terça-feira, 14 de abril de 2026

Othon I e os problemas no Sacro Império derivados das diversidades étnicas

Othon I com o Papa João XII
Othon I com o Papa João XII
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs









continuação do post anterior: Othon I restaurador do Sacro Império



A noção do Sacro Império Romano Alemão se nos apresenta de um modo feudal. É o conglomerado de reinos que estão debaixo da dependência do imperador sagrado pelo Papa. Assim como temos o rei acima dos duques, acabamos tendo o imperador acima dos reis.

Othon era imperador e rei. Mas juridicamente e teoricamente alguém podia ser imperador sem ser rei.

Sobre este Império pairou desde logo uma ambigüidade. Essa ambigüidade deu origem a polêmicas, a discussões em que os espíritos se rebelavam muito.

Primeiro problema: o Sacro Império abrangia só os povos de nação alemã? Seu título faz pensar nisto, mas o próprio título traz uma contradição: romano. Se é romano não se pode dizer que seja da nação alemã.

Segundo problema: a abranger povos não germânicos quais eram esses povos? Eram apenas povos vizinhos que tivessem sido conquistados ou toda a cristandade estava sujeita naturalmente ao Sacro Império?

Esta questão também era discutida. E o curioso é que ela era discutida entre os povos não alemães e discutida entre os alemães. 

Entre os alemães porque havia Alemães nacionalistas que entendiam que a pertencença de elementos não germânicos dentro do Império diminuía a plena propriedade que os alemães tinham do Império e que o Império era um mecanismo alemão para a Alemanha.

Os outros se consideravam expulsos. Nos outros povos era a tendência à independência, ao nacionalismo que conhecemos.

Em Lechfeld, Othon I salvou a Cristandade dos húngaros ainda pagãos
Em Lechfeld, Othon I salvou a Cristandade dos húngaros ainda pagãos
Entretanto, o fato concreto é que foi tão grande o poder dos imperadores que eles, a partir da constituição em 962, do Sacro Império Romano Alemão, os embaixadores dos imperadores tiveram precedência sobre os embaixadores de todos os reis.

O imperador, quando se encontrava com qualquer rei tinha precedência sobre todos os reis.

Os príncipes da casa imperial tinham precedência sobre os outros príncipes. A dignidade de príncipe do Império era uma dignidade maior que a de qualquer outro príncipe.

A França, sem reconhecer juridicamente a supremacia do Sacro Império, nesse tempo, funcionava como um verdadeiro protetorado do Sacro Império.

Até a queda de Dom João•VI, certos funcionários do Sacro Império Romano Alemão tinham, em Portugal, as mesmas prerrogativas dos funcionários portugueses. Isto é expressão de uma certa jurisdição.

A ideia de Othon I era restaurar o Império de Carlos Magno que, segundo a concepção antiga, existia quase que de direito natural.

A ideia da existência de um Império Romano que se não existia, devia existir, e que a qualquer momento podia ser restaurado, era uma coisa que já vinha do tempo dos bárbaros.

De maneira que quando Othon I, com a aprovação do Papa, que era o poder competente para dispor sobre o Império, segundo a concepção vigente, declarou a coisa restaurada, reputou-se que ele estava investido em toda a dignidade de imperador.

O Sacro Império (em azul) no fim do reinado de Othon I
O Sacro Império (em azul) no fim do reinado de Othon I
Luiz, o Piedoso, quando consentiu na divisão do Império, ele conservou para si a dignidade de imperador e deu três reinos para cada filho. E depois disso houve durante algum tempo a dignidade de imperador acima dos reis. Então entendeu-se que estava perpetuada essa situação.

Othon I, coroado imperador, continuou a luta contra os pagãos. Foi ele que fundou Magdeburgo, instituiu ali um bispado, fundou o bispado de Praga.

Em relação aos eslavos teve a política de conversão pela força, não muito legítima, mas muito eficiente, seguida por Carlos Magno.

Apesar disto, há um fato lamentável. As relações entre os imperadores e os papas tendiam a envenenar-se facilmente.

Em 963, depois de desentendimentos sérios, ele invade a Itália e depõe o Papa João XII, que ele considerava muito independente e cria um anti-papa chamado Leão VIII que ficou exercendo as funções de 963 a 965. Os romanos não satisfeitos com aquilo, em 964 elegem Bento V Papa. Othon o depõe e restaura Leão VIII.

