terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

D. Pelayo e a gloriosa Reconquista espanhola (2)

Don Pelayo, Covadonga
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




 Continuação do post anterior: D. Pelayo e a gloriosa Reconquista espanhola (1)



Invasão moura na base da traição

Musa bem Nusayr, com ciúmes dos sucessos de seu capitão Tarif, resolveu também atravessar o Estreito à frente de poderoso exército, com o qual foi conquistando, uma após outra, Sevilha, Mérida, Saragoça e as atuais províncias de Málaga e Granada. Toledo já fora dominada por Tarif no ano de 713.

Juntando infâmia à traição, os partidários do último rei Vitiza foram entregando suas cidades ao invasor.

E assim foram caindo, como cartas de baralho, todas as regiões da Espanha visigótica, restando somente poucos núcleos independentes da autoridade muçulmana nos Montes Cantábricos, nas Vascongadas e junto aos Pireneus.

No ano 716, a maioria da população era composta de hispano-romanos cristãos, aos quais os mouros não obrigavam a se converter ao Islã, porque sua religião era também do Livro Revelado.

Mas tinham que pagar impostos ao invasor, sob pena de escravidão e confisco de bens.

D. Pelayo resiste e é aclamado rei

O governador muçulmano de Gijón, Munuza, enamorou-se da irmã de Pelayo. Por isso enviou-o para Córdoba com outros reféns, para poder dar livre curso a suas paixões desordenadas.

Mas Pelayo conseguiu fugir e voltar para a Astúrias, onde se opôs ao casamento da irmã com o mouro. Perseguido, teve que fugir para os montes de Cangas de Onis.

A gruta da resistência
Lá, em 718, reuniu um grupo numeroso de opositores ao regime islamita, incitou-os à resistência e foi por eles aclamado rei.

D. Pelayo era líder nato e grande aglutinador de homens. Sabia dirigi-los e deles tirar o máximo proveito.

Vendo que o forte da atenção inimiga estava posto na fracassada tentativa de invasão das Gálias, começou a atacar as guarnições mouras em pequenas guerras de escaramuça, alcançando vitórias sucessivas.

Isso levou Tarif, que tornara Córdoba sua capital, a envir contra os rebeldes um forte contingente comandado por Alcama.

Em sua empresa, era este traidor secundado por uma tropa cristã colaboracionista, comandada pelo bispo Opas, que acorrera com seus homens vindo de Toledo.

O Bispo Dom Opas, que já havia pactuado, se adiantou para tentar convencê-lo da inutilidade de resistir e da conveniência de seguir seu exemplo.

Invocando o auxílio de Deus e da Virgem, que tinha como seguros, D. Pelayo rechaçou indignado a proposta traidora, dispondo-se a batalhar até o fim contra os inimigos da Fé.

D. Pelayo não podia enfrentar tão forte inimigo, sobretudo com seu exército pouco numeroso e pouco adestrado.

Enviou parte dele para as montanhas, e refugiou-se com mil de seus melhores combatentes numa grande gruta natural no monte Auseva, com provisão para muitos dias e armas ofensivas e defensivas.

Vitória miraculosa de Covadonga

Chegado o exército islâmico junto à gruta, Alcama tentou uma última vez, através do bispo Opas, a rendição dos rebeldes, com a promessa de perdão para todos.

Respondeu-lhe D. Pelayo que os cristãos confiavam em seu Deus e na ajuda de sua Mãe Santíssima, pois era por eles que lutavam. E preferiam morrer a continuar vivendo sob o jugo de ímpios profanadores de igrejas.

A gruta e a fonte
Retiraram-se os defensores para a gruta, sendo cercados pelo exército inimigo. Pondo sua confiança na Santa Mãe de Deus, Pelayo e os seus, como narra o Pe. Mariana,

“combateram com todo gênero de armas e com um granizo de pedras à entrada da cova; no que se descobriu o poder de Deus, favorável aos nossos e contrário aos mouros, pois as pedras, setas e dardos que os inimigos atiravam retornavam contra os que os arrojavam, com grande estrago que faziam em seus próprios senhores.

