortes e feitorias ao longo da Ásia Nenhuma outra nação da história mundial difundiu-se tanto e tão depressa.

Os descobrimentos portugueses mudaram o rosto do mundo. Eles acabaram com o monopólio muçulmano do comércio de especiarias, com consequências arrasadoras para os governantes árabes.

A viagem épica de Vasco da Gama é, talvez, a mais significativa da história humana, pois deu ocasião ao primeiro encontro de homens do Ocidente com os do Oriente, desde Alexandre, o Grande, e dela advieram contato e interação permanentes.

(Autor: Ronald J. Watkins, “Por Mares Nunca Dantes Navegados”, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 2004)





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terça-feira, 25 de junho de 2024

Epopéia das navegações portuguesas: eco da Idade Média – 1

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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As explorações portuguesas eram sempre movidas por mais do que império e especiarias, embora isso tenha se tornado a informação-padrão dos livros didáticos.

Os portugueses buscavam igualmente manter contato com bolsões de cristãos há muito perdidos que se sabia existir no Oriente, além de converter pagãos e colonizar novas terras; e, tanto quanto qualquer outra coisa, eram impelidos pelo desejo de conhecimento.

O custo foi enorme, em muitos sentidos incomensurável. “Deus deu aos portugueses um pequeno país como berço, mas o mundo todo como túmulo”, observou o padre Antonio Vieira.

Os oceanos do mundo podem, de fato, ser descritos como um vasto túmulo aquático de marinheiros portugueses.

Embora estivessem tecnicamente no Renascimento, seus corações e pensamentos ainda eram medievais.

Um capitão escreveu, observando a gente que vivia no Brasil – embora pudesse com a mesma facilidade ter dito o mesmo de todos aqueles com que os portugueses depararam – que “se nosso Senhor nos trouxe aqui, acredito que não foi sem propósito”.

Somente no nível mais superficial esta é a história do monopólio comercial de especiarias. Para o príncipe Henrique, Dom João I, Dom João II e Dom Manuel, os mais envolvidos em conduzir o esforço, tratava-se de nada menos do que as Cruzadas, renascidas em uma manifestação diferente, mas com o mesmo objetivo.

Esperava-se inutilmente que isso levasse à reconquista de Jerusalém. Difundiu o Cristianismo e a cultura ocidental até as terras mais distantes, com efeitos que são profundo até hoje e cujas ramificações continuam a ser sentidas.

Devido a sua realização, Vasco da Gama tornou-se o maior português de todos os tempos. Mas se não tivesse sido Vasco da Gama, então teria sido outro.

Dom Manuel I
Vasco da Gama navegou mais do que a distância de uma volta ao mundo seguindo a linha do Equador, avaliada em 23 mil milhas marítimas.

Foram os portugueses que viram o caminho e inflexivelmente a ele se aplicaram, por mais de oitenta anos de sacrifícios e de terríveis perdas de vidas.

Foi uma façanha sem precedentes para uma nação tão pequena. Possuidora de poucos recursos naturais e nenhuma grande riqueza.

A prolongada luta para expulsar os mouros, travada de norte a sul de Portugal, serviu para unir o povo e dar-lhes um senso de destino.

Além disso, eles haviam expulsado os mouros de sua terra dois séculos inteiros antes dos espanhóis. Durante a luta que durou gerações, os portugueses se encheram de ardor religioso.

Expulsar os mouros foi uma sacra cruzada dada por Deus aos portugueses.

Esse senso de missão foi facilmente transferido para as explorações, que sempre tiveram um forte conteúdo religioso.

A Europa medieval sabia que no Oriente existiam bolsões de cristãos. Os boatos e lendas que formavam a base para essa crença brotavam da realidade.

Cristãos de fato habitaram terras no Oriente, embora não mantivessem contato regular com a Europa ocidental e praticassem uma versão da fé, primeiramente como nestorianos.

Havia um forte desejo por parte dos portugueses de entrar em contato com esses grupos e resgatá-los para a autêntica Fé, um desejo equivalente ao de converter os pagãos.

Havia também uma consideração prática. Os muçulmanos constituíam uma enorme barreira para o Oriente. Para terem sucesso em sua tentativa, os portugueses eram forçados a buscar uma rota contornando a África, cujas dimensões eram desconhecidas.

A meta de continuar a repelir os muçulmanos e de levar os pagãos para o mundo de Deus era uma força poderosa.

