terça-feira, 13 de junho de 2023

Os antepassados de Carlos Magno

Carlos Martel na batalha de Poitiers contra os invasores islâmicos
Carlos Martel na batalha de Poitiers contra os invasores islâmicos
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







“Nemo summum fit repente” (nada de importante ocorre de repente), diz o adágio latino, que bem pode ser aplicado ao surgimento de grandes personalidades. Estas são como picos do Himalaia, tendo em sua base e a seu lado outros tantos cimos fabulosos. Assim também com Carlos Magno e sua família.

A família de Carlos era desde os fins do século VI rica e influente, fornecendo sucessivos Prefeitos do Paço aos reis da dinastia merovíngia — uma espécie de ministros plenipotenciários, enquanto o monarca ocupava uma função meramente protocolar.

Santo Arnolfo, tataravô de Carlos Magno

Dentre os Prefeitos do Paço sobressai a grande figura de Santo Arnolfo, que exerceu este alto cargo no reinado de Teudeberto II (595-612), distinguindo-se por seus dotes de comandante militar e de administrador civil.

Justo, digno e equitativo, aliava aos gostos de um nobre as qualidades de um homem de Estado. Preceptor do futuro rei Dagoberto, fez deste um rei justo, “le bon Roi Dagobert”, como evoca ainda hoje uma graciosa canção infantil francesa.

Casado, aspirava entretanto a uma vida de recolhimento e oração; de Ansegisel, seu filho primogênito, descende Carlos Magno em linha direta.

Depois de 12 anos servindo na Corte, Arnolfo foi nomeado — para sua grande consternação — para a Sé episcopal de Metz, cujo bispo acabara de morrer.

Embora leigo, não teve como recusar. Ordenado e sagrado Bispo de Metz, governou a diocese durante mais de uma década, retirando-se afinal para levar a vida de recolhimento a que sempre aspirou. Faleceu no dia 18 de julho de 641; seus restos mortais repousam na catedral de Metz.

Carlos Martel

Na linhagem direta de Santo Arnolfo figuram Santo Hugo, arcebispo de Rouen, e seu irmão Carlos Martel, o martelo vencedor dos muçulmanos na batalha de Poitiers, em outubro de 73.

Essa vitória que, pondo freio ao avanço muçulmano na Europa Ocidental, representou um contributo importante para a obra de seu neto, Carlos Magno, rumo à formação de uma Europa cristã na alta Idade Média.

Neste sentido escrevia em 1788 o historiador britânico Edward Gibbon que, sem o Martelo Franco, muito provavelmente os sarracenos teriam chegado “às fronteiras da Polônia e às terras altas da Escócia; a frota árabe teria subido sem lutas o Tâmisa e em Oxford se ensinaria a interpretação do Corão”.

Jacob Burckhardt, historiador alemão, referia-se em 1880 a Carlos Martel como “o grande fundador de uma Cristandade ocidental que impediu que a bandeira do profeta (Maomé) balançasse durante séculos nas torres da França”. (Cfr. Helene Zuber, Razzia in Gallien, Spiegel Geschichte 6, 2012).

Carlos Martel em Poitiers. Charles de Steuben (1788-1856). Museu de Versailles
Carlos Martel em Poitiers. Charles de Steuben (1788-1856). Museu de Versailles
Carlos Martel teve três filhos: Carlomano, Pepino e Grifo, este último oriundo de seu segundo casamento. No ano de 737, quando seu primogênito tinha cerca de 20 anos, toma uma decisão que teria no futuro um resultado importante: deixa vacante o trono dos francos quando da morte do rei Teodorico IV.

Após a morte de Carlos Martel, no outono de 741, Carlomano e Pepino tomam o poder como Prefeitos do Paço e alijam dele seu irmão mais novo, mandando-o para um mosteiro.

Carlomano fica com a Austrásia, a Alamânia e a Turíngia, enquanto Pepino passa a governar a Neustrásia, a Borgonha e a Provença.

Em 743 ambos os irmãos resolvem instalar novamente um rei da dinastia merovíngia, Childerico III, que lhes legitimasse o governo.

