quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O milagre de Nossa Senhora
e a reconquista da capital da Hungria

Carlos de Lorena toma Buda, castelo de Buda
Carlos de Lorena toma Buda, castelo de Buda
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Continuação do post anterior: A Reconquista de Budapeste invadida pelos turcos



O cerco da cidade de Buda

Nessa época, Budapeste, atual capital húngara, era dividida em duas cidades, Buda e Peste.

Os austríacos lançaram-se diretamente ao ataque contra Buda, deixando de lado — contrariamente à expectativa dos turcos — outras cidades importantes.

Buda era a décima cidade mais importante do mundo muçulmano, considerada pelos turcos como a “casa da guerra sagrada”, baluarte limítrofe do Islã na Europa e chave do Império Otomano.

Por isso, tinham-na abastecido bem de mantimentos, armas e pólvora. Para a defesa, posicionaram-se mais de 16 mil homens de tropas de elite, sob o comando de Abdulrahman Paxá.

O cerco começou em 18 de junho de 1686 e o primeiro assalto ocorreu no dia 24, dia de São João, visando o muro inferior. Os turcos instalaram muitas minas em ambas as partes dessa muralha.

No dia 15 de julho, quando a explosão numa dessas partes abalou os muros da cidade, o general cristão deu o sinal de assalto. Infelizmente, a explosão de outra mina causou particular dano aos cristãos, e a investida foi rechaçada.

Mais de 1.400 soldados imperiais morreram nessa batalha, além de muitos espanhóis, dentre os quais o Duque de Béjar, comandante de um regimento de Flandres.

Durante os 15 dias seguintes, um bombardeio é desfechado contra a cidade.

Destacou-se na ocasião um frade franciscano, Pe. Gabriel, denominado pelos húngaros “Gabriel, o entusiasmado”, que se revelou mestre em artilharia; e junto a ele, um espanhol de nome González, inventou uma forma aprimorada de morteiros.

Uma explosão e a imagem de Nossa Senhora aparece

Subitamente, uma bala incendiada atinge um armazém de pólvora dos otomanos e o fez voar. A terra estremeceu até uma grande distância ao redor, o rio Danúbio saiu de suas margens, e no muro abrindo um grande rombo.

E para espanto dos turcos, atrás de uma parede que desmoronou na antiga igreja do castelo de Buda, transformada em mesquita, apareceu uma imponente Imagem de Nossa Senhora em seu nicho, que ali permanecera escondida e esquecida desde a invasão otomana, 150 anos antes.(1)

Os próprios sitiantes cristãos ficaram tão espantados pela explosão, que no primeiro momento deixaram de atacar.

O duque de Lorena imediatamente requisitou a rendição, mas Abdulrahman respondeu que todas as cabeças da guarnição estavam consagradas à morte, e que o ruído de uma torre de pólvora que voa não era capaz de os assustar.

Imagem de Nossa Senhora na capela de Loreto da igreja de São Matias, Budapeste
Imagem de Nossa Senhora na capela de Loreto da igreja de São Matias, Budapeste
Em 27 de julho, ocorreu um segundo assalto. Foi uma luta de gigantes, destacando-se especialmente os bávaros, que lutaram como leões. Das muralhas, sacos de piche e enxofre chamejantes eram lançados.

Luís de Baden-Baden e Eugênio de Saboia detinham o recuo e levavam novas tropas para a linha de frente.

A bandeira imperial já tremulava na brecha, quando uma mina explodiu no meio dos cristãos causando grandes estragos; alguns que já haviam penetrado na cidade morreram nessa ocasião.

A jornada deste dia custou a vida de cerca de quatro mil cristãos. Ao receber novas intimações, o Paxá respondeu que era impossível entregar a fortaleza, que o “Profeta” rechaçaria o próximo assalto como fizera com os anteriores.

Abdulrahman dispôs-se a entregar qualquer outra fortaleza da Hungria, mas não Buda; embora, depois, até Buda, se com isso se pusesse termo à investida cristã; ao que Carlos de Lorena respondeu que então só uma rápida rendição poderia salvá-lo.