Quando D. João I acedeu em lançar-se na tomada de Ceuta (por desejo dos 3 filhos, a ínclita geração: Duarte, Rei de Portugal (1391-1438); Pedro, Duque de Coimbra (1392-1449), morto na Batalha de Alfarrobeira, foi regente de Afonso V, seu sobrinho; considerado o príncipe mais culto da sua época; Henrique, Duque de Viseu (1394-1460), conhecido como "Henrique, O Navegador"), o beato Nun’Alvares, um conselheiro conhecido por seu firme julgamento, declarou, ao que se conta: “Esse plano não foi concebido por vós [o rei] nem por qualquer pessoa deste mundo, mas inspirado por Deus”

Ceuta foi tomada em 14 de agosto de 1415. Quatro anos depois iniciavam-se as navegações portuguesas de descobrimento ao longo da costa africana. Mais ou menos nessa época Henrique foi nomeado grão-mestre da Ordem de Cristo.

Ilhas míticas apareciam com frequência em mapas tidos como confiáveis. Mesmo sendo míticas, essas ilhas exerceram considerável influência sobre a História, pois sua presença em mapas nas mãos dos portugueses estimulou a exploração oceânica.

Eram feitas referências a Preste João, à rainha de Sabá e, perto do Himalaia, havia a anotação de que o rei cristão Estevão governava.

De início, mais de 12 viagens para contornar o Cabo Bojador (Saara ocidental, ao sul do Marrocos) fracassaram e houve mortes e perdas de navios.

 

(Autor: Ronald J. Watkins, “Por Mares Nunca Dantes Navegados”, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 2004)






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terça-feira, 14 de maio de 2024

A Igreja glorificou o senhor feudal perfeito

Imagem do Beato Charles de Blois, duque da Bretanha,  na igreja de Notre-Dame de Bulat-Pestivien, Bretanha, França
Imagem do Beato Charles de Blois, duque da Bretanha,
na igreja de Notre-Dame de Bulat-Pestivien, Bretanha, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Do Beato Carlos de Blois, do qual o General Silveira de Melo, no livro “Santos Militares” diz o seguinte: (1ª Edição, 1953. Brochura ainda íntegra, marcas do tempo. 456pp. Dep. Imp. Nacional.)

“Carlos de Blois era filho do Conde de Blois, Louis de Fitillon e da Princesa Margarida, irmã de Felipe de Valois. Recebeu educação esmerada e foi muito adestrado militarmente. Casando-se com Joana, filha de Guy e neta de João III, Duque da Bretanha, por morte deste último recebeu o ducado como herança de sua esposa, no ano de 1341.

“Assumiu o governo desta província com grande entusiasmo dos nobres e dos seus vassalos mais humildes. Entretanto, o Conde de Montfort, irmão do duque falecido, reclamou o direito à sucessão e pegou em armas para reivindicá-lo, no que foi apoiado pelos ingleses, enquanto a França tomava o partido de Carlos.

“O jovem Conde de Blois fez frente ao seu contendor. Vinte e três anos durou essa luta que os ingleses suscitavam de fora. Em 1346, no combate de Roche Darrien, Carlos sofreu revés e caiu prisioneiro.

“Encerraram-no na Torre de Londres, onde permaneceu encarcerado durante nove anos. As orações que rezou neste cativeiro foram de molde a assegurar a continuidade do governo da Bretanha “.

O Beato Charles de Blois recebe representação dos habitantes de Jugon
O Beato Charles de Blois recebe representação dos habitantes de Jugon
“A Princesa Joana, sua enérgica esposa, assumiu a direção dos negócios públicos e da guerra, e manteve atitude de energia pela libertação do marido. Livre, Carlos prosseguiu com maior denodo as operações militares. Sucederam-se reveses e vantagens de parte a parte, até que por fim, em 1364, aos 29 de Setembro, festa do Arcanjo São Miguel, o Santo e bravo Duque caiu morto na Batalha de Auray“.

“Esta jornada heroica, última de sua vida, iniciou-a Carlos com a recepção dos Sacramentos da Confissão e da Eucaristia. Morreu como vivera, pois em meio à todas as lutas que enfrentava, nunca afrouxou seus exercícios de piedade e austeridade, assim como nunca deixou de empreender obras de interesse para a Religião e para os seus súditos “.

“Tão evidentes foram as suas virtudes, que logo após sua morte, em 1368, deram inicio ao processo da beatificação. São Pio X confirmou o seu culto em 14 de Dezembro de 1904. É venerado no dia de sua morte, 29 de Setembro, mas seu culto especial em Blois dá-se a 20 de Julho”.

O Beato Charles de Blois é feito prisioneiro na batallha de la Roche-Derrien (1347).
O Beato Charles de Blois é feito prisioneiro na batallha de la Roche-Derrien (1347).
Os senhores estão vendo que se trata de um santo patrono dos guerreiros.

Há dois modos de ser patrono dos guerreiros: um considerando o guerreiro enquanto guerreiro da fé, lutador pela doutrina Católica e pela Igreja Católica.

Mas aí é a função do guerreiro com um acréscimo que é extrínseco, que não é intrínseco, e que não é necessário à condição do guerreiro, quer dizer, o guerreiro realiza a maior sublimidade de sua Vocação quando ele luta pela fé.

