terça-feira, 18 de agosto de 2026

São Domingos e a Inquisição - 1


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Um conhecido escritor agnóstico dizia que as cruzadas contra os albigenses e o extermínio dos focos heréticos no sul da França atrasaram de alguns séculos o advento do humanismo renascentista e da nova ordem de coisas que seria instaurada no mundo.

Maior elogio não poderia ser feito àqueles que, como São Domingos, contribuíram para livrar a Cristandade daquele flagelo.

É oportuno lembrar um aspecto freqüentemente deformado da personalidade do fundador da Ordem dos Pregadores, em cujos membros, ao aprovar a nova regra, o Papa Honório III, em palavras proféticas, entreviu "futuros atletas da fé e verdadeiros luzeiros do mundo".

Queremos nos referir ao aspecto combativo da vida desse insigne santo e ao apoio dado por ele e por seus filhos à Santa Sé na repressão das heresias, pois se acha neste concurso prestado pelo piedoso apóstolo do Rosário à defesa da Verdade a principal origem das incompreensões e das injustiças que sofre por parte de muitos de seus inimigos.

A apregoada "intolerância medieval"

Com efeito, não são poucos os adversários da Igreja que, movidos pela paixão e pelo sectarismo, fazem convergir em São Domingos toda a "intolerância medieval", nele vendo a figura sinistra do primeiro inquisidor, a mandar para a fogueira as "pobres vítimas da superstição", e que não lhe perdoam o fato de se colocar solidário com a cruzada organizada a pedido do Papa Inocêncio III contra os albigenses.

Mostrando assim os hereges como vítimas inocentes da violência dos católicos, e classificando como um crime os métodos inquisitoriais, esses detratores de São Domingos não somente deformam a personalidade do grande santo espanhol, mas sobretudo cobrem de injúrias a Igreja e a Ordem Dominicana, a primeira por ter sido a principal responsável pela criação desses tribunais, e a segunda pelo apoio decidido que deu a essa instituição no correr dos séculos.

Tão grande e generalizada tem sido esta campanha contra o Bem-aventurado fundador da Ordem dos Pregadores, que alguns autores católicos como o Pe. Lacordaire, impressionados com ela, procuraram defender São Domingos mediante o argumento de que ele nada teve que ver com a Inquisição.

Este método apologético, mesmo no caso de conseguir isentar São Domingos de qualquer compromisso com a Inquisição, tem a seu desfavor o fato de deixar pairando no ar as acusações que, paralelamente e no mesmo sentido, são feitas à Santa Igreja e à Ordem Dominicana, mas que constituíram os tesouros mais caros ao coração do grande patriarca.

Com efeito, três foram os elementos que cooperaram na obra da Inquisição: os Soberanos Pontífices, através dos inquisidores que eles tinham o hábito de nomear entre as Ordens que formam a milícia da Santa Sé na Idade Média — os dominicanos ou frades pregadores e os franciscanos ou frades menores; os bispos ou os ordinários dos lugares, diretamente ou por seus delegados; enfim, o poder civil, que punha à disposição da Igreja o braço secular, punindo a heresia como uma ameaça à segurança do Estado.

Vivendo em plena época do advento da Inquisição, tomando parte ativa e saliente no drama da heresia albigense, teria São Domingos se mostrado alheio às medidas tomadas pela Igreja para debelar aquele terrível incêndio? E será a santidade incompatível com o mister de inquisidor?

Defesa da civilização

Foi no Concílio de Latrão, de 1179, que Alexandre III promulgou o primeiro sistema completo de repressão que a Igreja haja imaginado contra a heresia. 

Ora, as medidas então adotadas visavam antes de tudo os hereges que, não contentes de professar opiniões heterodoxas, subvertiam a sociedade por suas violências e propagação de falsos princípios.

Nenhuma pessoa honesta e sensata pode deixar de aplaudir o Cânon 27 do Concílio Geral de Latrão, que consagrou a legítima defesa da civilização naquela época:

"Estando os brabanções, aragoneses, navarros, bascos, coteraux e triaverdinos exercendo tão grandes crueldades sobre os cristãos, não respeitando nem igrejas nem mosteiros e não poupando viúvas, órfãos, velhos e crianças, não tendo consideração nem para a idade nem para o sexo, mas derrubando e devastando tudo como pagãos, ordenamos a todos os fiéis, pela remissão de seus pecados, que se oponham corajosamente a essas selvagerias e defendam os cristãos contra esses infelizes".

