terça-feira, 29 de setembro de 2026

Santo Antonio, “Arca do Testamento” e “Martelo dos Hereges”, e o milagre de tomada de Orã

Santo Antônio, cf. representação de Giotto ( Legenda de São Franciso - Aparição de Arles - detalhe  )
Santo Antônio, Giotto, basílica de Assis
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Santo Antônio de Pádua, ou de Lisboa, Confessor e Doutor da Igreja é chamado “Arca do Testamento” e “Martelo dos Hereges”, foi um frade franciscano do século XIII.

Estando em 1950 em Assis, eu tive ocasião de me documentar a respeito de como era Santo Antônio.

E ali se mostra, na Basílica de Assis, um quadro pintado por Giotto, que passa por ser o quadro mais provavelmente representativo da pessoa de Santo Antônio.

E se trata de uma pessoa de corpo hercúleo, de pescoço taurino, forte, de expressão de fisionomia séria, de olhar imperioso e majestoso.

Sua atitude corresponde a um Doutor da Igreja que ele era.

Comprei então algumas fotografias dessa imagem.

Ao mesmo tempo, comprei uma pilha de estampas iguais que eram vendidas às pessoas que iam à igreja também.

Mas, elas representavam Santo Antônio, não de acordo com a probabilidade histórica do quadro de Giotto, mas de acordo com uma concepção que figura nas imagens comuns.

Então, um homenzinho imberbe, coradinho, com o Menino Jesus no braço, com um ar de quem não entende muito o que está fazendo com o Menino Jesus no braço.

Santo Antônio - Iconografia eivada de sentimentalismoO Menino Jesus também com uma cara de quem não entende muito o que está fazendo no braço de Santo Antônio, sorrindo os dois um para o outro como que dizendo: desculpe, aqui deve haver algum equívoco.

Nessas imagens de Santo Antônio, nada havia que falasse no Doutor da Igreja, nada que representasse o homem que era tido como o maior conhecedor do Novo e Antigo Testamento, - as Sagradas Escrituras.

Porque ele conhecia as passagens mais raras, mais excepcionais, mais ignotas de todas e tirava delas efeitos de pregação extraordinários.

E Santo Antônio, conhecido como o “Martelo dos Hereges”, como polemista, como homem que era capaz de discutir - não de "dialogar" (no sentido irenístico do termo *).

Ele era capaz de entrar em debate com os hereges e de achatá-los. Não havia ninguém como ele.

E ainda ele ficou famoso pelos milagres que completavam sua pregação e faziam com que fosse o terror dos hereges.

O verdadeiro Santo Antônio histórico é apontado pela Igreja para nosso modelo.

A imagem verdadeira desse grande santo desapareceu quase completamente. É uma figura física que nada tem a ver sobretudo com sua fisionomia moral.

Santo Antônio, além de ser o “Martelo dos Hereges” e a “Arca do Testamento”, é venerado como o Patrono das Forças Armadas.

A razão disso está em que Santo Antônio, em certa ocasião, foi objeto de um ato de devoção especial da parte de um almirante espanhol.

Uma esquadra espanhola sitiava a cidade de Orã, no norte da África, povoada de muçulmanos e não havia meio de conseguir resultado eficaz.

Insígnias militares de Santo Antônio
Então, o almirante espanhol dirigiu-se a uma imagem de Santo Antônio, colocou o chapéu de almirante sobre a imagem, deu-lhe as insígnias de comando e pediu-lhe que investisse contra Orã.

Os mouros fugiram inesperadamente. Quando interrogados, disseram que tinha estado entre eles um frade vestido com o chapéu do almirante e que tinha ameaçado Orã com o fogo de céu, e que por causa disso eles tinham achado mais prudente ir embora.

Quer dizer, este aspecto do “Martelo dos Hereges” que ao mesmo tempo incute terror aos mouros e que se apresenta a uma cidade infiel e a ameaça com o fogo do céu, todo esse aspecto foi abolido.

Aí vemos a lamentável deterioração da devoção aos santos em nossos dias.

Quer dizer, como eles já não representam, na legenda que em torno deles se criou, a verdadeira santidade.