O normal do guerreiro não é lutar apenas pela fé, sobre tudo quando acrescenta a seu título a auréola de cruzado.

O bom guerreiro é aquele que luta na guerra justa pelo seu país, para defender o bem comum, ainda que seja o bem comum temporal daqueles que estão confiados à sua direção.

O Bem-aventurado Carlos de Blois foi Duque da Bretanha em virtude de uma herança recebida de sua esposa.

O Beato Charles de Blois apresenta a Nossa Senhora seu senescal Rolland de Coatgourheden, basílica de Guincamp, Bretanha, França
O Beato Charles de Blois apresenta a Nossa Senhora seu senescal Rolland de Coatgourheden,
basílica de Guincamp, Bretanha, França
Mas o tio de sua esposa revoltou-se contra ele e moveu uma guerra contra ele. Ele era, portanto, a legítima autoridade em luta contra um vassalo infiel e revoltado.

Além disso, tratava-se da integridade do Reino da França, porque o tio da senhora dele, o tio da Princesa de Blois era ligado aos ingleses que queriam dominar e aniquilar com a França.

E ele lutava então pela integridade do território francês, lutando pela dependência da Bretanha em relação à França, em vez de ser dependente em relação à Inglaterra.

Esta luta pela França tinha um remoto significado religioso, porque a França era a nação predileta de Deus, a Filha Primogênita da Igreja. A Inglaterra era nesse tempo uma nação católica, mas futuramente haveria de tornar-se protestante.

Esta consideração de ordem religiosa nos faz ver o caráter providencial da luta. Ele tinha em vista, como Duque, lutar pela integridade do território de sua pátria próxima que era a Bretanha, e de sua pátria mais genérica que era a França.

"Pourpoint" espécie de vestimenta da época usada pelo Beato Charles
"Pourpoint": vestimenta da época usada pelo Beato Charles
Ele levou nesta luta perto de 30 anos de reveses, nove dos quais ele esteve preso. Mas ele soube comunicar o seu ardor guerreiro à sua esposa, que durante os nove anos em que ele esteve preso na Torre de Londres, também lutou valentemente para conservar o Ducado.

Canonizando-o a Igreja quis canonizar o senhor feudal perfeito. Ela quis elevar à honra dos altares um senhor feudal patriarca de suas terras, aristocrata e batalhador que sabia derramar o sangue pelos seus. Isto é a síntese do senhor feudal.

Para os revolucionários que vivem falando contra o feudalismo, o gesto da Igreja canonizando o Beato Carlos de Blois constitue um desmentido rotundo.

Porque mostra bem que o cargo é digno e santo, pode e deve ser exercido digna e santamente, e que através dele se pode chegar à honra dos altares.

Muitas pessoas de alta categoria da hierarquia feudal se tornaram santas. Enquanto não há exemplo de presidentes da República santos, tal vez com exceção de Gabriel Garcia Moreno, presidente do Equador.

As instituições têm uma psicologia, uma mentalidade como os indivíduos.

E a índole das instituições feudais era levar à santidade, como, por outro lado, as instituições que pressupõem uma igualdade completa levam ao contrário da santidade que é o espírito da Revolução.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra de 28.9.68, sem revisão do autor)




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terça-feira, 30 de abril de 2024

Os heróis de Lechfeld

Magiares ainda pagãos tomam posse do território
Magiares ainda pagãos tomam posse do território
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Enquanto em 955 o rei Otton estava em campanha contra os eslavos, um exército húngaro de mais de 100.000 homens abateu-se sobre a Baviera, devastando-a. A vitória que o rei obteve sobre esse inimigo a 10 de agosto em Lechfeld, junto de Augsburgo, é uma das mais formosas, digna de agradecer-se e cheia de conseqüências.

A Alemanha teve desde então tranqüilidade, a derrota trouxe como efeito para os húngaros a conversão ao Cristianismo e, com isso, a entrada no concerto dos reinos católicos.

A derrota de Lechfeld foi a salvação da nação húngara. Se os húngaros tivessem permanecido pagãos, teriam compartilhado a sorte dos hunos e ávaros, os quais finalmente sucumbiram ante os povos civilizados .

Sem declaração de guerra, os húngaros tinham invadido a Alemanha a mando de três generais: Lehel, Bultzu e Botend. Tentaram tomar Augsburgo, protegida por um simples muro.

Cavaleiro magiar
Cavaleiro magiar, ou húngaro
O Duque Henrique estava doente em Regensburg. A surpresa foi tão rápida e violenta que o exército bávaro não pôde reunir-se do outro lado do Lech.

Se Augsburgo se sustentasse alguns dias, Otton teria tempo para reunir um exército. Isto ter sido possível foi mérito de Santo Ulrico, Bispo de Augsburgo, fiel partidário do rei.

