terça-feira, 27 de julho de 2021

São Luís IX descrito por um contemporâneo

São Luis, Beaune, Notre Dame

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs









“Em nome de Deus todo poderoso, eu, João, senhor de Joinville, senescal de Champagne, faço escrever a vida de nosso São Luís, e aquilo que eu vi e ouvi pelo espaço de seis anos que estive em sua companhia, na viagem de ultramar e depois que voltamos.

“E antes de que vos conte seus grandes feitos e sua cavalaria, contar-vos-ei o que vi e ouvi de suas santas palavras e bons ensinamentos, para que se achem aqui numa ordem conveniente, a fim de edificar os que os ouvirem.

“Esse santo homem amou Deus de todo o seu coração e agiu em conformidade com esse amor.

“Pareceu-lhe bem que, assim como Deus morreu pelo amor que tinha ao Seu povo, assim o rei colocou seu corpo em aventura de morte, o que bem poderia ter evitado se tivesse querido, como se verá a seguir.

“O amor que tinha a seu povo transpareceu no que ele disse a seu filho primogênito, durante a grande doença que teve em Fontainebleau:

“Bom filho, disse-lhe, peço-te que te faças amar pelo povo do teu reino, pois verdadeiramente eu preferiria que um escocês viesse da Escócia e governasse o povo do reino bem e lealmente, a que tu o governasses mal”.

“Amou tanto a verdade que não quis recusar, mesmo aos sarracenos, o que tinha prometido, como o vereis mais adiante.

São Luis faz caridade com os pobres“Foi tão sóbrio no paladar que jamais em minha vida o ouvi mandar que lhe servissem quaisquer iguarias, como fazem muitos nobres, mas comia pacientemente o que seus cozinheiros lhe traziam.

“Foi moderado em suas palavras, pois jamais em minha vida o ouvi falar mal de ninguém, e nunca o ouvi nomear o diabo - cujo nome está tão espalhado pelo reino, o que acredito não agrada nada a Deus.

“Ele diluía seu vinho na proporção em que via que o vinho lhe poderia fazer mal.

“Perguntou-me um dia, na ilha de Chipre, por que eu não colocava água no meu vinho, e eu lhe disse que os médicos m’o ordenavam, dizendo-me que eu tinha uma cabeça grande e um estômago frio, e que não podia me embriagar.

“E o rei disse-me que eles me enganavam, porque se eu não diluía o vinho na minha mocidade e quisesse fazê-lo na velhice, a gota e os males do estômago tomariam conta de mim, e nunca teria saúde, e que se eu bebesse o vinho totalmente puro na minha velhice, eu me embriagaria todos os dias, e que isso era uma coisa muito vil para um valente homem, o embriagar-se.

Sao Luis partindo para as Cruzadas“Perguntou-me se queria ser honrado neste século e ter o paraíso depois de minha morte. Disse-lhe: Sim; e ele continuou: “Guardai-vos então de fazer, de dizer qualquer coisa que não possais declarar, se todo o mundo a souber, e não possais dizer: Eu fiz isso, ou disse aquilo”.

“Ele chamou-me uma vez e me disse:

“Não ouso falar-vos, por causa do espírito subtil de que estais dotado, de coisa que se refira a Deus; e por isso chamei os irmãos que estão aqui, pois quero fazer-vos uma pergunta”.

“A pergunta foi esta: “Senescal, disse, quem é Deus?” e eu respondi:

“É tão boa coisa como melhor não pode ser”.

“Verdadeiramente, continuou o rei, está bem respondido, porque essa resposta que destes está escrita neste livro que tenho em mãos.

“Agora, pergunto-vos, disse, o que preferiríeis: ser leproso ou ter cometido um pecado mortal?”.

“E eu, que nunca lhe menti, respondi que preferiria ter cometido trinta pecados que ser leproso.