 São esses hereges acusados de exercer devastações nas regiões que ocupam, e se Alexandre III ordena contra eles uma cruzada, é para remediar grandes desastres, ut tantis claudibus re viribiliter opponant (Decreto de Gregório IX, v. VII, 8).

Doutrinas anti-sociais

Segundo Guiraud, que é um dos mais abalizados historiadores da Inquisição, o exame das doutrinas heterodoxas dos séculos XI e XII e a enumeração das perturbações que elas provocaram demonstra:

Jan Huss, heresiarca queimado em Praga

1) Que depois do ano mil a heresia deixa de ser uma opinião puramente teológica, destinada a ser discutida no recinto das escolas, mas se transforma cada vez mais em doutrinas anti-sociais e anárquicas, em oposição não somente com a ordem social da Idade Média, mas ainda com a ordem social de todos os tempos.

2) Que essas doutrinas anarquistas provocaram movimentos subversivos e perturbações profundas no seio do povo, e que assim a heresia que as informava se transformou num perigo público.

3) Que, desde então, a autoridade temporal teve tanto interesse quanto a autoridade espiritual em combater e em destruir a heresia.

4) Que essas duas autoridades, depois de haver agido separadamente durante muito tempo — o Estado pelas condenações de seus tribunais à forca e à fogueira, e a Igreja pela excomunhão e pelas censuras eclesiásticas — acabaram por unir seus esforços em uma ação comum contra a heresia.

5) Que essa ação conjunta inspirou as decisões do Concílio de Latrão em 1179 e do Concílio de Verona em 1184.

Eis, portanto, bem delineado o caráter da Inquisição, tal como foi estabelecido pelas Decretais de Alexandre III no Concílio de Latrão e de Lúcio III no Concílio de Verona. Podemos defini-la como um sistema de medidas repressivas, umas de caráter espiritual, outras de caráter temporal, promovidas simultaneamente pelo poder eclesiástico e pelo poder civil para a defesa da ortodoxia religiosa e da ordem social, ameaçadas igualmente pelas doutrinas teológicas e sociais da heresia (Jean Guiraud, "La Inquisition Médievale").

A Inquisição é de todos os tempos

Além das conjunturas históricas que deram origem à Inquisição, devemos pôr em relevo que essa instituição existe de modo natural e necessário, embora com nomes diferentes, em toda sociedade que deseja sua própria conservação. 

Como acentua Rohrbacher, toda sociedade, a menos que espose um liberalismo suicida, vigia e persegue aqueles que conspiram ou trabalham pela subversão de sua estrutura.

 As próprias constituições dos Estados modernos cominam penas para quem tentar derrubar a forma de governo existente, em geral a republicana.

Ora, a constituição da humanidade cristã se baseia nos princípios de que é guardiã e alma a Igreja Católica. 

Os povos vitalmente cristãos, impérios, reinos, repúblicas, são membros vivos dessa Igreja e vivem de sua vida. 

Lei fundamental da sociedade cristã — disso a que se dá o nome de Cristandade — tanto para a sua existência quanto para a sua conservação e aperfeiçoamento, é a lei católica. 

E se não há verdadeira civilização sem a verdadeira Religião, como diz Pio X, é claro que, defendendo a verdadeira Religião, os cristãos estão defendendo a própria causa da verdadeira civilização.

Estas verdades estavam arraigadas no espírito da sociedade medieval, sincera e coerentemente católica. Não passam, portanto, de pura declamação as acusações violentas que são frequentemente dirigidas à Igreja a este propósito. 