Com a confiança em Deus própria de um Santo, com o valor de um herói e a prudência de um general, Santo Ulrico dirigiu a defesa da cidade.

Refreiou os temerários, e suas palavras e orações inflamaram o menosprezo da vida nos corações dos tímidos. Um assalto se seguia a outro. Entre a chuva dos projéteis, o Prelado de 65 anos, com ornamentos sacerdotais, sem escudo, montado a cavalo, sem ser ferido por nenhuma seta, inflamava os lutadores, consolava os feridos e dava conselhos e ordens.

– “Ainda nas sombras da morte, não temo, porque Vós estais comigo, ó Senhor” era a máxima do heróico bispo.

À testa de uma coalizão de povos cristãos, Otton vence a horda invasora
À testa de uma coalizão de povos cristãos, Otton vence a horda invasora
Cada dia crescia o perigo, mas também aumentava o entusiasmo da resistência, ao passo que os comandantes dos húngaros tinham de empurrar a chibatadas suas coortes contra os católicos, quando o som dos olifantes surpreendeu os assediantes, que nas suas costas viram ondular ao longe as bandeiras das tropas imperiais.

De fato, Otton avançava com uma tropa escolhida de saxões, caminhando por Weissengur a Denauwort. Chamou a si a Boêmia, a Suábia e as tropas da Baviera:

“Também o Duque Conrado, com uma numerosa cavalaria, chegou ao acampamento, e animados por sua chegada, os guerreiros desejavam que não se diferisse a peleja. No combate, ora a pé, ora a cavalo, era irresistível. Para seus amigos era tão caro na guerra como na paz”.

Os húngaros recolheram-se na margem esquerda do Lech. Um profundo sentimento religioso penetrava o exército alemão.

“A 9 de agosto mandou-se fazer no acampamento um jejum e que todos estivessem preparados para a batalha no dia seguinte. Com o primeiro alvor da manhã puseram-se de pé, deram-se mutuamente a paz, e juraram primeiro a seus chefes e logo uns para com outros o mútuo auxílio. Logo saíram do acampamento com as bandeiras ao vento, em número de oito legiões. O exército foi conduzido por um terreno acidentado e difícil, para que os inimigos não tivessem ocasião de inquietar a expedição com suas setas”. 


As três primeiras legiões constituíam-se de bávaros, a quarta de francos a mando de Conrado, a quinta de escolhidos entre milhares de guerreiros, a mando do próprio Otton, em cuja bandeira estava pintado o arcanjo São Miguel, vencedor dos poderes das trevas.

A sexta e sétima divisões as formavam os suavos a mando de Burkhard II, pois não possuíam ainda o direito de lugar à frente no Império.

Os boêmios, como oitava legião, protegiam as bagagens. Uma divisão de húngaros tinha rodeado o exército formando um largo arco. Com um ataque súbito dispersou a legião de boêmios e pôs os suavos em confusão.

Somente Conrado com seus francos voltou a estabelecer a ordem. Otton já tinha formado sua ordem de batalha, e depois de uma alocução entusiasta, lançou-se com os seus contra o inimigo.

A luta foi longa e árdua. A vitória completa pela tarde. Os inimigos que não juncavam o campo de batalha fugiram sem ordem. Poucos chegaram a seu país. Segundo a lenda magiar, só sete, que foram declarados eternamente sem honra e incapazes de a possuir. Em toda parte levantou-se o povo dos campos como para uma caçada.

Matou e queimou os húngaros fugitivos, julgou-os em fossos, e em um dia vingou-se das injúrias de cinqüenta anos!

Os capitães prisioneiros, Botond, Lehel e Bultzu, não foram tratados conforme o direito da guerra, mas enforcados afrontosamente em Regensburg, porque sem declaração de guerra tinham invadido o país.

Mas com o júbilo misturou-se a tristeza pelo favorito do exército, o heróico Conrado, “o qual, sentindo excessivo calor pelo fogo interior e a violência do sol, que estava muito forte naquele dia, abriu a base do elmo para tomar ar, e caiu ferido na garganta por uma seta”.

Debaixo de sua couraça achou-se um cilício, sinal de quão arrependido estava de sua rebelião, a qual expiou com suas heróicas façanhas e seu sangue.

A derrota de Lechfeld teve para os húngaros o efeito de quebrar a força bárbara da nação e fazer com que os elementos mais nobres ali vencessem.

Outra conseqüência da vitória do dia de São Lourenço foi a fundação das Markas, de onde foi-se formando pouco a pouco a Áustria atual (a Ostmark, que depois seria o Ostroeich).

(Autor: João Batista Weiss, “História Universal”, Tipografia la educación, Barcelona, Volume V, pp. 31 a 34)




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