“Ficaram os inimigos atônitos com tão grande milagre.

“Os cristãos, animados e inflamados com a esperança da vitória, saem de seu esconderijo pelejando, poucos em número, sujos e de mau talhe; a peleja foi em tropel e sem ordem; carregaram com grande denodo sobre os inimigos, os quais, enfraquecidos e pasmos com o espanto que tinham cobrado, lhes voltaram as costas” (4).

Na fuga morreram mais de 20 mil soldados inimigos. Alcama pereceu na batalha, D. Opas foi feito prisioneiro e justiçado, e Munuza linchado pelos habitantes de uma aldeia, quando empreendia sua fuga.

Início de uma insigne Reconquista na História

Custou caro a derrota aos islamitas. Narram os historiadores árabes que os emires de Córdoba desprezaram o inimigo, dizendo:

“Pelayo não tem consigo mais que 30 homens famintos, que se alimentam com o mel que as abelhas fabricam nas rachaduras dos penhascos; e 30 homens, que podem importar?”.

A batalha
Pelas conseqüências que essa derrota teve depois, na história dos árabes na Espanha, lamentam tristemente seus historiadores: “Grave descuido, que foi depois causa de grandes aflições para o Islã” (5).

Àqueles rudes espanhóis, que os emires de Córdoba desprezavam, podia-se no entanto aplicar a descrição que Menéndez Pidal fez depois, do castelhano em geral:

“Suporta com forte conformidade toda carência, pode resistir às cobiças e à perturbadora solicitação dos prazeres; rege-o uma fundamental sobriedade de estímulos, que o inclina a certa austeridade ética, manifesta no estilo geral de vida; habitual simplicidade de costumes, nobre dignidade de porte, notada mesmo nas classes mais humildes; firmeza nas virtudes familiares”; e, quando preciso, um heroísmo poucas vezes imitado (6).

Tumba de Don Pelayo
O que sucedeu a D. Pelayo após a esplendorosa vitória de Covadonga? Segundo alguns, não se têm mais notícias de ações militares suas.

Estabeleceu sua residência em Cangas de Onis, “que se converteu em núcleo inicial de um reino sem nome nem território, mas com o qual colaborava já o Ducado de Cantábria” (7) .

Segundo o Pe. Mariana, ele fortificou—se nas Astúrias e fazia incursões nas terras sujeitas aos mouros. Atraindo para junto de si um número de pessoas cada vez maior, tomou pelas armas a cidade de León, que teria sido sua primeira capital.

O herói de Covadonga faleceu provavelmente em 737, sendo sucedido por seu filho Fáfila. Este, por sua vez, faleceu apenas dois anos depois, quando caçava um urso. Sucedeu-o um genro de D. Pelayo, filho do Duque da Cantábria.

Notas:
1.Cfr. Luis Suárez Fernández, Historia de España — Edad Media, Madrid, 1978, pp. 9 e 10
2.Id., ib. pp. 9 e 10
3.Padre Mariana, Historia General de España, enriquecida e completada por Eduardo Chao. Imprenta y Libreria de Gaspar y Roig, Editores, Madrid, 1848, tomo I, p. 308.
4.Id., p. 322.
5.Menéndez Pidal, España y sua Historia, Ediciones Minotauro, Madrid, 1957, tomo I, pp. 247, 248.
6.Id., pp. 15, 16.
7.Luis Suárez Fernandez, op. cit., pp. 15, 16. 


(Autor: José Maria dos Santos, “Catolicismo”, outubro de 2002)



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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Don Pelayo e a gloriosa Reconquista espanhola (1)

Don Pelayo, estátua em Cangas de Onís, Astúrias
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Considerado um grande personagem, mais pelos efeitos de sua ação do que por sua pessoa, de Don Pelayo pouco sabemos.

Foi, isto pode-se admitir, o detonador do estopim que deflagrou a gloriosa Reconquista contra os mouros.