São Luis entrega as Ordenações a um funcionário“E quando os irmãos tinham partido, chamou-me a sós, faz-me sentar a seus pés e disse-me: “Como me dissestes aquilo?”. E eu disse que ainda o dizia, e ele continuou:

“Falais sem reflexão, como um avoado; porque não há lepra tão vil como a do estar em pecado mortal, porque a alma que nele está, é semelhante ao demônio do inferno.

“É por isso que nenhuma lepra pode ser tão má.

“E é verdade que quando o homem morre, fica curado da lepra do corpo; mas quando o homem que cometeu o pecado mortal morre, não sabe e não é certo que tenha tido um tal arrependimento que Deus o tenha perdoado.

“Deve ter muito grande temor de que essa lepra lhe dure tanto tempo quanto Deus estiver no paraíso.

“Assim, rogo-vos, acrescentou ele, tanto quanto eu possa, que tomeis mais a peito, pelo amor de Deus e de mim, o preferir que todo mal de lepra e toda outra doença chegue a vosso corpo, antes que o pecado mortal chegue a vossa alma”.

“O rei amou tanto toda espécie de pessoas que crêem em Deus e O amam, que deu a dignidade de condestável de França a monseigneur Gilles Lebrun, que não era do reino de França, porque ele tinha grande reputação de crer em Deus e de amá-lo. E eu creio verdadeiramente que assim foi.

“A lealdade do rei mostrou-se bem no caso de monseigneur de Trie, que remeteu ao santo rei cartas, as quais diziam que o rei tinha dado aos herdeiros da condessa de Boulogne, recentemente falecida, o condado de Dammartin.

São Luis, Sainte-Chapelle, Paris“O selo das cartas estava rompido; não restava senão a metade das pernas da figura do rei, no selo, e o escabelo sobre o qual o rei apoiava os pés, e mostrou-o a nós todos que éramos de seu conselho, e pediu-nos que o ajudássemos com nosso parecer.

“Dissemos todos unanimemente que ele não estava em nada compelido a pôr as cartas em execução; e então disse a Jean Sarrasin, seu chambellin, que lhe entregasse a carta que lhe tinha encomendado.

“Quando recebeu a carta: “Senhores, disse-nos, eis o selo de que eu me servia antes de que fosse a ultramar, e vê-se claramente por este selo que o sinete do selo quebrado é semelhante ao selo inteiro.

“É por isso que não ousaria, em sã consciência, reter o dito condado”.

“E então chamou monseigneur Renaud de Trie e disse-lhe: “Eu vos entrego o condado”.




(Autor: Charles de Ricault d’Héricault, « Histoire Anecdotique de la France », Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, Tomo II, pp. 286 a 289).



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terça-feira, 13 de julho de 2021

Santo Agostinho de Cantuária, os beneditinos e os homens que vencem

Santo Agostinho de Cantuária segura na mão a primeira igreja que fundou
Santo Agostinho de Cantuária segura na mão a primeira igreja que fundou
Luis Dufaur
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Continuação de post anterior: Santo Agostinho de Cantuária e a verdadeira vitória



Quando Henrique VIII passou para o protestantismo, o número de mártires que a Inglaterra teve não foi pequeno.

Mas o número de apostasias foi colossal.

A nação inteira apostatou não por convicção, mas por oportunismo, por não querer ter amolação com o rei.

Passou da Igreja verdadeira para uma falsa. Conventos inteiros, ordens religiosas, dioceses com o bispo à frente, passaram para a religião falsa por comodismo.

Alguns heróis se levantaram: não foram seguidos!

Deus recompensou no Céu a alma deles pelo que fizeram.

Mas a terra castigou com repúdio deles os moles.

Mais tarde, veio outra graça para a Inglaterra e Deus não permitiu que essa lhe fosse útil: é o episódio da Invencível Armada.

Felipe II da Espanha constituiu a Invencível Armada a qual ia levando nos porões uma grande quantidade de exemplares da Bula de São Pio V excomungando a rainha.