Nos anos seguintes empreendem campanhas militares na Aquitânia, Alamânia e Baviera, consolidando sua posição nas partes extremas do reino. Ao mesmo tempo desejam reformar lamentáveis relaxamentos existentes no povo e no clero.

Assim, em 743 Carlomano convoca, com a participação de São Bonifácio, o Concilio Germânico, ocasião em que este santo, escrevendo ao Papa, traça um quadro dramático da situação moral da época:

“No momento as sedes das cidades episcopais encontram-se em grande parte entregues a leigos gananciosos e intrusos, a clérigos que se estadeiam na luxúria e se dedicam a ganhar dinheiro para o gozo mundano”.

E mais adiante fala dos padres “que têm quatro, cinco ou mais concubinas na cama, mas que não se coram nem se pejam de ler o Evangelho”. 

Pepino, por sua vez, convoca um sínodo de bispos na velha cidade real de Soissons, com a recomendação aos sacerdotes de seu reino de não hospedarem mulheres em suas casas, com exceção de suas mães, irmãs e sobrinhas.

Pepino, o Breve, rei dos Francos

No ano de 747, depois de seis anos de governo conjunto, Carlomano surpreende os francos com uma notícia sensacional: resolvera deixar o cargo de Prefeito do Paço para se retirar a um convento, o de Montecassino, na Itália.

Não se sabe ao certo se essa foi uma decisão forçada por seu irmão Pepino ou se resultou de a um movimento da graça divina. Fato é que Pepino tornou-se o único Prefeito do Paço no reino dos francos sob Childerico III.

Ao contrário de Carlomano, que tinha filhos, o casamento de Pepino com a rica condessa Bertrada ainda não frutificara. Depois de muitas orações, no dia 2 de abril de 748 Bertrada dá à luz a um menino, batizando-o com o nome de Carlos. Estava garantida a sucessão.

Três anos mais tarde, Pepino toma uma atitude mais ousada. Em novembro de 751, com o apoio do Papa São Zacarias, reúne os grandes do Reino em Soissons, onde se faz aclamar Rex Francorum separadamente pelos nobres e pelo povo.

Pepino, exercendo seu cargo de Prefeito do Paço, almejava o título de Rei. O poder de fato estava desde há mais de um século nas mãos dos Prefeitos carolíngios do Palácio.

A legitimação para a tomada do título de Rei foi dada a Pepino pelo Papa Zacarias, a quem Pepino enviou seus mais importantes conselheiros, Fulrado de Saint Denis, e o bispo Burkhard, de Würzburg, com a pergunta se era bom que entre os francos houvesse reis “que não tinham poder enquanto reis”.

A resposta do Papa foi: “É melhor designar como Rei aquele que tem o poder”.

São Zacarias foi o último Papa de origem grega. Além de dar grande apoio ao apostolado de São Bonifácio — o Apostolus germanorum —, estabeleceu e fortaleceu as relações da dinastia carolíngia com o Papado.

Em seguida, no ponto alto de uma cerimônia religiosa, ungem-no os bispos com os santos óleos. Quanto a Childerico, o último rei da dinastia de Clóvis, é enviado com o cabelo cortado curto — sinal da perda de sua dignidade real, segundo os costumes merovíngios — juntamente com seu filho Teodorico, para o mosteiro de Prüm.

Pepino o Breve, pai de Carlos Magno. Louis Félix Amiel, Musée historique de Versailles
Pepino o Breve, pai de Carlos Magno. Louis Félix Amiel,
Musée historique de Versailles
Neste mesmo ano de 751, Aistolfo, rei dos lombardos, conquista Ravena, a antiga capital do Império Romano, das mãos dos bizantinos, e no ano seguinte passa a acossar o Papa — então Estêvão II — e a exigir dele o reconhecimento de sua soberania sobre os territórios conquistados.

Abandonado pelo Imperador Romano de Constantinopla, Estevão II solicita ajuda contra os lombardos a Pepino, com quem se encontra na cidade de Ponthion, no reino Franco.

Em consequência das conversações, entre os dois surge uma aliança transalpina que marcará o horizonte político de toda a Idade Média.