Iniciada nas agrestes montanhas das Astúrias no ano da graça de 722, ela encerrar-se-ia gloriosamente sete séculos após, em 1492, com a conquista do último reduto muçulmano na Espanha, o de Granada, pelos Reis Católicos Fernando e Isabel.

A avassaladora onda maometana

Menos de 70 anos após a morte de Maomé, seus seguidores já se tinham assenhoreado praticamente de todo o Oriente Médio e partiram para o norte da África, civilizado pelos romanos.

Espíritos nômades e irrequietos, varrendo tudo à sua frente desde o Índico até o Atlântico, voltaram então seus olhares cobiçosos para o continente europeu, imaginando novas conquistas “em nome de Alá”.

Do outro lado do Estreito de Gibraltar, a Espanha visigótica jazia num adiantado estado de decadência, mergulhada em vícios, portanto madura para uma invasão.

Nesse grande reino o exército estava relaxado, o povo amolecido e os dirigentes divididos, combatendo-se entre si.

A perseguição aos judeus, na Península Ibérica, levou-os a revidar, não só convidando, os islamitas a entrar na Espanha por meio de seus correligionários do norte da África, mas também prometendo-lhes ajuda1.

Situação caótica da Espanha visigótica

O penúltimo rei da nação visigótica, o insolente e libidinoso Vitiza, ainda príncipe, por questões amorosas matou com uma bastonada na cabeça o Duque de Fáfila; subindo ao trono, desterrou para Toledo o jovem filho da vítima, o espadeiro ou guarda real Pelayo, herói de nossa história.

A gruta de Covadonga: último reduto de resistência católica
Essas e outras medidas arbitrárias tornaram a dinastia muito impopular.

Com a morte de Vitiza, seus filhos ainda adolescentes não encontraram apoio para subir ao trono.

Aproveitando-se do caos reinante e da ajuda dos descontentes com o antigo regime, Rodrigo, Duque da Bética, apoderou-se do poder, proclamando-se rei.

Os partidários arrianos de Vitiza e de seus filhos juraram vingança contra os católicos depois de serem derrotados.

Enviaram mensageiros aos mouros do lado africano do Estreito de Gibraltar, apontando os pontos fracos da Espanha e por onde poderiam ter invadido o país.

O astuto Musa bem Nusayr, governador da África muçulmana, querendo certificar-se da exatidão das notícias, enviou seu melhor general, Tarif bem Ziyad, para fazer uma incursão em terras espanholas.

Com a ajuda de um traidor — o Conde de Olián, senhor de muitas terras, inclusive de Gibraltar — estremecido na época com o rei D. Rodrigo, Tarif logrou várias vitórias sucessivas (em 711).

“A falta de resistência, a adesão inclusive de numerosos inimigos do regime visigótico, decidiram Tarif a mudar as instruções recebidas, convertendo em guerra de conquista o que a princípio foi uma simples ‘razzia’”2 .

Nossa Senhora de Covadonga
Para fazer face a esse perigo, o rei Rodrigo juntou um exército de cerca de 100 mil homens mal treinados, mal armados e pouco disciplinados para enfrentar um exército menor, mas regular, bem equipado e disciplinado.

No auge da batalha, os filhos de Vitiza e seus sequazes, unindo-se aos mouros, voltaram-se contra seus compatriotas, atacando-os pelas costas. Estes foram desbaratados, tendo muitos perecido, alguns fugido, e boa parte tornando-se prisioneira.

“Dia aziago, jornada triste e lastimosa”, lamenta o escritor Pe. Mariana. “Ali pereceu um número ínclito de godos; ali o esforço militar, ali a fama do tempo passado, ali a esperança do porvir se acabaram; e o império (visigótico), que havia durado mais de trezentos anos, foi abatido por essa gente feroz e cruel”3.

O rei Rodrigo desapareceu. Pelayo, que participou da batalha, pôde escapar, refugiando-se na região norte do país com sua irmã.


