quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Santo Odilon (I), modelo das virtudes cluniacenses

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A abadia de Cluny, na Borgonha, França, está comemorando seu 1.100 aniversário.

Ela foi a alma e a cabeça do monasticismo medieval tendo chegado a estar à testa de um conjunto de 30.000 abadias e casas monásticas na Europa toda.

Na construção desse imenso patrimônio moral e cultural destacaram-se certas almas de elite, verdadeiros heróis dos claustros que seguiam as pegadas do grande São Bento.

Esses claustros irradiavam a espiritualidade, a cultura e a civilização para toda a Cristandade.

Dentre esses heróis pouco conhecidos, destacou-se Santo Odilon, quinto abade de Cluny (962-1048). Ele provinha da nobreza de Auvergne. Mesmo antes de completar o ano de provação ele foi eleito coadjutor do Abade São Mayeul.

 E, pouco depois da morte desse santo, foi eleito em 994 abade da gloriosa Cluny. Nesse momento ainda não tinha recebido o sacramento da Ordem.

O pontificado de Santo Odilon estendeu-se por mais de meio século e modelou para sempre o perfil moral de Cluny.

O rápido e altamente qualificado desenvolvimento do mosteiro e de sua irradiação na Igreja é devido principalmente a sua caridade e cavalheirosidade, a seu apostolado e talento organizativo. (Fonte: Catholic Encyclopaedia)


Odilon tinha um passo grave e uma voz admirável. Ele falava bem. Era uma alegria vê-lo. Seu rosto angélico, seu olhar sereno, cada um de seus movimentos, de seus gestos, todo ato de seu corpo exprimia a honestidade. Cada dobra de suas vestimentas revelava a dignidade, o respeito próprio e dos outros.

Tinha em si qualquer coisa de luminoso, que convidava a imitá-lo e a venerá-lo. A luz da graça que habitava nele brilhava no exterior, por assim dizer, manifestando o quilate de sua alma.

Como o comportamento de uma alma transparece na apresentação do corpo, falemos brevemente de sua aparência exterior.

Era de porte mediano. Seu rosto exprimia simultaneamente a autoridade e a benevolência. Com os mansos mostrava-se sorridente, acolhedor.

Mas para os orgulhosos e rebeldes, tornava-se terrível, a ponto de eles não poderem suportar seu olhar. Nele a magreza acentuava a força, a palidez era uma elegância, os cabelos brancos uma distinção.


Seus olhos tinham um brilho singular, que inspirava ao mesmo tempo o espanto e o temor. Eram olhos acostumados às lágrimas, porque tinha recebido a graça da compunção.

De seus movimentos, de seus gestos, de seu passo, emanava uma espécie de autoridade, de gravidade, de paz.

Sua acolhida era um raio de alegria e de graça, uma extraordinária surpresa. Era perfeitamente senhor de si.

Sem artifícios, sem fraudes, a natureza tinha feito dele qualquer coisa de admiravelmente harmonioso e ordenado.

Santo Ambrósio tem razão em dizer que a beleza não tem lugar de virtude. Contudo, desprezaremos essa graça?

Primeiro na dignidade, ele se esforçava por ser igualmente o primeiro no trabalho, seguindo a palavra da Escritura: “Jesus se pôs a operar e a ensinar”. Grande leitor, tinha freqüentemente um livro nas mãos, mesmo em viagem.

Enquanto cavalgava, refazia na leitura as forças de sua alma.

Quando meditava os livros de sabedoria mundana, observava com sagacidade aquilo que a voz divina dita ao legislador no Deuteronômio: “A cativa estrangeira poderá tornar-se a esposa de seu vencedor arrasado e de garras cortadas”.

Autorizado por esse exemplo, guardava na sua memória aquilo que de bom achava nos livros dos filósofos.

O resto – quer dizer, o amor e o cuidado dos bens deste mundo – ele extirpava e alijava, como coisa infecta e mortal.

Perscrutava a lei divina com espírito especulativo e penetrante. A sua aplicação à leitura santa absorvia-o, a ponto de torná-lo por instantes alheio aos outros e a si mesmo.

Entregava-se, pode-se dizer, todo inteiro ao livro sacro. Lá ele auferia, das fontes do Salvador, o que distribuir em seguida gratuitamente.

Rodeava-se de doutores, desejando sempre aprender deles, enquanto todos o consideravam um poço de ciência.

Disso ele não tinha vaidade, não se considerando um grande homem, mas perscrutava as coisas divinas como uma criança, desejando com toda a alma aprender sempre.

Ávido de leituras, incansável na oração, pode-se dizer que a toda hora era útil aos outros ou a si mesmo.

Quando guardava o silêncio, estava com o Senhor. Mas se falava, era sempre no Senhor ou do Senhor.

(Fonte: resumo de Pe. P. Jardet, “Saint Odilon, abbé de Cluny ‒ Sa vie, son temps, ses oeuvres”, Imprimerie Emmanuel Vite, Lyon, 1898.)



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