terça-feira, 7 de abril de 2020

O martírio de Reinaldo e dos cavaleiros cristãos em Antioquia (1098)

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






O Pe. Peter Tudebode, testemunha ocular do fato, deixou escrito que durante o cerco de Antioquia na I Cruzada, precisamente o dia 3 de abril de 1098, os muçulmanos conduziram ao topo das muralhas da cidade o nobre cavaleiro Reinaldo Porchet [também lembrado como Reynaud Porquet], que eles tinham acabado de prender numa emboscada.

Daquela ‘tribuna’, ele deveria perguntar aos peregrinos cristãos quanto eles pagariam pela sua libertação a fim de impedir que os turcos lhe cortassem a cabeça.

Segundo descreve o livro de Yvonne Friedman “Choques entre inimigos: Captura e no Reino Latino de Jerusalém” (“Encounter Between Enemies: Captivity and Ransom in the Latin Kingdom of Jerusalem”) mercadejar prisioneiros para obter resgate era uma prática frequente, quando se tratava de pessoas de boa condição.

Era, aliás, segundo o autor “um método diplomático para um encontro pacífico com o inimigo num interlúdio das batalhas”.

Do alto das muralhas – diz o relato do Pe. Peter – “Reinaldo se dirigiu aos líderes cristãos: ‘Meus senhores, pouco importa que eu morra, eu vos imploro que não pagueis resgate algum por mim e que perseverem na Fé de Cristo e na libertação do Santo Sepulcro e que Deus esteja convosco para sempre”.

‘Vós trucidastes todos os líderes e os mais valorosos homens de Antioquia, especialmente 12 emires e 1.500 nobres, não tendo ficado alguém capaz de vos dar batalha ou para defender a cidade’.

Os turcos então perguntaram ao intérprete o que Reinaldo havia falado, ao que ele replicou:

– “Nada de bom relativo a vós foi dito”.

E o emir Yaghi Siyan imediatamente ordenou fazê-lo descer e se dirigiu a ele através de intérprete:

– “Reinaldo, queres gozar a vida honradamente conosco?”

Reinaldo replicou:

– “Como é que se pode viver honradamente convosco sem pecar?”

O emir respondeu:

– “Renega teu Deus, a quem tu cultuas e em quem acreditas, e aceita Maomé e os nossos outros deuses. Se fizeres isso, nós te daremos tudo o que desejares: ouro, cavalos, mulas e muitas outras coisas aprazíveis que tu desejes, assim como mulheres e escravos, e nós te enriqueceremos com grandes posses de terra”.

Reinaldo respondeu ao emir: “Dai-me um pouco de tempo para pensar”, ao que o emir concordou agradado.

Reinaldo juntou as mãos para rezar de joelhos voltado para o Oriente. Ele implorou humildemente a Deus para que Ele viesse em sua ajuda e conduzisse a sua alma com dignidade ao seio de Abraão.

Ao ver Reinaldo rezando, o emir chamou o intérprete e quis saber:

– “Qual foi a resposta de Reinaldo?”

O intérprete disse:

– “Ele recusa completamente teu deus. Ele também recusa todos os bens terrenos e todos os teus outros deuses”.

Então o emir, numa explosão de ódio porque não conseguia fazê-lo apostatar, mandou que todos os peregrinos cristãos cativos em Antioquia fossem conduzidos até a sua presença com as mãos amarradas nas costas.

Quando todos estavam diante dele, ordenou que lhes tirassem as roupas e que ficassem em pé em volta das roupas.

Depois mandou vir palha, lenha e feno e empilhar ao seu redor, e, finalmente, ordenou aos verdadeiros inimigos de Deus que ateassem fogo.

Os cristãos, cavaleiros de Cristo, elevaram suas orações em altas vozes que chegaram até Deus no Céu, por cujo amor suas carnes e ossos estavam sendo queimados.

Todos conquistaram a graça do martírio naquele dia. Subiram ao Paraíso revestidos de túnicas brancas até a presença do Senhor, por quem eles haviam padecido tão lealmente na Terra Santa de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Quem deve ser dada toda a honra e toda a glória agora e pelos séculos dos séculos. Amém”.




