Santo Odilon era exemplo de uma mobilidade e de uma resistência física pouco comuns. Viajava muito, com numerosa escolta. Jamais deixou-se reter, nem pelas neves abundantes, nem pelas chuvas diluvianas, nem pelos rios transbordados.
É sempre ele que estimula sua tropa, submetendo-a às piores provas de coragem e de resistência. Verdadeiro condutor de homens, ele o foi nas estradas tanto quanto nos claustros.
Ele o é ainda mais pela continuidade no esforço. Não somente não se detém nunca, mas tem-se a impressão de que, ao longo de toda sua vida, ele persegue sua missão, imperturbável, quaisquer que sejam suas dificuldades, quaisquer que sejam as infelicidades dos tempos.
EXEMPLOS DE VIDA DOS ABADES SANTOS DE CLUNY
Santo Odilon, um abade de Cluny que modelou a Cristandade
Santo Odilon: leão pela causa da Igreja e escravo de Nossa Senhora
Santo Odon: resplandecente abade de Cluny
Capaz de defender seus direitos, sabe também fazer acomodações, a fim de e-vitar ressentimentos; renunciar por um tempo às suas pretensões legítimas, se julga mais útil contemporizar.
Sobressai nele ainda essa facilidade para se adaptar a cada um, qualquer que seja sua posição, o que Jotsaud considera uma característica da justiça, mas que é também habilidade e senso das realidades.
Este homem de princípios, que durante uma longa vida perseguiu fins precisos, soube entretanto conciliar todos os espíritos e guardar sua independência.
Quando era já adulto, entrou numa igreja dedicada à Mãe de Deus, para ali se consagrar a Nossa Senhora. Pôs-se diante de seu altar para a mancipation du col – quer dizer, ele passou uma corda no pescoço e pôs a extremidade sobre o altar – pronunciando a seguinte fórmula de mancipação:
“Ó terníssima Virgem e Mãe do Salvador de todos os séculos. A partir de hoje e para sempre, tomai-me a vosso serviço. A partir de agora, em todas as circunstâncias, sede minha misericordiosíssima advogada. Vinde sem cessar em meu auxílio. Com efeito, depois de Deus, não quero amar ninguém mais do que a vós. Com minha inteira vontade, como vosso próprio servo, entrego-me à vossa dominação”.
Às Vésperas, os frades levaram seu leito diante do altar de Nossa Senhora. Achou ainda um resto de forças para impor os salmos: a emoção e a tristeza abatendo os religiosos, eles se enganam na salmódia, mas logo o santo retifica seus erros, e prossegue o canto.
Fica um momento a sós, em oração, após o Ofício, e depois é reconduzido à enfermaria. Ele preocupa-se com o que fazem os frades, porque era Sábado: temia que deixassem o lava-pés para uma hora muito avançada, pois a noite já caía.
Repousa um momento. Quando volta a si, está no fim. Sustentam-no sobre o leito, e logo sua cabeça se abate. Em seguida, preparam-no deitando-o no solo, sobre o cilício e a cinza, e acendendo os círios.
Ao grande rumor que fazem os monges, dando livre curso às suas penas, ele se levanta, faz sinal de silêncio e pergunta onde está. “Senhor, sobre a cinza e o cilício” – lhe dizem. Ao que ele responde: “Graças a Deus”.
Em seguida, pergunta se todos estão ali. Todos o assistem. Pronuncia palavras ininteligíveis, alternativamente cala-se e fala, lança um olhar terrível em direção ao Oriente, fixa seus olhos sobre a cruz. Sua face parece sorrir.
Enquanto seus lábios proferem em silêncio as palavras de uma última prece, sem nenhuma convulsão de seu corpo, sem manifestar a menor alteração na harmonia de sua alma, os olhos fechados, adormece em paz. Estava-se na primeira vigília do Domingo, 1º de janeiro.
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