Provam apenas a ignorância e a paixão de seus autores, que transformam em mártires da liberdade de pensamento os hereges que, por seu fanatismo, desencadearam as piores desordens na sociedade de seu tempo.

continua no próximo post

(Autor: José de Azeredo Santos, "Catolicismo" nº 8, agosto de 1951)


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terça-feira, 14 de abril de 2026

Othon I e os problemas no Sacro Império derivados das diversidades étnicas

Othon I com o Papa João XII
Othon I com o Papa João XII
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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continuação do post anterior: Othon I restaurador do Sacro Império



A noção do Sacro Império Romano Alemão se nos apresenta de um modo feudal. É o conglomerado de reinos que estão debaixo da dependência do imperador sagrado pelo Papa. Assim como temos o rei acima dos duques, acabamos tendo o imperador acima dos reis.

Othon era imperador e rei. Mas juridicamente e teoricamente alguém podia ser imperador sem ser rei.

Sobre este Império pairou desde logo uma ambigüidade. Essa ambigüidade deu origem a polêmicas, a discussões em que os espíritos se rebelavam muito.

Primeiro problema: o Sacro Império abrangia só os povos de nação alemã? Seu título faz pensar nisto, mas o próprio título traz uma contradição: romano. Se é romano não se pode dizer que seja da nação alemã.

Segundo problema: a abranger povos não germânicos quais eram esses povos? Eram apenas povos vizinhos que tivessem sido conquistados ou toda a cristandade estava sujeita naturalmente ao Sacro Império?

Esta questão também era discutida. E o curioso é que ela era discutida entre os povos não alemães e discutida entre os alemães. 

Entre os alemães porque havia Alemães nacionalistas que entendiam que a pertencença de elementos não germânicos dentro do Império diminuía a plena propriedade que os alemães tinham do Império e que o Império era um mecanismo alemão para a Alemanha.

Os outros se consideravam expulsos. Nos outros povos era a tendência à independência, ao nacionalismo que conhecemos.

Em Lechfeld, Othon I salvou a Cristandade dos húngaros ainda pagãos
Em Lechfeld, Othon I salvou a Cristandade dos húngaros ainda pagãos
Entretanto, o fato concreto é que foi tão grande o poder dos imperadores que eles, a partir da constituição em 962, do Sacro Império Romano Alemão, os embaixadores dos imperadores tiveram precedência sobre os embaixadores de todos os reis.

O imperador, quando se encontrava com qualquer rei tinha precedência sobre todos os reis.

Os príncipes da casa imperial tinham precedência sobre os outros príncipes. A dignidade de príncipe do Império era uma dignidade maior que a de qualquer outro príncipe.

A França, sem reconhecer juridicamente a supremacia do Sacro Império, nesse tempo, funcionava como um verdadeiro protetorado do Sacro Império.

Até a queda de Dom João•VI, certos funcionários do Sacro Império Romano Alemão tinham, em Portugal, as mesmas prerrogativas dos funcionários portugueses. Isto é expressão de uma certa jurisdição.

A ideia de Othon I era restaurar o Império de Carlos Magno que, segundo a concepção antiga, existia quase que de direito natural.

A ideia da existência de um Império Romano que se não existia, devia existir, e que a qualquer momento podia ser restaurado, era uma coisa que já vinha do tempo dos bárbaros.

De maneira que quando Othon I, com a aprovação do Papa, que era o poder competente para dispor sobre o Império, segundo a concepção vigente, declarou a coisa restaurada, reputou-se que ele estava investido em toda a dignidade de imperador.

O Sacro Império (em azul) no fim do reinado de Othon I
O Sacro Império (em azul) no fim do reinado de Othon I
Luiz, o Piedoso, quando consentiu na divisão do Império, ele conservou para si a dignidade de imperador e deu três reinos para cada filho. E depois disso houve durante algum tempo a dignidade de imperador acima dos reis. Então entendeu-se que estava perpetuada essa situação.

Othon I, coroado imperador, continuou a luta contra os pagãos. Foi ele que fundou Magdeburgo, instituiu ali um bispado, fundou o bispado de Praga.

Em relação aos eslavos teve a política de conversão pela força, não muito legítima, mas muito eficiente, seguida por Carlos Magno.

Apesar disto, há um fato lamentável. As relações entre os imperadores e os papas tendiam a envenenar-se facilmente.