Quem, por exemplo, comentará a respeito da vida de Santo Antônio, este fato que se deu no Rio de Janeiro e que foi o seguinte:

Santo Antônio com as insígnias de Capitão de Infantaria
S. Antônio com as insígnias de Capitão de Infantaria**
o Rio de Janeiro estava sendo cercado pelos calvinistas franceses e já estava quase completamente rendido e a cidade não tinha meios de resistir.

Os frades então tomaram a imagem de Santo Antônio, desceram com ela o morro, colocaram numa pilastra que se encontrava ali.

E a simples exibição da imagem, de um modo maravilhoso comunicou tal ardor na cidade, que grande número de jovens se alistaram, sendo possível reorganizar a resistência aos franceses, que depois de pouco tempo, foram embora.

De maneira que o Rio de Janeiro não se tornou calvinista e talvez com repercussão em toda a História da América Latina, e portanto em toda a História da Igreja, por causa dessa ação simbólica de presença maravilhosa de Santo Antônio.

Todas essas são coisas que não se dizem, não se contam, não se comentam e os senhores podem, através disso, verificar duas coisas: em primeiro lugar, como é lamentável esta torção que a vida dos santos sofreu.

Mas, por outro lado, também, como é admirável lutar para restaurar todas essas coisas e mostrar os próprios santos no seu aspecto combativo, no seu aspecto guerreiro, no seu aspecto polêmico, no seu aspecto contra-revolucionário, que a Revolução tanto gosta de esconder e de disfarçar.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, conferência de 12/6/65. Sem revisão do autor)
___________________

(*) O Prof. Plinio aqui se refere ao conceito irenístico do termo "diálogo", magistralmente descrito em sua obra "Diálogo e baldeação ideológica inadvertida".

(**) S. Antônio com as insígnias de Capitão de Infantaria: "Santo Antonio, cuja imagem esteve colocada na muralha do Convento, defendeu o Rio de Janeiro contra os franceses, o que lhe valeu a patente de Capitão de Infantaria". (“Santo Antônio – vida, milagres, culto”, pgs. 144-146, Frei Basílio Röwer )

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São Silvestre I: tirou a Igreja da miséria das catacumbas e a fez merecidamente pomposa e soberana

São Silvestre I, (280-335 d.C.)
São Silvestre I, (280-335 d.C.)
Luis Dufaur
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continuação do post anterior

O princípio da constantinização é duplo:

Primeiro, de ordem política. Esse princípio parte do reconhecimento de que a Igreja Católica é a única verdadeira. E é fácil de perceber que Ela é a única Igreja verdadeira; todo homem que pode conhecer a Igreja e não adere, é culpado.

E a Igreja deve do Estado, a proteção e o apoio, o respeito e as honras que se tributam ao que é divino.

A Igreja é uma entidade mais nobre e poderosa do que o Estado na ordem profunda das coisas, porque Ela é divina.

Daí então a famosa comparação de São Gregório VII: a Igreja é como o sol, e o Estado é como a lua.

A lua recebe a sua luz do sol e o Estado recebia todo o seu lume da Igreja.

Segundo, as coisas esplêndidas e magníficas da terra foram feitas sobretudo para o culto de Deus, e não sobretudo para o uso do homem.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

São Silvestre I, o primeiro Papa-rei de Roma

Sob São Silvestre I a Igreja saiu do opróbio persecutório  do tempo das catacumbas. Catedral Notre Dame de Paris
Sob São Silvestre I a Igreja saiu do opróbio persecutório
do tempo das catacumbas. Catedral Notre Dame de Paris
Luis Dufaur
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Dom Prosper Guéranger OSB (1805-1875), refundador da Abadia de Solesmes, escreveu em sua célebre obra L’Année Liturgique um grande elogio de São Silvestre I Papa (280-335), na qual, entre outras coisas, ele diz:

“Era justo, então, que a Santa Igreja, para reunir nessa oitava triunfante todas as glórias do céu e da terra, inscrevesse nesses dias, o nome de um santo confessor que representasse todos os confessores.

“Este é São Silvestre, esposo da Santa Igreja Romana e, por ela, da Igreja Universal.