Depois disto ele se desgosta de Leão VIII e levanta outro papa, João XIII. Este João•XIII parece que foi um Papa legítimo e governou de 965 a 972.

Outra démêlé muito forte dele foi com os bizantinos. Os bizantinos eram portadores da coroa imperial e eles não podiam se contentar com o fato de que a dignidade imperial do Ocidente fosse usada por gente nova, semi-bárbara, como eram os germanos. Quando viram restaurada a dignidade imperial, protestaram.
O túmulo de Othon I, hoje, em Magdeburgo, Alemanha
O túmulo de Othon I, hoje, em Magdeburgo, Alemanha

Mas a coisa se aclimatou bem, porque Othon, vendo o desdém dos bizantinos por ele, aborreceu-se e atacou a Itália do Sul. Ele precisava proteger a Itália do Sul contra a investida árabe e ele queria se vingar do desdém dos bizantinos.

Nesta situação, os bizantinos, sentindo que não podiam defender a Itália do Sul, reconheceram o Império e houve o casamento de um filho de Othon com uma princesa bizantina em 972, na igreja de São Pedro, em Roma.

Em 973, Othon I morreu de modo repentino e foi sepultado em Magdeburgo.

Durante seu reinado houve um grande florescimento das Letras, uma espécie de “renascença carolíngia”.



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terça-feira, 31 de março de 2026

Othon I, o Grande, restaurador da obra de Carlos Magno

Othon I representado no sarcófago de Carlos Magno, Aachen
Othon I representado no sarcófago de Carlos Magno, Aachen
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Othon I, o Grande, foi chamado a reger o Sacro Império num momento muito delicado.

O sacro império fora instituído na pessoa de Carlos Magno que foi o ápice da sua dinastia. Os Carolíngios, isto é seus descendentes, gastaram inconsideradamente o patrimônio legado pelo grande Carlos em brigas recíprocas sem glória.

Depois do filho de Carlos Magno Luiz, o Piedoso, o Império foi dividido em três partes.

A França e a parte espanhola do Império coube ao príncipe Luis; a Alemanha coube a Carlos outro filho e a parte central coube a um terceiro filho de nome Lotário.

Esta parte central ocupava os Países Baixos, a Alemanha mais ou menos na linha da Borgonha e da Lorena, a Suíça e a Itália. Formava um grande eixo que corria a Europa de Norte a Sul.

Os Carolíngios alemães decaíram terrivelmente e nem se sabe bem exatamente quando faleceu o último carolíngio alemão.

Em 896 era rei da Alemanha um Carolíngio, Arnolfo, que se fez coroar rei da Itália pelo cardeal Formoso. Por causa disso o cardeal, originário de Óstia, Itália, foi excomungado pelo Papa João VIII.

O reinado de Arnolfo foi característico do caos feudal que grassou na decadência dos descendentes carolíngios. O império foi subdividido entre numerosos reizetes.

Arnolfo se fez coroar imperador em 896 pelo mesmo Formoso que se tinha tornado Papa e haveria de ser processado escandalosamente post mortem.

Alguns o consideram o último carolíngio, mas outros acham que seu filho chamado Luiz, o Menino, coroado no ano de 900, foi quem encerrou a continuidade da dinastia do grande Carlos. Cfr. Wikipedia, verbete Papa Formoso.
 

Othon I, rei e imperador
Othon I, rei e imperador
Extinta a dinastia, os chefes dos ducados étnicos mais importantes elegeram imperador a Conrado I, o Sábio.

Os eleitores não quiseram saber de imperador ou rei hereditário. Declararam que cada vez que o trono vagasse, elegeriam um outro. Nasceu assim o hábito de ser o imperador eletivo.

Quando Othon subiu ao trono, a Alemanha se compunha dos chamados ducados étnicos. Quer dizer, das grandes famílias de povos alemães: a Saxônia, a Lorena, a Baviera, a Suábia e a Francônia.

O povo alemão muito numeroso tinha uma tendência muito grande para o regionalismo, o individualismo, para a formação de pequenos lares, aldeias e circunscrições ricas em vida própria e inteiramente típicas.