Em 963, depois de desentendimentos sérios, ele invade a Itália e depõe o Papa João XII, que ele considerava muito independente e cria um anti-papa chamado Leão VIII que ficou exercendo as funções de 963 a 965. Os romanos não satisfeitos com aquilo, em 964 elegem Bento V Papa. Othon o depõe e restaura Leão VIII.

Depois disto ele se desgosta de Leão VIII e levanta outro papa, João XIII. Este João•XIII parece que foi um Papa legítimo e governou de 965 a 972.

Outra démêlé muito forte dele foi com os bizantinos. Os bizantinos eram portadores da coroa imperial e eles não podiam se contentar com o fato de que a dignidade imperial do Ocidente fosse usada por gente nova, semi-bárbara, como eram os germanos. Quando viram restaurada a dignidade imperial, protestaram.
O túmulo de Othon I, hoje, em Magdeburgo, Alemanha
O túmulo de Othon I, hoje, em Magdeburgo, Alemanha

Mas a coisa se aclimatou bem, porque Othon, vendo o desdém dos bizantinos por ele, aborreceu-se e atacou a Itália do Sul. Ele precisava proteger a Itália do Sul contra a investida árabe e ele queria se vingar do desdém dos bizantinos.

Nesta situação, os bizantinos, sentindo que não podiam defender a Itália do Sul, reconheceram o Império e houve o casamento de um filho de Othon com uma princesa bizantina em 972, na igreja de São Pedro, em Roma.

Em 973, Othon I morreu de modo repentino e foi sepultado em Magdeburgo.

Durante seu reinado houve um grande florescimento das Letras, uma espécie de “renascença carolíngia”.



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terça-feira, 31 de março de 2026

Othon I, o Grande, restaurador da obra de Carlos Magno

Othon I representado no sarcófago de Carlos Magno, Aachen
Othon I representado no sarcófago de Carlos Magno, Aachen
Luis Dufaur
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Othon I, o Grande, foi chamado a reger o Sacro Império num momento muito delicado.

O sacro império fora instituído na pessoa de Carlos Magno que foi o ápice da sua dinastia. Os Carolíngios, isto é seus descendentes, gastaram inconsideradamente o patrimônio legado pelo grande Carlos em brigas recíprocas sem glória.

Depois do filho de Carlos Magno Luiz, o Piedoso, o Império foi dividido em três partes.

A França e a parte espanhola do Império coube ao príncipe Luis; a Alemanha coube a Carlos outro filho e a parte central coube a um terceiro filho de nome Lotário.

Esta parte central ocupava os Países Baixos, a Alemanha mais ou menos na linha da Borgonha e da Lorena, a Suíça e a Itália. Formava um grande eixo que corria a Europa de Norte a Sul.

Os Carolíngios alemães decaíram terrivelmente e nem se sabe bem exatamente quando faleceu o último carolíngio alemão.

Em 896 era rei da Alemanha um Carolíngio, Arnolfo, que se fez coroar rei da Itália pelo cardeal Formoso. Por causa disso o cardeal, originário de Óstia, Itália, foi excomungado pelo Papa João VIII.

O reinado de Arnolfo foi característico do caos feudal que grassou na decadência dos descendentes carolíngios. O império foi subdividido entre numerosos reizetes.

Arnolfo se fez coroar imperador em 896 pelo mesmo Formoso que se tinha tornado Papa e haveria de ser processado escandalosamente post mortem.

Alguns o consideram o último carolíngio, mas outros acham que seu filho chamado Luiz, o Menino, coroado no ano de 900, foi quem encerrou a continuidade da dinastia do grande Carlos. Cfr. Wikipedia, verbete Papa Formoso.
 

Othon I, rei e imperador
Othon I, rei e imperador
Extinta a dinastia, os chefes dos ducados étnicos mais importantes elegeram imperador a Conrado I, o Sábio.

Os eleitores não quiseram saber de imperador ou rei hereditário. Declararam que cada vez que o trono vagasse, elegeriam um outro. Nasceu assim o hábito de ser o imperador eletivo.

Quando Othon subiu ao trono, a Alemanha se compunha dos chamados ducados étnicos. Quer dizer, das grandes famílias de povos alemães: a Saxônia, a Lorena, a Baviera, a Suábia e a Francônia.