“Um pontífice de reinado longo e pacífico, um servidor de Cristo ornado de todas as virtudes, e dado ao mundo após esses combates furiosos que tinham durado três séculos, nos quais triunfaram pelo martírio milhares de cristãos sob a direção de numerosos papas, mártires predecessores de Silvestre.

“Silvestre anuncia também a paz que Cristo veio trazer ao mundo e que os anjos cantaram em Belém.

“Amigo de Constantino, confirma o Concílio de Nicéia que condenou a heresia ariana e organiza a disciplina eclesiástica para uma era de paz. Seus predecessores representaram Cristo padecente; ele figura Cristo triunfante.

O Papado passou a ser respeitado como Jesus Cristo desejava  no pontificado de São Silvestre I
O Papado passou a ser respeitado como Jesus Cristo desejava
no pontificado de São Silvestre I
“Ele completa, nessa oitava, o caráter do Divino Menino e chega na humildade de Suas faixas, exposto à perseguição de Herodes e, entretanto, é o Príncipe da Paz e o Pai do século futuro.

“De acordo com os ensinamentos de Silvestre, o piedoso imperador confirmou com seu exemplo o direito concedido aos cristãos de construir seus templos de modo ostensivo; pois ele elevou grande número de Basílicas.

“A saber, a de Laterão dedicada a Cristo Salvador, a do Vaticano a São Pedro, a da via de Óstia a São Paulo, as de São Lourenço no Agro Verano, da Santa-Cruz no palácio de Sessorius, dos santos Pedro e Marcellino e de Santa Inês nas vias Lavicana e Nomentana, e outras ainda; que ele ornou esplendidamente com imagens santas e dotou magnificamente com propriedades e privilégios.

“Foi sob seu pontificado que se reuniu o primeiro Concílio de Niceia, no qual, sob a presidência de seus legados, na presença de Constantino e de trezentos dezoito bispos, a santa Fé católica foi explicada e Ario e seus sectários foram condenados. (...)

“São Silvestre também ditou vários decretos vantajosos para a Igreja de Deus que levam seu nome; a saber: (...) que os diáconos usariam a dalmática na Igreja e levariam no braço esquerdo um ornamento de linho; que o Sacrifício do altar se celebraria sobre uma toalha de linho”. Dom Prosper Guéranger, OSB, “L’Année Liturgique”, “Temps de Noel, Propre des Saints, XXXI Décembre. Saint Silvestre, Pape et Confesseur”.

O lindo comentário D. Guéranger nos chama a atenção para a vida desse santo, lembrado no último dia do ano, e para o exemplo que ele dá aos dias tristes em que nós vivemos.

Ele foi Papa no tempo do Imperador Constantino e presidiu à transformação da Igreja, que deixou de ser perseguida para ser rainha, deixou as catacumbas e começou a ocupar palácios.

São Silvestre I batiza o imperador Constantino
São Silvestre I batiza o imperador Constantino
São Silvestre presidiu ao desabrochar da Igreja fora das catacumbas como um sol que nasce. Foi sob suas diretrizes e inspiração que começou a obra de “constantinização” da Igreja.

O que é essa constantinização?

A obra consistiu no seguinte. Houve um primeiro edito de Constantino que concedeu liberdade à Igreja Católica.

Houve depois um outro edito, que fechou todos os templos não católicos.

Depois a Igreja começou a se instalar sobre o solo romano.

São João de Latrão é um dos troféus mais preciosos  da igreja constantiniana
São João de Latrão é um dos troféus mais preciosos
da igreja constantiniana
O imperador Constantino quis cercá-la de um luxo que reparasse os anos de imerecida miséria que Ela tinha passado nas catacumbas.

Assim, mandou construir a primeira Basílica cristã católica sobre o palácio da sogra dele, a casa dos Laterani.

Ela passou a ser a igreja de São João de Latrão, a Catedral do Papa.

Depois disso, o imperador começou a cercar os bispos de honras especiais, torná-los personagens oficiais, e cercar de todo esplendor os atos do culto católico, prestigiado pelo comparecimento pessoal do Imperador.

