terça-feira, 20 de setembro de 2022

Simão de Montfort, campeão da ortodoxia contra a heresia

Montfort l'Amaury, cidade natal de Simon de Montfort, perto de Pariws, Heróis medievais
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Simão IV, conde de Montfort, foi o segundo filho de Simão III e de Amícia, filha de Roberto de Beaumont, conde de Leicester, na Inglaterra. Nasceu aproximadamente em 1150.

Tendo sucedido a seu pai como barão de Montfort em 1181, casou-se em 1190 com Alice de Montmorency, de quem teve três filhos.

Em 1198 partiu para a Palestina com uma tropa de cavaleiros franceses, mas obtiveram poucos êxitos.

Em 1202 participou da IV Cruzada. Mas vendo que seus companheiros se desviavam do fim piedoso que os tinha movido, e tomaram de assalto Constantinopla, separou-se deles e foi para a Terra Santa, onde se cobriu de glória.

Simon de Montfort, selo, Heróis Medievais

Alguns anos mais tarde, em 1209, aderiu à cruzada convocada pelo Papa Inocêncio III contra os albigenses, no sul da França.

Quem eram os albigenses

Tomando o seu nome da cidade de Albi, ao sul da França, centro da heresia, essa seita panteísta e maniqueísta pregava a existência de dois princípios (ou deuses) opostos, um bom e outro mau.

O bom era o criador do mundo espiritual, e o mau o do material.

Eram considerados males — frutos do princípio mau — os fenômenos naturais, como o crescimento dos homens, animais e plantas, e mesmo os fenômenos extraordinários, como terremotos; esse princípio mau era também responsável pelas desordens sociais, como a guerra.

Imoralíssimos cátaros expulsos pelos Cruzados anti-albigenses. As Cruzadas
Fora ele quem criara o corpo humano, e, sendo responsável pela matéria, era o autor do pecado, o qual teria sua origem nela, e não do espírito.

Por isso a procriação era também um mal, porque perpetuava a matéria. Foram eles precursores dos atuais inimigos da vida, utilizando preservativos e práticas anti-natalistas.

Daí tiravam como conseqüência os maiores absurdos. O ideal para os mais perfeitos era aniquilar o corpo até atingir uma espécie de nirvana budista.

Para livrar-se da matéria pecaminosa, alguns chegavam a tais excessos, que procuravam a morte pela abstenção da comida e da bebida (endura), por sangramentos ou veneno, ou ainda fazendo-se degolar para não voltar a cair na classe dos impuros.

Segundo essa doutrina, Cristo, como era perfeito, só tinha espírito. Seu corpo material era apenas uma aparência. Com isso, conseqüentemente, negava-se sua paixão e morte real; negavam também a maternidade divina de Nossa Senhora e os Sacramentos.

Evidentemente, os albigenses eram contra a Igreja enquanto instituição e contra sua Hierarquia, e visavam sua extinção, como também a do Estado.

Quéribus, fortaleza catara conquistada por Simon de Montfort, Heróis medievais
onstituíam uma seita “socialista, ou seja, anarquista”, contrária ao casamento e à propriedade privada, e mesmo contra a raça humana, ao pregar o suicídio.

Desejavam extinguir a Igreja e instalar um Estado onde só houvesse puros. O Papa Inocêncio III dizia que os albigenses eram piores que os sarracenos.

Quando os albigenses adquiriram força suficiente, com o auxílio de vários senhores da região, aos poucos começaram a atacar igrejas e mosteiros, a expulsar bispos de suas cidades e a ameaçar os fiéis.

A situação chegou a tal estado de calamidade, que uma testemunha ocular declara: “Vi igrejas incendiadas e destruídas até os alicerces, e vi os mosteiros transformados em habitação dos animais do campo”.

O grande São Bernardo, visitando aquela região, registra que encontrou “as igrejas sem povo, o povo sem sacerdotes, os cristãos sem Cristo”.

Carcassonne não resistiu ao embate dos cruzados. Heróis medievaisTal seita teve um grande defensor no conde Raimundo VI, de Toulouse, que “levava uma vida licenciosa, havia-se casado cinco vezes e voltara a se separar de suas mulheres ao seu capricho; atribuíam-se a ele os lances mais licenciosos”. Outros senhores da região, que levavam vida igualmente licenciosa, favoreceram também a heresia.