No dia 28 de julho do mesmo ano, na Basílica de Saint-Denis, o Papa unge de novo Pepino, juntamente com seus filhos Carlos (747-814) e Carlomano (751-771).

Estabelecido o acordo com o Papa Estêvão II, Pepino rompe a aliança com os lombardos e se dirige militarmente contra eles. Cercado em sua capital Pavia, Aistolfo mostra-se inicialmente conciliatório, mas tão logo Pepino se retira, ataca novamente o Papa em Roma.

O rei dos Francos retorna em 756, derrota os lombardos e obriga Aistolfo a reconhecer o domínio franco, bem como a ceder ao Papa o Exarcado de Ravena, composto pelas cidades de Istria, Veneza, Ferrara, Ravena, Pentápolis e Perugia.

Essa famosa “doação de Pepino”, confirmada e aumentada por seu filho Carlos Magno em 774, constituiu os Estados Pontifícios ou Patrimônio de São Pedro.

Pepino, o Breve, empreendeu ainda guerras bem-sucedidas contra os saxões e os sarracenos, arrebatando a estes a cidade de Narbonne e expulsando-os para além dos Pirineus.

Em 757, o duque Tassilo II da Baviera prestou-lhe juramento de vassalagem. Nos anos seguintes Pepino vai se dedicar à conquista da Aquitânia, o que terá grande importância na futura formação da França.

Carlos e Carlomano


Antes de sua morte no ano de 768, Pepino dividiu o reino entre seus filhos Carlos e Carlomano. Seus restos mortais foram sepultados na Catedral de Saint-Denis, nos arredores de Paris.

Em agosto de 1793, no auge das insânias da Revolução Francesa, um bando de sans-culottes profanou seu túmulo e jogou seus restos mortais numa vala comum.

Ao primogênito Carlos, já experiente nos assuntos do governo apesar de ter apenas 20 anos, coube reinar na Turíngia, na Frísia, na Gasconha, na Nêustria e nas regiões francas entre os rios Loire e Schelde.

Carlomano tinha apenas 17 anos quando começou a governar a parte central do reino: a Provença, o Languedoc, o maciço central, a Alsácia, a Alamânia e a região ao sul de Paris.

Quanto à parte norte da Austrásia, bem como à região dos rios Maas, Mosela e Reno, berço dos carolíngios, e a Aquitânia, foram elas divididas entre os dois irmãos.

As capitais de ambos os territórios eram Noyon e Soissons, distantes uma da outra cerca de 30 km, onde os dois irmãos se fizeram aclamar em 9 de outubro de 768.

Carlomano reinava sobre um bloco mais compacto; por sua vez, as regiões que estavam sob o governo de Carlos eram mais ricas.

Embora Eginhardo assevere que as relações entre os dois irmãos tenham sido inicialmente harmônicas, é inegável que elas se esfriaram pouco depois, quando o duque Hunald se sublevou na Aquitânia, ao saber da morte de Pepino, o Breve.

Carlos solicitou o apoio do irmão para dominar a sublevação e encontrou uma firme recusa de Carlomano em lhe apoiar a expedição militar, aliás vitoriosa.

Tal recusa enfureceu Carlos, pois a seus olhos mais se parecia a uma fuga diante do adversário. Era previsível um entrechoque entre os irmãos, com graves consequências para o reino franco.

Esse perigo se afastou com a morte inesperada de Carlomano, após curto período de doença, no dia 4 de dezembro de 771. Com ela se esfumaçou o pesadelo de uma guerra fratricida. 



continua no próximo post: Grandes guerras de Carlos Magno


(Autor: Renato Murta de Vasconcelos. CATOLICISMO, fevereiro de 2015




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São Bernardo: "eu vou executar esse criminoso com minhas próprias mãos!"

São Bernardo de Claraval ajoelhado diante de Nossa Senhora

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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Certo dia, quando São Bernardo se dirigia para a corte do Conde Teobaldo, deparou-se-lhe um grupo de soldados que conduziam um prisioneiro ao cadafalso, para enforcá-lo.

