quarta-feira, 28 de outubro de 2009

São Remígio (I): converteu os bárbaros francos

Durante as invasões dos bárbaros na Europa, no século V, a Gália romana apresentava todos os sintomas de decadência, próprios ao fim de uma era histórica.

Elmo de rei anglo-saxão

O Império Romano agonizava, e a Igreja, por meio de grandes santos, lutava para converter os bárbaros invasores, atraindo-os para seu seio. São Remígio foi um de seus principais apóstolos.

Nascido por volta do ano 436, filho de Santa Celina e de Emílio, conde de Laon, senhor de extraordinário mérito, era irmão de São Princípio, que foi bispo de Soissons.

Os primeiros biógrafos e contemporâneos de São Remígio afirmam que seu nascimento foi predito por São Montano, solitário de vida ascética entregue à contemplação.



Certa noite, pedindo com mais insistência a Deus Nosso Senhor que desse remédio à malícia e indiferença daqueles conturbados tempos, foi-lhe revelado que logo nasceria um varão, o qual, por sua santidade de vida, obteria a conversão dos gauleses e de seus invasores.

Arcebispo de Reims contra a vontade

Desde pequeno Remígio sobressaiu-se por uma extraordinária aptidão para a virtude e para a ciência. Fez tão rápidos progressos na perfeição e nos estudos que, falecendo o arcebispo de Reims, clero e povo o aclamaram como seu sucessor, apesar de ter somente 22 anos de idade.

De nenhum modo o jovem queria aceitar tamanha responsabilidade, alegando com razão que isso contrariava os cânones sagrados, que estipulavam a idade mínima de 30 anos para o episcopado.

A discussão foi longe. E ainda se discutia quando um raio de luz, vindo do céu, iluminou-lhe o rosto, o que confirmou clero e povo na sua determinação, agora com o beneplácito divino. Remígio deu-se por vencido.

Seus biógrafos ressaltam que era tanta sua virtude, maturidade de espírito e ciência, que ele principiou seu episcopado como o mais experimentado dos bispos.

Diz um deles, Venâncio Fortunato, que Remígio era “largo em suas esmolas, profundamente humano, assíduo em velar, constante e devoto em rezar, perfeito na caridade, insigne na doutrina, sempre preparado para falar das coisas mais altas e divinas”.(1) Atraía a todos pela bondade de seu coração, e mesmo as aves do céu vinham pousar em seus ombros e em suas mãos.

São Remígio e os bárbaros francos

O grande acontecimento do episcopado de São Remígio foi a conversão de Clóvis, quinto rei dos bárbaros francos. Este povo, saindo das planícies da Holanda, dirigiu-se para o sul, apoderando-se das melhores partes dos Países Baixos, da Picardia e da Ilha-de-França. Clóvis tornara-se rei ainda adolescente, entre os 14 e 15 anos, já como grande guerreiro, valoroso e audaz.

Tendo ele se estabelecido como rei na antiga Gália romana, que conquistara, São Remígio enviou-lhe uma carta na qual dizia:

“Um grande rumor nos chegou: diz-se que tu acabas de tomar as rédeas do governo de nossa nação. Não surpreende que sejas tu o que foram teus pais. Mas vela para que nunca te abandone o juízo de Deus, a fim de que, por teus méritos, logres conservar esse posto que conquistaste por tua indústria e nobreza, porque, como diz o vulgo, os atos do homem se provam por seu fim. Rodeia-te de conselheiros que saibam acrescentar tua honra. Sê casto e honesto; honra os sacerdotes e atende a seus conselhos, pois se vives em harmonia com eles, darás o bem-estar ao país. Consola os aflitos, protege as viúvas, alimenta os órfãos, faze com que todo mundo te ame e te tema. De teus lábios saia a voz da justiça, deixa aberta a todo mundo a porta de tua presença. Joga com os jovens, posto que és jovem, mas aconselha-te com os anciãos. E se queres reinar, mostra-te digno disso”.(2)

Embora sendo ainda pagão, Clóvis não perseguia os cristãos e tinha respeito pelos bispos e sacerdotes das cidades que submetia a seu domínio.

Cada santo é chamado a refletir de modo particular alguma das perfeições de Deus. Assim, uns se notabilizam pela fortaleza, outros pela lógica, outros pela extremada pureza.

São Remígio espelhou de modo admirável a bondade de Deus. Despido do menor vestígio de egoísmo, alegrava-se verdadeiramente com o bem do próximo.

Seu rosto espelhava a bondade do coração, e ele atraía a todos por sua afabilidade e bom trato. Isto foi uma das coisas que mais impressionaram o bárbaro Clóvis logo que o conheceu, fazendo-o admirar tanto São Remígio.

O conhecido episódio de Soissons mostra, embora com métodos bárbaros, o quanto Clóvis considerava o santo arcebispo.

Seus soldados pagãos haviam pilhado uma igreja dessa cidade, levando ornamentos e vasos sagrados. São Remígio lamentou sobretudo um cálice de prata, finamente cinzelado, e pediu a Clóvis que, se possível, o desse de volta.

Na hora da repartição dos despojos, o rei pediu como um favor que não se lançasse a sorte sobre esse cálice, mas que o dessem a ele. Todos concordaram, menos um soldado mais bárbaro, que com um golpe de acha o danificou, dizendo insolentemente ao rei que ele não o teria mais que os outros. Clóvis dissimulou seu desprazer como pôde.

Dias mais tarde, fazendo a revista de sua tropa, chegou-se diante do insolente e, sob pretexto de que suas armas não estavam em ordem, as lançou por terra. Deu-lhe então potente golpe de acha na cabeça, matando-o, ao mesmo tempo em que dizia: “Assim fizeste com o cálice de Soissons”.

Logo que esse grande conquistador subjugou a Turíngia, no décimo ano de seu reino, desposou Clotilde, filha de Chilperico, irmão do rei da Borgonha. Esta era católica exemplar, e foi posteriormente elevada à honra dos altares.(3) Instava muito para que seu marido se convertesse. Prometendo sempre que o faria, Clovis no entanto adiava sua conversão para um futuro incerto.

(Fonte: Plinio Maria Solimeo , in “Catolicismo”, outubro de 2009)

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Um comentário:

  1. É sempre bom poder ler sobre a Idade Média, os tempos áureos da fé cristã.

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