Papa Inocêncio III procurou antes ganhar os hereges pela persuasão, enviando entre eles monges cartuxos como missionários. Mas os hereges não lhes deram ouvidos e continuaram em sua impiedade.

Simon de Montfort, Toulouse restaura muralhas destruídas por Simon de Montfort, Herois medievaisO Pontífice incitou então o conde de Toulouse a perseguir seus súditos hereges.

Raimundo VI fez jogo duplo, expulsando alguns deles, mas concorrendo para o assassinato do legado papal, Pedro de Castelnau (1208).

Inocêncio III então o excomungou, desligando seus súditos do juramento de fidelidade, e pregou uma cruzada contra os albigenses.

Entretanto, o rei da França, Felipe Augusto, suserano de Raimundo VI, e por isso mais diretamente responsável pela cruzada, não acorreu ao chamado do Papa por estar em guerra contra João Sem-Terra, da Inglaterra. Mas liberou seus vassalos para esse fim.

Uma multidão deles atendeu ao apelo pontifício, entre os quais o conde Simão de Montfort, que logo foi eleito capitão general da empresa.

Foi ele o homem talhado para tal, pois
“era da madeira de que se fazem os fundadores de Estados. Se bem que já com 60 anos de idade, era ainda um homem formoso, hábil, prudente, intrépido, de heróico valor, incansável, eloqüente, afável; soube inspirar em seus súditos uma fervorosa adesão, e exercia sobre seus inimigos uma forma de fascínio que os paralisava”.
“Levanta-te e cinge-te da espada”

O Papa, temendo o desaparecimento da Igreja naquelas paragens, incentivou Simão a combater tenazmente os hereges:
“Eia, paladino de Cristo, o sangue dos justos clama a ti para que ponhas diante da Igreja o escudo da fé contra seus inimigos! levanta-te e cinge-te da espada”.
Simon de Montfort, batalha de Muret, Herois medievaisAcusa-se de excessos a Simão de Montfort em sua campanha, mas tem-se que levar em conta os usos bárbaros que ainda persistiam de algum modo naquele século.

Sobretudo é necessário ressaltar que a crueldade dos albigenses em seus ataques às igrejas e mosteiros, seu ódio à Religião católica e seu fanatismo religioso causavam justa indignação no ânimo de seus adversários católicos.

Ademais, aquela guerra adquirira ainda o caráter de uma guerra de civilizações,
“pelo ódio que dividia então as duas raças – os franceses do norte e os franceses do sul – tão diferentes pela sua língua, costumes e grau de civilização”.

Se não fosse o valor e a energia de Simão de Montfort, provavelmente a heresia albigense teria dominado não só o sul da França, mas teria se estabelecido na Itália e outros países europeus.

Monségur, último castelo cátaro tomado pelos Cruzados. As CruzadasEm 1213 Simão derrotou o Rei Pedro de Aragão, genro de Raimundo, na batalha de Muret.

Os albigenses foram então esmagados, mas Simão continuou a guerra como uma guerra de conquista, sendo indicado, pelo Conselho de Montpellier, senhor de todos os recém- conquistados territórios, como Conde de Toulouse e Duque de Narbonne (1215).

O Papa confirmou essa indicação, entendendo que ele efetivamente completaria a supressão da heresia.

Mas não era o fim da guerra. Em 1218 Raimundo voltou da Espanha, para onde fugira. Com a ajuda de seu sobrinho Jaime I, de Aragão, formara poderoso exército, e com ele cercou Toulouse.

Simão de Montfort estava assistindo à Missa quando lhe foram dar a notícia.

Era antes da Consagração. Respondeu ele: “Não vou enquanto não tiver visto meu Salvador”.

E quando o sacerdote elevava a Hóstia, ele estendeu as mãos ao céu e exclamou: “Senhor, deixa que teu servo morra em paz, se é tua vontade”.

Logo montou a cavalo e correu para o lugar da luta, quando viu seu irmão Guido de Montfort caindo do cavalo, ferido por uma seta.

Morte de Simon de Montfort, Heróis medievais
Morte de Simão de Montfort
Nesse momento uma pedra, atirada por uma máquina de guerra, lhe rompeu a cabeça. Ele morreu recomendando sua alma a Deus. Foi enterrado no mosteiro de Haute-Bruyère.