Othon I encontrou diante de si o feudalismo que se formava e que estava na força de sua expansão.

A sua tarefa então consistiu, em primeiro lugar, em não conter nem destruir essas forças feudais que subiam.

Esses grupos feudais alemães julgavam conveniente que provindo todos de uma origem comum deveriam ter um governo comum para os vários grupos. Mas, por outro lado, em virtude de seu regionalismo, viviam brigando entre si.

Othon I realizou a dura tarefa de reunir os povos germanos dispersos
Othon I realizou a dura tarefa de reunir os povos germanos dispersos
Othon então teve que restaurar continuamente a unidade porque ela se desfazia em brigas locais. Mas deveria recriar sempre a união sem asfixiar os grupos feudais que eram os elementos constitutivos do tecido vivo do império.

Ao mesmo tempo, Othon tinha que lutar contra os adversários da Cristandade, que eram muito poderosos no Oriente. Por exemplo, o litoral báltico e a Polônia eram habitados por bárbaros cruéis em perpétua luta contra os alemães.

Então, Othon decidiu expandir a Fé para aquelas paragens e chegar, se possível, até um povo selvagem e inóspito que habitava a atual Dinamarca, e outros mais selvagens e mais inóspitos, na Suécia e na Noruega.




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terça-feira, 17 de março de 2026

Alfredo o Grande, o admirável Carlos Magno inglês

Alfredo o Grande, estátua de bronze em Winchester
Alfredo o Grande, estátua de bronze em Winchester
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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“Henrique com seis mulheres se casou. Uma morreu, uma viveu, de duas se divorciou e de duas a cabeça cortou”, cantava-se na Inglaterra.

Na história da Inglaterra há uma involuntária simetria entre dois polos.

De um lado, Henrique VIII (1491-1547), o sinistro fundador do anglicanismo.

Do outro, do lado bom, um cruzado, um santo: Alfredo, o Grande (849-899).

Em 2015, uma pesquisa da Associação dos Escritores Históricos daquele país considerou Henrique VIII o pior monarca de sua história.

Isto não passou despercebido das esquerdas, que lhe prestaram eloquente “homenagem” póstuma em desagravo pelo ato de vandalismo perpetrado contra uma estátua dele na noite de Ano Novo de 2007, quando perdeu o braço direito e seu machado.

Após ambos serem substituídos, a estátua voltou a ser vandalizada, perdendo novamente seu machado.

No outro polo está alguém muito diverso: Alfred, o fundador da Inglaterra e seu protótipo, muito menos conhecido do que merece.

Culto e piedoso, incentivou — certamente inspirado em Carlos Magno — a educação, melhorou o sistema legal e a estrutura militar de seu reino.

Esteve em guerra com os vikings durante toda a sua vida e obteve uma vitória decisiva sobre eles na batalha de Edington, quando os perseguiu até seu reduto em Chippenham e os venceu.

Um dos termos da rendição estipulava a conversão do chefe viking Guthrum ao Cristianismo.

Três semanas depois, o rei dinamarquês e 29 de seus principais chefes recebiam o batismo em Aller, onde estava a corte de Alfredo, que recebeu Guthrum como seu filho espiritual com o nome de Christian Æthelstan.

Com a vitória, Alfred mereceu o título de “o Grande”, sendo o único monarca inglês a receber essa honraria e se tornar análogo a Carlos Magno inglês.

No ano de 883 — embora haja algum debate sobre a data —, o rei Alfred, devido ao seu apoio e doação de esmolas a Roma, recebeu uma série de presentes do Papa Marino, entre os quais se encontrava um fragmento da verdadeira Cruz — verdadeiro tesouro para o rei saxão.

Alfred foi também grande guerreiro do ponto de vista naval. Em 896, ordenou a construção de uma pequena frota — talvez uma dúzia de navios longos com 60 remos — que era duas vezes maior que os navios de guerra vikings.

Alfredo o Grande, vitral da catedral de Winchester.
Alfredo o Grande, vitral da catedral de Winchester.
O autor da Crônica anglo-saxã, e provavelmente o próprio Alfredo, consideravam-na marcante no importante desenvolvimento do poder naval de Wessex.