A situação dos cristãos também ficara grave, pois o Grão-vizir chegou com um exército de 80 mil homens em socorro do Paxá. Os cristãos teriam agora de se defender e entrincheirar.

O grão-vizir a seguir iniciou pequenos combates para tentar cansar os cristãos e introduziu reforços na cidade de Buda.

Os cristãos também não quiseram empreender uma batalha decisiva, pois esperavam igualmente reforços.

Não obstante, em 10 e 14 de agosto se travaram sérios combates em Hamzsabég, nos quais mais de oito mil turcos pereceram.

Trezentos janízaros conseguiram chegar à cidade, mas fracassaram outros intentos de fazer penetrar reforços em Buda.

Tendo Abdulrahman recusado uma última intimação de rendição, o duque de Lorena decidiu conquistar a fortaleza sob as vistas do próprio grão-vizir Solimão.

Em 2 de setembro de 1686, às 6 horas da manhã, começou o assalto no qual pela primeira vez se empregou a baioneta em grande escala. Ambas as partes lutaram com suma bravura.

O paxá morreu lutando ferozmente, enquanto outros quatro mil turcos caíram ao fio da espada. À noite, em ação de graças pela vitória, cantou-se o Te Deum na igreja principal da cidade libertada.

O mais notável entre os prisioneiros foi o Agá dos janízaros, Maomé Csonkabeg. Convertendo-se, ele se fez batizar com o nome de Leopoldo, em homenagem ao imperador austríaco.

Posteriormente foi elevado à nobreza, recebeu um regimento húngaro e lutou com muito valor pelo imperador junto ao rio Reno.

No dia seguinte, após celebrar a Missa, o Beato D’Aviano promoveu uma procissão com a Imagem de Nossa Senhora que fora encontrada nas paredes da mesquita.

Considerada como autora da explosão, foi-lhe concedido o título de “Nossa Senhora da Pólvora”.

Nenhum príncipe se alegrou tanto com a conquista dessa importante cidade como aquele que ocupava então a Cátedra de Pedro, o grande Papa Beato Inocêncio XI.

Os otomanos haviam dominado Buda durante 145 anos e sua perda abalou-os profundamente.

As cidades de Simontornya e Siklos se renderam ao Marquês de Baden-Baden. Kaposvár e Torda foram incendiadas, Pécs foi dominada e Szeged conquistada após um cerco de quatro semanas.

O grão-vizir foi obrigado a retirar-se para Belgrado.

_________________

Notas:

Principal fonte consultada: Historia Universal, Juan Baptiste Weiss, Editora Tipografia La Educación, Tradução da 5° edição alemã, Barcelona, 1930, Vol. XI, p. 917 a 923.

1. Sobre a Imagem Milagrosa: http://www.adorans.hu/node/2414
http://www.sacred-destinations.com/hungary/budapest-matthias-church
http://www.templom.hu/phpwcms/index.php?id=14,164,0,0,1,0

(Autor: Ivan Rafael de Oliveira, CATOLICISMO, outubro de 2016)



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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A reconquista de Budapeste invadida pelos turcos

O Beato Papa Inocêncio XI foi o inspirador
e o vencedor da reconquista de Buda.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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“Foi o Santo Padre quem conquistou Buda, como libertou Viena. Há séculos não havia sentado outro Papa semelhante na Cátedra de Pedro”, afirmou Jaime II, Rei da Inglaterra, ao saudar o Núncio Apostólico após a reconquista de Buda, que será narrara a seguir.

Uns após os outros, castelos, fortalezas e cidades iam sendo retomados pelos austríacos das mãos dos muçulmanos.

Após tantas derrotas, Américo Thököly, que liderara a traição dos húngaros, foi preso por seus aliados muçulmanos e seria executado, se Solimão, “o trapaceiro”, não tivesse derrubado e substituído o grão-vizir, o Negro Ibrahim.