Essa frota naval foi dispersada nos mares é tido como um castigo para a Espanha.

Não conheço comentário mais estúpido nem mais superficial, porque para quem dá valor antes da tudo à fé católica e à salvação da alma a verdadeira castigada foi a Inglaterra.

A Espanha perdeu o prestígio político, bens terrenos, uma armada que valia muito, perdeu filhos mortos naquela dispersão que, afinal de contas, ganharam o Céu com isso.

A Inglaterra, o que ela perdeu? A última oportunidade de se voltar a ser um país católico, porque com o desembarque dos espanhóis, estava tramada uma revolução dos católicos.

Armada Invencível se prepara para partir
Armada Invencível se prepara para partir

Mas a Inglaterra estava completamente podre do ponto de vista moral. Resultado: acabou se perdendo...

Assim as nações caem.

Isso explica também o significado da ação do punhado de pessoas denodadas, que lutam hoje contra a enorme heresia do progressismo, heresia que vai tomando tudo como o anglicanismo tomou a Inglaterra...

Nunca a pessoa é derrotada quando luta por Nossa Senhora, porque Ela recompensa sempre!

O derrotado é aquele a quem foi permitido fazer o crime de derrotar os bons.

Os derrotados são os que rejeitaram os bons ou os que não os acompanharam; esses são os derrotados.

Se tivermos o favor de Nossa Senhora de cumprir o dever até o fim, seremos os vitoriosos!

Outro aspecto muito bonito sobre a vida de Santo Agostinho de Cantuária são esses monges navegantes.

Santo Agostinho de Cantuária, escultura em madeira do século XIX
Santo Agostinho de Cantuária,
escultura em madeira do século XIX
Os monges beneditinos desbastaram os sertões europeus no tempo em que a Gália, a Germânia, a Europa Central, a Panônia, que hoje são Suécia, Noruega, Dinamarca, Polônia, eram bárbaras.

Os monges se instalavam lá: secavam pântanos, derrubavam e replantavam florestas, abriam estradas, faziam pontes...!

Se preocupando só em rezar, eles, entretanto eram tais que de sua oração tudo brotava e os frutos temporais eram superabundantes.

Porque eles procuravam o amor de Deus e sua justiça acima de todas as coisas, e todas as coisas lhe eram dadas em acréscimo.

Aqui há a linda figura de um monge – que não se julgava obrigado a pôr clergyman e menos ainda se vestir de malandro – num barquinho nos mares bravios do norte, nas brumas, nos rochedos, sozinho, de pé, rezando ou trabalhando contra a tempestade...

De tal maneira, que é até comparado a uma ave marítima pelas populações que vão ali à orla do mar ver aquela luta.

Eles preludiaram a toda epopeia marítima dos ingleses.

O que os piratas ingleses fizeram por roubalheira do protestantismo no mundo, foi o abuso de um dom temporal que começou com esses monges navegadores.

Outro fato estupendo: um grupo de monges que está descarregando de madeira e não conseguem enquanto as pessoas na praia estão dando risada.

São Cutiberto, o do estandarte invencível, reza e sua oração é invencível. As madeiras chegam e a fé do povo aumenta. Como isto é belo!...

Como isso é diferente do raquitismo das obras católicas nas décadas que precederam o Concílio.

Que coisa difícil era levar adiante um jornal católico, montar uma rádio católica!

E quando saíam o que eles difundiam?

Que coisa do outro mundo fundar um colégio católico! Quando fundava, era uma máquina de fazer tudo, menos católicos: uma máquina de birbantes!...

Os frutos espirituais eram pecos e os frutos temporais eram pocas. Por quê? Porque os homens já não eram homens de Deus como deveriam ser...

Moral do caso: pertençamos a Nossa Senhora inteiramente e todo o resto nos será dado de acréscimo.