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terça-feira, 10 de março de 2020

São Gregório Magno: o leão vigilante que acordava os bispos moles

São Gregório Magno, Menlo Park, Califórnia.
São Gregório Magno, Menlo Park, Califórnia.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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São Gregório Magno foi papa entre 3 de setembro de 590 e sua morte, em 12 de março de 604. Também ficou conhecido como Gregório, o Dialogador na Ortodoxia por causa de seus “Diálogos” muito diversos dos atuais que procuram o relativismo e o meio termo.

Ele foi um herói da ortodoxia, quer dizer do ensinamento reto, no qual foi um leão. Tal foi a força de seu pensamento que até o heresiarca João Calvino no século XVI teve que se render diante de seus feitos e declarar em seus péssimos escritos antipapistas ou “Institutos” que São Gregório teria sido o “último bom papa”.

São Gregório Magno é Doutor e Padre da Igreja.

Foi o primeiro papa a ter sido monge antes do pontificado e sua obra no Papado, contrariamente à crise atual, foi de um rigor e de uma mansidão que corrigiu todos os abusos ou fraquezas que encontrou.

Nasceu por volta do ano 540 em Roma e seus pais o batizaram Gregorius, que em grego significa “vigilante”, em inglês 'watchful'. O nome deriva de outro semelhante que significa “despertado do sono” ou “acordar alguém”.

E o nome resultou apropriado pois acordou do sono os católicos amolecidos e dorminhocos, notadamente aos bispos mundanizados.

Sua família era altamente distinta e ligada a reis e pontífices. Ele morava na mesma rua – atualmente chamada de “Via di San Gregorio” - onde estavam os palácios dos imperadores romanos, no Monte Palatino.

São Gregório Magno, milagre eucarístico
São Gregório Magno, milagre eucarístico
A partir de 542, a chamada “Praga de Justiniano” arrasou as províncias imperiais, provocando fome, pânico generalizado e, por vezes, revoltas populares.

Sem dúvida foi muito mais danosa que o nosso coronavírus pela carência da medicina. Em algumas regiões, até um terço da população morreu, provocando profundos traumas emocionais e espirituais nos sobreviventes.

Mas Gregório não era de sair em pânico diante das complicações.

Ele recebeu uma educação de elite se destacando em todas as ciências e artes. Chegou a ser prefeito de Roma, o mais alto posto civil na cidade, com apenas 33 anos de idade.

Mas ele não se conformava com a mediocridade burocrática. Quando seu pai morreu, converteu a villa da família num mosteiro dedicado a Santo André, hoje rebatizado San Gregorio Magno al Celio.

Gregório compreendia a grandeza da solidão e fazia jus a seu nome porque “naquele silêncio do coração, enquanto permanecemos vigilantes no interior através da contemplação, estamos como que dormindo para tudo que está no exterior”.

Para Gregório monge é aquele que está numa “busca ardente pela visão de nosso Criador”.

Em 579, o Papa Pelágio II escolheu Gregório como embaixador papal na corte imperial em Constantinopla, equivalente à função moderna do Núncio apostólico, o mais alto posto diplomático da época que ocuparia até 586.

Gregório passou se relacionou com a elite bizantina da capital e tornou-se tão popular na classe mais alta que se tornou “um pai espiritual para um grande e importante segmento da aristocracia de Constantinopla”.

São Gregório Magno, seu trono na abadia de Monte Celio
São Gregório Magno, seu trono na abadia de Monte Celio
Gregório disputou com o patriarca Eutíquio que já defendia os erros que dariam no cisma e os fez com tanta sabedoria e fogo na presença do imperador Tibério II que esse ordenou queimar todas as obras de Eutíquio.

Gregório voltou para Roma em 585 para viver em seu mosteiro no Monte Célio, mas em 590, foi eleito por aclamação para suceder a Pelágio II, morto em mais uma epidemia de peste que assolou a cidade.

No trono de São Pedro sua primeira preocupação foi exaltar a vida contemplativa dos monges.

São Gregório enviou a Santo Agostinho de Cantuária, seu sucessor no Mosteiro de Santo André a evangelizar os anglo-saxões das ilhas britânicas.