À morte do intrépido comandante, os cruzados retiraram-se para um acampamento fortificado, enquanto na cidade os rebeldes, de alegria, fizeram tocar a repique os sinos de todas as igrejas.

Dos três filhos do heróico comandante, o mais velho, Amaury, herdou suas possessões francesas; e o caçula, com o mesmo nome que o pai, sucedeu-o como barão de Leicester, desempenhando um importante papel na história da Inglaterra.

Amaury, filho de Simão, estava longe de ter o valor do pai. Tanto ele quanto Raimundo VII, que também sucedera ao pai, cederam seus direitos sobre o território ao rei da França.

O Concílio de Toulouse, em 1229, confiou a vigilância religiosa do território à Inquisição. Mais tarde, em 1233, esta passou aos dominicanos.

Mas a perniciosa heresia só iria desaparecer no fim do século XIV.

Entretanto, Simão de Montfort lhe havia dado o golpe mortal.










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terça-feira, 6 de setembro de 2022

Imperador Carlos Magno: “Entre os homens é como a águia entre os pássaros”

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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A foto à esquerda é da famosa pintura de Albrecht Dürer. Carlos Magno, nesta ilustração, parece estar entre a idade madura e a orla da velhice.

Seu bigode ainda é, em parte, castanho louro, mas na outra parte, já completamente branco. Seu olhar, de um homem experimentado, está prevenido para enfrentar o adversário vindo de qualquer lado e a qualquer momento.

Ele é seguro de si como um Himalaia. Seu olhar revela vigilância permanente. Seu modo de ser, o rosto, o corpo e tudo o mais indicam a contínua estabilidade, a contínua distância psíquica.

É como se ele estivesse dizendo: “Por enquanto, estou tranqüilo, e na hora do combate não deixarei de estar tranqüilo, porque confio em Deus, meu Senhor”.

Ele usa um manto maravilhoso de brocado, com a águia imperial servindo de ornato em alguns pontos. Dir-se-ia que a águia é ele. Ele é, entre os homens, o que a águia é entre os pássaros.

Está portando uma coroa magnífica que contém jóias ainda não lapidadas, encimada pela Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim como a Cruz esteve no alto do Calvário, no alto dessa brilhante coroa, reluz também a Cruz, ao mesmo tempo lembrança adorável de nosso Redentor e sua glorificação.

E, por outro lado, tal Cruz é quase um ato de reparação, de quem diz: “Fizeram para Nosso Senhor uma Cruz, preta, dura, um instrumento de suplício, de difamação.

Quiseram difamá-lo. Pois bem, ela será colocada no alto da coroa imperia,l em ouro e pedras preciosas! Para glorificá-Lo!

Algozes miseráveis, que fizestes o que fizestes, eis aqui o Sacro Império Romano, do alto da minha fronte, oferecendo um ato de reparação!”

* * *

Imaginemos que se interrompa uma novela pornográfica na televisão, para apresentar uma análise deste quadro. Haveria, por certo, quem desejasse destruir isto para continuar a ver a pornografia!

Nós, entretanto, queremos liquidar a pornografia e pôr neste horizonte o mundo do século XXI.

* * *

Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 22 de fevereiro de 1986. Sem revisão do autor.

Carlos Magno foi Rei dos francos (768–814), dos lombardos e Imperador do Ocidente (800–814). Pode ser considerado como o protótipo de Imperador cristão.

Albrecht Dürer: famoso pintor e gravurista alemão, filho de um ourives húngaro, nasceu e faleceu na cidade de Nüremberg (1471–1528). Considerado o maior pintor germânico do Renascimento, pode ser comparado aos grandes mestres italianos da época. Embora conservando em sua arte uma base germânica, ele assimilou o requinte dos artistas flamengos, apropriou-se do espírito de invenção dos italianos e contribuiu para os ornatos destes, tanto com seus tratados teóricos quanto por sua obra pictórica e de gravação.




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terça-feira, 23 de agosto de 2022

Santa Clotilde obteve a conversão da França

Santa Clotilde, jardim do Luxembourg, Paris
Santa Clotilde, estátua no jardim do Luxembourg, Paris.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Santa Clotilde: esposa apostólica


Aconselhado pelos bispos católicos, Clóvis, rei dos Francos, pediu a mão da princesa Clotilde, sobrinha do rei Borguinhão, o qual havia assassinado os próprios pais para apoderar-se do trono.