(Autor: excertos de palestra de Plinio Corrêa de Oliveira em 28-05-1969. Apud PlinioCorreadeOliveira.info).




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terça-feira, 29 de junho de 2021

Santo Agostinho de Cantuária e a verdadeira vitória

Santo Agostinho chefiou os monges que converteram a Inglaterra, iglesia de São Vincente Ferrer, New York
Santo Agostinho chefiou os monges
que converteram a Inglaterra.
Igreja de São Vicente Ferrer, New York
Luis Dufaur
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Santo Agostinho da Cantuária [Canterbury em inglês], bispo e confessor, foi o cristianizador da Inglaterra no século VI. Tivemos ocasião recentemente de reproduzir belo artigo sobre ele e seu apostolado: Santo Agostinho de Cantuária, o monge que conquistou a Inglaterra 

Eis outros dados sobre sua maravilhosa vida. No famosíssimo livro “Les Moines d’Occident” (“Os Monges do Ocidente”), Hachette Livre-BNF, 2018) o conde de Montalembert escreve:

“Santo Agostinho foi o chefe dos monges enviados por São Gregório Magno para converter a Inglaterra.

“Ele e seus discípulos viveram épicos lances e marcaram, com sua influência, profundamente o futuro do povo inglês.

“Um dos seus sucessores, São Cutiberto, viveu uma história extraordinária, sendo considerado um dos heróis da Grã-Bretanha.

“Durante muito tempo era invocado pelos ingleses contra os escoceses.

“Possuía o santo um estandarte que sempre o acompanhava e que, quando empunhado, levou muitos combatentes à vitória.

“A última vez que essa bandeira apareceu nos campos de batalha foi nas mãos dos nobres da família Neville e Percy, na revolta dos católicos contra Henrique VIII”.

“Mas esse tirano, à custa do massacre da população rural e do assassinato dos principais fidalgos e abades da região sublevada, logrou vitória.

“Henrique VIII apoderou-se do santo troféu legado por São Cutiberto e o arrancou da caixa onde era venerado há séculos juntamente com os ossos de São Beda e a mulher de um padre apóstata lançou a bandeira ao fogo”.

“É notável observar como esses monges, apóstolos dos primeiros tempos da Inglaterra, foram notáveis marinheiros.

São Cutiberto, catedral de Newcastle, monge e bispo de Lindisfarne
São Cutiberto, monge e bispo de Lindisfarne,
catedral de Newcastle.
“Nisso, como em tudo o mais, os religiosos nos aparecem como os iniciadores da raça anglo-saxônica.

“É interessante vê-los preludiar, por sua coragem, as explorações do povo mais marítimo do mundo.

“As crônicas daquela época nos relatam as terríveis tempestades da costa oriental inglesa”.

O litoral inglês é muito batido por marés e o canal da Mancha, por exemplo, é terrível: as pessoas muitas vezes têm que se segurar nos bancos e nos vapores, de tal maneira joga o mar nesse local.

“Mas nenhum perigo detinha esses filhos de navegantes.

“Sob o capuz e o escapulário, os monges anglo-saxões não cediam em rigor e atividade a nenhum de seus antecessores.

“Pareciam e eram mesmo comparados a pássaros marinhos quando vistos de costas a lutar contra as tempestades.

“Foi essa a impressão que deram a São Cutiberto, jovem ainda e antes de ser religioso, quando assistiu da praia, em meio a uma multidão hostil e trocista, aos esforços infrutíferos dos monges contra o vento e a maré, alguns barcos carregados de madeira que transportavam para o seu mosteiro.

“A oração de São Cutiberto salvou-os, entretanto, e eles desembarcaram sãos e salvos”.

Agora vem uma oração de Santo Alfredo, o grande rei da Inglaterra, do século X:


“Eu Vos procuro, ó meu Deus. Abri meu coração e dizei-me como aproximar-me de Vós.

