quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O leão que afastou o “flagelo de Deus” das portas de Roma

São Leão Magno dissuade Átila, Rafael
São Leão Magno dissuade Átila, Rafael.


Continuação do post anterior: Um Papa leão contra as heresias

Um perigo de outra ordem surgiu no horizonte. Átila, rei dos hunos, que a si mesmo chamava de “Flagelo de Deus”, tudo destruía nas Gálias.

Tongres, Treves e Metz foram pilhadas; Troyes foi salva por São Lupo, e Orleans por Santo Aniano. Batido nas planícies de Chalons pelos esforços conjuntos de Aécio, Meroveu, rei dos francos, e Teodorico, rei dos visigodos, Átila voltou-se para o norte da Itália, destruindo tudo a ferro e fogo.

Muitos se refugiaram nas pequenas ilhas existentes nas lagunas do Mar Adriático, dando origem a Veneza. Átila saqueou Milão; e o imperador Valentiniano III, não se julgando a salvo em Ravena, fugiu para Roma. O imperador, o senado e povo só viram uma saída para conjurar a situação: que São Leão fosse parlamentar com o invasor.


Para São Leão, sua missão era clara: salvar o mundo cristão, e também sua pátria e seu povo. Mas a tarefa não era nada fácil, e o sucesso imprevisível.

São Leão foi encontrar-se com o temível bárbaro nas proximidades de Mântua, revestido de todos os paramentos pontificais e acompanhado por sacerdotes e diáconos em trajes sacerdotais.

“Como um leão que não conhece medo nem tardança, este varão se apresentou para falar ao rei dos hunos em Peschiera, pequena cidade próxima de Mântua, e moveu o vencedor a voltar”, diz um cronista da época.

Átila intimidado pelo milagre de São Leão Magno se afasta de Roma
Átila intimidado pelo milagre de São Leão Magno se afasta de Roma
Outro contemporâneo, São Próspero da Aquitânia, afirma que São Leão “abandonou-se ao auxílio divino, que nunca falta ao esforço dos justos, e o êxito coroou sua fé”.(6)

Átila prometeu viver em paz com o império mediante um tributo anual. Fez cessar imediatamente as hostilidades, e pouco depois, fiel à sua palavra, retornou aos Alpes.

Os bárbaros perguntaram então a seu chefe por que, contra seu costume, havia mostrado tanto respeito para com o Papa, a ponto de obedecer tudo quanto ele havia proposto.

Átila respondeu que “não foi a palavra daquele que veio me encontrar que me inspirou um medo tão respeitoso; mas eu vi junto a esse Pontífice um outro personagem, de um aspecto muito mais augusto, venerável por seus cabelos brancos, que se mantinha em pé, em hábito sacerdotal, com uma espada nua na mão, ameaçando-me com um ar e um gesto terríveis, se eu não executasse fielmente tudo o que me era pedido pelo enviado”.

Esse personagem era o Apóstolo São Pedro. Segundo outra tradição, o Apóstolo São Paulo estava também presente.

Não nos resta nenhum relato contemporâneo dessa intervenção dos Apóstolos. Mas a tradição que no-lo narra está consagrada pela autoridade do Breviário Romano.(7)

Outra invasão de Roma, outras circunstâncias

O Sumo Pontífice ordenou preces públicas para agradecer a Deus tamanho benefício. Mas o povo volúvel logo se esqueceu do magnífico favor, e se entregou às diversões como jogos no circo, teatros e deboches.

O imperador não foi o último a dar o mau exemplo da imoralidade mais revoltante. Num sermão, São Leão aplicou ao povo as palavras de Jeremias (5, 2):

“Vós os atingistes, e eles não sentiram; vós os quebrastes de golpes, e eles não quiseram submeter-se ao castigo”. Emocionado, acrescentou: “Queira Deus que estes males sirvam para a emenda dos que sobrevivem, e que, cessando as desgraças, cessem também as ofensas”.(8)

São Leão Magno, bronze na Schatzkammer, Viena
São Leão Magno, bronze na Schatzkammer, Viena
Mas sua advertência não foi atendida. Por isso, três anos depois, São Leão já não foi tão bem sucedido com o vândalo Genserico.

O que o Pontífice pôde obter dele foi que não queimasse a cidade e respeitasse a vida de seus cidadãos.

E que estaria a salvo tudo o que se pudesse recolher nas três grandes basílicas de Roma. Mas Roma foi saqueada durante 15 dias. Ninguém morreu, mas muitos ficaram na miséria.

O Pontífice procurou socorrer os necessitados e reconstruir a cidade, declarando outra vez que esses males se deviam à impiedade do povo. E exclamou:

“Meu coração está cheio de tristeza e invadido por um grande temor. Porque estão em grande perigo os homens quando são ingratos a Deus, quando se olvidam de suas mercês e não se arrependem depois do castigo, nem se alegram com o perdão”.(9)

São Leão enviou missionários à África para atender os cristãos cativos que Genserico levou consigo.

A rica coleção de cartas e sermões admiráveis que nos legou São Leão Magno — e que lhe mereceram o título de Doutor da Igreja — são um claro espelho da história de seu tempo.
“Com ele vemos pela primeira vez o Papado medieval em toda sua concepção grandiosa e sua intransigência necessária, e nele resplandece o duplo elemento que garante a vida divina da Igreja: autoridade e unidade”.(10)

O grande Papa e santo faleceu em Roma no dia 10 de novembro de 461, e foi declarado Doutor da Igreja em 1754.

(Autor: Plinio Maria Solimeo, apud CATOLICISMO)

Notas:
1. J.P. Kirsch, Pope Saint Leo, The Catholic Encyclopedia, online edition, www.newadvent.com.
2. Les Petits Bollandistes, Vies de Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo IV, p. 328.
3. Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo II, p. 101.
4. J.P. Kirsch, id., ib.
5. Ver nosso artigo sobre Santa Pulquéria em Catolicismo, edição de setembro de 2008.
6. J.B. Weiss, História Universal, Tipografia La Educación, Barcelona, 1927, tomo IV, p. 328.
7. Les Petits Bollandistes, op. cit. p. 333.
8. Fr. Justo Perez de Urbel, op. cit., p. 103.
9. Id., ib., p. 105.
10. Id., Ib., p. 108.



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