Segundo uma tradição, o rei havia dado seu consentimento, mas depois arrependeu-se e mandou uma escolta atrás de Clotilde.

Esta, entretanto, conseguiu chegar ilesa até a fronteira franca, onde Clóvis a aguardava.

Esse casamento foi providencial, pois tanto o rei burguinhão quanto o dos visigodos eram arianos e oprimiam seus súditos, que eram na maioria católicos.

Ora, Clotilde mantivera-se fiel filha da Igreja, e começou a trabalhar junto a seu marido para convertê-lo à verdadeira fé.

Santa Clotilde, igreja de Saint Germain l'Auxerrois, Paris
Santa Clotilde, estátua na igreja
de Saint-Germain-l'Auxerrois, Paris.
A conversão de Clóvis

Entretanto a graça ia trabalhando a alma de Clóvis. Em 496, durante a batalha de Tolbiac contra os alamanes, o rei franco viu que seu exército estava a ponto de ser aniquilado.

Lembrou-se então do "Deus de Clotilde".

Ajoelhou-se e, com os braços para o céu, prometeu a Jesus Cristo que, se Este lhe concedesse a vitória, nEle creria.

Imediatamente a batalha tomou outro rumo, e os alamanes foram derrotados.

A rogos de Santa Clotilde, São Remígio encarregou-se de instruir Clóvis e seus francos na fé católica.

Contam as crônicas que, quando o santo Arcebispo narrava a Paixão de Cristo àqueles bárbaros, Clóvis ficava indignado com as sevícias que infligiram ao Salvador e, batendo com sua lança no solo, exclamava:

"Ah! Por que não estava eu lá com os meus francos!".

No dia de Natal de 496 foi celebrado solenemente o batismo do rei franco, de sua irmã, e de três mil de seus guerreiros.

Todo o caminho até a catedral de Reims estava engalanado com flores e florões.

O templo sagrado, ricamente adornado, brilhava à luz de uma infinidade de velas em meio a nuvens de incenso.

O rei bárbaro, emocionado, perguntou a São Remígio: "Santo Padre, é este o Céu?"

No momento em que o batizava, disse São Remígio as célebres palavras: "Curva a cabeça, sicambro [um dos nomes dados aos francos]; ama o que queimaste, e queima o que adoraste".

Batismo de Clovis, Reims
O batismo de Clóvis, escultura em Reims
Em seguida dar-se-ia a sagração do rei. Em meio à multidão que lotava a igreja, não era possível ir buscar o óleo na sacristia.

Então surgiu no ar uma bela pomba branca, trazendo no bico uma ampola de óleo.

Essa ampola serviu depois para a sagração de todos os reis franceses até Luís XVI, e só foi quebrada pelo deputado Rommé durante a malfadada Revolução Francesa.

Uma alma piedosa extraiu óleo da ampola antes desse crime sacrílego.

Com esse óleo foi reconstituído o bálsamo sagrado e utilizado na sagração do último rei legítimo Luis XVIII.





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terça-feira, 9 de agosto de 2022

Santo Odon: resplandecente abade de Cluny

Luis Dufaur
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A figura luminosa de Santo Odon, abade de Cluny se coloca no medievo monástico, que viu a surpreendente difusão na Europa da vida e da espiritualidade inspiradas na Regra de São Bento.

Ocorreu, durante aqueles séculos, um prodigioso surgimento e multiplicação de claustros que, ramificando-se no continente, difundiram nele o espírito e a sensibilidade cristãos.

Santo Odon nos leva, em particular, a um mosteiro, Cluny, que durante a Idade Média foi um dos mais ilustres e celebrados, e ainda hoje revela, através de suas ruínas majestosas, as marcas de um passado glorioso por sua intensa dedicação à ascese, ao estudo e, de forma especial, ao culto divino, envolvido pelo decoro e pela beleza.

Odon foi o segundo abade de Cluny. Nasceu em 880, nos confins entre Maine e Touraine, na França. Foi consagrado pelo seu pai ao santo bispo Martinho de Tours, a cuja sombra benéfica e em cuja memória Odon passou toda a sua vida, concluindo-a perto de seu túmulo.