“Eu só Vos posso oferecer minha boa vontade, porque nada mais posso fazer por mim mesmo.

“Mas nada conheço de mais excelente do que Vos amar sobre todas as coisas, Vós o único sábio, o único puro, o único eterno”.


Ruínas do mosteiro de Santo Agostinho em Cantuária
Ruínas do mosteiro original de Santo Agostinho em Cantuária
Essa é uma pequena antologia sobre a Inglaterra.

Não a Inglaterra de hoje, nascida de Henrique VIII, mas a Inglaterra de outrora, nascida de Santo Agostinho de Cantuária e do batismo na Igreja Católica.

O fato desse estandarte tem um significado profundo.

O estandarte de São Cutiberto era levado pelos ingleses na luta, sobretudo contra os escoceses, que nesses tempos eram pagãos.

O estandarte portava as bênçãos de São Cutiberto e era uma garantia da proteção divina.

O estandarte ainda no século XVI era tão respeitado, que estava num relicário junto com os ossos de um grande santo muito venerado pelos ingleses, que era São Beda.

O herético Henrique VIII mandou queimar esse estandarte junto com os ossos de São Beda pelas mãos de um padre apóstata.

Numa província da Inglaterra, nobres e plebeus se revoltaram contra o rei que fundou a igreja anglicana.

Henrique VIII exigia um ato de fidelidade à sua igreja e mandou decapitar São Tomás Moro, São João Fisher e outros.

Atual abadia de Santo Agostinho em Cantuária
Atual abadia de Santo Agostinho em Cantuária
Nessa província, os católicos fizeram uma cruzada com o estandarte de São Cutiberto. Mas foram derrotados e Henrique VIII conseguiu pegá-lo.

Eis a tristeza do fim religioso de uma nação católica protegida por esse estandarte durante séculos.

Deus teria abandonado esses católicos? Nada leva a crer. Deus não abandona os que lhe são fiéis.

Mas a Inglaterra cometeu um supremo pecado não participando na rebelião católica.

Recusando essa graça o estandarte de São Cutiberto não lhes valeu de mais nada. Deus retirou suas graças e a Inglaterra caiu na heresia.

É este o destino das nações que apostatam.


Continua no próximo post: Santo Agostinho de Cantuária, os beneditinos e os homens que vencem


(Autor: excertos de palestra de Plinio Corrêa de Oliveira em 28-05-1969. Apud PlinioCorreadeOliveira.info).



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terça-feira, 22 de junho de 2021

São Leão IX: a Cristandade precisa lutar! E converte os normandos

São Leão IX, fonte em Eguisheim
São Leão IX, fonte em Eguisheim
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: São Leão IX: Deus não abandona quem luta com coragem



No tempo de São Leão IX, os normandos, os famosos vikings, vinham pelo Mar do Norte, pelo Atlântico, entravam pelo estreito de Gibraltar atacavam o sul da Itália; depois havia ainda restos de bárbaros nos países eslavos; os maometanos atacavam de todos os lados.

A Cristandade precisava lutar. Mas no momento se apresentava debilitada por essa venda de cargos eclesiásticos que causava uma decadência de toda a vida espiritual da Cristandade.

Ele então começou imediatamente a punir e depor os bispos que não prestassem e a nomear outros bons no lugar.

Quando ele estava nessa luta feroz ele recebeu um aviso de que os normandos tinham invadido seu território. Então foi à toda pressa à Alemanha pedir ao Imperador, que era parente dele, que mandasse um exército para defendê-lo.

O Imperador prometeu e ele desceu até a famosa Abadia de Monte Cassino. Qual não foi a surpresa dele quando chega, e há apenas 500 lorenos que não eram propriamente alemães. O exército imperial desistiu de descer os Alpes.

No caminho tinham se incorporado alguns contingentes italianos, mas os normandos eram muito mais numerosos e começaram a fazer uma carnificina tremenda; o exército italiano do Papa fugiu e os lorenos lutaram heroicamente.