Vendo a cena, apoderou-se S. Bernardo da corda com que era conduzido o condenado, e fez esta estranha proposta aos verdugos:

— Entregai-me este criminoso, e executá-lo-ei com as minhas próprias mãos.

Naquele momento aproximou-se o conde. O seu espanto foi profundo ao ver o Santo, a quem estimava como pai, entre o assassino e os oficiais da justiça. Ficou perplexo ao escutar a petição do amigo:

— Venerável pai, que significa isto? Por que pretendeis salvar a vida de um homicida que merece a morte centenas de vezes? É um incorrigível filho de Satanás, e o melhor serviço que podemos prestar-lhe é privá-lo da vida. Os interesses da sociedade exigem a sua morte.

— Sei que este homem é merecedor da morte, e não tenciono deixá-lo partir sem punição. Ao contrário, quero submetê-lo a um castigo severo e perpétuo. Vós o suspenderíeis no cadafalso, onde em breve escaparia ao vosso poder, mas eu o amarrarei a uma cruz, onde sofrerá muitos anos.

Não formulando Teobaldo objeções, Bernardo colocou seu capuz sobre o malfeitor, ao qual deu o nome de Constantino, levando-o para o convento.

Após trinta anos de severas penitências, o bem-aventurado Constantino morreu, sendo sua festa no dia 16 de março.


(Autor: Ailbe Luddy, "Bernardo de Claraval")


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terça-feira, 30 de maio de 2023

Carlos Magno e o ideal de Cristandade

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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“Carlos é chamado com razão de Magno: merece este nome enquanto general e conquistador, ordenador e legislador do imenso reino, enquanto inspirador da vida intelectual no Ocidente. Sua vida é uma luta contínua contra a brutalidade e a barbárie”

No dia 28 de janeiro de 2014 completaram-se 1.200 anos da morte de Carlos Magno. Em diversas cidades pertencentes outrora ao seu império, como Aquisgrão (Aachen em alemão; Aix-la-Chapelle em francês), Zurique, Frankfurt-am-Main, houve exposições sobre ele, visitadas por imenso público.

A importância dada ao jubileu carolíngio é mais do que explicável: poucas personalidades na história da Cristandade tiveram uma influência tão duradoura, irradiaram um prestígio tão grande e deixaram uma recordação tão arrebatadora quanto este monarca franco, elevado pelo Papa São Leão III na noite de Natal do ano de 800 à dignidade de Imperador Romano do Ocidente.

Os ideais de Carlos Magno

“Com ajuda de Deus, nossa missão é externamente defender a Santa Igreja de Cristo pelas armas e por todas as partes das incursões dos pagãos e das devastações dos infiéis, e internamente, fortalecê-la pelo reconhecimento da verdadeira Fé.

“A vossa missão, Santo Padre, consiste, à maneira de Moisés, em erguer os braços em oração a Deus, e destarte ajudar nossos exércitos, de modo que por vossa intercessão e sob a guia e proteção de Deus, o povo cristão alcance sempre a vitória sobre os inimigos de seu santo nome e que o nome de Jesus Cristo seja glorificado no mundo inteiro.”

Carlos Magno coroado imperador pelo Papa
Carlos Magno coroado imperador pelo Papa
Nessas palavras de Carlos Magno, dirigidas em carta a São Leão III, estão expressos seus ideais e boa parte da dupla obra que empreendeu: de um lado, defender a Igreja de seus inimigos externos; de outro, fortalecer a Fé.

Para cumprir a primeira parte desse programa, dedicou ele os 42 anos de seu reinado, tanto combatendo no Leste o paganismo de saxões e ávaros, quanto refreando no Oeste o avanço muçulmano.

É essa sua face heroica e guerreira que inspirará nos séculos futuros as canções de gesta, como a famosa Chanson de Roland.