O novo comandante deu liberdade a Thököly e enviou-o com novos destacamentos à Hungria.

Em outro anterior, Santa Liga e Reconquista, foram descritas as batalhas travadas pelo Império Austríaco, Polônia e Veneza, membros da Santa Liga, de 1683 a 1685, visando reconquistar os territórios católicos dominados pelos turcos.

Neste artigo, enfocaremos a gloriosa batalha que libertou Buda, antiga capital da Hungria.

A Rússia entra para a Santa Liga

O Papa Inocêncio XI desejava ardentemente a libertação de tantas nações cristãs oprimidas pelos muçulmanos.

No ano anterior, os poloneses alcançaram pouco sucesso em sua luta contra os turcos.

Para favorecer as batalhas travadas em 1686, o Sumo Pontífice enviou 200 mil florins ao rei da Polônia, 100 mil oferecidos por Cardeais e 100 mil por damas romanas.

O rei da Polônia, João Sobieski, havia planejado grandes lances por parte da Santa Liga. Então, não só os turcos como também os tártaros deveriam ser rechaçados da Europa.

Essa iniciativa ficaria a cargo da Rússia, caso esta aceitasse ingressar na Santa Liga. Visando à reconquista de Constantinopla, a Áustria deveria avançar a partir da Hungria, enquanto os venezianos viriam pelo sul da Grécia e os poloneses pelo rio Danúbio.

Era desejo de toda a Cristandade obter a destruição do império sob Maomé IV, formado por Maomé II.

Em 26 de abril de 1686, a princesa Sofia Romanov, regente do Império russo, confirmou a aliança contra os turcos.

Os russos deveriam atacar os turcos e os tártaros, desde o Cáucaso até o rio Dniester. Ficaria assim seriamente ameaçada a existência do Império Otomano.

Renasce o glorioso espírito de Cruzada

Sob o comando do duque Carlos de Lorena, na primavera de 1686 o exército imperial congregou-se na cidade de Komarno.

Eugênio de Saboia, monumento em Viena.
Eugênio de Saboia, monumento em Viena.
Todas as regiões do império enviaram valiosos auxílios para a reconquista de Buda: apresentaram-se mais de seis mil suábios, oito mil de Brandenburgo, cinco mil saxões, oito mil bávaros e três mil francônios.

Incentivados pela vitória obtida em Viena e pela valentia dos que estavam na luta, alistaram-se também mais de sete mil voluntários provenientes de todos os países da Europa.

O espírito das Cruzadas parecia ter retornado a empolgar a Cristandade. Personagens distintas e pessoas humildes chegavam decididas a morrer pela Cruz de Cristo.

Os acontecimentos do cerco de Buda eram seguidos com grande expectativa em todo o continente europeu. Em julho, ainda chegaram mais regimentos vindos da Suécia.

Vários espanhóis eminentes destacaram-se na luta em torno de Buda. Só em Barcelona, 60 artesãos fizeram votos de combater os turcos; todos eles, durante o cerco, entregaram suas almas a Deus.

Grande incentivo para eles foi a figura do príncipe Eugênio de Saboia, que, após a campanha de 1685, foi a Madri, sendo aí tratado pelo monarca hispânico como Grande de primeira classe.

Nessa ocasião, Eugênio se apressou para tomar parte nessa grande expedição. Na corte de Viena, depositavam-se nele as maiores esperanças.

O marquês Luís de Baden-Baden o havia recomendado ao imperador austríaco: “Esse jovem saboiano igualar-se-á um dia a todos aqueles que o mundo considera hoje como grandes generais”.

Por desejo do Imperador, o Papa enviou o frei Marco D’Aviano ao exército cristão. O intrépido capuchinho, depois beatificado, teve por encargo ser mediador entre os chefes e entusiasmar os soldados.


Continua no próximo post: O milagre de “Nossa Senhora da Pólvora” e a reconquista da capital da Hungria


(Autor: Ivan Rafael de Oliveira, CATOLICISMO, outubro de 2016)




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