Mas não adiantava de nada. O rei dos normandos, Roberto Giscard, resolveu cessar a batalha pois estavam derrotados.

E o Papa?

Ele vai sozinho ao campo dos normandos. Quando chega é tal a impressão que produz que os normandos com o rei à testa, se prosternam e dizem que querem se batizar.

E carregaram o papa em triunfo à cidade de Benevento e depois à Roma, onde receberam a instrução religiosa com as famílias, se batizaram e receberam residências no sul da Itália.

Foi uma conversão em massa produzida pela presença de um só homem.

O que foram os normandos poderiam bem ser hoje os comunistas.

Um Papa imbuído da teologia de hoje, quantas concessões faz aos comunistas e quanto cede e colabora?

Um homem de Deus que se aproximasse e se apresentasse aos comunistas, convertê-los-ia como a Roberto Giscard e aos normandos?

Reencenamento histórico das guerras dos normandos pagãos (vikings), Dinamarca
Reencenamento histórico das guerras dos normandos pagãos (vikings), Dinamarca
Deus pode tudo, mas também não seria provável, porque a maldade dos comunistas é incomparavelmente pior do que a maldade dos normandos.

Mas Deus nunca abandona os que lutam por ele com coragem e com destemor. Ainda mais quando é seu próprio Vigário.

Comparemos São Leão IX com Paulo VI! Comparem os normandos bárbaros capazes de olhar para um santo e se converterem com os comunistas de hoje que coisa terrível!

Não é apenas verdade que os católicos de hoje são muito piores do que os católicos daquele tempo; mas é verdade também que os bárbaros de hoje são incomparavelmente piores do que os bárbaros daquele tempo.

Mas é verdade também que naquele tempo Deus suscitava santos que convertiam o povo. Onde estão hoje em dia?

Deus está longe, distante. Esses grandes milagres quase não se realizam.

A graça brota no fundo de certas almas; no resto é um mundo que Deus rejeitou, que está marcado para o castigo, para a ruína e para a destruição.

A Idade Média era um mundo agitado, mas que ia subindo; hoje o mundo angustiado está no fundo de um abismo. E para que outros abismos vai descendo!

“A doença doce mensageira da felicidade eterna veio anunciar-lhe que sua hora tinha chegado. No dia 12 de fevereiro de 1054, ele celebrou pela última vez o Santo Sacrifício da Missa e dirigiu à multidão uma exortação comovedora”.

Como essa expressão “A doença doce mensageira” é contrária do paganismo higiênico que tem horror da doença em nossos dias.

Deve-se combater a doença, é evidente, mas há “combater” e “combater” a doença. A expressão é linda! É de quem pensa no além, no Céu, em Deus.

“No dia seguinte sabendo que sua hora estava próxima, ele quis ser transportado da cidade Benevento para Roma. Os normandos reivindicaram a honra de o levar numa liteira”.

“Foi assim que o Papa voltou ao palácio de Latrão no mês de abril de 1054. Era a época na qual habitualmente ele reunia o Sínodo dos Bispos das províncias eclesiásticas circunvizinhas de Roma. Ele as convocou para o dia 17 de abril.

“Reunidos, ele lhes disse: Eu me recomendo à Vossa fraternidade porque o tempo de minha dissolução chegou”.

É uma palavra de São Paulo, que desejava ter separada a alma do corpo para se unir a Jesus Cristo.

“Na última noite - em visão - a glória da Pátria celeste me foi manifestada. Eu reconheci, entre os grupos de mártires, aqueles que morreram na Apúlia em defesa da Igreja...”

Os lorenos valentes que morreram na Apúlia em defesa da Igreja, estavam esperando a ele no Céu, na qualidade de mártires. E ele os viu antes de subir ao céu. Que linda reminiscência desse episódio admirável da vida dele.