Na segunda parte, que poderia ser qualificada de positiva, revela-se seu gênio de estadista e de incansável administrador e restaurador, empenhado na tríplice reforma religiosa, moral e cultural de seus súditos, visando à formação de uma civilização cristã segundo a concepção de Santo Agostinho em uma de suas obras mais famosas, a De civitate Dei:

“A gloriosíssima Cidade de Deus, seja aqui nesta Terra na sucessão dos tempos, onde ‘vivendo da Fé’ ela peregrina entre os ímpios, seja na estabilidade da eterna morada que presentemente espera com paciência ‘até que a justiça se transforme em julgamento’ e que obterá um dia o esplendor de uma vitória suprema por uma paz perfeita, defendê-la contra os que preferem seus deuses Àquele que a criou, eis o objetivo da obra que começo e com a qual cumpro a promessa que te fiz, meu caro discípulo Marcelino. Tarefa imensa e árdua, mas Deus é nossa ajuda”. (De Civitate Dei contra paganos, Liber I).

Eginhardo, formado na corte carolíngia e autor da Vita Caroli Magni, única biografia escrita por quem conheceu a fundo e na intimidade o Imperador, conta que este fazia ler com frequência trechos dessa obra do grande Padre da Igreja durante suas refeições, realizadas geralmente na companhia de seus familiares mais próximos.

A Cidade de Deus — uma reflexão teológico-histórica sobre o mundo pagão em ruínas após a tomada de Roma por Alarico em 410 e as vicissitudes do cristianismo nascente — delineia os contornos de uma sociedade perfeita que só pode surgir no seio do cristianismo.

Conhecedor profundo dessa inspirada obra, Carlos Magno não desejou senão realizar o ideal do príncipe cristão — tal como Santo Agostinho o imaginava — que emprega todo o seu poder “ad Dei cultum maxime dilatandum”.


O biógrafo de Carlos Magno

Eginhard escrevendo a vida de Carlos Magno, Grandes Chroniques de France
Eginhard escrevendo a vida de Carlos Magno.
Grandes Chroniques de France
Eginhardo— em alemão Einhard — (770-840), o biógrafo de Carlos Magno, nasceu na região do vale do rio Meno.

Pertencia a uma família da aristocracia franca e recebeu sua primeira formação no convento fundado por São Bonifácio em Fulda.

Por seus dotes intelectuais foi enviado em 792 à corte, a fim de terminar seus estudos na Escola do Palácio e integrar o grupo de jovens que seria a futura elite do reino de Carlos.

Teve por mestre Alcuíno, o maior sábio da época. De baixa estatura, apaixonado pela literatura greco-latina, mas também pela matemática e arquitetura, Eginhardo ganhou a confiança de seu soberano, que o enviou a Roma em 806 para receber a aprovação do Papa São Leão III da “divisio regnorum” — documento que regulamentava a sucessão no Império.

Sinal da estima geral de que desfrutava, foi ele que, no ano de 813, pediu a Carlos Magno em nome dos Grandes, que associasse seu filho Luís (o Piedoso) ao poder.

Em 829 ele se retira da corte e se estabelece em Mühlheim, propriedade que lhe concedeu o Imperador, denominada mais tarde Seligenstadt.

Lá ele começa a redigir, segundo o modelo de Suetônio na Vida dos doze Césares, a Vita Carolis Magni, na qual se encontra o testemunho vivo de tudo quanto ele viu e admirou em Carlos.

Uma preciosa biografia — mesmo porque única — para um conhecimento autêntico do Imperador.

No fim da vida, Eginhardo levou a vida de um monge. Em Steinbach, na proximidade de Michelstadt, pode-se visitar a basílica que ele construiu. Um belo testemunho da arquitetura carolíngia.

(Fonte: Renato Murta de Vasconcelos. CATOLICISMO, fevereiro de 2015

continua no próximo post: Os antepassados de Carlos Magno



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terça-feira, 16 de maio de 2023

São Guilherme, bispo de Bourges, e a sensibilidade das almas à Igreja

São Guilherme, bispo de Bourges, convertia os hereges mais duros
São Guilherme, bispo de Bourges, convertia os hereges mais duros
Luis Dufaur
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São Guilherme, bispo de Bourges encontrou em uma legislação tremenda contra os hereges.

Entre outras coisas, os bens dos hereges deveriam ser confiscados. Eram penas tremendas quando alguém estava declarado em crime de heresia.