Ele foi o primeiro a fazer uso frequente do termo “Servo dos Servos de Deus” (Servus Servorum Dei) como título papal conservado até hoje mas tal vez não tão posto seriamente na prática.

Mas a situação era muito difícil.

Os bispos da França estavam sob forte influência de famílias ricas e politicamente poderosas; na Espanha, os bispos pouco ligavam para Roma; na Itália estavam envolvidos nas intrigas e guerras locais.

Em 590, a Itália romana encontrava-se em ruínas. Roma estava lotada com refugiados de todos os tipos, vivendo nas ruas sem nenhuma condição de saúde ou alimentação. Todos, inclusive os nobres e importantes, tinham pouco para comer.

O Santo Papa Gregório administrou os recursos da Igreja com tanto talento e rigor contável que seus métodos foram imitados durante séculos.

Substituiu os administradores moles e o bom clero foi muito bem provido. A Teologia da Libertação hoje o execraria como um homem do agronegócio porque pôs a produzir as terras da Igreja com metas e estrutura administrativa.

Então os cereais, vinho, queijo, carne, peixe e azeite começaram a chegar a Roma em grandes quantidades. Ele doava tudo em forma de esmolas.

São Gregório Magno,  igreja de Nossa Senhora da Assunção e São Gregório, Londres
São Gregório Magno, Nossa Senhora da Assunção e São Gregório, Londres
Ele criou um pequeno exército de voluntários, principalmente monges, que levavam comida quente aos pobres diariamente. Ele só jantava depois de assegurar que todos os indigentes haviam sido alimentados.

Aos necessitados de famílias nobres, Gregório enviava na forma de presentes refeições que ele mesmo preparava, preservando-os da indignidade de receber caridade.

Por conta disto tudo, Gregório conquistou completamente as mentes e corações dos romanos, e o papado se estabeleceu desde então como o poder mais influente na Itália.

Em seus escritos ficaram abundantes exemplos do fogo que o animava.

Citamos um a seguir, apertando os bispos que cumprem relaxadamente seus deveres, extraído de “Regra Pastoral” (fim do capítulo 2), coleção de conselhos aos eclesiásticos, por certo grandemente válidos e necessários nos dias de hoje:

Com efeito, ninguém faz mais mal à Igreja do que um homem que, conduzindo-se de maneira indigna, tem renome de santidade ou ocupa um cargo santo.

Porque ninguém ousa denunciar a infâmia desse culpado e é com força que o crime se apresenta como exemplo quando seu autor é honrado em razão do respeito devido à função que ocupa.

Como fugiria dessas pessoas indignas o peso esmagador dessa falta se sua alma prestasse atenção a esta sentença da Verdade:

“Quem escandalizar um desses pequenos que creem em mim, seria melhor que se lhe amarrasse ao pescoço a mó que um asno gira e que se o atirasse ao fundo do mar”?

Ora, “a mó que o asno gira” designa o trabalho e os caminhos tortuosos da vida mundana.

Quanto “ao fundo do mar”, significa a suprema condenação.

Quem desceu ao ponto de ostentar santidade ou que, por palavras ou exemplos, é causa da perdição de alguém, seria melhor que levasse uma vida licenciosa sob hábito secular, encadeado à morte, antes do que ser visto pelos outros como modelo de pecado por causa das funções sagradas que exerce.

Porque se ao menos se perdesse sozinho, a tortura de seu inferno lhe teria sido menos grave.




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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Guilherme Marechal, da Inglaterra,
o melhor cavaleiro do mundo

Guilherme, marechal da Inglaterra, Temple Church, Londres
Luis Dufaur
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O rei Felipe Augusto da França tinha a Corte reunida na região do Gâtinais quando lhe chegou a nova da morte de Guilherme, a quem muito apreciava.

Em companhia de seus parentes e dos principais barões, acabava de jantar.

Os senhores de posição inferior, que haviam servido a mesa, começavam a comer. Entre eles se encontrava Ricardo, o segundo filho do Marechal.