(Autor: José Maria dos Santos, “Catolicismo”, outubro de 2002

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Não temeram combatendo sob a sombra da Imaculada

O achado miraculoso que inverteu a batalha de Empel. Detalhe de Augusto Ferrer-Dalmau (1964 - ) FD Magazine
O achado miraculoso que inverteu a batalha de Empel.
Detalhe de Augusto Ferrer-Dalmau (1964 - ) FD Magazine
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: Empel: onde a Imaculada mostrou que o Deus católico é o único verdadeiro




Prometendo a Virgem vencer ou morrer

Oficiais e soldados esgotados correram para construir um altar de pedras e lama que ornamentaram com a Cruz de Santo André, símbolo do exército espanhol e para glorificar a imagem encontrada, entoaram a Salve Rainha.

Concluída a oração daqueles homens consolados mas à beira da morte, o chefe Bobadilla os exortou com palavras inspiradas:

“Soldados!

“A fome e o frio nos levam à derrota, mas a descoberta milagrosa vem para nos salvar.

“Quereis que na noite abordemos as galeras inimigas, prometendo ganhá-las ou tudo perder pela Virgem sem que sobre uma vida?”.

E eles juraram que queriam.

Eles queimaram as bandeiras para que em caso de derrota não caíssem em mãos inimigas e, pela mesma razão, destruíram sua artilharia.

O milagre de Empell, miraculoso achado de imagem da Imaculada Conceição
 Empel: miraculoso achado de imagem da Imaculada Conceição
O plano era desesperado, mas não havia outra alternativa: subir a bordo de alguns barquinhos que tinham, desafiar a artilharia inimiga e tentar abordar os navios holandeses na ponta das armas brancas.

Mas, o verdadeiramente prodigioso aconteceu então.

Porque um vento poderoso e glacial começou a castigar essas terras e essas águas. Tudo virou gelo.

Os maiores navios holandeses tiveram que recuar antes de serem bloqueados e estraçalhados pelo gelo.

Entre os católicos, a esperança renasceu.

O único Deus verdadeiro é católico

Num ritmo de marcha forçada correndo por cima do gelo do rio endurecido, os terços de Bobadilla atacaram os fortes, que caíram um após o outro.

Eles fizeram o mesmo com os navios que não conseguiram escapar.

Eles capturaram dez, com seus suprimentos, toda a artilharia e munição inimiga, fizeram dois mil prisioneiros ...

Foi uma vitória total que apenas algumas horas atrás parecia impossível.

Não foram só os católicos que pensaram que ali havia uma intervenção divina.

O chefe protestante vendo a derrocada suspeitou que estava lutando contra forças muito mais poderosas que as humanas.

“Para mim, parece que Deus é espanhol ao agir com um grande milagre”, confessou o almirante Hohenlohe-Neuenstein.

Até hoje o Serviço de Meteorologia Holandês indaga como o mar congelou, Jordi Bru.
Até hoje o Serviço de Meteorologia Holandês indaga como o mar congelou, Jordi Bru.
A batalha durou dois dias.

Choveu e o gelo quebrou. Os calvinistas bateram em retirada.

A imagem da Imaculada foi transferida para a igreja de Balduque.

Até então, cada terço tinha um grande nobre que era o empregador que financiava as operações.

Mas, depois do Milagre de Empel, a Imaculada se tornou padroeira de todos os terços de Flandres e da Itália.

Foi fundada então a Irmandade dos soldados da Virgem Concebida Sem Defeito. Seu primeiro irmão foi Bobadilla. Todos os alistados nos territórios de Flandres e Itália pertencerão a ela.

Em 12 de Novembro de 1892, a rainha regente María Cristina assinou a ordem institucionalizando o que já era um fato consumado havia três séculos: a invocação da Imaculada Conceição como padroeira da Infantaria.

Empel: a capela do milagre
Foi um milagre?

Não há opinião canônica sobre o evento climático.

O fenômeno meteorológico incomum naquele 8 de dezembro de 1585, na ilha de Bommel, foi objeto de estudo por historiadores e meteorologistas holandeses.

Hoje, o Instituto Holandês de Meteorologia se declara incapaz de compreender a concatenação de circunstâncias que levaram a água ao redor da ilha de Bommel a se congelar numa noite.

