quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O batismo de sangue de São Nuno Alvares


Este moço, que Leonor Teles, pasmada do seu ardimento de criança, por suas mãos armou cavaleiro aos treze anos de idade, servindo-se do pequeno arnês do Mestre de Avis, e depois andou por morador em casa de el-rei, como escudeiro da rainha, tem agora vinte e dois anos. De pouca figura, ruivo como cenoura, rosto afiado, face seca de um vermelho sujo de sardas, aqui e acolá, no buço e no mento, punge uma penugem de faúlhas de oiro.

Todo o valor expressivo está na testa alta e larga, na boca miúda de lábios de reza e no sonho pertinaz de dois pequenos e estranhos olhos azuis, cândidos e enérgicos, que no fundo das órbitas concentram pureza e poder.

De pequena estatura, vergonhoso e calado, vive para si, vive para dentro. Parece calmo. Súbito explodem naquele corpo estreito rebentinas bravas, e todo o seu místico ser se agita, se transforma em ação, que derrui com violência e edifica com beleza. É a piedade feita energia, a oração feita espada. A idéia de bem servir seu reino e seu rei é nele obcecante. E este sentimento, feito de muitos sentimentos, enche-o, exalta-o.

Assim pensando e sentindo, esta alma nobre vive, por esse tempo, esmagada nas suas aspirações e ofendida pelo que vê em volta de si. Nuno Álvares é violentado a assistir, de braços cruzados, aos enxovalhos cuspidos sobre a sua amada terra, que ingleses, vindos para a defender, saqueiam, e castelhanos já pisam para a possuir e arrebatar. Freme. Contorce-se. Derranca-se. Desde o inverno busca lutar, e não lho permite o irmão. Requesta o inimigo para duelos, dez contra dez, e proíbe-lho o rei. Tanto empacho enoja-o.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O conde Fernán Gonzales, o califa e o ermitão

Túmulo de Don Fernán Gonzalez, Covarrubias, cruzadas, 1º conde de Castela
Túmulo do conde Fernán Gonzales
Estava o conde Fernán Gonzales caçando com os seus cavaleiros na vila de Lara. De repente, um feroz javali saiu disparado de um matagal. O conde, desejoso de caçar tão boa presa, sem esperar por seus companheiros, saiu a cavalo em perseguição ao animal, que corria velozmente.

Por fim chegou a uma ermida desconhecida, onde o javali se meteu pela porta. Então o conde, pegando a espada, se dirigiu à ermida, onde a fera tinha entrado.

O javali havia se refugiado atrás do altar. O conde se ajoelhou diante do altar e começou a rezar. Neste momento saiu da sacristia um monge de venerável aspecto e avançada idade, apoiado num rude e retorcido cajado. Aproximou-se do conde e saudou-o, dizendo:

— Vinde em paz, conde! A caçada te trouxe até aqui, mas prepara já as montarias, pois te aguarda o Rei Almanzor, o terrível inimigo dos cristãos. Dura batalha te aguarda, pois o mouro traz muitos guerreiros. Mas alcançarás grande vitória. E ainda te digo que antes de começar a batalha terás um sinal, que te fará arrepiar a barba e aterrorizará a todos os teus cavaleiros. Agora vai, vai lutar, que hás de alcançar a vitória.

O conde agradeceu ao monge por suas palavras e saiu da ermida. Montou a cavalo e galopou através da mata, até encontrar seus cavaleiros, já impacientes pela tardança de seu senhor.

O conde ordenou seu batalhão e se dirigiu ao encontro de Almanzor, que vinha correndo para o ataque. Quando viram o exército mouro, prepararam-se para o combate. O conde viu, entretanto, que tinha poucos soldados. Nisto um cavaleiro cristão se adiantou, passando velozmente diante do exército dos infiéis.

Apenas galopou um pouco, e a terra se abriu, tragando o cavaleiro. Depois se fechou, e tudo ficou como antes. Grande terror se difundiu pelo exército cristão, mas Fernán Gonzales, que sabia que esse era o temeroso sinal anunciado pelo monge da ermida, disse em alta voz a seus cavaleiros:
— Não temais! Se a terra não é capaz de suportar-nos, quem poderá conosco? Vamos para o ataque!

Túmulo de Don Fernán Gonzalez, Covarrubias, cruzadas, 1º conde de CastelaE se lançaram contra os mouros, que já galopavam também, prontos para o encontro. O choque dos exércitos foi terrível. Os cristãos, apesar de serem poucos, conseguiram resistir ao primeiro ataque dos mouros, e logo estes começaram a retroceder.

O conde, que havia sido quem dera as primeiras baixas no adversário, animava seus guerreiros, e era o mais valente de todos. Ao cabo de algumas horas os mouros fugiram, deixando todos os despojos em poder das hostes do conde. Grande vitória para os cristãos, que retornaram cheios de alegria.