Ele não revogou nenhuma lei, não desprestigiou nenhum costume antigo, mas começou a chamar os hereges, sobretudo os piores e mais obstinados, para conversar com eles.

Tal foi sua capacidade de persuasão, e tal foi a força de contágio do que ele dizia, que os hereges mais endurecidos, sem nenhuma exceção, se comoviam e mudavam de vida.

Então, não era necessário aplicar daquelas penas, porque a Igreja é mãe. Quando ela vê que um herege é tocável pelas palavras de afeto e misericórdia, Ela não vai com a chibata.

São Guilherme, vitral da catedral de Bourges
São Guilherme, vitral da catedral de Bourges
Este bispo agia com muita sagacidade. Os hereges que se emendavam, era dispensados.

Mas a pena de confisco de bens ficava colocada numa suspensão.

Eles não tinham seus bens confiscados, mas, se voltassem para a heresia, seus bens seriam confiscados.

De maneira que eles ficavam presos ao bem pela doce força da persuasão e pela força dura da ameaça de sanções econômicas.

Compreende-se toda a razão da doçura desse bispo.

São Guilherme ameaçou pegar em armas  para defender os direitos da Igreja
São Guilherme ameaçou pegar em armas
para defender os direitos da Igreja
O Rei Felipe Augusto e certos nobres das redondezas de Bourges, vendo a doçura extrema de São Guilherme, resolveram atacar sua igreja e confiscar-lhe alguns dos seus direitos, certos de que o bispo não contestaria.

O bispo se levantou como uma fera! Declarou que pegaria até em armas para defender os direitos da Igreja.

Felipe Augusto e os nobres recuaram... Eles ficaram compreendendo de que força era essa mansidão.

Não se pode dizer que na Idade Média as almas fossem menos infensas ao mal ou que elas fossem naturalmente postas no bem.

O homem, concebido no pecado original, tem uma grande propensão para o mal, e, naturalmente, também é susceptível de querer o bem quando é fiel à graça de Deus.

Mas as almas eram capazes de serem arrastadas, de serem modificadas.

Portal de São Guilherme na catedral de Bourges.  O ódio revolucionário decapitou a imagem de um santo tão equilibrado.  No fato se apalpa a diferença do espírito medieval com a dureza moderna.
Portal de São Guilherme na catedral de Bourges.
O ódio revolucionário decapitou a imagem de um santo tão equilibrado.
No fato se apalpa a diferença do espírito medieval com a dureza moderna.
A extrema severidade: única atitude apostólica em relação ao coração endurecido

E hoje as almas são graníticas. Não se movem. São de uma rigidez cadavérica.

Isto explica nossa tese de que chegamos a um fim de que só uma extrema severidade pode alguma coisa em relação ao coração endurecido.

Alguém aqui me levantou um problema: por que o homem contemporâneo não se comove?

É porque não tem quem o comova, ou por que ele realmente é incomovível?

O que acontece é que aos olhos de Deus, povo e comovedores constitui um todo só.

Nós vemos que, certas vezes, todo um povo se perde porque um príncipe é ruim.

Outras vezes é Deus que dá ao povo um príncipe ruim, porque o povo é perdido.





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terça-feira, 2 de maio de 2023

O bispo D. Jeronimo pede ao Cid a honra de dar os primeiros golpes aos muçulmanos

Luis Dufaur
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O bispo Dom Jeronimo
A Santa Missa lhes canta,
E uma vez a Missa dita,
Esta alocução lhes dava:
“A quem na luta morre
Pelejando face a face,
Lhe perdôo os pecados
E Deus lhe colherá a alma.

E a vós, meu Cid dom Rodrigo,
Que cedo cingistes espada,
Pela Missa que cantei
Para vós esta manhã,
Peço-lhe me concedeis,
Em troca a seguinte graça:
Que as primeiras feridas
Sejam feitas por minha espada”.
Disse-lhe o Campeador:
“Desde já lhe são outorgadas”.

(Fonte: Cantares de Mio Cid – Estrofe 94)







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