O povo alemão muito numeroso tinha uma tendência muito grande para o regionalismo, o individualismo, para a formação de pequenos lares, aldeias e circunscrições ricas em vida própria e inteiramente típicas.

Othon I encontrou diante de si o feudalismo que se formava e que estava na força de sua expansão.

A sua tarefa então consistiu, em primeiro lugar, em não conter nem destruir essas forças feudais que subiam.

Esses grupos feudais alemães julgavam conveniente que provindo todos de uma origem comum deveriam ter um governo comum para os vários grupos. Mas, por outro lado, em virtude de seu regionalismo, viviam brigando entre si.

Othon I realizou a dura tarefa de reunir os povos germanos dispersos
Othon I realizou a dura tarefa de reunir os povos germanos dispersos
Othon então teve que restaurar continuamente a unidade porque ela se desfazia em brigas locais. Mas deveria recriar sempre a união sem asfixiar os grupos feudais que eram os elementos constitutivos do tecido vivo do império.

Ao mesmo tempo, Othon tinha que lutar contra os adversários da Cristandade, que eram muito poderosos no Oriente. Por exemplo, o litoral báltico e a Polônia eram habitados por bárbaros cruéis em perpétua luta contra os alemães.

Então, Othon decidiu expandir a Fé para aquelas paragens e chegar, se possível, até um povo selvagem e inóspito que habitava a atual Dinamarca, e outros mais selvagens e mais inóspitos, na Suécia e na Noruega.




GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
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terça-feira, 17 de março de 2026

Alfredo o Grande, o admirável Carlos Magno inglês

Alfredo o Grande, estátua de bronze em Winchester
Alfredo o Grande, estátua de bronze em Winchester
Luis Dufaur
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“Henrique com seis mulheres se casou. Uma morreu, uma viveu, de duas se divorciou e de duas a cabeça cortou”, cantava-se na Inglaterra.

Na história da Inglaterra há uma involuntária simetria entre dois polos.

De um lado, Henrique VIII (1491-1547), o sinistro fundador do anglicanismo.

Do outro, do lado bom, um cruzado, um santo: Alfredo, o Grande (849-899).

Em 2015, uma pesquisa da Associação dos Escritores Históricos daquele país considerou Henrique VIII o pior monarca de sua história.

Isto não passou despercebido das esquerdas, que lhe prestaram eloquente “homenagem” póstuma em desagravo pelo ato de vandalismo perpetrado contra uma estátua dele na noite de Ano Novo de 2007, quando perdeu o braço direito e seu machado.

Após ambos serem substituídos, a estátua voltou a ser vandalizada, perdendo novamente seu machado.

No outro polo está alguém muito diverso: Alfred, o fundador da Inglaterra e seu protótipo, muito menos conhecido do que merece.

Culto e piedoso, incentivou — certamente inspirado em Carlos Magno — a educação, melhorou o sistema legal e a estrutura militar de seu reino.

Esteve em guerra com os vikings durante toda a sua vida e obteve uma vitória decisiva sobre eles na batalha de Edington, quando os perseguiu até seu reduto em Chippenham e os venceu.

Um dos termos da rendição estipulava a conversão do chefe viking Guthrum ao Cristianismo.

Três semanas depois, o rei dinamarquês e 29 de seus principais chefes recebiam o batismo em Aller, onde estava a corte de Alfredo, que recebeu Guthrum como seu filho espiritual com o nome de Christian Æthelstan.

Com a vitória, Alfred mereceu o título de “o Grande”, sendo o único monarca inglês a receber essa honraria e se tornar análogo a Carlos Magno inglês.

No ano de 883 — embora haja algum debate sobre a data —, o rei Alfred, devido ao seu apoio e doação de esmolas a Roma, recebeu uma série de presentes do Papa Marino, entre os quais se encontrava um fragmento da verdadeira Cruz — verdadeiro tesouro para o rei saxão.

Alfred foi também grande guerreiro do ponto de vista naval. Em 896, ordenou a construção de uma pequena frota — talvez uma dúzia de navios longos com 60 remos — que era duas vezes maior que os navios de guerra vikings.