O conde separou uma parte dos despojos e foi à ermida, para entregá-la ao monge que lhe profetizara a vitória. E o encarregou de erguer uma igreja, que foi logo o famoso Mosteiro de São Pedro de Arlanza.

O califa Abderramán recebia dos cristãos um tributo a cada ano. Mas em determinada ocasião os reis D. Ramiro de Castela e D. Garcia de Navarra, e Fernán Gonzales, que era o conde tributário de Castela, se negaram a pagar o vergonhoso tributo. E não só se negaram a pagar, mas mataram os insolentes mensageiros que o califa mouro enviara para reclamar o tributo.

Quando isto chegou aos ouvidos de Abderramán, este se enfureceu, e com seu exército entrou no território dos castelhanos, destruindo os campos e fazendo cruel vingança contra os habitantes daquelas terras.

O Rei D. Ramiro, recebendo o aviso da proximidade do exército mouro, preparou seus guerreiros, que esforçadamente saíram ao encontro do inimigo. Disseram-lhe que os muçulmanos vinham em grande número, mas ele não deu muito crédito. Mas quando viu chegar a enorme hoste sarracena, voltou até Simancas, e dali enviou cartas a Fernán Gonzales e ao Rei Garcia.

Acudiram os dois ao mesmo tempo. Mas todo o exército cristão não chegava a alcançar nem a metade dos muçulmanos. Então o Rei Ramiro disse:
— Não tenho nenhum conselho que possa servir-nos. Grande é a hoste dos infiéis mouros e minguada a nossa. Mas temos a proteção de São Tiago, que está enterrado em terras galegas. Por ele obra Nosso Senhor grandes milagres, e a ele quero me encomendar, e prometo dar-lhe meu reino se nos ajudar nesse apuro.

Fernán Gonzales e D. Garcia responderam:
— Em nossa terra há o corpo de Sto. Millán, que também opera grandes milagres. A ele nos entregamos, e juramos dar-lhe tributo.

No outro dia de manhã saíram da fortaleza e se dispuseram para o combate. Antes de começar, todos os cristãos se ajoelharam para rezar.

Os mouros, vendo seus inimigos nesta posição, pensaram que estes, aterrorizados, queriam se entregar. Lançaram-se contra eles, mas os fiéis de Cristo montaram em seus corcéis rapidamente e detiveram o ímpeto de seus inimigos. Grande fúria foi a dos castelhanos, leoneses e navarros.

E ainda aumentaram seu valor quando, em meio ao combate, viram aparecer dois desconhecidos cavaleiros que, montados em formosos corcéis brancos, se puseram à frente dos exércitos cristãos.

E destroçaram os mouros de tal modo, que eles acreditavam que, em vez de dois, havia dois mil cavaleiros sobre os corcéis. Atrás dos dois avançavam os cristãos, e desde Simancas até Aza perseguiram os mouros, que fugiram vencidos.

Grande foi a alegria dos católicos. Quando procuraram os dois cavaleiros, que tanto contribuíram para a vitória, não puderam encontrá-los, e compreenderam que eram os dois santos a quem haviam prometido pagar tributo, se os ajudassem.
E desde então esse tributo foi pago.

(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 27)



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Fernão Antolínes, o herói que uma vez não chegou ao combate

Fernán Antolinez, Heróis medievais
Fernán Gonzales, primeiro conde de Castilla, guerreava continuamente contra os mouros, fazendo tal número de mortos que não podiam ser contados. Derramou o sangue de vários reis muçulmanos, cujos reinos ele ia incorporando ao reino de Castilla.

O bom conde foi em busca dos exércitos muçulmanos que, saindo de Gormas, na província de Soria, acamparam no vale de Cascavajes. Aí os enfrentou Fernán Gonzales, acompanhado de seu valoroso exército formado pelos mais nobres cavaleiros castelhanos.

Entre estes estava Fernán Antolinez, cavaleiro profundamente religioso, que tinha o costume de ir à igreja todos os dias, ao romper da aurora, e aí permanecer rezando enquanto não tivesse terminado a última missa.

Existia ali perto um magnífico santuário, que o conde Garcia Fernandez havia fundado perto do castelo de Santo Estêvão. Fernán Gonzales fez grandes doações a este mosteiro, e trouxe para ali habitar oito monges do mosteiro de São Pedro de Arlanza.

No dia em que o conde esperava que se desse a batalha contra os mouros, seria rezada ali a primeira missa. Fernán Gonzales, seguido de seus cavaleiros, entrou na igreja e ouviu devotamente a missa. Uma vez terminada, armou-se de todas as suas armas, e todos os cavaleiros o imitaram. Em seguida saíram do santuário, e montando seus cavalos, partiram rapidamente em busca das tropas árabes que estavam no vale de Cascavajes.