quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Santo Odilon (II), um abade que modelou a Cristandade

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Das palavras de Santo Odilon defluía a alegria. Quando contava qualquer coisa, era de tal modo vivo que nos forçava a rir.

Mas ele, que prendia bem as rédeas, nos indicava logo um capítulo da Regra: “Detestar o riso estúrdio e cadenciado”.

Ou ainda: “O monge não deve ser leviano e pronto a rir, porque está escrito: É o tolo que estoura a rir”.

De um modo ou de outro, prendia nossa hilaridade, mas seu gozo espiritual nos havia sido comunicado e dilatava nossa alma. “Eu me esforçarei – dizia ele – por ser veraz antes que eloqüente. Nosso ministério não se pode permitir as pequenas glórias de um discurso pomposo. Nós nos esforçamos por ser, e não por parecer”.

A temperança vem por último, na lista das virtudes. Por definição, ela guarda a medida e a ordem de tudo aquilo que é preciso dizer e fazer. Santo Odilon a praticava de modo excelente. Em seus atos ou em suas ordens, ele guardava a medida, mantinha a ordem, mostrava uma admirável discrição.

Seguia o conselho de São Jerônimo: como um cocheiro, conduzia seus jejuns, segundo suas forças ou sua estafa. Assim, ele tomava um pouco de tudo que lhe traziam, para evitar o escrúpulo, mas se regrava, sem dar ocasião a ninguém de louvar suas privações.



Suas vestes eram somente as necessárias, sem mais. Elas não podiam ser con-sideradas nem muito belas nem muito miseráveis. Já que nada vale mais que o exemplo, para fazer entender as coisas, não será fora de propósito contar a história de Guiges, Conde de Albon. Ele foi salvo pela discrição de Santo Odilon, em circunstâncias pouco comuns.

Este Guiges, conversando um dia com Santo Odilon, disse entre outras coisas que tornar-se monge, para ele, era uma coisa impossível, a menos que lhe fosse per-mitido conservar suas vestimentas seculares.

O homem de Deus tomou-lhe ao pé da letra a palavra, e aquiescendo a seu capricho, ganhou essa alma para Deus, porque ele se tornou monge.

No início era visto ir e vir com seus belos trajes confortáveis, em vez do hábito. Mas, à força de ter sob os olhos a humildade dos frades, a simplicidade de suas vidas e de suas vestes, começou a ter-se por um intruso entre as ovelhas de Cristo.

Espontaneamente, alijou suas belas coisas do século, e eis que, num breve prazo, cerca de vinte dias depois de sua conversão, morreu santamente.

Colocado acima dos outros, Santo Odilon procurava voluntariamente a humildade e a compunção. Ele julgava a si próprio, de mais bom grado do que repreendia os outros.

Era tão empenhado em obras de misericórdia, que jamais recusava ajuda a ninguém. Levava vida comum com os Irmãos, a ponto de partilhar, com quem lhe pedisse, tudo aquilo que fosse de seu uso.

Um dia, fizeram-lhe saber que um Irmão tremia de frio, e ele refletia nisso tristemente, não achando nada para dar-lhe. Na noite seguinte, estando no coro, pensava sempre na nudez do Irmão: o que fazer para vesti-lo? De repente, chamou-o por sinais a sair do coro, e tirando às ocultas seu colete, deu-lho para se cobrir.

Nada escapava a seu zelo

Não posso descrever em detalhes sua caridade fraternal. Ele a espalhava por seu próprio afeto, antes de pregá-la. Ensinava-a, sobretudo por atos, porque amava os Irmãos com o calor íntimo de sua alma.

Queria fazer crescer cada um deles, impulsioná-los ao amor divino, e com isso avivava sua própria alma. Jamais desprezava ou repelia ninguém. Por uma caridade verdadeiramente divina, convidava todo mundo, sem reservas, a gozar de sua indulgência.

Aquele que ama verdadeiramente é engrandecido e sobre-elevado pela graça de sua própria consciência, e ele ardia de desejo e de amor. Amava, com uma carida-de bem ordenada, a Deus mais do que a si mesmo, ao próximo como a si mesmo, e às coisas menos do que a si mesmo.

Manso e paciente, dava graças quando se lhe fazia mal, mas chorava se a in-justiça atingira os pobres. Porque Cristo disse: “Tudo o que fizeres a um de meus pequeninos, é a Mim que o fareis”.

Procurava prover os seus necessitados com o mesmo zelo que teria se tivesse diante de si a própria pessoa de Cristo. Por isso era constantemente assediado por uma multidão de mendigos.

Intendente fiel e sábio, coletava para eles víveres e vestimentas. Fez mesmo construir casas para os leprosos, às escondidas e como se fosse obra de outros, para que essa boa obra não lhe fosse atribuída.

Durante os anos de miséria, quebrou, para dar aos pobres, muitos vasos sagrados, assim como insignes peças de ourivesaria, entre elas a própria coroa do Imperador Henrique. Porque julgava indigno reservar esses objetos enquanto os pobres tinham fome, eles por quem Cristo deu o Seu sangue.

Sua solicitude se estendeu aos bens exteriores, que geriu conscienciosamente. Seu labor valeu ao mosteiro um crescimento de prosperidade, que todo mundo pôde ver. Não somente fez construir a igreja, mas dotou-a de ornamentos preciosos. Estendeu suas terras.

Para distribuir aos Irmãos os objetos de uso, decidiu sabiamente que cada mês os religiosos encarregados dos estoques dariam a todos o necessário.

Assim o convento estaria sempre em paz. Assim fazendo, pensava na tranquilidade dos Irmãos, não os querendo deixar necessitados.

Aplicando seu espírito a essas questões materiais, conservava um constante cuidado com os valores interiores. Sua alma fervente procurava promover o fervor da observância.

Suprimiu do mosteiro um bom número de estudos supérfluos, e introduziu em contrapartida aquelas que podiam favorecer a vida religiosa. Proibindo aquilo que era pouco útil, procurou sempre, em tudo e através de tudo, a dignidade e a santidade da igreja de Cluny.

(Fonte: resumo de Pe. P. Jardet, “Saint Odilon, abbé de Cluny ‒ Sa vie, son temps, ses oeuvres”, Imprimerie Emmanuel Vite, Lyon, 1898.)



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