O cronista lisonjeia seu patrono real, referindo que os navios de Alfredo eram não apenas maiores, mas também mais rápidos e mais estáveis, conservando-se melhor à superfície da água do que qualquer navio viking ou frísio.

Após obrigar os dinamarqueses a se retirarem, Alfred voltou sua atenção para a Marinha Real, cujos navios haviam sido construídos de acordo com seus projetos.

Segundo alguns historiadores, esse foi o nascimento da marinha inglesa.

* * *

Em 1994, o bispo anglicano de Worcester fez uma declaração que, segundo Plinio Corrêa de Oliveira, parecia provir de uma autêntica conversão. Ei-la:

“O nosso futuro está em Roma. Há anos esperei e rezei em silêncio.

“Sofri muito, mas continuei acreditando firmemente que um dia a Igreja anglicana tornaria a ser católica, reconhecendo de novo a autoridade do Papa e voltando a crer que o centro da Cristandade está em Roma.

“A Igreja de Roma é a única que se pronuncia de maneira clara sobre as principais questões morais e doutrinárias, e é isto que atrai, é disto que sentimos necessidade.”

Há ainda outras profecias sobre a conversão da Inglaterra.

O bispo de Birmingham visitou São João Maria Vianney e pediu orações pelo Reino Unido. Com um olhar luminoso, o santo respondeu:

““Estou certo de que a Igreja de Inglaterra recuperará seu antigo esplendor.”

Santo Eduardo, rei inglês que viveu na Idade Média, previu em seu leito de morte a apostasia da Inglaterra, mas disse que depois essa “árvore”, “pela misericórdia do Deus compassivo, deverá retornar à sua raiz original, reflorescer e dar abundantes frutos”.

O Beato Pio IX leva a tocha da fé à Inglaterra numa visão de São Domingos Sávio. Maria Ausiliatrice, Turim.
O Beato Pio IX leva a tocha da fé à Inglaterra
numa visão de São Domingos Sávio. Maria Ausiliatrice, Turim.
Um último fato. São João Bosco teve um diálogo muito interessante com São Domingos Sávio, já gravemente doente:

“Se eu pudesse falar ao Papa — disse o jovem santo —, quereria lhe dizer que em meio às tribulações que o aguardam não deixe de trabalhar com especial solicitude pela Inglaterra; Deus prepara um grande triunfo do catolicismo naquele reino.

“Vou contar-lhe, mas não mencione isso aos outros, pois podem achar ridículo. Mas se o senhor for a Roma, diga-o a Pio IX por mim.

“Certa manhã, durante minha ação de graças após a comunhão, voltei a ter uma distração, que me pareceu estranha; eu julguei ver uma grande parte de um país envolvida em grossas brumas, e estava cheia com uma multidão de pessoas.

“Estavam se movendo, mas como homens que tendo perdido o caminho, não estavam certos onde pisavam. Alguém próximo disse: “Esta é a Inglaterra”.

* * *

Enquanto Alfred estava escondido nos pântanos de Athelney — conta uma lenda —, recebeu abrigo de uma camponesa idosa que não tinha reconhecido o rei. Ela pediu-lhe que tomasse conta dos bolos que tinha deixado para assar no forno.

Preocupado com os problemas do reino e a guerra contra os Vikings, Alfred se distraiu e deixou os bolos queimarem. Quando a camponesa voltou, reclamou demais e até ousou bater nele.

Pouco depois chegaram alguns cavaleiros e o chamaram de Sua Majestade. Ela então percebeu que se tratava do rei e pediu perdão.

Mas Alfredo se declarou culpado e disse que era ele quem devia pedir perdão. Essa narrativa mostra como Alfred não era apenas herói, mas também paternal.

Tal como Carlos Magno!


(Autor Leo Daniele, IPCO)



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terça-feira, 3 de março de 2026

Clóvis, Rei dos francos, instrumento da Providência Divina

Clovis I, representado no "Reccueil des rois de France". Du Tillet,1550
Clóvis I, representado no "Recueil des rois de France". Du Tillet,1550
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Dentre as hordas de bárbaros que investiram contra as possessões romanas do Ocidente na Europa central, destacaram-se os francos, povo guerreiro e valente.