A escolha da consagração religiosa esteve nele precedida pela experiência de um momento especial de graça, do qual ele mesmo falou a outro monge, João o Italiano, que depois foi seu biógrafo.
Odon era ainda adolescente, por volta dos 16 anos, quando, em uma vigília de Natal, sintiu como lhe saía espontaneamente dos lábios esta oração a Nossa Senhora:

“Minha Senhora, Mãe de misericórdia, que nesta noite destes à luz o Salvador, rezai por mim. Que vosso parto glorioso e singular seja, oh, a mais pia, meu refúgio” (Vita sancti Odonis, I,9: PL 133,747).


O apelativo “Mãe de misericórdia”, com o qual o jovem Odon invocou então Nossa Senhora, será aquele com o qual ele sempre quis se dirigir a Maria, chamando-a também de “única esperança do mundo (...), graças à qual nos foram abertas as portas do paraíso” (In veneratione S. Mariae Magdalenae: PL 133,721).

Naquele tempo, ele começou a aprofundar na Regra de São Bento e a observar alguns dos seus mandatos, “carregando, ainda sem ser monge, o leve jugo dos monges” (ibidem, I,14: PL 133,50).

Em um dos seus sermões, Odon se referiu a São Bento como “farol que brilha na tenebrosa etapa desta vida” (De sancto Benedicto abbate: PL 133,725) e o qualificou como “mestre de disciplina espiritual” (ibidem: PL 133,727).

Com afeto, revelou que a piedade cristã, “o recorda com a mais viva doçura”, consciente de que Deus o elevou “entre os sumos e eleitos Padres da santa Igreja” (ibidem: PL 133,722).

Fascinado pelo ideal beneditino, Odon deixou Tours e entrou como monge na abadia beneditina de Baume, para passar depois à de Cluny, da qual se converteu em abade em 927.

A partir deste centro de vida espiritual, ele pôde exercer uma ampla influência nos mosteiros do continente. De sua guia e reforma beneficiaram-se também, na Itália, diversos cenóbios, entre eles o de São Paulo Fora dos Muros.

Odon visitou Roma mais de uma vez, chegando também a Subiaco, Monte Cassino e Salerno. Foi precisamente em Roma que, no verão de 942, ele ficou doente. Sentindo-se perto da morte, com todos os esforços, quis voltar junto a São Martinho, onde morreu durante a oitava do santo, no dia 18 de novembro de 942.

Seu biógrafo, ao sublinhar em Odon a “virtude da paciência”, oferece um longo elenco de suas demais virtudes, como o desprezo do mundo, o zelo pelas almas, o compromisso pela paz das Igrejas etc.

Grandes aspirações do abade Odon eram a concórdia entre o rei e os príncipes, a observância dos mandamentos, a atenção aos pobres, a correção dos jovens, o respeito aos idosos (cf. Vita sancti Odonis, I,17: PL 133,49).

Ele amava a pequena cela em que residia, “afastado dos olhos de todos, preocupado somente com agradar Deus” (ibidem, I,14: PL 133,49). Não deixava, no entanto, de exercitar também, como “fonte superabundante”, o ministério da palavra e do exemplo, “chorando este mundo como imensamente mísero” (ibidem, I,17: PL 133,51).

Em um só monge, comenta seu biógrafo, encontravam-se unidas as diversas virtudes existentes de forma dispersa nos demais mosteiros: “Jesus, em sua bondade, baseando-se nos diversos jardins dos monges, formava em um pequeno lugar um paraíso, para regar a partir da sua fonte os corações dos fiéis” (ibidem, I,14: PL 133,49).

Em uma passagem de um sermão em honra de Maria Madalena, o abade de Cluny nos revela como concebia a vida monástica: “Maria, que, sentada aos pés do Senhor, com espírito atento, escutava sua palavra, é o símbolo da doçura da vida contemplativa, cujo sabor, quanto mais é degustado, mais induz a alma a desapegar-se das coisas visíveis e dos tumultos das preocupações do mundo” (In ven. S. Mariae Magd., PL 133,717).

Esta é uma concepção que Odon confirma em outros escritos seus, dos quais se transluz seu amor pela interioridade, uma visão do mundo como realidade frágil e precária da qual é preciso desarraigar-se, uma constante inclinação ao desapego das coisas consideradas como fonte de inquietude, uma aguda sensibilidade pela presença do mal nas diversas categorias de homens, uma íntima aspiração escatológica.