É fato que o mundo passava por uma era conhecida como o mínimo de Maunder, período de 1645 a 1715, durante a Pequena Idade de Gelo dos séculos XV a XVII.

Mas, foi um fenômeno incomum nunca visto antes nessas terras com temperaturas de quase ‒ 20ºC.

Para todos ficou claro que os homens que acreditavam na Puríssima Virgem tinham sido resgatados de modo prodigioso.

Acresceu que o vento gélido começou a soprar no momento que os católicos da vizinha cidade de Balduque tinham iniciado uma procissão com o Santíssimo Sacramento - outra verdade negada pelos protestantes. Cfr. El Tercio de Bobadilla y el Milagro de Empel

Ao que se deveu a 'mudança climática'? Para os testemunhas do fato só podia ser por causa dEla!

Assim, desde o milagre de Empel, até hoje a Imaculada Conceição é a padroeira da infantaria espanhola.

E o 8 de dezembro, data da vitória miraculosa de Empel, é o dia de sua festa universal.


Vídeo: a Virgem Imaculada lhes deu a vitória impensável





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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A Imaculada Conceiçao e o Deus católico único verdadeiro: o milagre de Empel

O milagre de Empel 04, Augusto Ferrer-Dalmau (1964 - ) FD Magazine
O milagre de Empel. Augusto Ferrer-Dalmau (1964 - ) FD Magazine
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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política internacional,
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A Imaculada Conceição teve um papel essencial em vários episódios muito importantes da história da Cristandade.

Um dos menos conhecidos é o chamado Milagre de Empel onde a intervenção da Imaculada determinou a vitória dos regimentos católicos espanhóis em guerra contra os protestantes holandeses em Flandres.

O escritor espanhol José Javier Esparza dedicou uma valiosa matéria publicada pelo jornal “La Gaceta” de Madri sob o título “Empel: Um tercio para um milagre”, reproduzido por Infovaticana.

Nota: tercio, literalmente terço em português, designa um tipo de unidade militar de infantaria no exército espanhol.

O fato portentoso se deu na ilha de Bommel, lembrada como Empel, em Brabante, região hoje dividida entre Bélgica e Holanda, nos dias 7 e 8 de dezembro de 1585. A guerra religiosa de Flandres, da qual fazia parte Brabante se disputou essencialmente em trincheiras onde a infantaria desempenhou um papel essencial.

Os protestantes fortemente apoiados por seus correligionários ingleses e franceses, professavam a fórmula calvinista e erguiam a bandeira da independência contra seu rei e a Espanha, corajosa defensora do catolicismo.

Os terços espanhóis lutavam em condições adversas de extrema dureza. Além da geografia pantanosa, o apoio inglês e francês conferia aos rebeldes heréticos flamencos um poder extraordinário.

Naquela data, na ilha de Bommel, entre os rios Maas e Waal, estavam dispostos cinco mil católicos (espanhóis e flamencos) do Terço Tercio Viejo de Zamora, comandado pelo mestre de campo Don Francisco Arias de Bobadilla.

Eles enfrentaram e derrotaram em condições  muito adversas a uma frota de cem barcos dos rebeldes protestantes dos Estados Gerais dos Países Baixos, comandada pelo almirante Felipe de Hohenlohe-Neuenstein. Cfr. Wikipedia, Milagre de Empel.

Os porta-estandartes do erro preferiram não atacá-los por terra, porque a infantaria espanhola era tida com razão como a melhor do mundo e lhes inspirava muito respeito.

Vista aérea de Empel na região de Brabante em foto atual
Vista aérea de Empel na região de Brabante em foto atual
O conde de Hollac comandava as tropas protestantes locais e tentava angariar o buscar o apoio dos calvinistas franceses.

Porém, esses pareciam lembrar o que dissera seu compatriota Bonnivet:

“Cinco mil espanhóis são cinco mil homens que lutam e cinco mil cavalos ligeiros, e cinco mil homens de infantaria e cinco mil sapadores e cinco mil demônios”.