Ora unindo-se às tropas imperiais, ora combatendo-as, tornaram-se tão poderosos, que a filha de um de seus reis, Eudóxia, veio a casar-se com o Imperador Arcádio.

Com a queda do Império Romano em 476, os francos dominaram o norte da Gália; os godos, o sul; os burguinhões, as duas margens do Ródano, restando ainda, entre os rios Sena e Loire, remanescentes do Império sob o governo de Siágrio.

Um dos grandes chefes francos foi Childerico I (458-481), que se casou com Basina da Turíngia.

Tiveram um filho são e robusto a quem deram o nome de Clóvis. Estava ele destinado a mudar o curso da história da Gália (França) e, por conseguinte, da Europa.

Clóvis subiu ao trono franco ainda adolescente, e com uma maturidade precoce fez suas primeiras conquistas. "Sagacidade na deliberação e ousadia na execução distinguiram sobretudo este soberano"1.

Conforme já tinha feito seu pai, Clóvis, apesar de pagão, manteve cordiais relações com os bispos da Gália. Quando subiu ao trono, recebeu amistosa carta de São Remígio, arcebispo de Reims.

Cheio de vitalidade no ardor de sua juventude, para satisfazer o ânimo belicoso de seus súditos Clóvis partiu para a conquista de novas terras, começando por derrotar Siágrio.

Este se refugiou junto a Alarico, rei dos visigodos. Clóvis intimou Alarico a entregar o fugitivo e o executou, apoderando-se de seu reino. Estabeleceu então Soissons como sua capital.

É dessa época o fato legendário que aparece em todas as biografias do grande guerreiro. Após a batalha, os francos haviam tomado como despojo de guerra, entre outras preciosidades da igreja de São Remígio, um belíssimo vaso.

Batismo de Clovis por São Remígio, Reims
Batismo de Clóvis por São Remígio. Estátuas em Reims, junto da igreja de São Remígio
O arcebispo pediu a Clóvis, que muito o respeitava, que o devolvesse. O rei prometeu fazê-lo. E foi a Soissons, onde seriam divididos os despojos.

Pediu a seus guerreiros que, além da parte que lhe cabia como rei, lhe dessem também o vaso, para devolvê-lo a São Remígio.

Todos concordaram, menos um que, de mau humor, disse ao rei: "Tu não terás senão o que te couber por direito". E, como bárbaro que era, atingiu o vaso com sua acha.

O rei, embora indignado, não disse nada. Um ano depois, seus soldados apresentaram-se armados diante dele; quando chegou em frente do soldado insolente, Clóvis derrubou-lhe a acha das mãos e desferiu-lhe tremendo golpe na cabeça, dizendo: "Foi assim que trataste o vaso de Soissons"

Como bom estadista, o rei franco usou de muita compreensão para com os povos conquistados, tratando do mesmo modo os galo-romanos e os francos, escolhendo entre ambos seus conselheiros, respeitando as leis locais, não tomando suas propriedades.

Tomou para si e seus guerreiros somente as que pertenciam ao Imperador ou ao Estado. Com isso, foi bem recebido por essas populações e firmou seu poderio sobre suas conquistas.

Clóvis recebeu do Imperador de Constantinopla o título de patrício, de cônsul e de ilustris, o que mais confirmou sua autoridade aos olhos dos povos conquistados.

O conhecido historiador belga Godofredo Kurth sintetizou de modo feliz a missão providencial e histórica do rei franco:

O batismo de Clóvis. Maestro de Saint Gilles
O batismo de Clóvis. Maestro de Saint Gilles
"Como estadista, conseguiu o que não alcançou nem o gênio de Teodorico, o Grande, nem o de nenhum dos reis bárbaros seus contemporâneos: sobre as ruínas do Império Romano, construiu um poderoso sistema, cuja influência dominou a civilização europeia durante muitos séculos"2.

Batismo de Clóvis: consequências transcendentais

"O batismo de Clóvis teve consequências incalculáveis para os destino da Igreja e da França. Clóvis, católico, foi considerado desde então como o chefe do catolicismo. Santo Avito, bispo de Vienne e primaz das igrejas da Borgonha, apressou-se em felicitá-lo: `Vossa adesão à fé é nossa vitória; todas as vezes que vós combaterdes, seremos nós que triunfaremos'"3.