A Igreja passou a ser unida ao Estado e ficou uma entidade de tal maneira reverenciada que um dos motivos que levaram Constantino a deixar Roma e fundar a cidade de Bizâncio – também chamada Constantinopla – estava em deixar a cidade mais ilustre da terra, que era Roma, para que o Papa nela residisse sozinho e fosse virtualmente o soberano de Roma.

Constantino ainda não lhe deu o poder temporal, mas criou uma situação em que praticamente o Papa era o senhor temporal de Roma.

(Comentários de Plinio Corrêa de Oliveira feitos em 30-12-1966, sem revisão do autor).

Continua no próximo post


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Othon I restaurador do Sacro Império

Coroa imperial de Carlos Magno, usada por Othon I
Coroa imperial de Carlos Magno, usada por Othon I
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: Othon I, o Grande, restaurador da obra de Carlos Magno



Othon I, segundo os contemporâneos, era um homem grande, de estatura impressionante, de olhos sempre em movimento. Seus olhos estavam constantemente observando todas as coisas.

Logo que subiu ao trono ele encontrou revoltados contra ele e lhe disputando a coroa, o irmão mais velho e o irmão mais moço.

Para resolver a briga, reuniram-se os representantes nobres de toda a nação alemã e decidiram, por eleição, que Othon deveria ser o imperador.

A coroação e unção dele como imperador se deu em Aix-la-Chapelle no ano de 938.

Ele teve guerras em todas as direções. Atacou a França mas não conseguiu conquistá-la. Celebrou a paz com os franceses.

Ao mesmo tempo, ele moveu guerra à Dinamarca e à Polônia nesse tempo pagãs.

O centro do reino de Lotário tinha se deslocado para a Itália e era disputado avidamente por dois carolíngios, Lotário e Besengário. O primeiro morreu e o segundo ficou oprimindo a viúva dele.

Então a viúva de Lotário mandou pedir a Othon que transpusesse os Alpes e fosse em seu socorro na Itália. Ele desceu, libertou a viúva opressa casou-se com ela, ficou rei da Itália e impôs tributo a Besengário. Por esta forma, estendeu seu reino e ficou com seu território consideravelmente ampliado.

Besengário revidou promovendo uma revolta do filho de Othon na Alemanha. O filho era duque da Baviera.

Então ele renunciou a alguns territórios seus em favor da Baviera e lá deixou seu filho. Deu algumas terras a Besengário exigindo que o reconhecesse como rei da Itália e aquietou um pouco essa revolta.

Isto feito, novos inimigos, os húngaros, vinham apontando no horizonte.

Othon I e sua esposa Adelaide, catedral de Meissen
Othon I e sua esposa Adelaide, catedral de Meissen
Os húngaros eram terríveis. No ano 955, somente, é que ele conseguiu, depois de muita luta, acabar com os húngaros. Desta maneira ele estava constantemente em dificuldades por causa da política externa.

Nos ducados étnicos uma porção de duques eram contrários a ele. Othon percebeu que para resolver o caso tinha de depô-los a todos e substituí-los com parentes seus.

Mas era uma tarefa difícil. Primeiro, porque não é fácil tirar-se um duque étnico de um ducado. Segundo, porque os parentes que ele colocou ofereceram muito pouca estabilidade. Estavam sempre se revoltando contra ele.

Foi exatamente o que sucedeu aos parentes do Othon. Não devemos pensar que ele colocava em cada ducado um homem fiel e esse homem aí ficava. Os súditos não gostavam do homem porque ele não era daquele grupo étnico e os homens não agradeciam a Othon como deviam agradecer.

Othon I
A Francônia ele deu a um filho que tinha o nome de Conrado, o Rubro. A Suábia ele acabou tirando a Ludolfo, que era rebelde e deu-o a um genro de Henrique, duque da Baviera. Depois ele também tirou a Baviera de Ludolfo.

Nos flancos dos ducados ele instituiu uma coisa curiosa. Havia os grandes ducados e ele então instituiu, perto dos ducados, os palatinados.