O Rei teve a gentileza de esperá-lo terminar a refeição. E depois, perante a assembleia atenta, voltou-se para Guilherme de Barres, seu amigo:

“‒ Ouviste o que me disseram?
‒ O que disseram a Vossa Alteza?
‒ Por minha Fé, vieram-me dizer que o Marechal, que foi tão leal, está enterrado.
‒ Que Marechal?
– O da Inglaterra, Guilherme, valoroso que foi, e sábio. Em nosso tempo não houve em lugar algum melhor cavaleiro e que melhor soubesse manejar as armas.
– O que dizes?
– “Afirmo, e Deus me seja testemunha, que jamais conheci melhor cavaleiro que ele em toda a minha vida”.

Guilherme de Barres sabia do que estava falando: ninguém se lhe igualava em valor na Corte da França, ou seja, no mundo inteiro.

Na sua idade madura, havia rivalizado em valentia com o Conde Marechal; às portas de São João d'Acre batera-se com o próprio Ricardo Coração de Leão. Cabia-lhe conferir ao falecido o primeiro lugar da honra militar.

Guilherme, marechal da Inglaterra, Temple Church, LondresO Rei Felipe que, por seu oficio, presidia o conselho e sabia quanto valia a amizade varonil, cimento do Estado feudal, coroou-o por outro critério, o da lealdade:

“O Marechal foi, a meu juízo, o homem mais leal e autêntico que já conheci, em qualquer 1ugar que fosse”.

Finalmente, João de Rouvray, um dos que mais perto estiveram do Rei em Bouvines, e que com Guilherme de Barres e os amigos de juventude guardava o corpo real, comemorou a prudência:

‒ “Alteza, julgo que foi ele o mais sábio cavaleiro que se viu, por toda a parte, em nosso tempo”.

Escorada nas proezas, sustentada de um lado pela lealdade, de outro pela prudência, aqui temos a Cavalaria, a mais exaltada Ordem que Deus criou.

Nesse tribunal de valor e valentia reunido em torno do Rei Capeto, primeiro lugar-tenente de Deus na terra, Guilherme Marechal, mais valoroso, mais leal e mais sábio, assim foi proclamado o melhor cavaleiro do mundo.


(Autor: Georges Duby, Professor no Collège de France, Edições Graal Ltda, 2ª edição, Rio de Janeiro, 1988, pp. 36-38).




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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Fernán González, conde de Castela, herói de legenda

Don Fernán González, conde de Castela
Don Fernán González, conde de Castela
Luis Dufaur
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Estava o conde Fernán González caçando com os seus cavaleiros na vila de Lara. De repente, um feroz javali saiu disparado de um matagal.

O conde, desejoso de caçar tão boa presa, sem esperar por seus companheiros, saiu a cavalo em perseguição ao animal, que corria velozmente.

Por fim chegou a uma ermida desconhecida, onde o javali se meteu pela porta.

Então o conde, pegando a espada, se dirigiu à ermida, onde a fera tinha entrado.

O javali havia se refugiado atrás do altar. O conde se ajoelhou diante do altar e começou a rezar.

Neste momento saiu da sacristia um monge de venerável aspecto e avançada idade, apoiado num rude e retorcido cajado.

Aproximou-se do conde e saudou-o, dizendo:

“E ainda te digo que antes de começar a batalha terás um sinal, que te fará arrepiar a barba e aterrorizará a todos os teus cavaleiros. Agora vai, vai lutar, que hás de alcançar a vitória”.
Túmulo de Don Fernán Gonzalez, Covarrubias, cruzadas, 1º conde de Castela
Túmulo do conde Fernán Gonzalez,
San Cosmas, Covarubias

O conde agradeceu ao monge por suas palavras e saiu da ermida.

Montou a cavalo e galopou através da mata, até encontrar seus cavaleiros, já impacientes pela tardança de seu senhor.

O conde ordenou seu batalhão e se dirigiu ao encontro de Almanzor, que vinha correndo para o ataque.

Quando viram o exército mouro, prepararam-se para o combate.

O conde viu, entretanto, que tinha poucos soldados.

Nisto um cavaleiro cristão se adiantou, passando velozmente diante do exército dos infiéis.

Apenas galopou um pouco, e a terra se abriu, tragando o cavaleiro.

Depois se fechou, e tudo ficou como antes.