Alfredo o Grande, vitral da catedral de Winchester.
Alfredo o Grande, vitral da catedral de Winchester.
O autor da Crônica anglo-saxã, e provavelmente o próprio Alfredo, consideravam-na marcante no importante desenvolvimento do poder naval de Wessex.

O cronista lisonjeia seu patrono real, referindo que os navios de Alfredo eram não apenas maiores, mas também mais rápidos e mais estáveis, conservando-se melhor à superfície da água do que qualquer navio viking ou frísio.

Após obrigar os dinamarqueses a se retirarem, Alfred voltou sua atenção para a Marinha Real, cujos navios haviam sido construídos de acordo com seus projetos.

Segundo alguns historiadores, esse foi o nascimento da marinha inglesa.

* * *

Em 1994, o bispo anglicano de Worcester fez uma declaração que, segundo Plinio Corrêa de Oliveira, parecia provir de uma autêntica conversão. Ei-la:

“O nosso futuro está em Roma. Há anos esperei e rezei em silêncio.

“Sofri muito, mas continuei acreditando firmemente que um dia a Igreja anglicana tornaria a ser católica, reconhecendo de novo a autoridade do Papa e voltando a crer que o centro da Cristandade está em Roma.

“A Igreja de Roma é a única que se pronuncia de maneira clara sobre as principais questões morais e doutrinárias, e é isto que atrai, é disto que sentimos necessidade.”

Há ainda outras profecias sobre a conversão da Inglaterra.

O bispo de Birmingham visitou São João Maria Vianney e pediu orações pelo Reino Unido. Com um olhar luminoso, o santo respondeu:

““Estou certo de que a Igreja de Inglaterra recuperará seu antigo esplendor.”

Santo Eduardo, rei inglês que viveu na Idade Média, previu em seu leito de morte a apostasia da Inglaterra, mas disse que depois essa “árvore”, “pela misericórdia do Deus compassivo, deverá retornar à sua raiz original, reflorescer e dar abundantes frutos”.

O Beato Pio IX leva a tocha da fé à Inglaterra numa visão de São Domingos Sávio. Maria Ausiliatrice, Turim.
O Beato Pio IX leva a tocha da fé à Inglaterra
numa visão de São Domingos Sávio. Maria Ausiliatrice, Turim.
Um último fato. São João Bosco teve um diálogo muito interessante com São Domingos Sávio, já gravemente doente:

“Se eu pudesse falar ao Papa — disse o jovem santo —, quereria lhe dizer que em meio às tribulações que o aguardam não deixe de trabalhar com especial solicitude pela Inglaterra; Deus prepara um grande triunfo do catolicismo naquele reino.

“Vou contar-lhe, mas não mencione isso aos outros, pois podem achar ridículo. Mas se o senhor for a Roma, diga-o a Pio IX por mim.

“Certa manhã, durante minha ação de graças após a comunhão, voltei a ter uma distração, que me pareceu estranha; eu julguei ver uma grande parte de um país envolvida em grossas brumas, e estava cheia com uma multidão de pessoas.

“Estavam se movendo, mas como homens que tendo perdido o caminho, não estavam certos onde pisavam. Alguém próximo disse: “Esta é a Inglaterra”.

* * *

Enquanto Alfred estava escondido nos pântanos de Athelney — conta uma lenda —, recebeu abrigo de uma camponesa idosa que não tinha reconhecido o rei. Ela pediu-lhe que tomasse conta dos bolos que tinha deixado para assar no forno.

Preocupado com os problemas do reino e a guerra contra os Vikings, Alfred se distraiu e deixou os bolos queimarem. Quando a camponesa voltou, reclamou demais e até ousou bater nele.

Pouco depois chegaram alguns cavaleiros e o chamaram de Sua Majestade. Ela então percebeu que se tratava do rei e pediu perdão.

Mas Alfredo se declarou culpado e disse que era ele quem devia pedir perdão. Essa narrativa mostra como Alfred não era apenas herói, mas também paternal.

Tal como Carlos Magno!


(Autor Leo Daniele, IPCO)



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