Os palatinados eram territórios que ficavam entre os ducados, mas que constituíam uma espécie de pontos encravados. 
E esses territórios dependiam diretamente dele, eram altamente fortificados e eram as chaves estratégicas para a entrada nos ducados.

De maneira que quando algum ducado fizesse guerra com ele, as tropas dos palatinados marchavam contra o ducado antes mesmo dele ter entrado com suas tropas em ação.

Esse era o mesmo processo com que os imperadores da antiga Pérsia mantinham a unidade do Império. Como o Império era muito extenso eles abriram vias de comunicação magníficas passando todas por pontos estratégicos.

Nesses pontos eles colocaram fortalezas formidáveis em guarnições imponentes. Eles diziam que era para não irritar as cidades.

Mas de fato era impossível a revolta contra eles, porque os pontos de comunicação estavam ocupados. Qualquer revolta que houvesse eles interceptavam e depois debelavam.

Ao mesmo tempo ele era um homem de muito bom gosto e por causa disso compreendeu que se pode muito bem ser, com espírito, com inteligência, com elegância, ao mesmo tempo príncipe espiritual e temporal.

Não ter a situação isolante de muito bispo de hoje que não governa nenhuma terra a não ser espiritualmente. Começou então a instituir principados eclesiásticos.

A parte do rei da Germânia na nomeação dos bispos era muito grande. Ele podia portanto, com seus descendentes colocar em feudos eclesiásticos bispos fiéis a ele e por esta forma ainda agarrar por outro lado o Império.
Trono de Carlos Magno em Aachen, onde foi coroado Othon I

Portanto, sem extinguir os ducados, criando elementos compensadores que evitassem que os ducados extinguissem a própria realeza.

Era uma tendência para instituir o equilíbrio sem destruir o feudalismo. Uma política muito sábia.

Quando Othon se encontrou no ápice de seu poder, ele quis também pensou na sucessão.

O estratagema foi: quando o rei tinha o herdeiro do trono já maduro, ele o fazia eleger como co-rei, de maneira que ficava assegurada a sucessão e a eletividade passava a ser apenas um símbolo.

No ano 961 seu filho Othon, que veio a ser Othon II, foi eleito também rei da Germânia, sagrado em Aix-la-Chapelle.

Othon I, no ano de 962, foi a Roma. E ali ele se fez coroar imperador do Sacro Império Romano Alemão.

Então, neste momento, ele cingia três coroas: a coroa de ferro, que era a coroa de rei da Itália, a famosa coroa da Lombardia; a coroa de prata que era a coroa da Alemanha; e a coroa de ouro que era a coroa de imperador do Sacro Império Romano Alemão.

Este Império abrangia um território muito considerável, o maior território da Europa.


continua no próximo post: Othon I e os problemas no Sacro Império derivados das diversidades étnicas

terça-feira, 1 de setembro de 2026

São Domingos e a Inquisição - 2

continuação do post anterior

Luis Dufaur
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São Domingos teria sido inquisidor?

Não são raros os historiadores dominicanos que sustentam a opinião de que o fundador de sua Ordem teria sido o primeiro inquisidor. O próprio Papa Sixto V se fez eco dessa opinião na bula de canonização de São Pedro de Verona (1588).

Segundo o "Dizionario di Erudizione Storico-Ecclesiastico", "o Pontífice Gregório IX, a pedido de São Raimundo de Penaforte, dominicano, confirmou em Tolosa o primeiro tribunal da Inquisição, já erigido por Inocêncio III, nomeando para inquisidores os religiosos dominicanos, cujo Santo Fundador havia trabalhado com feliz sucesso na conversão dos albigenses, razão pela qual o Pe. João do Gabaston escreveu numa apologia que São Domingos foi o primeiro inquisidor".

Note-se que São Raimundo de Penaforte, que exerceu o cargo de inquisidor, entrara para a Ordem dos Dominicanos em 1222, oito meses após a morte de São Domingos.

 Em tão breve prazo, já teria a Ordem perdido o espírito que lhe inculcara o Santo Fundador?

Também Oldoino diz que Inocêncio III fez de São Domingos o primeiro inquisidor.