Então os franceses tiraram o corpo.

Antes da morte que a desonra

O conde de Hollac então projetou um assedio marítimo usando barcaças de fundo chato capazes de formar uma barreira formidável nos canais pouco profundos.

Pretendia assim cortar os fornecimentos a Bobadilla, deixa-lo sem comida, sem abrigo, e sem qualquer esperança de receber reforços.

Ao mesmo tempo, fez saber aos católicos que lhes oferecia uma capitulação honrosa.

Ele evitaria um desenlace de luta corpo a corpo com os temidos terços apelando ao “bom senso”: os católicos poderiam sair sem deixar prisioneiros ou reféns e levariam suas bandeiras.

Bobadilla não pareceu gostar da proposta e respondeu:

“A infantaria espanhola prefere a morte à desonra. Nós vamos falar sobre a capitulação após a morte”.

Num outro a frase soaria a bravata, mas os exemplos de centenas de outros feitos de armas nessas terras ensinavam que eram muito sérias.

Entres aqueles homens alguns anos atrás haviam sido capturados em Tournai e em Maastricht, mas voltaram e reconquistaram Dunquerque e Nieuwpoort, desfilaram suas bandeiras por Bruges e Gante, e ainda sitiaram e conquistaram Antuérpia ...

O conde Hollac acreditou: aqueles católicos fariam o que tinham dito. Mas concebeu uma estratagema brilhante para quebrar sua resistência sem ter que medir o aço com os sitiados.

Ele mandou inundar a área só ficando a ilha de Bommel onde estavam as forças leais ao rei. Para isso fez voar pelos ares as barragens que continham os rios Maas e Waal.

Quando tudo estava perdido, Nossa Senhora deu a vitória. Detalhe de Augusto Ferrer-Dalmau (1964 - ) FD Magazine
Quando tudo estava perdido, Nossa Senhora deu a vitória.
Detalhe de Augusto Ferrer-Dalmau (1964 - ) FD Magazine
A terra ocupada pelos espanhóis ficou inundada. Somente a colina de Empel sobressaia da água.

Os soldados dos terços ficaram tão cansados como antes e famintos como sempre naquele moimento passaram a também ficar encharcados até os ossos e reduzidos a um pedaço de terra que era facilmente bombardeável pelo inimigo

Enquanto isso, cem barcos holandeses ocuparam todos os fortes da área, juntando-se à artilharia que já vomitava fogo sobre os resistentes.

Em 7 de dezembro, os terços ainda defenderam a colina de Empel durante o dia todo. Na noite os homens de Bobadilla em desespero de causa foram cavar abrigos.

E eis que a pá de um soldado bate num objeto estranho, que a princípio foi confundido com uma pedra.

Ele conseguiu remover a terra que o circundava e resultou ser pedaço de madeira.

Com as próprias mãos, ele removeu a lama e a areia e foi descobrindo cores azul e branca, até finalmente aparecer a figura da Imaculada Conceição.

As tropas estavam lá servindo a fé.

Nas cidades católicas que eles defendiam – como é o caso de Bolduque – os habitantes conduziam o Santíssimo Sacramento em procissão, implorando pelos sitiados.

Nessa hora, apareceu a imagem da Imaculada. Ainda passariam mais de quatro séculos até que o Beato Papa Pio IX proclamasse o dogma da Imaculada Conceição, que Nossa Senhora confirmou em Lourdes.

Mas a devoção de povos como o espanhol e o português por esse dogma se manifestava fervorosamente entre os soldados.

A Imaculada é heroína veterana da imensa vitória contra os mouros em Navas de Tolosa de 1212 e da conquista de Granada (1492), as vitórias nessas batalhas foram confiadas a ela.

E nessa hora Ela voltava a aparecer naquela cumbuca de Empel, onde apenas um milagre poderia impedir a derrota!


Vídeo: A Imaculada mostrou que o Deus católico é o único verdadeiro: o milagre de Empel (espanhol)




continua no próximo post: Não temeram combatendo sob a sombra da Imaculada




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