Esta visão de mundo pode parecer bastante afastada da nossa e, no entanto, a de Odon é uma concepção que, vendo a fragilidade do mundo, valoriza a vida interior aberta ao outro, ao amor ao próximo e, precisamente assim, transforma a existência e abre o mundo à luz de Deus.

Merece uma particular menção a “devoção” ao Corpo e Sangue de Cristo que Odon, frente a um estendido abandono, vivamente deplorado por ele, cultivou sempre com convicção.

Ele estava firmemente convencido da presença real, sob as espécies eucarísticas, do Corpo e do Sangue do Senhor, em virtude da conversão “substancial” do pão e do vinho.

Ele escrevia: “Deus, Criador de tudo, tomou o pão, dizendo que era seu Corpo e que o havia oferecido para o mundo, e distribuiu o vinho, chamando-o de seu Sangue”; portanto, “é lei de natureza que se dá a mutação segundo o mandato do Criador” e, por isso, “imediatamente, a natureza transforma sua condição habitual: sem dúvida, o pão se converte em carne e o vinho se converte em sangue”; à ordem do Senhor, “a substância muda” (Odonis Abb. Cluniac. occupatio, ed. A. Swoboda, Lipsia 1900, p.121).

Infelizmente, anota o próprio abade, este “sacrossanto mistério do Corpo do Senhor, em que consiste toda a salvação do mundo” (Collationes, XXVIII: PL 133,572), é celebrado com negligência.

“Os sacerdotes – adverte – que acedem ao altar indignamente, mancham o pão, isto é, o Corpo de Cristo” (ibidem, PL 133,572-573).

“Somente quem está unido espiritualmente a Cristo pode participar dignamente do seu Corpo eucarístico: caso contrário, comer sua carne e beber seu sangue não seria seu benefício, mas sua condenação” (cf. ibidem, XXX, PL 133,575).

Tudo isso nos convida a crer com nova força e profundidade na verdade da presença do Senhor. A presença do Criador entre nós, que se entrega em nossas mãos e nos transforma como transforma o pão e o vinho, transforma, assim, o mundo.

Santo Odon foi um verdadeiro guia espiritual, tanto para monges como para os fiéis da sua época. Frente à “vastidão dos vícios” difundidos na sociedade, o remédio que ele propunha com decisão era o de uma mudança radical de vida, fundada sobre a humildade, a austeridade, o desapego das coisas efêmeras e a adesão às eternas (cf. Collationes, XXX, PL 133, 613).

Apesar do realismo do seu tempo, Odon não se rende ao pessimismo. “Não dizemos isso – precisa – para precipitar no desespero daqueles que gostariam de converter-se. A misericórdia divina está sempre disponível; ela espera a hora da nossa conversão” (ibidem: PL 133, 563).

E exclama: “Ó inefáveis entranhas da piedade divina! Deus persegue as culpas e, no entanto, protege os pecadores” (ibidem: PL 133,592). Apoiado nesta convicção, o abade de Cluny amava deter-se na contemplação da misericórdia de Cristo, o Salvador que ele qualificava sugestivamente como “amante do homem”, amator hominum Christus (ibidem, LIII: PL 133,637): “Jesus tomou sobre si os flagelos que correspondiam a nós – observa – para salvar, assim, a criatura que é obra sua e à qual ama” (cf. ibidem: PL 133, 638).

Aparece aqui uma característica do santo abade à primeira vista quase escondida sob o rigor de sua austeridade de reformador: a profunda bondade de sua alma.

Ele era austero, mas sobretudo era bondoso, de uma bondade que provém do contato com a bondade divina. Odon – assim dizem seus coetâneos – difundia a alegria de que estava repleto. Seu biógrafo testifica não ter ouvido jamais sair de sua boa de homem “tanta doçura de palavra” (ibidem, I,17: PL 133,31).

Ele costumava convidar para cantar crianças que encontrava pelo caminho e depois lhes dava algum pequeno presente, e acrescenta: “Suas palavras estavam cheias de exultação (...); sua hilaridade infundia em nosso coração uma íntima alegria” (ibidem, II, 5: PL 133,63).

(Fonte: S.S. Bento XVI, audiência geral 14.10.2009, ZP09101415)




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