Outros historiadores, como Guiraud mais modernamente, por exemplo, acham que na realidade as funções de inquisidor já vinham sendo exercidas desde o fim do século XII por legados cistercienses, e quando São Domingos desempenhou esse cargo, foi em virtude de poderes que recebeu da legação cisterciense dirigida por Arnaldo de Citeaux e Pedro de Castelnau.

Quando, no curso de suas pregações, impôs uma penitência e concedeu cartas de absolvição ao herege Ponx Roger, declarou agir "auctoritate domini Abbatis Cisterciensis, Apostolicae Sedis legati, qui hoc nobis injunxit officium" — pela autoridade do abade cisterciense, legado da Santa Sé, que nos cometeu este ofício.

Em outro ato do mesmo gênero, São Domingos se cobre sempre da autoridade do legado, o que parece provar que não era inquisidor ele próprio, mas delegado dos cistercienses, que haviam sido encarregados pela Santa Sé da Inquisição nas terras da França meridional (Bolandistas, Acta Sanctorum Augusti, I, pp. 410-411).

Inocêncio III fez de São Domingos o primeiro inquisidor

Não resta dúvida, portanto, quanto ao fato de São Domingos ter tomado parte na Inquisição, seja diretamente nomeado por Inocêncio III, como afirmam alguns, seja como delegado dos inquisidores cistercienses, como pensam outros.

Um nefasto preconceito liberal

Outra balela inventada pela escola liberal é a de que não se pode conceber um santo como São Domingos, que se mostre partidário dos métodos enérgicos de repressão da heresia. 

Não é então legítima a reação à mão armada contra as agressões nazistas e comunistas? 

A própria liberal América do Norte não reage contra as tendências anárquicas dos sectários que se apelidam "testemunhas de Jeová"? Outra não era a sanha dos hereges daqueles tempos.

A Igreja não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. A Inquisição somente condenava os hereges relapsos e contumazes. 

Assim, por exemplo, o inquisidor geral em França no ano de 1235, Frei Roberto, denominado o búlgaro, antes de entrar para a Ordem de São Domingos havia sido um dos hereges cátaros, que o povo chamava de búlgaros.

Para se conhecer com que rigor São Domingos encarava a heresia, basta ver como tratava esses convertidos. 

Gregório IX ordenou uma inquisição geral em Aragão e na CatalunhaPara dar absolvição ao ex-herege Ponx Roger, São Domingos lhe impôs, entre outras penitências: a flagelação; a abstinência perpétua, salvo nas festas de Páscoa, Pentecostes e Natal, em que devia comer carne para mostrar que havia deixado a heresia (os cátaros se abstinham de carne); o jejum durante três quarentenas por ano; a obrigação de levar duas cruzes costuradas às suas vestes, devendo estas ser da forma e cor das usadas pelos religiosos, etc.

Diz Todesco em seu "Corso de Storia della Chiesa", depois de apresentar o retrato que de São Domingos fez Lacordaire, segundo o qual o fundador da Ordem dos Pregadores "abria a boca somente para abençoar, o coração somente para pregar, a mão somente para um ofício de amor": "Mas os autores mais recentes não excluem que naquele grave perigo para a sociedade religiosa, e também para a civil, Domingos haja reconhecido ser justo o extremo suplício, aplicado aos hereges convictos e obstinados" (vol. III, p. 474).

Os santos a serviço da Inquisição

É notório o absoluto concurso dado à Inquisição por São Luís IX, rei de França.

Em 1226, o rei Jaime de Aragão, "a conselho de seu confessor, o dominicano Raimundo de Penaforte, pediu a Gregório IX enviar-lhe inquisidores, e pela bula de 26 de maio de 1232 o Papa encarregou o Arcebispo de Tarragona de fazer, com a ajuda dos Pregadores, uma inquisição geral em Aragão e na Catalunha". E o mesmo São Raimundo de Penaforte, dominicano, tornando-se penitenciário e canonista da Santa Sé, escreveu um tratado do processo inquisitorial.