“Venha, lhe disseram eles, e permanece entre nós, porque foi por teu intermédio que nós conseguimos a eterna felicidade. Mas uma voz, ao mesmo tempo, se fez entender, dizendo: Não já, mas daqui a três dias somente.

“No dia seguinte, ele reuniu de novo os Bispos, se colocou numa liteira, e conduzido pelos seus fiéis normandos, em procissão, ele foi à Basílica de São Pedro”.

Foi para morrer lá. Um Papa deitado numa liteira, os Bispos formando o cortejo, cantando com velas, e o tropel dos normandos armados caminhando para a Basílica de São Pedro.

Qual procissão ou qual desfile militar pode ser mais bonito do que esse? Não há.

“Prosternado diante do túmulo do Príncipe dos Apóstolos, ele fez uma oração pela Igreja e pela conversão dos pecadores.

“Quando ele acabou, um aroma delicioso, cujo perfume era superior ao perfume mais puro se exalava da sepultura de São Pedro”.

Era São Pedro manifestando seu agrado diante desse sucessor digno dele.

“O Papa permaneceu mais ou menos durante uma hora em contemplação silenciosa”.

“Depois ele mandou trazer pão e vinho. Ele os abençoou, comeu três pedaços de pão, bebeu um pouco de vinho e distribuiu o resto aos assistentes. Ninguém comeu. Todo mundo guardou como relíquia os pedaços de pão que ele distribuiu”.

“Levantando-se então, ele se dirigiu para o túmulo que ele mesmo tinha feito preparar para si na Basílica, e disse para os Bispos:

“Vede, meus irmãos, como é miserável, frágil e efêmera a glória humana; que esse exemplo jamais saia de vossas memórias. Do nada, eu fui levado, um dia, ao que há de mais alto; e agora, eu vou ser reduzido novamente a nada. Terei como moradia esse cárcere escuro e estreito; hoje ainda convosco carne e sangue, amanhã serei poeira e cinza”.

Que linda pregação! Os Bispos em volta, os normandos e todo mundo olhando e um homem ainda em vida dizendo isso. Que anúncio maravilhoso da morte!

“Todos os assistentes se puseram em prantos. E o Papa os despediu e disse: Venham, amanhã, assistir meu último suspiro.

“São Leão retirou-se ao palácio próximo, onde passou toda a noite em oração. Na manhã seguinte, sustentado por dois assistentes, ele voltou para a Basílica, e veio se prosternar diante do altar-mor. Estendeu-se sobre uma cama que tinham preparado junto ao altar, fez sinal com a mão para impor silêncio e dirigiu ao povo uma última exortação.

“Depois chamou os Bispos para junto de si e fez a confissão de seus pecados. Sob sua ordem, um dos Bispos celebrou a Missa e deu-lhe a Comunhão.

“Depois do que, o Papa, tendo comungado, disse: ‘Fazei silêncio, porque parece que eu vou dormir’. Inclinando a cabeça, ele adormeceu, com uma calma celeste, e acordou no Céu.

“Ele morreu diante do altar de São Pedro, no dia 19 de abril do ano da graça de 1057”.


Não se deve comparar santo com santo, mas assim como se pode dizer que Luís XIV foi o rei, que São Luís Rei foi o rei santo por excelência e Felipe II foi o espanhol, assim São Gregório VII foi o Papa

Quando se fala “o Papa”, vem ao espírito São Gregório VII. E ele era o secretário dele São Leão IX.

Que coisa linda ver um santo como São Gregório VII, moço ainda, e vendo a alma de São Leão IX subindo ao Céu!

Quando a leitura acaba tem-se a impressão de voltar para o charco.

Lendo-a nós respiramos um pouco o odor das virtudes de São Leão IX. Que ele reze por nós.



(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra de 29 de outubro 1974, sem revisão do autor. Apud PlinioCorreadeOliveira.info)






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