O reino de Clóvis tornou-se, na época, o primeiro Estado católico em meio a reinos pagãos ou arianos do Ocidente, e ocupava o território que correspondia aproximadamente ao da França de hoje. Em vista disso, essa nação recebeu o glorioso título de Filha Primogênita da Igreja4.

Clóvis prestou grande serviço à Igreja Católica, combatendo o arianismo. Assim, no ano 500, numa guerra fratricida no reino da Borgonha, aliou-se a um dos irmãos arianos e, unidos, venceram as tropas do outro que, para salvar-se, prometeu pagar um tributo anual ao rei franco.

Assim os dois reis burguinhões tornaram-se tributários do monarca franco. Com isso cessaram as pressões sobre os católicos daquele reino.

Clóvis I em batalha contra os visigodos. Iluminura de manuscrito na Biblioteca Nacional da Holanda
Clóvis I em batalha contra os visigodos.
Iluminura de manuscrito na Biblioteca Nacional da Holanda
Mais tarde Clóvis venceu os visigodos da Aquitânia, também arianos, onde era ansiosamente esperado pelos católicos locais, duramente perseguidos.

Ele foi encorajado nessa empresa pelo Imperador bizantino Anastácio. Os francos tomaram posse do reino visigótico até os Pirineus e o rio Rhone.

Ao norte da Gália, o rei dos francos foi se assenhorando, nem sempre por métodos lícitos, dos outros reinos francos que existiam ao lado do seu. Como Clóvis era aparentado a esses reis, foi em parte por direito de sucessão, em parte por aclamação popular, que ele se tornou soberano único de quase toda a Gália.

O papel da Igreja na formação do reino franco

Tornando-se senhor de um grande reino, Clóvis mudou sua capital para Paris. Administrava suas várias províncias através de condes, seus representantes, e formou uma aristocracia composta de francos e galo-romanos. Ordenou que fosse posta por escrito a Lei Sálica.

"Foi sobretudo graças à sua conduta em relação à Igreja que Clóvis pôde estender tão facilmente seu poder sobre a Gália. Mesmo antes de sua conversão, ele mantinha relações com São Remígio e Santa Genoveva; e em seguida encontra-se perto dele São Avito, enquanto mantém relações com os bispos católicos dos reinos arianos"5.

Clovis I, gissant em Saint Denis, Paris Túmulo de Clóvis, Saint-Denis
Túmulo de Clóvis, na abadia de Saint-Denis, Paris
Clóvis faleceu repentinamente com 45 anos de idade, tendo sido sepultado na cripta da igreja de Santa Genoveva, que ele havia construído.

Lá permaneceu seu sarcófago até que os revolucionários, durante a Revolução Francesa, o quebraram e espalharam suas cinzas, destruindo também o belo santuário.

O rei franco deixou a seus quatro filhos um reino que antes não fora senão retalhos esparsos.

Estava assentada a base da futura França, onde se reunira "a cultura romana e seu dom de organização, o ardor e a mobilidade dos célticos, a força e profundidade germânicas"6 .

Notas:
1.Juan Bautista Weiss, Historia Universal, Tipografia La Educación, Barcelona, 1927, tomo IV, p. 378.
2.Godefroid Kurth, in The Catholic Encyclopedia, Robert Appleton Company, 1908, Online Edition by Kevin Knight, verbete Clovis.
3.Pe. A. Boulenger, Histoire de l'Église, Librairie Catholique Emmanuel Vitte, Paris, 1925, p. 157.
4."A nobilíssima nação francesa [...] tendo abraçado o Cristianismo pela iniciativa de seu Rei, Clóvis, foi galardoada com o mais honrável testemunho de sua fé e piedade com o título de `filha primogênita da Igreja". (Papa Leão XIII, Carta Encíclica "Nobilissima Gallorum Gens", sobre as questões religiosas na França, promulgada a 8 de fevereiro de 1884).
5.C. Bayet, La Grande Encyclopédie, Société Anonyme de la Grande Encyclopédie, Paris, tomo XI, verbete Clovis, p. 720.
6.Juan Bautista Weiss, op. cit., p. 392.


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