Ao mesmo tempo, o piedoso rei São Fernando III de Castela, primo de São Luís IX, organizava a Inquisição em seus Estados. De São Fernando III faz a Santa Igreja o seguinte elogio no dia de sua festa litúrgica: 

"Nele, ao lado das preocupações com as coisas do reino, brilharam virtudes régias: a magnanimidade, a clemência, a justiça, e, acima de todas, o zelo pela Fé católica, um ardoroso empenho no sentido de defender e propagar o culto religioso desta Fé católica. Isto ele realizava principalmente perseguindo os hereges, não suportando que eles se estabelecessem em parte alguma de seus domínios, carregando com suas próprias mãos a lenha para a fogueira que deveria queimar os condenados" (Breviário Romano, suppl. XXX maii).


A posição dos inquisidores tornou-se muitas vezes crítica, e os Pregadores pagaram freqüentemente bem caro pela missão que haviam especialmente recebido, de perseguir a heresia: "inquisitores haereticae pravitatis" — inquisidores da herética pravidade, conforme o título que lhes deu o Santo Padre Gregório IX. Um deles, Pedro de Verona, morreu assassinado, como também aconteceu, na mesma ocasião, nas terras do Conde de Tolosa aos inquisidores de Avignonet. Foi canonizado, e a Igreja o venera sob o nome de São Pedro Mártir.

São Pio V, antes de eleito Papa, exerceu o cargo de Inquisidor Geral na Lombardia, não mais na Idade Média, mas em plena Renascença, e empregou as mais rigorosas medidas para reprimir a heresia protestante naquela região. 

Escolhido para sucessor de Pio IV, manteve com grande zelo a Inquisição. Dos mais notáveis acontecimentos de todo o seu pontificado, foi sem dúvida a expedição a mão armada, que organizou contra os turcos que ameaçavam o mundo cristão.

A santidade da Igreja e a malícia dos homens

Não desconhecemos o fato de que houve abusos no exercício da Inquisição. Qual a instituição no mundo que não se acha sujeita a abusos? 

Alguns inquisidores foram destituídos, e até excomungados pela Santa Sé por haverem exorbitado de suas funções e se prestado a servir de instrumento do poder civil. 

Não foi esse, porém, um mal da Inquisição em si, mas do regalismo, do divórcio entre a Igreja e o Estado, do abuso do poder político. Sobretudo em sua fase final, vemos a Inquisição infiltrada pela maçonaria na Espanha.

Em Portugal, chegamos ao cúmulo de ver a Inquisição como instrumento nas mãos de um Pombal, outro emissário das Lojas, para perseguir a Companhia de Jesus. 

Devemos nos lembrar, porém, de que até os sacramentos estão sujeitos a abusos. Para dar outro exemplo, o Santo Padre Pio XII se referia aos abusos que se introduziram nas práticas litúrgicas. Vamos, por esta razão, condenar os sacramentos e a Sagrada Liturgia?

Estamos vivendo em uma época em que o espírito liberal minou praticamente toda a resistência dos católicos, deixando-os indefesos nas mãos de seus piores inimigos.

 Não mais existe nos países cristãos esse espírito de vigilância e de combate aos germes de dissolução religiosa e social, que deu origem à Inquisição. No entanto, conforme nos mostra Rohrbacher, no governo geral do mundo o próprio Deus tem sua Inquisição. 

Ele tem por toda parte agentes invisíveis, que são instrumentos de Sua Providência. Daí essas misteriosas advertências, essas coerções inesperadas ao culpado. Se este não as aproveita, se se endurece na impenitência final, é entregue aos ministros da justiça eterna, nas prisões e chamas do inferno (Rohrbacher, Histoire de l’Église, vol. 9, livro 83).

Continuemos, portanto, a ver nas instituições da Santa Igreja amorosas manifestações de sua sabedoria e da assistência que lhe é prestada pelo Divino Espírito Santo.

 E nas diversas Ordens Religiosas, que constituem as milícias encarregadas de pôr em prática as medidas ditadas pela Santa Sé Apostólica para realizar a obra de salvação do gênero humano, vejamos outros tantos instrumentos da Providência, dignos de nosso reconhecimento e veneração.

(Autor: José de Azeredo Santos, "Catolicismo" nº 8, agosto de 1951)


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