Grande terror se difundiu pelo exército cristão, mas Fernán González, que sabia que esse era o temeroso sinal anunciado pelo monge da ermida, disse em alta voz a seus cavaleiros:

“Não temais! Se a terra não é capaz de suportar-nos, quem poderá conosco? Vamos para o ataque!”

E se lançaram contra os mouros, que já galopavam também, prontos para o encontro.

O choque dos exércitos foi terrível.

Os cristãos, apesar de serem poucos, conseguiram resistir ao primeiro ataque dos mouros, e logo estes começaram a retroceder.

O conde, que havia sido quem dera as primeiras baixas no adversário, animava seus guerreiros, e era o mais valente de todos.

Mosteiro de São Pedro de Arlanza
Mosteiro de São Pedro de Arlanza
Ao cabo de algumas horas os mouros fugiram, deixando todos os despojos em poder das hostes do conde.

Grande vitória para os cristãos, que retornaram cheios de alegria.

O conde separou uma parte dos despojos e foi à ermida, para entregá-la ao monge que lhe profetizara a vitória.

E o encarregou de erguer uma igreja, que foi logo o famoso Mosteiro de São Pedro de Arlanza.

O califa Abderramán recebia dos cristãos um tributo a cada ano.

Mas em determinada ocasião os reis D. Ramiro de Castela e D. Garcia de Navarra, e Fernán González, que era o conde tributário de Castela, se negaram a pagar o vergonhoso tributo.

E não só se negaram a pagar, mas mataram os insolentes mensageiros que o califa mouro enviara para reclamar o tributo.

Quando isto chegou aos ouvidos de Abderramán, este se enfureceu, e com seu exército entrou no território dos castelhanos, destruindo os campos e fazendo cruel vingança contra os habitantes daquelas terras.

Túmulo do conde Fernán González, San Cosmas, Covarrubias
O Rei D. Ramiro, recebendo o aviso da proximidade do exército mouro, preparou seus guerreiros, que esforçadamente saíram ao encontro do inimigo.

Disseram-lhe que os muçulmanos vinham em grande número, mas ele não deu muito crédito.

Mas quando viu chegar a enorme hoste sarracena, voltou até Simancas, e dali enviou cartas a Fernán González e ao Rei Garcia.

Acudiram os dois ao mesmo tempo. Mas todo o exército cristão não chegava a alcançar nem a metade dos muçulmanos. Então o Rei Ramiro disse:

“Não tenho nenhum conselho que possa servir-nos. Grande é a hoste dos infiéis mouros e minguada a nossa.

“Mas temos a proteção de São Tiago, que está enterrado em terras galegas.

“Por ele obra Nosso Senhor grandes milagres, e a ele quero me encomendar, e prometo dar-lhe meu reino se nos ajudar nesse apuro”.

São Millán (ou Emiliano) na batalha de Simancas, padroeiro de Castela
Fernán González e D. Garcia responderam:

“Em nossa terra há o corpo de São Millán, que também opera grandes milagres. A ele nos entregamos, e juramos dar-lhe tributo”.

No outro dia de manhã saíram da fortaleza e se dispuseram para o combate. Antes de começar, todos os cristãos se ajoelharam para rezar.

Os mouros, vendo seus inimigos nesta posição, pensaram que estes, aterrorizados, queriam se entregar.

Lançaram-se contra eles, mas os fiéis de Cristo montaram em seus corcéis rapidamente e detiveram o ímpeto de seus inimigos. Grande fúria foi a dos castelhanos, leoneses e navarros.

E ainda aumentaram seu valor quando, em meio ao combate, viram aparecer dois desconhecidos cavaleiros que, montados em formosos corcéis brancos, se puseram à frente dos exércitos cristãos.

E destroçaram os mouros de tal modo, que eles acreditavam que, em vez de dois, havia dois mil cavaleiros sobre os corcéis.

Atrás dos dois avançavam os cristãos, e desde Simancas até Aza perseguiram os mouros, que fugiram vencidos.

Grande foi a alegria dos católicos.

Quando procuraram os dois cavaleiros, que tanto contribuíram para a vitória, não puderam encontrá-los, e compreenderam que eram os dois santos a quem haviam prometido pagar tributo, se os ajudassem.

E desde então esse tributo foi pago.


(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 27)





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